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Cultura Pop

Já leu o livro dos mil shows do Melvin?

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Melvin Ribeiro já passou por bandas como Autoramas, Los Hermanos (tocou com eles por uma noite, e trabalha até hoje com o merchandising deles), Hill Valleys, Carbona (“seu” grupo, que existe até hoje). Já tocou com os Buzzocks, numa situação que ele mesmo não acredita até hoje que aconteceu de verdade. Também quase tocou no CBGB’s, meca ramônica, e acabou precisando desmarcar o show. Quando foi remarcar, lidou com a incredulidade dos funcionários, que não imaginavam que alguém fosse desmarcar um show no local onde a cena de Nova York dos anos 1970 começou – mas conseguiu finalmente tocar! Em outra fase, foi cabeludão e tocou thrash metal com uma banda na Argentina – e chegou quase a gravar um disco por um selo de porte com ela.

Cada um dos seus mil shows rendeu histórias memoráveis, engraçadas e bizarras (como a do dia em que um músico convidado – e desavisado – dedicou uma canção para a namorada do baterista de sua banda). Agora, essa trajetória está contada no livro Estrada – Mil shows do Melvin, lançado a partir de financiamento coletivo. O lançamento rola ao mesmo tempo em que o Carbona faz uma turnê e volta ao disco, e em que Melvin, além dos vários shows, continua fazendo de tudo. Inclusive lançar projetos musicais novos – como Melvin & Os Inoxidáveis, com quem gravou um EP ano passado.

Batemos um papo com Melvin sobre o livro e, como tem sido comum no POP FANTASMA, a ideia é, ir além de música e livros. Giramos em torno do seguinte tema: o que a pessoa leva pra casa de interessante (ou até de inspirador) quando observa a trajetória de um cara como Melvin, que além de tocar e produzir, já trabalhou em gravadoras e viu muita coisa acontecer? Pega aí.

POP FANTASMA: Como você tem visto o interesse dos fãs de rock, de música pop, pelos bastidores dos seus shows, e pela sua história?
MELVIN: Tenho sempre encontrado gente interessada. Na minha trajetória toda, eu via uma coisa que me interessava e resolvia fazer também. Tipo: “Aquela banda fez CD independente. Pô, dá pra prensar CD já? Vamos fazer um selo?”. É importante falar que não fiz o livro numa coisa de “o incrível cara que deu mil shows”. Até porque muitos músicos já fizeram isso mas não pararam para contar: o Marcelo Callado, o Gustavo Benjão, os próprios Los Hermanos. Todo mundo ali já chegou nisso. Os mil shows serviram para dar um ponto de partida pro livro. E como eu sou viciado em livros de rock, de bastidores, fiz o meu. Hoje eu vejo até que fiz o livro que gostaria que outros músicos fizessem. Se o Callado, se o Marcelo Camelo fizerem um livro com esse tipo de história, eu vou ser o primeiro a ler.

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No livro tem material de diários antigos seus, coisas antigas suas. Como esse material estava conservado? Esse material sempre ia comigo. É uma tragédia, porque morei com meus pais até os 20 e poucos e depois me mudei seis, sete vezes. E em todas as mudanças tinha aquelas caixas, pastas com cartazes. Tinha um por um no plástico. Quando cheguei com esse material na casa da minha namorada, ela ficou meio horrorizada, mas quando comecei o livro, ela entendeu (risos). Mas alguns dos diários já estavam em digital. Os diários do Carbona estavam num blog que a gente tinha na época. Eu comecei a escrever o livro pelo índice, o que é meio doido. Ou não, sei lá. Nunca fiz outro livro (rindo).

