Cultura Pop
Lendas urbanas históricas 8: Setealém
Voltamos com o oitavo e ÚLTIMO capítulo da nossa série sobre lendas urbanas, começando lá pelos anos 1980 e prosseguindo com as lendas que fazem a turma mais nova morrer de medo (essas lendas existem?). Dessa vez o papo é sobre Setealém, um universo paralelo que muita gente visitou (ou pelo menos crê que visitou)…
SETEALÉM: A PRIMEIRA CREEPYPASTA DO BRASIL? (2004-2020)
Para quem não sabe o que é creepypasta, a definição mais simples é: um compêndio de lendas urbanas sobre um mesmo tema em grupos de discussões da internet.
O termo Setealém tem sido um trending topic no ano de 2020 no Brasil. Mas Setealém, 7Além, Cetealém, Sete Além (não se sabe qual é a real grafia) é um lugar? Uma cidade, bairro? Os jovens e adolescentes brasileiros andam intrigados com o tema. Aliás, Luciano Milici, escritor e especialista em marketing, alega ter o registro da marca “setealém” e de suas variações. Conversamos com ele, que nos contou um pouco sobre essa história (confira lá embaixo).
MAS O QUE É SETEALÉM?
Calma! O POP FANTASMA esclarece todas as dúvidas sobre este lugar misterioso que vem assombrando muita gente na internet. Há pessoas que têm certeza de terem visitado o lugar sem querer (ou querendo) através de rituais. E até via Randonautica, o aplicativo estranho que vem fazendo a cabeça de jovens e adolescentes neste ano de 2020 (e sobre o qual falamos em outro capítulo desta série).
Os fãs acalorados de séries como Stranger things e de jogos eletrônicos de terror como aquele lançado pela empresa japonesa Konomi, o Silent Hill (que foi transformado em filme em 2006), entenderão bem o que é Setealém. Trata-se de um lugar apagado, decadente, com pessoas tristes ou rancorosas que sabem da nossa existência e não querem nossa presença. Não se sabe se é um plano espiritual ou um universo paralelo, o que se sabe é que os seus moradores chegam ao “nosso mundo” e nós chegamos ao “mundo deles”.
A lenda é a seguinte: em 2004 Luciano Milici criou um grupo de discussão no finado Orkut chamado Setealém. A descrição do grupo era sua suposta experiência paranormal ocorrida pelos idos de 1994. Muitos sites relacionados a histórias de terror esmiuçaram a estória relatada por ele e também detalhes sobre sua vida pessoal e profissional, em uma verdadeira investigação sobre a veracidade do seu currículo e sua vida pregressa na tentativa de desmascará-lo. Não é o nosso objetivo.
MOTORISTA, PARA TUDO QUE EU QUERO DESCER!
Reza a lenda que, em 1994, Milici, como fazia rotineiramente, pegou um ônibus em uma movimentada avenida de São Paulo. Aliás, foi sem nem olhar o destino, pois os itinerários de todos os ônibus faziam a rota que ele precisava. E seguiu ouvindo Nação Zumbi no discman distraidamente.
Ao entrar no ônibus, uma passageira, percebendo que ele era um outsider, questionou se o seu destino seria “Setealém”. Ele ficou confuso e os demais passageiros também pareciam incomodados com sua presença. Encaravam-no de modo fixo para que ele saísse e logo avisaram o motorista abrir a porta para ele descer. Desceu.
O ônibus fechou a porta, retomou o caminho até fazer uma curva em uma rua estreita e de paralelepípedos. Todavia, algo muito estranho, pois não havia ônibus naquela rota. Tentou encontrar explicação, achando que fosse um ônibus particular, mas lembrou-se que havia cobrador/trocador. Quando fez o grupo de discussão dez anos depois, ele foi bombardeado de histórias semelhantes. Além de outras muito sinistras, envolvendo experiências em que pessoas de forma distraída, em rotas familiares, acabavam chegando em Setealém.
