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Crítica

Ouvimos: Lucas Santtana – “Brasiliano”

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Resenha: Lucas Santtana – “Brasiliano”

RESENHA: Lucas Santtana mistura oito idiomas, MPB e ritmos afro-latinos em Brasiliano, disco que celebra identidade, memória e diversidade.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: N0 F0RMAT!
Lançamento: 6 de março de 2026

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Oito idiomas diferentes, clima brasileiro e ao mesmo tempo, africano, pop e internacionalista. Mais uma dezena de convidados. Brasiliano, disco novo de Lucas Santtana, tem lá seus números e intensidades – mas chama mais atenção pela MPB tranquila e detalhada, cheia de compromissos históricos e (digamos) políticos. Pra começar, o assunto da “língua brasileira”, que já evoluiu muito além do idioma falado em Portugal (o português já é falado há mais de cinco séculos aqui, só lembrando) surge como texto e subtexto num disco cujo maior tema é o orgulho do próprio país.

Não é à toa que Brasiliano começa com A história da nossa língua, som de caráter afro-latino, com participação de Gilberto Gil. A letra narra a chegada da língua portuguesa ao Brasil, seus diferentes estágios de pertencimento ao povo brasileiro, e a presença negra e indígena nas nossas palavras e conhecimentos. É só o início, num álbum que passeia por brasiliano (português do Brasil), tupi-guarani, occitano, francês, italiano, espanhol, galego e crioulo da Guiné-Bissau (kriol).

Línguas gerais começa com o belo cântico em tupi-guarani de Tainara Takua, e segue e ondas próximas do high life, com os vocais do rapper francês Oxmo Puccino. Há muito de Manu Chao no samba de roda latino de Liga, com participação do duo feminino francês Cocanha, que canta em occitano, idioma do Sul da França – e cuja letra fala basicamente sobre ouvir. No caso, “escuta tua língua, reconhece teu povo / para que não se apague nossa história de novo”, em versos que falam sobre a gravidade da falta de escuta, de documentação, de reconhecimento.

O som de Brasiiiano passa ainda pela bossa latina de Dans le sud (com Flavia Coelho, num clima sonoro que tem muito de João Donato, além de toques meio psicodélico nas rajadas de sintetizadores), pela balada MPB-pop de Eu ainda te amo (um diálogo sonoro entre Lucas e Rachel Reis sobre amor e distância), pela delicadeza quase folk de Strati di tempo, gravada com a cantora italiana Dimartino. Fãs de sons dos anos 1980 vão curtir o beat de época de Que seja um reggae, rock-reggae decolonial que ganha certa onda dub lá pelas tantas – e cujas batidas, em alguns momentos, parecem ter saído de um antigo kit Simmons. Já Battre des ailles, com o inglês Piers Faccini, tem partículas de mangue beat e de krautrock unidas na batida.

Muita coisa da história recente do Brasil dá as caras numa das melhores faixas de Brasiliano, que é Ver meu povo se abraçar. Um forró com beat eletrônico falando sobre como foi passar pela pandemia (e por extensão, por trevas políticas extremamente perigosas) e ver eventos como as festas de São João simplesmente não acontecerem mais. “Foram dois anos sem comer uma canjica / em volta da fogueira, tomando o meu quentão (…) / para o meu povo, o que eu quero é respeito / verdade, amor, misericórdia e Maria”.

No final, Independência tem a voz de Karyna Gomes, cantora da Guiné-Bissau. Ela e Lucas cantam sobre a língua portuguesa como resistência, afirmação e identidade – um cenário em que nosso português já é “brasiliano”, e o país fez o idioma original evoluir e se tornar uma língua própria, com produção sólida e histórica. Mais que um disco, Brasiliano é ataque, defesa e visão.

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Crítica

Ouvimos: Gurriers – “Nobody’s coming to save you”

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Resenha: Gurriers – “Nobody’s coming to save you”

RESENHA: Em Nobody’s coming to save you, o Gurriers transforma ansiedade, vulnerabilidade e inconformismo em noise rock opressivo, com riffs brutais, pós-punk e melodias em alta tensão.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Play It Again Sam
Lançamento: 25 de setembro de 2026

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Já que tem um monte de bandas descobrindo as maravilhas do shoegaze, sobrou para os dublinenses do Gurriers (e seus conterrâneos da Gilla Band) a missão de vasculhar os subterrâneos do noise rock – e dar a ele um formato grandioso, entre vocais impacientes, riffs de arrasar e argamassa entre o punk e o pós-punk. O adjetivo “opressivo” costuma brotar em nove entre dez textos sobre o grupo, e o segundo álbum, Nobody’s coming to save you, é a opressão pura e simples – mas como resposta do oprimido, como certeza de que o mundo tem se tornado cada vez mais um lugar frio como gelo, duro como pedra.

“Frio como gelo, duro como pedra” é uma definição melhor ainda para o som da banda, mesmo quando caem na descaralhação punk. Dan Hoff é um vocalista de alto impacto, na voz e na interpretação, lembrando uma versão mais sarcástica de Joe Talbot (Idles). O grupo cria um baita clima de medo nas guitarras sombrias da faixa-título e de Today is not enough, faz uma batucada pós-punk feroz em Party lines e lança mão de guitarra e bateria em vibe maquínica em Shades. E faz uma união de épocas em Pins: guitarra dedilhada a la John Frusciante, beat funkeado e musicalidade cheia de sombras.