Analisando bem, se você sabia o que queria escrever, era mesmo só organizar em tópicos. Acho que de repente foi até uma maneira boa de organizar tudo… Sim, sim. Na verdade nem sabia por onde começar. Muitas pessoas imaginavam que ia ser um livro de verbetes, falando show por show. Mas teve show que mesmo sendo importante, não tive muito o que contar dele. Deixei só as histórias que eu achei que eram relevantes mesmo, que eram divertidas. Peguei todas as histórias que eram best sellers, as que eu contava muito. E fui batendo com a minha lista de shows, os que não estavam sendo atendidos pela lista. Todo dia eu escolhia um capítulo para escrever e pesquisar sobre. Nessa de pesquisar, ir nos HDs, achei textos que mandamos para a Rock Press (revista, que hoje funciona na internet sob outra direção) e acabaram não saindo, e que contavam histórias que nem eu lembrava mais. Tem um capítulo que é o Henrique (cantor e guitarrista do Carbona) escrevendo tudo, porque é um diário de turnê que não achei registro meu e achei um dele, gigante. O Autoramas, fiz ali na hora, vendo e-mails e lembrando como foi.

Já leu o livro dos mil shows do Melvin?

Capa do livro

Aquela história do anão (que roubou a mochila do Melvin nos bastidores de um show) é muito engraçada! Você teve contato com esse anão depois? Ele tá vivo? É sensacional, né? Eu tomei cuidado, porque não falei onde aconteceu essa história…

É, percebi… Se você quiser muito saber onde foi, tem um capítulo onde eu falo sem querer o lugar. Até porque a ideia não era humilhar o cara. Era contar uma história tensa. Como a do vocalista que cantou com a gente e dedicou uma música para a namorada do baterista.

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Isso foi muito engraçado. Bom, deve ter sido tenso na hora! Foi desesperador! Mas a história não ficava melhor se eu dissesse com quem foi. Mas o anão fez uma grande carreira. Ele era negro, de black power e tatuado. Ele foi para a Europa, morou um tempo lá, fez filmes lá – tem fotos dele em set de filmagem – e hoje ele é um leprechaun de St Patrick Day em alguns lugares. Acho que ele mora em São Paulo. Esse cara nunca passou incólume em lugar nenhum, acho que todo mundo que lê o conto e passou pela mesma cidade em que esse cara esteve pensa: “Ah, conheci”.

Como foi a trabalheira pra fazer o crowdfunding e como teve essa ideia? Engraçado porque eu tinha o Embolacha, que era uma empresa de crowdfunding. Entrei lá por um desafio profissional. Mas eu nunca achei crowdfunding muito legal. Achava meio pedir esmola. Fui entender o esquema, fiz para os outros, mas ficava bolado de fazer o meu. Eu fiz do Autoramas na época, mas antes disso eles já tinham feito dois. Eu ficava meio cagado, eu queria mesmo era uma editora para lançar. Mas fui vendo que o mar não tá pra peixe, mesmo as editoras que tinham mais a ver davam uma enrolada…

O mercado está complicado mesmo. Mas aí um dia um amigo meu, o Mateus, apareceu, e falei que estava escrevendo um livro. Perguntei se ele queria dar uma lida e ele: “Eu conheço uma menina que vai diagramar o livro pra você”. Era a Carol Santos, que fez a capa, depois saiu do projeto. E ela sugeriu de fazer crowdfunding. De fato, uns meses depois, com o livro meio pronto, eu tava sem horizonte. Não tinha a grana pra lançar, e ninguém aparentemente estava a fim de lançar. E pensei: vamos tentar o crowdfunding.
E deu certo. Não sei te explicar direito porque deu tão certo. Fazia isso no Embolacha, tinha uma noção, mas deu muito, muito certo. Foi uma mistura de coisas.

Eu vi uma história num filme sobre crowdfunding. O cara fala que quando você consegue transmitir para as pessoas que aquilo é um projeto que importa muito para a sua vida, elas chegam junto. Mais do que o fato de ser um produto legal ou não: quando as pessoas entendem que você quer muito fazer isso, elas ajudam. No Embolacha a gente tinha uma meta que era fazer 10% no primeiro dia. É porque arranca, depois estaciona e no final arranca de novo. E fiz 10% em uma hora. Em um dia, eu estava com 40%, o que é um absurdo. Tanto que nem enchi muito o saco com a campanha depois. Minha namorada é escritora e ela ficava tentando dimensionar o que podia acontecer comigo, pra eu não me decepcionar muito. Falava: “Pensa que vai vender uns duzentos livros”. E vendi 188 no crowdfunding. Pra minha cabeça, já saiu resolvido.