Era um lugar de casas decadentes, postos de beira de estrada empoeirados e fedidos, luzes fracas, pessoas ríspidas – algumas mais benevolentes que aparecem para ajudar. E de crianças pálidas com olhos amarelos ou totalmente pretos, com roupas velhas ou de outras épocas (geralmente com roupas dos anos 30 até os anos 80). Tudo isso em um cenário em sépia ou sombrio.
BECO EM PORTUGAL
Um relato vindo de Portugal talvez seja o que mais destoa dos demais, pois relata a experiência de uma família brasileira em um local paradisíaco chamado Setealém, encontrado ao cruzarem o buraco de uma parede num beco de Lisboa. Mas nesse caso, a família deparou com flores lindas, uma terra muito fértil, animais lindos que não existem em nosso mundo, bem como uma paisagem tão perfeita que parecia foto do Pinterest.
Já um adolescente jurou ter usado o Randonautica para reencontrar seu “crush” que havia conhecido em uma balada e perdido contato. Após o aplicativo levá-lo até a residência da amada (que – adivinhe só – tinha uma pichação no muro com a palavra “Setealém”), ele recebe a notícia de que sua querida havia falecido de foma trágica três meses antes do reencontro.
Há também o relato perturbador da executiva de uma multinacional que contou no grupo Setealém do Facebook sobre quando em um resort na Bahia para uma conferência e, relaxando na banheira do luxuoso quarto, escutou um estrondo que parecia um tremor.
Ao abrir a porta, ela vê sua cama coberta por uma colcha velha e empoeirada, abajures antigos, nada lembrando o glamour do resort cinco estrelas. Retornando ao banheiro, tudo fétido, pior que banheiro de boteco…
Desesperada, a moça sai de roupão para procurar ajuda e quando encontra o recepcionista no elevador ele, de modo sarcástico, pergunta se ela está gostando da experiência em Setealém. A executiva pega o elevador novamente no andar. Ele volta a parecer o do hotel em que havia se hospedado, não uma espelunca. Ela não contou aos colegas a experiência, mas jura que jamais voltará ao famoso resort, nem se pagarem o quarto mais luxuoso!
A LENDA QUE PEGA CRIANÇAS
Mas a história que mais me apavorou foi a do toque de um tambor antigo que abre portais para castigar crianças rebeldes enviando-as à Setealém. Barulhos estridentes, músicas ruidosas ou de época, tem relatos que falam até que estiveram numa Setealém “oitentista”, no melhor estilo De volta para o futuro.
A conclusão que tirei foi a de que estas pessoas (se não forem outras identidades de Luciano) acreditam realmente na existência deste lugar, em virtude de terem tido estas experiências estranhas. Dizem que há moradores de Setealém querendo levar pessoas do nosso mundo a se converter ao mundo deles. Por isso, se alguém com aparência sombria lhe abordar e disser: “Você não quer ouvir a Palavra de Setealém?” comece a rezar…
ENTREVISTA COM LUCIANO MILICI SOBRE SETEALÉM
POP FANTASMA. Vou fazer algumas perguntas-chave. A história inicial eu já conheço. Também conheço o grupo do Orkut e os primeiros relatos. Vou procurar perguntar coisas que talvez não tenham te perguntado. Você tem recomendações prévias para familiares ou amigos próximos se por algum acaso você for parar em Setealém novamente? E se algum deles quisesse propositalmente visitar Setealém, você deixaria?
LUCIANO MILICI: Eu sempre estive envolvido com estudos reais e ficcionais de terror e sobrenatural, mas nunca cheguei a recomendar nada a ninguém, nem mesmo aos mais próximos.
Eu sou muito racional para com todos os fenômenos e, por isso, treinei meus filhos, amigos e familiares para serem sempre racionais. Se eu ou alguém que eu conheço se encontrar em um local desconhecido (seja neste ou em outro universo) agirá como se deve agir em um ambiente hostil. Sobre visitar propositalmente, alguns até querem, mas não creio que conseguiriam.
