Cinema
Jogaram no YouTube “Born to boogie”, filme sobre Marc Bolan dirigido por Ringo Starr

Espécie de irmão mais novo de uma turma que incluía vários roqueiros trintões (Ringo Starr, Harry Nilsson e Keith Moon, entre eles), Marc Bolan, líder do T. Rex, costumava procurar Ringo durante um período em que o ex-baterista dos Beatles estava por trás de um dos projetos fracassados da banda, a Apple Films. “Marc costumava dizer para a gente o quanto ia vender de discos, ou em qual posição ele ficaria nas paradas”, recordou Ringo no livro Ringo: A história do baterista mais famoso do mundo antes e depois dos Beatles, de Michael Seth Starr.
Em 1971, quando o grupo de Liverpool não existia mais, a Apple ainda tocava projetos em várias áreas. Para ativar o departamento audiovisual, o baterista decidiu criar uma série de documentários sobre as superestrelas da época – gente como os atores como Richard Burton e Elizabeth Taylor e o jogador de futebol, George Best. Na época, Ringo já tinha atuado numa série de filmes – entre eles uma espécie de pornochanchada gringa, Candy (1968) e o gozador Um Beatle no paraíso (1969). Ringo soube que Marc pretendia filmar os shows do Wembley’s Empire Pool (hoje Wembley Arena) marcados para março de 1972, e ofereceu a estrutura da Apple ao amigo, além de seus préstimos como diretor.
Como ex-integrante de uma banda que provocou uma verdadeira mania no mundo todo, Ringo entendia muito bem a febre de T. Rex que estava acontecendo na Inglaterra. A exemplo da beatlemania, a nova onda tinha até nome, dado pela imprensa britânica (T.Rexstasy). Num país que sempre havia vivido à base de ídolos pop, a chegada dos novos astros do glam rock (Bolan, Bowie e bandas como Sweet e Slade) havia provocado uma troca de guarda radical nas paradas.
Nessa época, ainda que Paul McCartney e John Lennon tivessem seus lançamentos esperados e vendessem muitos discos (e no caso de Paul, o sucesso acontecia também em turnês concorridíssimas), nomes dos anos 1960 já eram vistos como artistas que falavam para um outro público, mais velho e menos afeito a novidades – e menos perto “da moda”. E Bolan, à frente de sua banda, ganhara ares de novo grande ídolo da juventude. Um período que duraria pouco tempo, já que imediatamente o cantor seria suplantado no cargo pelo próprio Bowie com Ziggy Stardust, em 1972.
O filme de Ringo sobre Bolan (e, vale dizer, a ideia de fazer vários documentários sobre celebridades foi abandonada) começava com imagens bem legais de Bolan liderando o T. Rex no show da Arena – no palco, o cantor era quase uma mescla de Chuck Berry, Syd Barrett e Elvis Presley, se é que isso é possível.
Os hits Jeepster e Baby Strange abriam o filme. Na sequência, o T. Rex aparecia tocando com Elton John (piano) e o próprio Ringo (na bateria) os hits Children of the revolution, The slider e até Tutti Frutti, de Little Richard.
Outros trechos do filme lembram as sequências malucas de Magical Mystery Tour, com Bolan contracenando com Ringo fantasiado de urso num Cadillac, e a famosa cena do “tea party”, filmada nos jardins da mansão de John Lennon. Convencido de que o resultado jamais captaria a energia dos shows de Bolan, Ringo investiu numa filmagem que captasse detalhes dos shows e reações do público – que aplaude até mesmo na hora em que o microfone de Bolan ameaça cair durante um set acústico. No final, foram mais de cinquenta horas (!) de filmagens, reduzidas para pouco mais de uma hora. Anos depois, boa parte desse material (que sobreviveu por três décadas) sairia em blu-ray.
A despeito do talento de Ringo como diretor e de Bolan como popstar, Born to boogie saiu em dezembro de 1972 com resenhas meio frias – muita gente achou que as sequências não-documentais eram dispensáveis. O T. Rex se manteria no topo por mais algum tempo. Já Ringo, em 1974, depois da aventura com Bolan, produziria e atuaria numa espécie de revisão roqueira da história do Conde Drácula, Son of Dracula, interpretando o Mago Merlin. Harry Nilsson interpretou o Conde Downe, inimigo de Drácula. Uma sensação do filme era a banda de Downe, que incluía participações especiais de John Bonham (Led Zeppelin), Peter Frampton, Klaus Voorman e Keith Moon (Who).
