Lá pra 1974, o que se dizia da empresa Studios Silvio Santos Cinema e Televisão Ltda era que a empresa tinha tudo que uma estação de TV tinha, “só falta o canal”. Silvio Santos era um apresentador da Rede Globo, seu Programa Silvio Santos ainda era uma atração da emissora carioca e do complexo instalado na Rua Dona Santa Veloso, na Vila Guilherme, saíam, além do programa, uma ou outra cobertura jornalística e alguns comerciais.

De lá também saiu em 1976 um filme chamado Ninguém segura essas mulheres, que ainda permanece sumido do YouTube. A produção se dividia em quatro pequenos filmes: Marido que volta deve avisar, Desencontro, Pastéis para uma mulata e O furo. Cada um tinha seu diretor e elenco (Anselmo Duarte, Jece Valadão, José Miziara e Harry Zalkowitsch eram os responsáveis).

Ninguém segura fez sucesso: foram 1.318.476 espectadores. O filme ainda foi exibido à exaustão pela TVS e pelo SBT nos anos seguintes, até a década de 1980. Foi resgatado recentemente pela mostra Sílvio Santos vem aí!, no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, mas o resgate não passou disso. O filme nunca saiu em VHS e imaginá-lo em DVD é quase impossível.

Na época, o filme passou para a história por dois motivos básicos: 1) foi uma rara pornochanchada da qual Tony Ramos participou (como um dos malandros que tenta conquistar Aizita Nascimento, em Pastéis, e acaba levando um tiro do marido dela); 2) O episódio Desencontro inventou a gíria “Ricardão” para definir “amante” (por causa de um Ricardo bem saidinho que se relacionava com uma moça casada).

Um outro detalhe é que o filme é bastante descontraído, no estilão pornochanchada (apesar de não haver nenhuma cena de sexo explícito), até o fechamento mundo-cão com O furo, que já abre com a personagem Dalva (Nádia Lippi) caída no chão, após levar uns tiros de seu companheiro Lúcio (Jece Valadão). Um tempo atrás a revista Zingu! publicou dois textos a respeito do filme, explicando algumas cenas e dando uma apreciação crítica de dois episódios. Tão aqui e aqui.

Quem fez o roteiro dos quatro episódios e ainda dirigiu um deles (justamente O furo, do qual ainda participou como ator) foi José Miziara, que dirigiu filmes como O bem-dotado homem de Itu, Nos tempos da vaselina e Oscaralho: o Oscar do sexo explícito. A Zingu! gravou uma entrevista em vídeo com Miziara na qual o diretor, ostentando uma camisa da banda emo NXZero, lembra como fez o filme e como se envolveu com Silvio Santos – e como o “patrão” acabou envolvido com o cinema da Boca do Lixo.

Na época, Miziara trabalhava numa novela na Rede Globo e começou a fazer o script de um filme chamado Trambiques, inspirado em histórias de jornal (“era para ser como a ‘última página’ do jornal Última Hora“). Por contatos com amigos, chegou a Silvio Santos, avisado de que o apresentador queria fazer um filme. Luciano Calegari, produtor executivo do filme, teria chamado Miziara e pedido a ele que lesse o texto (!). Ficou definido que Trambiques seria o primeiro filme do estúdio – o nome foi mudado para não rolar nenhuma piada com o Baú da Felicidade, de Silvio.