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Já leu o livro dos mil shows do Melvin?

Melvin e o livro

E o livro ainda tá à venda? Eu prensei 500 livros, eles estão quase acabando. Não dá pra prometer, mas a minha ideia era fazer uma segunda edição com uma ou outra revisão de erros que já achei. E ainda continuar vendendo. Mas chegou a 500 e eu já achei uma loucura.

Como que você analisa esse tempo todo de Carbona, que é uma banda que já passou por vários lançamentos e selos, já tocou lá fora, já teve altas mudanças de formação, agora tá tendo esse gás aí de ter o Fred (Raimundos) na bateria… Qual o balanço que você faz da história do grupo? Cara, é muito louco. Se você olhar pra sua coleção de CDs e pensar em bandas que você gostou na vida, a quantidade de bandas que passam do quarto disco, do quinto disco, é pequena. A maioria das bandas que passa disso é muito pequena, diria que 5%. E a gente virou isso. Uma banda de 22 anos, onze discos, que sempre manteve a mesma base – Eu, Henrique e o Pedro (bateria). O Fred entrou tem dois anos. A gente preferia esperar o Pedro voltar pro Brasil, porque ele está morando fora. Mas chegou uma hora que bateu vontade de tocar mais, o Fred eu tinha acabado de conhecer no Autoramas e o chamei para entrar na formação nova, que é meio família. A gente tem grupo com o Pedro e com o Fred (no WhatsApp). O Pedro veio tocar em dezembro com a gente e o Fred emprestou os pratos pra ele. E a gente acabou de fazer o melhor disco da gente.

Disco novo? Isso. Se chama Vingue no ringue, foi gravado com um produtor de Porto Alegre, tem as melhores composições e a melhor gravação disparado. Depois das turnês em que a gente passou o Brasil todo, fizemos menos show. Durante quatro anos a gente fazia só show no Rio, gravava disco, mas não saía do Rio. Quando o Hangar foi fechar, anunciou que ia fechar um ano antes, a gente pensou: “Precisamos dar um jeito de ir pra São Paulo”. Marcamos um show no Hangar, o cara de Curitiba chamou (para fazer show), o de Porto Alegre chamou, o de Goiânia chamou… Não sei dizer se hoje está pior, estamos como a gente aguenta. Por causa dos compromissos de todo mundo não temos como viajar muito, mas estamos fazendo Rio e São Paulo direto, uma ou outra cidade.

Você considera que sua trajetória como profissional da música, e não apenas como músico de banda, é inspiradora para outros profissionais? Você foi um cara que além de ser músico passou por diversos outros lugares: Som Livre, Embolacha… E agora tem o livro. Pois é, eu cheguei a escrever em algumas dedicatórias do livro: “Que esse livro possa te inspirar…”. Achei meio pretensioso, mas eu estava meio pretensioso no dia (risos). Eu tenho um amigo que é técnico de futebol e comprou meu livro. E ele me fez umas perguntas bem interessantes, me disse: “Pô, eu li seu livro inteiro e queria saber em qual momento você deixou de perseguir aquele sonho da rádio e do estádio lotado”. Uma pergunta que eu nunca tinha me feito. Quando comecei, o sonho não era estádio lotado. Era o sonho de ter uma banda empreendedora, que corria atrás de tudo, que queria desbravar. O CD independente estava em voga, as bandas estavam começando a se virar só com isso. Nunca teve uma coisa de: ‘Ah, daqui a pouco a gente vai estar na trilha da novela!’. Era: “Daqui a pouco a gente pode prensar nosso CD e viajar”. Mesmo em termos de hoje o Carbona é um absurdo. Em 1997, com seis meses de banda, a gente estava com repertório, já tinha gravado disco e estava em Detroit com CD no bolso.

https://www.youtube.com/watch?v=U_ew72wP_Wk

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Minha escola foi muito mais de cair dentro do que tentar outro tipo de recompensa. E eu penso até muito no Panço, que sempre foi muito inspirador. Era um cara que se tinha alguma coisa que ele queria fazer, ele fazia. Na minha leitura era assim: quer lançar um zine? Lança um zine. Quer lançar um livro? Lança um livro. Isso é inspirador, o lance de correr atrás, de fazer as coisas. É legal passar isso adiante, mostrar que se você cair dentro, você vai conseguir resultados. Não é uma coisa de “fiz isso e fiquei milionário”, mas vai fazendo as paradas.