E, claro, tá aí Born to boogie, na versão que foi para os cinemas em 1972.
Cinema
Urgente!: Show solo de Thom Yorke (Radiohead) na Austrália vira filme

É provável que os fãs do Radiohead estejam esperando BASTANTE por um filme de concerto do grupo – mas pelo menos vem por aí um filme de show de… Thom Yorke, líder da banda. A primeira tour solo do cantor vai ganhar o registro oficial Thom Yorke Live at Sydney Opera House, com os shows que ele fez em novembro de 2024 no Forecourt, pátio da Ópera de Sydney. Detalhe que os fãs não apenas do Radiohead como também de todos os projetos capitaneados por Thom podem esperar para se sentirem contemplados pelo filme. A direção é de Dave May.
Isso porque, segundo o comunicado de lançamento, Thom Yorke Live at Sydney Opera House “abrange todos os aspectos dos mais de trinta anos de carreira de Yorke como artista de gravação, desde uma versão acústica de tirar o fôlego de Let down (Radiohead), até faixas menos conhecidas favoritas dos fãs (como Rabbit in your headlights, do UNKLE) e seleções de seus aclamados álbuns solo com influências eletrônicas”. Ou seja: você confere lá todo o baú de recordações do cantor, que mergulhou também em canções de sua banda paralela Atoms For Peace e de seu projeto em dupla com Mark Pritchard (o disco Tall tales foi resenhado aqui pela gente).
Um outro detalhe que o release promete: mesmo que a casa de shows seja enorme, a sensação é a de assistir a um show bem intimista, tipo “uma noite com Thom Yorke”. “O filme tem ares de um vislumbre íntimo dos bastidores, permitindo testemunhar um mestre em ação. Yorke une as diversas vertentes de sua carreira com seu falsete arrebatador e presença de palco magnética. Para fãs de Radiohead, The Smile e tudo mais, esta é uma experiência cinematográfica imperdível”, dá uma enfeitada o tal texto.
Live at Sydney Opera House estreou no Playhouse da Ópera de Sydney no último dia 20 de janeiro. No dia 6 de março, uma sexta-feira, ele chega nos cinemas da Austrália. Vale aguardar? Confira aí Thom soltando a voz em Back in the game, dele e de Pritchard, e o trailer do filme (e sem esquecer que temos um podcast sobre o começo do Radiohead, que você ouve aqui).
Cinema
Ouvimos: Raveonettes – “PE’AHI II”

RESENHA: Os Raveonettes mergulham de vez no lo-fi e shoegaze em PE’AHI II, disco que soa mais próximo de uma transição do que de uma realização.
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Raveonettes, aquela dupla que misturava distorções a la Jesus and Mary Chain, clima melodioso herdado dos anos 1950 e estética do filme Juventude transviada, lembra? Pois bem, eles guiaram o timão de vez para gêneros como shoegaze e lo-fi. Não é algo estranho ao som deles, vale falar. Climas “serra elétrica” sempre tiveram lugar nos discos de Sune Rose Wagner e Sharin Foo. PE’AHI II, novo disco, é a continuação de PE’AHI, disco de 2014 que já promovia suas invasões nessas áreas. Sem falar que 2016 atomized – disco anterior de inéditas da banda, 2017 – surfava essa onda.
Só que o Raveonettes de 2025 chega a soar experimental, mesmo quando abre o novo disco com uma balada nostálgica e melancólica, Strange. E na sequência, o ruído programado de Blackest soa como uma curiosa mescla de blackgaze e pop de câmara. Já Killer é uma nuvem de microfonias que lembra bandas como Drop Nineteens, só que com mais cuidado na melodia.
Entre as outras curiosidades do disco, estão o noise rock programado de Dissonant, a viagem sonora e distorcida de Sunday school e a onda sonora de microfonia (alternada com toques dream pop) de Ulrikke. O resultado final deixa um ar de EP, de mixtape, mais do que de um álbum completo e realizado dos Raveonettes. Ainda que PE’AHI II tenha momentos ótimos, soa mais como uma transição para o que vem por aí.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 7,5
Gravadora: Beat Dies Records
Lançamento: 25 de abril de 2025
Cinema
Urgente!: Cinema pop – “Onda nova” de volta, Milton na telona

Por muito tempo, Onda nova (1983), filme dirigido por Ícaro Martins e José Antonio Garcia – e censurado pelo governo militar –, foi jogado no balaio das pornochanchadas e produções de sacanagem.
