Crítica
Ouvimos: A Day In Venice, “A man without a name”

- A man without a name é o quinto álbum do A Day In Venice, projeto musical da Itália criado pelo músico Andrej Kralj, que é compositor, produtor, pintor e poeta. Ele define o som do grupo como uma obra em progresso, “das primeiras influências do metal até a mais recente mistura de alternativo/prog/pós-punk/shoegaze”.
- No disco, Andrej tocou tudo, contando apenas com a guitarra de Marjan Milič em três faixas, e com os vocais de Amanda Palomino e Mariana Leon. O material foi gravado no próprio estúdio do músico.
O ano vem sendo bastante produtivo para o A Day In Venice, uma banda de pós-punk da Itália. Até o momento já lançaram oito singles – um deles, o quase ambient Stillness, saiu acompanhado de um belo clipe que mostra pessoas de todas as idades acordando e se colocando em movimento.
Os singles mais recentes são Castle of love e Angels at play – a primeira, uma música com bastante eco na gravação de guitarras e tom próximo do dream pop; a segunda, um curioso desdobre sombrio do som do grupo, com guitarras distorcidas e baixo à frente. Os clipes da banda são também bastante elaborados e reveladores, como em Stillness e na farra sensual e gastronômica de Castle of love.
Em agosto, lançaram o EP When dreams are born again, com uma sonoridade próxima das bandas mais celestiais dos anos 1980 – The Sundays, Cocteau Twins e até o lado calmíssimo dos Smiths e do R.E.M. E em julho foi a vez de A man without a name, quinto álbum do projeto liderado por Andrej Kralj, um álbum curto, em que ele produz, toca tudo, e traz à frente os vocais de Amanda Palomino e Mariana Leon, sempre com letras em inglês.
De modo geral, é uma banda que (e isso já pode ser visto no clipe de Stilness, que não está no EP), dedica-se bastante a um tipo de som feito para pelo menos tentar levar um dia em paz na vida: letras introspectivas e que falam sobre sonhos, melodias solares e coisas do tipo. A man… traz o A Day In Venice buscando se aproximar de bandas como Echo and Bunnymen (influência em Tendencies, faixa de abertura), e de uma sonoridade próxima a uma versão mais light do shoegaze – como na parede de guitarras da marcial How blind, que ainda tem diálogo de baixo e teclado lembrando New Order.
No decorrer do disco, tem o punk quase pop de Feeling the heat, a dramaticidade entre o punk e o grunge da faixa-título, o tom meio Blondie, meio The Sound de Vibrant whispers (unindo a alegria de uma banda, e o tom maníaco da outra) e uma espécie de power pop gótico em Night owl. No terço final, o punk dicotômico (luz e sombra) de Narrations of loss and death, e o tom dark de Sailing to the end of words e Through the embers of hell. Nada de 100% original, mas as referências são excelentes. Adote essa banda.
Nota: 8
Gravadora: Independente
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Crítica
Ouvimos: Os Tropix – “Embala pra viagem, o disco”

RESENHA: Vindos do Maranhão, Os Tropix revisitam samba-soul, boogie, reggae e MPB dos anos 1970 e 1980 em Embala pra viagem, o disco, com frescor e ótimas referências.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 10
Gravadora: Independente
Lançamento: 5 de maio de 2026
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Os Tropix vêm do Maranhão, mas Embala pra viagem é um disco bem carioca – ou melhor: é a música carioca vista de longe, com outro olhar e a distância necessária para que aquilo não seja naturalizado. O som transante de Lincoln Olivetti e do boogie oitentista ganha cara renovada em faixas como De que maneira?, o samba-soul dos anos 1970 volta com uniões sonoras entre Bebeto, Tim Maia e trap em Amor de cafezinho e o samba-rock ganha ótimas guitarras em Fittipaldiando (que título!) e na sacana Catarina, tangerina.
- Ouvimos: Vários – CarioCaos: Poder popular (EP)
Eu disse “música carioca”? Dá pra quebrar essa tese um pouco, até porque muita coisa da MPB dos anos 1970 e 1980 foi terminada no Rio, mas veio mesmo foi do Norte-Nordeste. Daí tem em Embala pra viagem o reggae pop de Coraçãozinho, com Castello Branco, que lembra o Gilberto Gil da fase Um banda um (1981). O afoxé da faixa-título traz o Gil e o Caetano Veloso dos anos 1980, assim como a disco music de Não quero dançar, tudo a ver com a era em que a MPB virou pop adulto e som de pista.
Para grudar na mente e não sair mais: Nonato e Seu Conjunto fala de um grupo lendário dos bailes, unindo Lenine, samba-soul e Di Melo – este, não apenas como referência, mas também como participação. Música de último volume.
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Crítica
Ouvimos: L.A. Sagne – “Good company”

