Larry Wallis: do pré-punk ao punk, passando pelo comecinho do Motörhead

1972 foi um ano agitado para o músico, compositor e produtor inglês Larry Wallis. Tocou na banda de blues-prog Blodwyn Pig, fez sessões de estúdio com o malucão Steve Peregrin Took e até se juntou a uma formação do UFO, numa turnê, após responder a um anúncio de jornal que basicamente dizia “banda gigante de rock, sem nome, precisa de um grande guitarrista, que tem que parecer bom”.

Em novembro daquele ano, no entanto, conseguiu aquele que seria seu emprego fixo por mais três anos: guitarrista, vocalista e principal compositor dos Pink Fairies, banda pré-punk que é um dos grupos preferidos aqui do POP FANTASMA – e que retornou ano passado com nova formação e novo álbum.

O único disco dessa formação, Kings of oblivion, saiu em junho de 1973 e trazia uma parceria de Larry Wallis com o guitarrista Duncan Sanderson, City kids. O som lembrava um Buzzcocks metaleiro, se é que isso é possível.

Até aquele momento, Larry queria ser um dos Pink Fairies mais do que qualquer coisa no mundo – só tinha ficado bastante decepcionado quando entrou para o grupo e viu que não gostou do vocalista novo, Mick Wayne. O baterista Russel Hunter forçou – diz Wallis – a barra para que Larry virasse cantor, guitarrista e passasse a compor. Ele nunca tinha composto nem cantado e fez as músicas de Kings durante duas semanas.

Em 1975, ainda na banda, surpreendeu-se ao receber um telefona de ninguém menos que Lemmy Kilmister, recém-saído do Hawkwind. Lemmy convidou Larry Wallis para se juntar “ao power trio que vai bater todos os power trios”. Wallis foi lá, cheirou sulfato de anfetamina (!) com o baixista (“quando aspirei aquele pó, parecia que eu tinha cheirado produto de limpeza da cozinha”, contou) e topou entrar para a banda, que tinha um baterista chamado Lucas Fox.

Lucas, lembra Larry Wallis, costumava ser criticado por ele e por Lemmy por não conseguir agir igual a um “Keith Moon em seus dias mais animados”. Acabou substituído por Phil “Philty Animal” Taylor no meio da gravação do que seria o primeiro disco do Motörhead, On parole, lançado apenas em 1979. E que trazia a versão da banda para City kids, com Lemmy no vocal.

E tinha também uma outra música escrita por Wallis, On parole, a faixa-título. Cuja letra contava uma história bem bizarra sobre um sujeito que ganhava liberdade condicional e já saía pronto para fazer tudo errado outra vez.

O Motörhead acabou ficando para trás por causa de problemas com a gravadora, atrasos de Lemmy (que apareceu no estúdio no País de Gales dois dias depois de terem sido iniciados os trabalhos) e mais tensões internas. Eddie Clark, que entraria como segundo guitarrista, ficou com a vaga de Larry. Entre 1975 e 1976, Wallis fez algumas sessões de gravação com Peregrin Took e estava no estúdio na época do Steve Took’s Horns, espécie de grupo movido a faça-você-mesmo que o ex-integrante do Tyrannosaurus Rex montou em meados dos anos 1970.

E os Pink Fairies não desapareceram da vida de Larry Wallis mesmo com sua entrada no Motörhead. Olha aí o single que eles lançaram em 1976, contratados pela Stiff Records: Between the lines no lado A, Spoiling for a fight no lado B. Àquela altura, os Fairies estavam com uma cara pub-rock que lembrava mais uma versão anfetaminada do Dr. Feelgood. Tudo a ver com os novos tempos.

Vida nova para Larry, que por aqueles tempos virou produtor de um dos selos indies mais quentes do punk anos 70, a Stiff – casa de nomes como Nick Lowe e Elvis Costello.

A Stiff tinha mania de unir todo seu cast em novos projetos, além de juntar músicos solo em grupos especiais que gravavam um single ou um único álbum. Foi nessa que ele acabou dividindo espaço com Nick Lowe, Dave Edmunds (ambos do Rockpile e também artistas solo) e Sean Tyla numa banda chamada The Takeaways. E gravou um single solo produzido por Lowe e acompanhado por uma turma ligada ao grupo punk-boogie Eddie & The Hot-Rods. Pega aí Police car/On parole, lançado em 1977.

Food, hit quase único do The Takeaways, foi parar numa coletânea do selo, A bunch of Stiff. Wallis diz mal se recordar de tudo que produziu no selo naquela época, porque várias bandas gravavam apenas um single e desapareciam. Mas cuidou de discos do The Adverts e até do EP de um ex-parceiro de anos, Mick Farren.

Fim da linha nos anos 1970 para Wallis, que no fim da década ainda tocaria com Wayne Kramer (ex-MC5) e continuaria fazendo trabalhos com Mick Farren. Hoje ainda continua compondo e produzindo, e lançou um disco com sobras e demos em 2017, The sound of speed.

Via Furious