Você já recebeu relatos bastante verossímeis, embora as histórias sejam muitofantásticas. Você acha que estas pessoas que enviam relatos destas viagens interdimensionais possam ser escritores de literatura de terror ou literatura fantástica que estejam testando a aceitação das histórias? Sim. Já encontrei muitos que agiram assim no grupo de Facebook, principalmente. E não são só escritores. Há pessoas que querem “polarizar” a atenção dizendo ter receitas ou contatos específicos para, assim, chamarem atenção. Se o escritor é sincero e me diz que está criando uma ficção, deixo postar no grupo avisando.
Já ocorreu também de escritores mandarem relatos para o canal do YouTube pedindo para que eu divulgue como caso real. Ah, não posso esquecer: dada a minha negativa, os escritores buscam outros canais para emplacarem seus contos. Porém, nem sempre outros canais aceitam ficção deslavada. Meu filtro não é a verossimilhança, mas sim, o quanto a história é interessante.
Qual seria o relato que mais te assustou nestes dezesseis anos de divulgação da suposta existência desta dimensão chamada Setealém? O relato que mais me assusta é o meu mesmo. O do ônibus, na década de 1990. Isso, porque ele é real e é o único que eu posso colocar a mão no fogo no tocante à veracidade.
Escrevi sobre o aplicativo Randonautica e os jovens que alegam ter chegado em Setealém através dele. Você acha que o aplicativo tem algo sobrenatural? Em época de isolamento social, notou um maior interesse dos internautas sobre viagens interdimensionais? Por que eles querem viver tais experiências? Não acredito no Randonautica de maneira alguma. Acho a proposta interessante, mas não acho que funciona. Recebi e divulguei relatos a respeito por achá-los interessantes apenas. Não creio que a pandemia e o isolamento tenham aumentado o interesse por universos paralelos.
Eu acho que o enclausuramento forçado impulsionou a busca por distração passiva como TV e Internet. A partir daí, os temas ligados ao terror ou ao sobrenatural serviram como escape. Creio que o impulso das pessoas na quarentena seja visitar o nosso próprio universo e o nosso mundo que ficou restrito devido à pandemia. A busca por assuntos como universos paralelos está crescendo muito por conta das recentes descobertas científicas e a oferta de histórias assim na ficção.
Para você ter uma ideia, as gigantes mundiais de quadrinhos Marvel e DC, que já exploravam o tema multiverso desde os anos 1980, começaram a desenvolver histórias para TV e Cinema ligados a esse tema, como a Crise nas Infinitas Terras do Arrowverse da DC e o Spiderverse da Marvel. O assunto Multiverso é a NEXT BIG THING da ficção.
Quem é fã da série da Netflix Stranger things vai naturalmente achar que Setealém é uma espécie de “mundo invertido”, pois em ambas dimensões há escuridão, monstros, seres estranhos e versões maléficas de nós. Fãs do terror mais tradicionais dirão que as crianças descritas nos relatos de Setealém têm uma pitada de Stephen King. O que você acha? É fã? Sou fã e admirador de Stranger things, Stephen King, Twilight zone, Black mirror, horror vintage e tudo o que facilmente encontramos em relatos de Setealém. Acho válido dizer aqui, em primeira mão, que há três tipos de relatos no meu canal. São os que eu recebi e mexi muito pouco (no mínimo 20% da história foi mexida, nunca menos que isso); os que eu recebi e mexi em quase tudo (no mínimo 80% da história foi mexida) e os que escrevi inteiramente. Qual é qual? Nunca contarei.
CONFIRA TAMBÉM:
– Setealém, o canal
– Setealém, grupo de discussão.
– E Setealém, domínio internet.
Confira as outras lendas da série aqui.
Cultura Pop
Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial
Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.
Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.
Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.
O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.
Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.
Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.
Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.
Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.
A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.
Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.
E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.
Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.
Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.
Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.
Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.
Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.
Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.
Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.
O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.
O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!
Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.
Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).
Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.
A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.
Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.
Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.
Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.
Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.
Cultura Pop
“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello
Quem assistiu ao clipe de Adjourn it, single novo de Tom Morello (que tem participações de seu filho Roman Morello, na guitarra, e do cantor do System Of A Down, Serj Tankian, nos vocais) reparou que há várias cenas em preto e branco, com greves, manifestações e gente sendo presa. Dirigido por Isabella Margolis, o clipe intercala cenas do trio em estúdio, com trechos do filme Salt of the Earth, lançado em 1954, e que conta a história real de mineiros mexicano-americanos que lutaram contra a opressão e o racismo.
