Connect with us

Crítica

Ouvimos: The Menzingers – “Everything I ever saw”

Published

on

Resenha: The Menzingers – “Everything I ever saw”

RESENHA: The Menzingers mantém em Everything I ever saw seu punk rock de alma estradeira, entre Bruce Springsteen, Hüsker Dü, folk e country, com nostalgia, desespero e alguns hinos fortes — embora nem sempre escape da fórmula.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 7,5
Gravadora: Epitaph
Lançamento: 17 de julho de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Os guitarristas e vocalistas Tom May e Greg Barnett, o baixista Eric Keen e o baterista Joe Godino são o Menzingers há vinte anos – uma banda que, em seus discos, costuma abordar temas como amores e desgraças da vida, sempre com um proceder que lembra um Bruce Springsteen punk. As músicas têm versos grandes, linhas vocais que ocupam espaço nas melodias, e vozes perto do desespero. E a receita punk rocker deles vêm encharcada de referências do folk e do country.

Você pode até arrumar um rótulo de “emo” pra eles em alguns momentos, mas fica meio claro que o lance do The Menzingers é outro, mais estradeiro, com um olho esticado para as janelas das casas de subúrbio, e lembranças de bandas como Hüsker Dü e Replacements. Everything I ever saw, o novo disco, mantém essa tradição, abrindo com os pensamentos suicidas da bela Chance encounters, os corações pesados e os excessos de Better angels, e o power pop amoroso de Romanticism – que tem mais do que apenas uma lembrança de Springsteen, chegando a falar em “dancers in the dark” na letra.

  • Ouvimos: Kurt Vile – Philadelphia’s been good to me

Pelo título já dá pra ver que lembranças tomam boa parte do novo disco dos Menzingers – normal em se tratando de uma banda que fez fama falando de nostalgia, passado e recordações tristes. A balada-de-arena Other’s people money sai dessa e fala textualmente de bandeiras do MAGA, abusos policiais e milionários no espaço sideral. A música tem um “la di da” grudento e até bem atraente, mas a impressão que fica é a de que, se não tomar cuidado, o Menzingers pode acabar recorrendo a soluções fáceis (e cafonas) para manter a tradição de “hinos”.

Rola isso também mais ou menos em Gasoline & matches, uma balada county-rock bonitinha, mas ordinária – do tipo que você já ouviu várias iguais – e com When he enters my dreams. Fool, outra faixa nessa onda, tem um refrão bom demais para passar despercebido (ligeiramente inspirado na letra de The joker, da Steve Miller Band) e acaba ganhando atenção por falar sobre um personagem que “só gosta dos começos das coisas”. Nobody’s heroes, lançada como single, volta a botar mais emoção no disco.

Tem ainda Breathe with me, quase uma mescla de Nada Surf e Offspring, com melodia bacana e vocais em tom de hino – além da letra mandando bala na desesperança (“deus sabe que gritamos e choramos em direção ao céu / não é o suficiente”). E pelo menos mais duas músicas que mostram força de verdade no disco: a marcial Parade day e a explosão emocional da faixa-título, na qual o cantor Tom May parece querer chamar todas as suas antigas versões para um papo. Entre mancadas e acertos, The Menzingers mais acerta do que erra, mas corre o risco da banalidade em alguns momentos.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Crítica

Ouvimos: David Bowie – “The Shel Talmy Recordings”

Published

on

Resenha: David Bowie – “The Shel Talmy Recordings”

RESENHA: The Shel Talmy recordings recupera o jovem Davie Jones tentando se encontrar entre mods, blues e rock britânico — gravações irregulares que mostram, justamente, tudo o que ainda faltava para David Bowie surgir.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 6
Gravadora: Parlophone
Lançamento: 18 de setembro de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

The Shel Talmy Recordings vale muito pelo aspecto histórico. Afinal são as gravações de Davie Jones, um jovem cantor tentando encontrar seu espaço na efervescente cena londrina dos anos 1960. E cujo nome artístico, dentro de alguns anos, passaria a ser David Bowie. Na época, Davie (ou Davy, a grafia varia), de terno e franja, parecia mais com a turma mod, da qual faziam parte bandas como The Who e Small Faces.