Vou tocar agora em Portugal com o Guga Bruno, meu guitarrista, e quero armar shows lá. E eu estava pensando: “Cara, tá difícil pra caralho, um lugar pode, o outro quer mas não pode porque a bateria faz barulho, o outro não responde e-mail há cinco dias…”. Mas é tão legal fazer isso, sabe? Quero tanto fazer esse show, que nem estou aguentando isso. Tem uma galera que desiste antes porque é chato pra caralho mesmo, sabe? O quanto você está disposto a disparar de e-mails para fazer um show numa cidade onde você não tem interesses comercial nenhum, que você quer fazer porque quer fazer? Acho que se for pra inspirar alguém, é nesse lado de “faz as paradas”. Tem uma galera que me escreve e fala: “Que maneiro seu livro. Quero fazer também”. E eu: “Faz seu livro! Quero conhecer suas histórias!”. Muita gente me pergunta onde fiz o livro, com quem diagramei, como cheguei na editora mais barata… E vamo lá, vamo só fazer.

Hoje em dia mudou muito o jeito como as pessoas se relacionam com tudo isso. O alcance de internet é tão grande que o cara tenta ser grande no mundo antes de ser grande na cidade dele! A gente pirava em lotar em Empório. Não tem uma banda hoje em dia querendo lotar o Audio Rebel. Nego parece que já tá querendo ir mais adiante, tipo: “Quando é que eu vou tocar no Maracanã também? Los Hermanos já tocou!” (risos). Bom, eu queria inspirar as pessoas a terem resultados maneiros e pra mim o melhor resultado que cheguei até hoje foi o livro. Achei que dava trabalho e foi o maior barato escrever. E dá pra sonhar com alguém falando: “Pô, eu caí muito dentro de uma parada porque li aquele livro”.

Você falou de Los Hermanos e muita gente comprou o livro para ver as histórias suas com a banda. Como você vê essa conexão e como tem sido o contato com os fãs deles? Bom, desde a turnê de 2015 sou o responsável pelo merchandising deles. Você acaba batendo papo com as pessoas da lojinha, numa hora você conta que tocou na banda… Quando fiz o crowdfunding, o produtor deles, o Alex, foi um dos primeiros a entrar. Ele e o Barba foram no show de lançamento pegar o livro. Depois o Alex me falou: “O livro tá muito legal, vamos vender na lojinha”. Na lojinha tem um menu com camisa, ecobag, LP e… “livro do Melvin” (risos). As pessoas sempre perguntam: “Mas quem é Melvin e por que o livro dele tá aqui?” (risos). E é uma deixa, como aquela sobremesa especial do Outback que os funcionários vão adorar explicar. É o item do menu que nosso funcionário vai adorar explicar: “Ah, o Melvin tá aqui, é amigo deles, já tocou na banda”. Volta e meia alguém se interessa. O Marcelo (Camelo) já veio comentar do livro, falou de algumas histórias. Tá fluindo bem no universo deles. O show que fiz com o Los Hermanos eu subi no YouTube, inclusive.