Salt of the Earth tem muita história: para começar, ele foi dirigido por Herbert Biberman (1900-1971), um cineasta que fazia parte da lista dos “dez de Hollywood” – um grupo de dez roteiristas e cineastas de esquerda, que estava sendo vítima de uma caça às bruxas. Ou melhor, de uma caça a supostos comunistas, realizada no começo da guerra ideológica entre Estados Unidos e União Soviética.
Biberman chegou a ficar encarcerado durante seis meses, e ao sair da prisão, decidiu dirigir um filme ficcional sobre a greve dos mineiros do Condado de Grant, no Novo México. O tal filme acabou ganhando roteiro de Michael Wilson e produção de Paul Jarrico – e ele é justamente Salt of the Earth, uma produção que já inovava por ser totalmente independente, off-Hollywood.
O filme acabou sendo uma das principais aparições na telona da atriz mexicana Rosaura Revueltas – por sinal, durante as filmagens, ela foi presa por uma suposta violação de passaporte e acabou sendo proibida de trabalhar nos Estados Unidos, um baque nunca superado em sua carreira. Ela interpreta Esperanza Quintero, a esposa de um mineiro, que faz parte de um grupo de manifestantes mexicano-americanos – a queixa deles era que a Delaware Zinc, Inc, para a qual trabalhavam, não dava a eles a mesmas condições que dava aos mineiros anglo-saxões.
Pra acompanhar a história é melhor ver o filme (tá no YouTube), mas vale dizer que Esperanza fica grávida, seu marido acaba preso e ela se junta a um grupo de esposas de mineiros, que faz piquete no lugar dos maridos. Um detalhe importante sobre Salt of the Earth é que só cinco atores profissionais estavam no elenco: Biberman e a produção convocaram mineiros de verdade, além de moradores do Condado. Nas cenas que você vê no filme, muita gente viveu aquilo de verdade.
Se você está achando que isso foi uma ideia para dar mais veracidade ao filme, não foi nada disso: os sindicatos de atores e de profissionais de Hollywood simplesmente proibiram seus associados de ter qualquer relação com Salt of the Earth, e a equipe ficou sem ter com quem contar. Houve quem notasse que aquela situação era absurda, já que eram sindicatos prejudicando um filme que fazia basicamente uma apologia ao movimento sindical. Mas isso não ajudou em nada, até porque veículos como Hollywood Reporter e Newsweek já estavam falando barbaridades como “filme de comunistas anti-americanos” e outras babaquices.
Claro que a pós-produção e o lançamento de Salt of the Earth não foram nada tranquilos: a equipe teve dificuldade de achar laboratórios que terminassem o filme e ele foi censurado e incluído na lista anti-comunismo dos EUA (foi o único filme incluído lá, aliás). Pauline Kael, uma dessas críticas de cinema que tiravam o sono dos cineastas, desprezou o filme e ainda escreveu que ele não passava de “uma peça de propaganda comunista tão clara quanto qualquer outra que tivemos em muitos anos”. Com o tempo, o filme foi sendo descoberto, e ganhou lançamentos em formatos como laserdisc e DVD. Uma matéria recente do The Guardian traz uma declaração de Biberman dizendo que ele foi “o primeiro longa-metragem já realizado nos EUA pelos trabalhadores, sobre os trabalhadores e para os trabalhadores”.
“Salt of the Earth foi um poderoso ato de desafio em sua época e, mais de meio século depois, seus temas continuam a ressoar no cenário político atual. Adjourn it canaliza o legado de resistência do filme, reforçando a importância da solidariedade para unir as pessoas contra o medo e a divisão”, escreveu Tom Morello num dos textos de divulgação do clipe. E os dois (clipe e filme) estão aí embaixo.
Cultura Pop
Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”
O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).
“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.
Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.
Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.
“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.
“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.
E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.