Fácil entender o motivo: recheado de cenas de sexo e nudez, o longa funciona como uma espécie de Malhação Múltipla Escolha subversivo, acompanhando o dia a dia de uma turma jovem e nada comportada – o Gayvotas Futebol Clube, time de futebol formado só por garotas, e que promovia eventos bem avançadinhos, como o jogo entre mulheres e homens vestidos de mulher. Por acaso, Onda nova foi financiado por uma produtora da Boca do Lixo (meca da pornochanchada paulistana) e acabou atropelado pela nova onda (sem trocadilho) de filmes extremamente explícitos.
O elenco é um espetáculo à parte. Além de Carla Camuratti, Tânia Alves, Vera Zimmermann e Regina Casé, aparecem figuras como Osmar Santos, Casagrande e até Caetano Veloso – que protagoniza uma cena soft porn tão bizarra quanto hilária. Durante anos, o filme sobreviveu em sessões televisivas da madrugada, mas agora ressurge restaurado e remasterizado em 4K, estreando pela primeira vez no circuito comercial brasileiro nesta quinta-feira (27).
Meu conselho? Esqueça tudo o que você já ouviu sobre Onda nova (ou qualquer lembrança de sessões anteriores). Entre de cabeça nessa comédia pop carregada de referências roqueiras da época, um cruzamento entre provocação punk e ressaca hippie. O filme abre com Carla Camuratti e Vera Zimmermann empunhando sprays de tinta para pixar os créditos, mostra Tânia Alves cantando na noite com visual sadomasoquista, segue com momentos dignos de um musical glam – cortesia da cantora Cida Moreyra, que brilha em várias cenas – e trata com surpreendente modernidade temas como maconha, cultura queer, relacionamentos sáficos, mulheres no poder, amores fluidos e, claro, futebol feminino.
Se fosse um disco, Onda nova seria daqueles para ouvir no volume máximo, prestando atenção em cada detalhe e referência. A trilha sonora passeia entre o boogie oitentista e o synthpop, com faixas de Michael Jackson e Rita Lee brotando em alguns momentos. E o que já era provocação nos anos 1980 agora ressurge como registro de uma juventude que chutava o balde sem medo. Vá assistir correndo.
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Já Milton Bituca Nascimento, de Flavia Moraes, que estreou na última semana, segue outro caminho: o da reverência, mesmo que seja um filme documental. Durante dois anos, Flavia seguiu Milton de perto e produziu um retrato que, mais do que um relato biográfico, é uma celebração. E uma hagiografia, aquela coisa das produções que parecem falar de santos encarnados.
A narração de Fernanda Montenegro dá um tom solene – e, enfim, logo no começo, fica a impressão de um enorme comercial narrado por ela, como os daquele famoso banco que não patrocina o Pop Fantasma. Aos poucos, vemos cenas da última turnê, reações de fãs, amigos contando histórias. Marcio Borges lê matérias do New York Times sobre Milton, para ele. Wagner Tiso chora. Quincy Jones sorri ao falar dele. Mano Brown solta uma pérola: Milton o ensinou a escutar. E Chico Buarque assiste ao famigerado momento do programa Chico & Caetano em que se emociona ao vê-lo cantar O que será – um vídeo que virou meme recentemente.
Isso tudo é bastante emocionante, assim como as cenas em que a letra da canção Morro velho é recitada por Djavan, Criolo e Mano Brown – reforçando a carga revolucionária da música, que usava a imagem das antigas fazendas mineiras para falar de racismo e capitalismo. Mas, no fim, o que fica de Milton Bituca Nascimento é a certeza de que Milton precisava ser menos mitificado e mais contado em detalhes. Vale ver, e a música dele é mito por si só, mas a sensação é a de que faltou algo.
Por acaso, recentemente, Luiz Melodia – No coração do Brasil, de Alessandra Dorgan, investiu fundo em imagens raras do cantor, em que a história é contada através da música, sem nenhum detalhe do tipo “quem produziu o disco tal”. Mas o homem Luiz Melodia está ali, exposto em entrevistas, músicas, escolhas pessoais e atitudes no palco e fora dele. Quem não viu, veja correndo – caso ainda esteja em cartaz.
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