Para falar desse disco, vamos por partes: muitos artistas se dizem “injustiçados” porque suas primeiras tentativas de carreira bateram na trave. Só que você vai ouvir as gravações desse pessoal anos depois e percebe que não havia outro jeito. Era preciso amadurecer, ou pelo menos aprender onde fuçar e onde mexer.

Vai daí que o pré-Bowie produzido por Shel Talmy – o mesmo nome por trás de gravações clássicas de The Who e The Kinks – era uma espécie de refugo “selvagem” de Who, Rolling Stones e até Beatles. Um sujeito cabeludo e com cara de anjo – bem diferente de Mick Jagger e John Lennon – que tentava a sorte no rock sessentista londrino cantando rocks e rhythm’n blues sobre dramas passionais. É o que você acha em faixas como You’ve got a habit of leaving, I want your love (lembrando The Troggs), Cupid (com final na cola de Bo Diddley) e num instrumental quase pré-punk, Keep up with the Jones.

O material de The Shel Talmy Recordings tem a participação de um então desconhecido Jimmy Page, guitarrista de estúdio requisitadíssimo na Inglaterra antes de formar o Led Zeppelin, e divide-se entre músicas gravadas ao lado dos grupos Davie Jones & The Lower Third (a maioria) e The Manish Boys, além de demos solo. É curioso observar que, com os Manish Boys, Bowie soava como um animador de auditório, ou cantor de café-teatro.

Era algo que tinha bastante a ver com a primeira fase de sua carreira, mas que aqui rende a pior gravação já lançada com o nome dele, I pity the fool – um blues caricatural e sem graça, até porque Bowie definitivamente nunca foi um cantor de blues. Já Take my tip, outra com os Manish, traz quase uma história sendo contada, onde Bowie / Jones assume o papel de garoto malvado e frio.

Por uma questão conceitual, ficou de fora do ábum a melhor e mais conhecida gravação de David com o Lower Third, Can’t help thinking about me, de 1966. Afinal, foi produzida por Tony Hatch, não por Talmy, e o nome do produtor está no título do disco – sem contar que a essa altura Davie Jones já era David Bowie. Se nessa música dá pra dizer que já havia um risco no papel que levaria até o Bowie do álbum epônimo de 1969, o Davie de 1966 soava como um primo rueiro dele – um sujeito que surpreendia pelos hábitos, vamos dizer, estranhos para a época.

  • Mais David Bowie no Pop Fantasma aqui.

Faixas como Cupid, I want your love e Leave her to me surpreendem por serem canções “de amor” com uma temática pra lá de marginal – com letras que às vezes parecem falar de garotas de programa ou de figuras bem fora do sistema. Em alguns momentos, como Baby loves that way, dá a impressão que David e Talmy acharam que poderiam clonar as primeiras gravações dos Stones, até na lasqueira herdada do blues e do soul. Só esqueceram que não havia um Andrew Loog Oldham marketeando os discos dele.

Uma curiosidade desses tempos é I’ll follow you, uma balada BEM horrível, na qual a misoginia de músicas como Play with fire e Yesterday’s papers, dos Rolling Stones, dá lugar a um monte de delírios de perseguição – quase numa versão “entendeu ou quer que eu desenhe?” de Every breath you take, do The Police. A carreira de Bowie ainda demoraria pra acontecer, mas o fato é que ele precisava entender por onde atacar e como descolar as companhias corretas.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

 

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: Vera Fischer Era Clubber – “Veras II”

Published

on

Resenha: Vera Fischer Era Clubber – “Veras II”

RESENHA: Em Veras II, o Vera Fischer Era Clubber transforma electroclash, pós-punk, funk e poesia marginal em provocação, desejo e confronto — um disco feito para incomodar quem espera comportamentos e gêneros bem definidos.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 10
Gravadora: Palatável Records
Lançamento: 17 de setembro de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Consigo imaginar o drama de alguém tentando escapar de ouvir falar do Vera Fischer Era Clubber, e torço pra essa pessoa não conseguir – especialmente se a tal pessoa é um dos haters que a banda ganhou após brotar no programa de TV Cultura Livre. Num país com muitos ouvintes casuais e poucos hypes, Veras II, o segundo disco da banda, consolida a presença no mercado de um dos grupos nacionais que ouviu o chamado da desconstrução do rock.