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Tá no YouTube? Sim, o da final da turnê do Bloco do eu sozinho (em 2002). Mas tem coisas ali que são raras em vídeo. Não sei exatamente o que é, mas tem coisas que são meio raras ali, volta e meia comentam. Tem um cara achando que eu sou o Patrick (Laplan, ex-baixista da banda).

https://www.instagram.com/p/BxHqW0KlxtB/

E como você analisa esse sucesso que os Hermanos fizeram até chegar no Maracanã? No livro eu falo uma coisa que eu não consigo falar diferente… Durante muito tempo vi as pessoas usando eles como referência, porque a relação que aquelas músicas criaram com os fãs é uma loucura. Ninguém acreditava no Maracanã, um amigo meu foi e não estava acreditando lá (risos). Ele chegou cedo pro Tim Bernardes e quando viu o estádio vazio falou: “Ufa, achei que eu estava ficando maluco”. Só que depois ele viu o estádio enchendo e falou: “Caralho, eu tô maluco mesmo!” (risos). Eu fico na gerência, correndo de uma lojinha para outra, e sempre tento ver o início do show. Ver o cara tocando A flor e levantando o Maracanã, uma Fonte Nova… É sempre emocionante. O do Maracanã, eu lembro de ter visto uma galera falar depois: “Ah, vou pra São Paulo ver!”. Eu sempre falava: “Cara, vai, mas o que rolou no Maracanã não pode ser recriado”. Acho que pesou pra todo mundo, tava todo mundo com nó na garganta, senti a banda eletrizada de outro jeito. E não tem explicação, não tem fórmula mesmo. Acho quase uma ofensa alguém se achar muito conhecedor do business e achar que descobriu a fórmula que está por trás. Não tem isso! É uma relação dos fãs com as músicas que eu vi poucas vezes na vida.

Algum recado para quem não conhece o livro? Bom, quem se interessar fico muito feliz. São os maiores sucessos das histórias que eu já contei várias vezes, e o livro mostra um pouco do que foi ter banda nesses vinte anos. Viajei em van com banda, fui pra fora com baixo nas costas… O livro é uma forma de retratar isso sem ter a pretensão de dar uma forma definitiva. Nem eu, nem Panço nem Pedro de Luna saímos para escrever a verdade absoluta disso tudo. Quem ler todos esses livros vai ter um entendimento mais legal.

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Fotos: Divulgação/André Oliveira

Cultura Pop

Meat Loaf: descubra agora!

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O Brasil ainda não descobriu Meat Loaf, um sujeito com mais de 50 anos de carreira artística, morto aos 74 anos no dia 20 de janeiro. Há exceções nesse desconhecimento: muita gente deve lembrar que ele fez um papel importante no filme Clube da luta, de David Fincher (o ex-fisiculturista Bob). A comédia Roadie, de 1980, dirigida por Alan Rudolph e protagonizada por ele, vale um texto inteiro no Pop Fantasma – e possivelmente foi vista por uma turma boa aqui no Brasil. E surpreendentemente, até mesmo o Jornal Nacional fez matéria (rápida) sobre a partida do cantor.

Os fãs brasucas do clássico disco Bat out of hell (1977), debute solo de Meat Loaf, talvez não sejam muitos. Mas são os fieis admiradores de um álbum de muito sucesso, que funciona como o retrato de uma época. E que seguia à risca a mesma cartilha estudada por artistas como Queen, The Who, Pink Floyd e Rick Wakeman a partir de determinado momento dos anos 1970.

Meat Loaf, o compositor Jim Steinman (autor de todas as músicas do álbum, morto ano passado) e o produtor Todd Rundgren compreenderam que a fórmula do rock operístico poderia ajudar a contar histórias fenomenais, propiciando “clássicos” de bolso, prontos para agradar até mesmo quem não ouvia rock – o que geraria espetáculos grandiosos, e de teor altamente democrático, musicalmente falando.

O resultado foi que Bat out of hell vendeu o que ninguém nunca mais vai vender na história do universo (43 milhões de cópias em todo o mundo, disco de platina 14 vezes). Também projetou a carreira de Meat Loaf como ator e cantor, e um profissional possuidor de atributos altamente dramáticos. E ainda gerou continuações – sim, existem Bat out of hell volumes 2 e 3, lançados respectivamente em 1993 e 2006, além de um musical exibido em 2017. Vale só lembrar que a discografia de Meat Loaf não se reduz só a esse disco, e que ele já vinha de antes.

