Quem nasceu e cresceu nos anos 1970 teve pouco contato com Wilson Simonal. Minha geração ouviu falar dele pelos seus feitos nos anos 1960: fazer o Maracanãzinho cantar Meu limão, meu limoeiro, vender milhares de discos com a série Alegria, alegria, transformar País tropical, de Jorge Ben, em hit. Na década seguinte, quem era criança viu arremedos de sucesso do cantor com A vida é só pra cantar, incluída num volume da série Globo de Ouro, em 1977, e com a fase indie de Simona, no começo dos anos 1980, quando retornou acompanhado dos filhos Max e Patrícia. Mas a verdade é que tudo que rolou depois foi bem pouco, em se tratando de um artista que, lá por 1970, era quase tão famoso quanto Roberto Carlos.

Os motivos pelos quais Simonal praticamente desapareceu do cenário artístico estão bem relatados em Nem vem que não tem, biografia do cantor escrita por Ricardo Alexandre – e que ganha relançamento comemorativo de dez anos ainda em 2009, por intermédio de crowdfunding. Tem também Simonal: Quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga, livro de Gustavo Alonso, além do documentário Simonal: Ninguém sabe o duro que dei, de Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal. E de Simonal, filme de Leonardo Domingues que está em cartaz agora. Não há provas de que Simonal foi dedo duro, mas não ajudou muito o fato de ele ter mandado um amigo militar encostar um contador de sua empresa na parede, num período em que o próprio presidente não admitia haver tortura no Brasil (e em que tudo que um governo militar que torturava não queria era que um artista conhecido nacionalmente chamasse a atenção para o fato de que tinha gente torturando sim, e muito).

Nos anos 1990, quando quem tinha 20 e poucos anos estava mais ligado nas novidades de Seattle, ou do brit-pop, ou da música eletrônica, Simonal não costumava ser lembrado. O cantor lançou poucos discos, fez alguns shows e teve parte de sua obra relembrada no CD A bossa e o balanço, lançado pela Warner (com fonogramas da antiga Odeon) em 1994. O falecido Lula Tiribás, da loja carioca All The Best – que procurou Warner e EMI para pôr o disco na rua – costumava lembrar a amigos que a casa sofreu ameaças de bombas quando foi anunciado o evento de lançamento do álbum. A história bizarra na qual Simonal havia se envolvido ainda estava fresca nas cabeças de muita gente.

Em 1993, o empresário João Santana, de Natal – que produzira vários shows de Simonal por lá – decidiu fazer um megashow em homenagem ao cantor. Em 5 de maio daquele ano (um dia de greve de ônibus), rolaria no Papódromo o show Os milhões de amigos de Simonal, produzido por ninguém menos que Agnaldo Timóteo e com adesões de Gilliard Reginaldo Rossi, Benito di Paula, Renato & Seus Blue Caps, Jair Rodrigues, Jorge Ben (de volta às paradas com o nome mudado para Jorge BenJor e o hit W/Brasil) Alcione e vários outros nomões.

A história da apresentação não acabou bem, como você vai poder ler no relançamento do livro de Ricardo Alexandre – na época, Simonal, além dos problemas que já acumulava, ainda tinha pendências jurídicas. Mas rendeu uma ida, pouco tempo antes do show, à Porta da Esperança, no Programa Silvio Santos – em que o artista não foi pedir nada, mas foi divulgar seu show. Alguém resgatou esse vídeo e jogou no YouTube, com direito ao cantor (bastante constrangido, embora carismático) fazendo Silvio cantar Meu limão, meu limoeiro.