Como assim? Lá fora, num arco que vai de Geese a Mandy, Indiana, passando por Y e Man/Woman/Chainsaw, o rock vem sendo quebrado e reconstruído como um quebra-cabeças – ou como uma boneca que você tira os braços e as pernas e troca tudo de lugar. Uma turma que opera numa linha histórica que segue esticada até estileiras como no wave e pós-punk – mas que passa por country, rock clássico, David Bowie, math rock e outros sons.

No caso do Vera Fischer Era Clubber, dá pra dizer que o som deles é um electroclash passado como um café no filtro do punk, com acréscimos de poesia marginal – e uma onda que passa por Antonio Cícero, Fausto Fawcett, Letrux, Gang 90, Mercenárias, Metá Metá. Veras II abre num clima tranquilo, entre a eletrônica e o pós-punk. Só que a música em questão se chama Quero que se foda e é cantada na base da total descaralhação por Crystal Duarte.

  • Falamos do Veras I, do Vera Fischer Era Clubber, aqui.

Poderia ser uma ótima resposta aos detratores conquistados na época do Cultura Livre – a curiosidade é que Quero que se foda foi cantada pela banda durante a gravação do programa, e cortada na hora de tudo ir para o ar. Veras II prossegue com o trip hop malévolo de Feitiço, com o funk + synthpop experimental Amor de anjo (na verdade um exugaze paralelo com participação do criador do termo, Kiko Dinucci) e o electroclash quimicamente alterado de É o pico, é o ápice.

No caso dessas três faixas, elas formam uma seleção que apresenta a vida noturna como um estilo de vida que não sai de você mesmo que você saia dela. E que é completada pelo acervo de desejos da possuída Grito, dano e possessão. E pela tensão de gêneros de Buceta gay, de versos como “buceta gay / e um pau extremamente feminino” e “você não sabe se é o céu ou se é o inferno / e isso é tudo que eu quero”. Algo como o universo misterioso e provocador de Rebel rebel, de David Bowie, ou da capa de The man who sold the world (disco de Bowie de 1970) renascendo de forma quase industrial, em meio a uma noite que começa marginal, mas corre o risco de virar padrão.

Veras II tem ainda Prantos (que une tensão eletrônica e percussão brasileira) e o excesso e a falta de sensações – ambos provocando explosões – de Vesúvio. Além de uma vibe que lembra Gang 90, Marina, Mercenárias, Black Future e até o Metrô das faixas menos conhecidas de Olhar (1985), em Chic chic. Curiosamente, Calcinha gozada, o single do álbum (com Katy da Voz e as Abusadas) não soa como uma música hedonista. Numa pegada próxima da eletrônica podre do Suicide, a faixa fala mais de atitude e conexão.

Tem muita gente que deve ficar assustada com a linguagem direta e chula das Veras. E que está mais para um aceno ao primitivo, presente em canções dos Titãs (como Todo mundo quer amor). O fato é que Veras II usa esse negócio chamado “música” para comunicar atitude, provocação e verdade.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: Boletaire – “Last sausage before America”

Published

on

Resenha: Boletaire – “Last sausage before America”

RESENHA: Formado por dois brasileiros e um uruguaio em Barcelona, o Boletaire estreia cruzando Hüsker Dü, Fugazi, Iggy Pop e pós-punk em um rock de trio – urgente, idealista e pronto para explodir.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Independente
Lançamento: 15 de julho de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Uma banda que canta em inglês, formada por dois brasileiros e um uruguaio que se encontraram em Barcelona (!), e cuja ideia de rock passa pelo heroísmo e pelo clima guerreiro que, outrora, costumava ser associado ao indie rock e ao punk. Essa onda quase utópica é o motor da estreia do Boletaire, Last sausage before America. Os brasucas Gustavo Kaly (guitarra, voz) e Koala (bateria) e o uruguaio Nério (baixo) não conseguem ficar mais de duas faixas sem soar como uma espécie de elo perdido entre o rock de hoje, e o som de nomes como Hüsker Dü, Iggy Pop, Julian Cope, Fugazi.