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Bat out of hell, que completa 45 anos em 21 de outubro, é assunto para ser discutido em um texto maior aqui no Pop Fantasma – quem sabe num podcast do Pop Fantasma Documento. Por enquanto a gente traz aqui nove músicas para quem quiser começar a entender qual é a de Michael Lee Aday, nome verdadeiro de Meat Loaf (o “bolo de carne” é um apelido do tempo em que ele jogava futebol americano). Vale ouvir em alto volume e esquecer a safra final de declarações negacionistas do cantor – que elogiou Donald Trump e declarou que “continuava abraçando pessoas” em tempos de pandemia.

“WHAT YOU SEE IS WHAT YOU GET” (1971). Após se juntar ao elenco de Los Angeles do musical Hair, Meat Loaf começou a fazer sucesso. A Motown, a partir de sua subsidiária rocker, a Rare Earth (batizada assim porque o maior sucesso do selo era aquele grupo do hit I just want to celebrate), não perdeu tempo: reservou algumas horas de estúdio e juntou o cantor com sua colega no musical, Shaun Murphy, a popular Stoney. Stoney & Meatloaf, o disco da dupla (com Meat Loaf grafado como uma só palavra), foi feito inteiramente por uma equipe de produtores e compositores. A dupla só apareceu na hora de colocar os vocais. Mas gerou boas canções e um bom single.

“MORE THAN YOU DESERVE” (1973). Em 1973, Meat Loaf fez um teste para o elenco do musical More than you deserve, escrito por Jim Steinman e Michael Weller, que ficou em cartaz naquele ano em Nova York. O cantor não apenas passou no teste e participou da peça, como iniciou sua parceria com Steinman aí. O single com a canção-título da peça trazia uma versão de Presence of the lord, do Blind Faith, no lado B. Foi lançado apenas em versão promocional e não deu muito certo.

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“ROCKY HORROR SHOW” (1975). Os produtores do musical pensavam alto: chegaram a sonhar com Elvis Presley fazendo o papel de Eddie, na peça. O rei do rock possivelmente deve ter sido uma opção muito cara e lá se foi Meat Loaf interpretar não apenas o motociclista, mas também o mordomo maluco Riff-Raff. No filme dirigido por Jim Sharman, Meat Loaf fez apenas o papel de Eddie – no teste, conseguiu o personagem sendo capaz de interpretar o número Hot Patootie/Bless my soul sem se perder na quantidade de palavras por verso. Na época, ele e Steinman já tinham até começado a trabalhar num rascunho de Bat out of hell.

“STREET RATS” – TED NUGENT (1976). Enquanto Bat out of hell era recusado por praticamente todas as gravadoras existentes nos Estados Unidos, Meat Loaf dava um passo adiante no mercado discográfico fazendo alguns dos vocais principais de Free for all, segundo disco solo do guitarrista reaça Ted Nugent. Derek St Holmes, guitarra base e titular das vozes ao lado de Ted, havia deixado a banda por uns tempos, e Meat acabou soltando a voz em cinco das nove faixas.

“BAT OUT OF HELL” (1977). Pronto: após dois anos de testes, refações e rejeições humilhantes por parte de várias gravadoras (segundo Meat Loaf, Clive Davis, da Arista, chegou a dizer a Jim: “Você não sabe escrever música!”), Bat out of hell estava pronto para conquistar o mundo. Considerado o melhor disco de metal pela Kerrang! em 1989, tem mais que isso: une terror psicológico, histórias românticas, certo humor sombrio e muito, mas muito rock operístico.

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“DEAD RINGER FOR LOVE” (1981). Rolou uma separação rápida entre Meat Loaf e Jim Steinman após o sucesso de Bat out of hell, que gerou uma turnê exaustiva e repleta de excessos. Por causa do abuso de drogas, Meat perdeu a voz e o disco que Steinman estava compondo para ele, Bad for good, acabou sendo o primeiro álbum solo do compositor. Só quatro anos após a estreia, Meat Loaf voltaria com Dead ringer, o segundo disco, com Jim compondo todas as faixas – uma delas era este primeiro single.