Investindo no noise-rock canção em faixas como Drones (aberta com eles mesmos, os drones), Nothing happens twice e Waiting for fisher, o Gurriers às vezes lembra um estranhíssimo encontro entre Public Image Ltd e Red Hot Chili Peppers – com Dan Hoff às vezes tendo ataques de Nik Fiend (Alien Sex Fiend). Nas letras, por sua vez, a banda pega em fios de alta tensão, e fala sobre nunca se acomodar (na faixa-título) e sempre se colocar (Shades bate na cara dos artistas que ficam em cima do muro).

A ansiedade, mal do século, é tema da depressiva Drones (“não consigo nem manter um emprego sem lágrimas no travesseiro / amaldiçoado com uma carranca permanente, todos pensam que sou um idiota”). Crybaby, faixa triste e distorcida que parece vir de uma fita antiga, é linda e luminosa tanto quanto é uma canção sombria – e basicamente fala sobre o momento em que a vulnerabilidade não é aceita, sobre o que pode acontecer quando sentimentos antigos são invalidados. Pra bater cabeça e sentir.

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Crítica

Ouvimos: Garage Fuzz – “Powerplant” (EP)

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Resenha: Garage Fuzz – “Powerplant” (EP)

RESENHA: Aos 35 anos, o Garage Fuzz segue em movimento no EP Powerplant, unindo punk melódico e hardcore a letras sobre ansiedade, pressão, desgaste e saúde mental.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Odd Sounds
Lançamento: 14 de agosto de 2026

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Parece que foi ontem que tudo começou, mas o Garage Fuzz, uma das bandas punk mais rodadas do Brasil, chegou a 35 anos de história – e decidiu chegar à cifra se assumindo como um bólido em plena correria e atividade.

O EP Powerplant (terceiro lançamento da banda com o vocalista Victor Franciscon) olha a vida pelo lado da experiência e da saúde mental, abordando temas como peso nos ombros, desgastes, ansiedades e altas pressões do dia a dia, em faixas como a circular 220V e a melódica e ágil Overcharge (“liberte o grito, acredite na sua luta / mas não deixe isso te sobrecarregar”).

Investindo como sempre no punk melodioso, o Garage Fuzz acrescenta climas ligados ao hardcore melódico à faixa-título, riffs simples e criativos a Flashpoint, e guitarras que fazem lembrar The Police a Synergy. No final, Jaded, uma música de 2024, ressurge com uma vibe próxima do metal. Uma história de independência, ideologia e cuidado com as melodias e letras.

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Ouvimos: L’Rain – “Fata Morgana”

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Resenha: L’Rain – “Fata Morgana”

RESENHA: L’Rain encerra uma quadrilogia involuntária com Fata Morgana, disco que atravessa jazz, soul, country, eletrônica e psicodelia para criar músicas que até parecem familiares. Só que…

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Mexican Summer
Lançamento: 14 de agosto de 2026

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Já tem um próximo disco da L’Rain, projeto criado pela norte-americana Taja Cheek, vindo aí. Ela disse num papo com a newsletter Last Donut Of The Night que começou a compor, mas a única coisa que ela já tem em mente é que Fata Morgana, seu quarto disco, põe fim a uma quadrilogia. Uma quadrilogia que ela só viu que havia sido construída quando já estava pronta: são álbuns experimentais, psicodélicos, melódicos, com um ar “hendrixiano” mesmo quando nem há guitarras. E com várias heranças dos ambientes sonoros criados pelo Animal Collective – que alias ela cita no papo com a newsletter.

A história da Fata Morgana já inspirou várias canções por aí, e rende outras tantas – vem da história de Morgana Le Fay, uma curandeira temperamental que era meia-irmã do Rei Artur, e que em muitos mitos, surge como alguém que conspirou contra ele. Também tem a ver com uma ilusão de ótica que faz com que objetos distantes pareçam flutuar, e talvez essa onda seja a mais aproximável do som de Fata Morgana, disco em que L’Rain dá o último adeus a qualquer tentativa de classificá-la ou de meter sua música em alguma gaveta.

Explicar Fata Morgana pelo que ele não é fica mais fácil: não é rock, não é soul, não é “música eletrônica”, não é chamber pop, não é jazz (Taja usa a classificação “not jazz” no Bandcamp, aliás). É isso tudo mas consegue passar por essas classificações sem ser tocado por elas. Numa estileira que uma turma bem grande denomina como uncanny valley – ou seja, o que de primeira parece familiar, mas é BEM peculiar – L’Rain faz um som que parece sempre algo à primeira vista, mas de perto é bem assustador. Como quando você só repara que há uma cobra ou uma aranha numa foto quando já leva um susto.

A ilusão é o prato principal de Fata Morgana, em faixas como a balada soturna With time, o jazz experimental Blue, o country espacial July 5th, a miragem jazzística Bedroom songs e o “do sonho ao pesadelo” de Borderline, I remember e Elmyra. Tons vão sendo mudados, belos corais são acrescentados, e Fata Morgana vai ganhando vibes perturbadoras como a eletrônica maníaca de Soulless cycle (em que ela se diz um “ciclo psicopata” em meio a beats intermitentes e quase metálicos) e o soul progressivo Birthday.

No final, a psicodelia pura de Church of no one traz os vocais de Taja bem distorcidos, esmerando-se em versos como “dentro de mim um urso / e chifres / dissolvendo-se em amor”. Faltou falar das letras: entre fluxos de consciência, pensamentos de confinamento e estranhos recados, L’Rain parece estar dando voz a quem está quase ficando doente por causa dos padrões, do capitalismo, do sistema.

July 5th, por exemplo, é um dedo apontado na cara de quem se sente adaptado a uma sociedade podre: “se você não se importa com as broncas que leva / eu tenho um saco de 22,5 kg de vidas não contadas / cometi alguns erros e a polícia está sustentando / uma mentira que eles nunca viverão”. E aí… não é ilusão não: é verdade pura.

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