RESENHA: Punk holandês afiado: no álbum Good company, o L.A. Sagne mistura Stooges, new wave e pós-punk em letras ácidas sobre política, dinheiro e cotidiano.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Gertruida
Lançamento: 27 de março de 2026
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A maior parte do material que você vai ver por aí sobre a banda punk holandesa L.A. Sagne nem é em inglês – o que mostra que a banda liderada pela cantora Tara Wilts ainda precisa ser descoberta de verdade por muita gente. Quem ouvir Good company vai descobrir uma banda entre o punk, a new wave e o clima acintoso de Iggy Pop e Stooges.
Isso tudo aí bate ponto na união 60’s e 70’s de My name e na onda gótica-new wave de Music in the neighbourhood, Rampage e I can. Mas o L.A. Sagne também investe em guitarras elegantes em Rain on my skin e em vibrações pós-punk em faixas como Jean Paul, I’m a girl e I paint walls.
- Conheça também Veps, Modern Woman, XCOMM, Lambrini Girls e Lip Critic
Nas letras, o L.A. Sagne zoa revolucionários e ideólogos de sofá (o punk rock Armchair critic), milionários escrotos (Music in the neighbourhood), o neotabagismo (o quase stoner Cigs are fun prega: “vou fumar até morrer / nunca me importei em viver tanto tempo / cigarros são divertidos porque te matam”) e… Bom, Good company tem uma música chamada God save the geese.
Seria uma brincadeira do L.A. Sagne com a origem burguesa da mais nova sensação da crítica musical? Seja como for, a letra fala de uma realidade bem diferente dos bons colégios e da vida ricaça dos integrantes do Geese (“os juros do meu empréstimo estudantil me deixaram sem chão / que merda / fui para a faculdade só para ter minhas penas arrancadas / deus salve os gansos / fui para a escola fazer uma obra-prima / produzimos muito esforço e isso não compensa nada”).
I paint walls, por sua vez, fala de um dedicado pintor de paredes que sonha em ser reconhecido como artista, em meio a guitarras buzinando. Euh, no fim, une hardcore e o som do Motörhead para falar da barra que mulheres são obrigadas a enfrentar numa simples saída de noite: “não fomos devidamente apresentados, eu acho / bem, eu só vim aqui para beber minha cerveja em paz (…) / ela já bebeu quatro canecas e agora acha que ele é sábio”.
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Crítica
Ouvimos: Headfooter – “Boo hoo” (EP)

RESENHA: No EP Boo hoo, Headfooter mistura pós-punk, eletrônica e humor sangrento em músicas que soam como trilha perdida de uma fita VHS dos anos 1980.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Double Great Records
Lançamento: 13 de junho de 2025
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Criado por um cara chamado Jay Henry, o Headfooter é um projeto que, ao mesmo tempo em que recorda os anos 1980, enche sua música e seu conceito de vibes malucas e sanguinolentas. O clipe de Boo hoo, uma história de reunião de trabalho que acaba em transplante de cérebro e sangueiras brutais, é um ótimo exemplo.
- Ouvimos: T. Greguol – E só
Já musicalmente, o som tem elementos de Talking Heads, LCD Soundsystem e, pode acreditar, Viagra Boys. Essa turma toda bate ponto em Boo hoo e em músicas mais loucas ainda no EP Boo hoo, como About yr sons e o pós-punk Never enough, com baixo à frente, teclados vintage e ar de pós-punk espacial. Parece uma gozação vintage, em que todas as músicas poderiam ganhar clipes feitos em VHS – o de Boo hoo não apenas é assim, como também a música ganhou o subtítulo From the “Weird Scenes” compilation, para parecer algo tirado de uma daquelas fitas de vídeo bizarras que geral alugava nos anos 1980.
Waste, no final, parece coisa da fase intermedária do Ultravox: teclado que parece um sinal de transmissão, beat eletrônico, que vai ganhando guitarras depois e ficando pouca coisa menos atmosférico. Soa como uma banda que tem surtos de fantasmagoria com uma época. E merece muito a a audição.
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