Investindo numa espécie de “punk rock” que nem sequer depende da invenção do próprio punk para existir, o Boletaire passeia por guitar rock sem vícios comuns do guitar rock (Leave no trace, que abre em clima de samba-noise) e falam sobre um mundo em combustão com guitarras em clima desértico, de faroeste (Ashes of a silent dignity, Guided by smoke and fire). Mesmo a noção de pós-punk do grupo passa pelo clima mais romântico e idealista do estilo, em faixas como Let them chase my tail e The art of misery (esta, traz igualmente algo herdado do Clash).

Completando Last sausage before America, tem o som poderoso de Guest list e Glass ceiling – esta, com riff de guitarra tomando conta. A backpack and a homemade bomb, mais guerrilheira impossível com um nome desses, constrói uma ótima trama de guitarra e baixo, e chega a um resultado que faz lembrar um Joy Division mais alegre. Um som de trio, bastante concentrado e pronto para explodir.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Acompanhe pos RSS

MC Karlos: porrada nos defensores do "agro é pop" em "Máquinas agrícolas”
Urgente3 horas ago

MC Karlos: porrada nos defensores do “agro é pop” em “Máquinas agrícolas”

Queens Of The Stone Age - Foto: Andreas Neumann / Divulgação
Urgente12 horas ago

Queens of the Stone Age “fala” português em clipe novo, e pode vir ao Brasil em 2027

808 Punks - Foto: Léo Castro / Divulgação
Urgente12 horas ago

808 Punks segue firme no anarcophunk no clipe de “Bater cabeça e rebolar”

Resenha: David Bowie – “The Shel Talmy Recordings”
Crítica16 horas ago

Ouvimos: David Bowie – “The Shel Talmy Recordings”

Resenha: Vera Fischer Era Clubber – “Veras II”
Crítica16 horas ago

Ouvimos: Vera Fischer Era Clubber – “Veras II”

Resenha: Boletaire – “Last sausage before America”
Crítica16 horas ago

Ouvimos: Boletaire – “Last sausage before America”

Oh Pray Tell: luta, memória e transformação em “Poor black woman blues”
Urgente16 horas ago

Oh Pray Tell: luta, memória e transformação em “Poor black woman blues”

Resenha: Alcateia - “Contra a trupe do camaço”
Crítica16 horas ago

Ouvimos: Alcateia – “Contra a trupe do camaço”

Bending Backwards mistura pós-punk e shoegaze em estreia fora do Spotify
Urgente16 horas ago

Bending Backwards mistura pós-punk e shoegaze em estreia fora do Spotify

Aztec Caves: pós-punk sobre revelações em "Epiphany"
Urgente16 horas ago

Aztec Caves: pós-punk sobre revelações em “Epiphany”

Monique Maion - Foto: GRITA / Divulgação
Urgente18 horas ago

Ouça antes: Monique Maion transforma vizinha preconceituosa na personagem de “Karen”

Elemento Zero - Foto: Divulgação
Urgente1 dia ago

Elemento Zero: pós-punk nacional texturizado no single “Deserto”

Girl In The Year Above - Foto: Sophia French / Divulgação
Urgente1 dia ago

Girl In The Year Above assina com a Transgressive e lança “Wet paint”

Resenha: Just Penelope – “Great lake” (EP)
Crítica1 dia ago

Ouvimos: Just Penelope – “Great lake” (EP)

Resenha: PERNAF – “Casa” (EP)
Crítica1 dia ago

Ouvimos: PERNAF – “Casa” (EP)

Chapterhouse
Urgente2 dias ago

Chapterhouse faz show único em SP dia 29; ainda há ingressos

Eyecolour (Foto: Divulgação)
Urgente2 dias ago

Eyecolour traz de novo seu “dark pop com coração narcótico” com “Clean”

Resenha: Swami John Reis – “Navajo white”
Crítica2 dias ago

Ouvimos: Swami John Reis – “Navajo white”