“BLIND BEFORE I STOP” (1986). A parceria entre Meat Loaf e Jim Steinman acabou após brigas e processos e, durante os anos 1980, o cantor procurou outros compositores – além de ter passado a compor seu próprio material. O quinto disco do cantor – por sinal gravado para a mesma Arista que pisara em Bat out of hell anos antes – trazia Meat Loaf fazendo hard rock, mas aderindo a teclados e programações eletrônicas, como na faixa-título. Curiosidade: Frank Farian, o produtor, era o criador da armação disco Boney M e estava perto de montar o Milli Vanilli.

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“I’LL DO ANYTHING FOR LOVE (BUT I WON’T DO THAT)” (1993). Opa: a parceria entre Meat Loaf e Jim Steinman voltou e lá se foram os dois para o estúdio mais próximo. E saiu Bat out of hell II: Bat into hell, continuação do multiplatinado disco de estreia do cantor. O primeiro single (essa música aí) tinha doze minutos. A crítica, em pleno auge do grunge, torceu o nariz – a Spin disse que a faixa era “um movimento ousado para ignorar os quinze últimos anos da história do pop-rock”. Mas o disco vendeu mais de 14 milhões de cópias, e ainda tinha uma atração extra: faixas com nomes estranhos e quilométricos como Life is a lemon and I want my money back e Objects in the rear view mirror may appear closer than they are.

“I’D LIE FOR YOU (AND THAT’S THE TRUTH)” (1995). Com a ajuda de amigos como Sammy Hagar, Steven Van Zandt (E Street Band) e Jim Nevison, lá se for Meat Loaf fazer seu próprio disco conceitual, Welcome to the neighborhood (1995). O álbum tinha duas canções de Steinman, mas o material teve diversas fontes incluindo canções de Diane Warren, Tom Waits (Martha, uma antiga música do compositor) e até mesmo um retrabalho em cima de Good times, da banda australiana The Easybeats, que era Runnin for the red light (I gotta life).

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Cultura Pop

E os 35 anos de Warehouse: Songs and Stories, do Hüsker Dü?

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Bob Mould, líder da banda punk americana Hüsker Dü, passou por uma transformação pessoal pouco antes de fazer as canções do disco Warehouse: Songs and stories, o sexto e último álbum do grupo (lançado em 19 de janeiro de 1987).  Ainda que o cantor e guitarrista não fizesse o gênero junkie, sua relação autodestrutiva com a bebida já tinha chegado a níveis altíssimos – Mould teve uma fase duradoura em que bebeu todos os dias, deixava uma garrafa de uísque de prontidão na gaveta da escrivaninha e inventava desculpas do tipo “se não está atrapalhando meu trabalho, tudo bem, posso encher a cara”.

O cantor diz ter seguido um caminho bem sui generis: não seguiu nenhum programa de doze passos, nem nenhum tipo de aconselhamento. Apenas parou de beber de uma hora para outra. Se você tem problemas com bebida, recomendamos que faça uma visita ao AA. Mas enfim, foi desta forma que deu certo para Mould, no fim de 1986, quando ele se trancou no quarto para começar a imaginar o disco.

>>> Ei, apoia a gente aí: catarse.me/popfantasma

“Eu estava começando a me evadir da cena e da própria banda”, recordou ele em seu livro See a little light: The trail of rage and melody, lembrando que a banda começava a se separar ali, com Greg Norton (baixo) casado e Grant Hart (bateria) mais ocupado com outros rolês. A boa e velha competição com Grant, segundo compositor e “arma secreta” do grupo, voltava firme e forte. Com o agravante de que a banda mal se falava, e o comportamento passivo-agressivo era a maneira como os três muitas vezes escolhiam se comunicar.

Por acaso, Warehouse, um disco duplo (assim como o fenomenal Zen arcade, de 1984), é o LP em que a divisão de canções entre Mould e Hart aparece mais acentuada. Praticamente uma canção de um, seguida de uma canção de outro, sem pular. Hart brigou para ter mais músicas, conseguiu, mas ouviu de Mould que “jamais voltaria a ter metade das composições num disco do Husker Dü” (sem problemas, já que o grupo encerrou atividades).

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Uma coisa que pode surpreender fãs do Hüsker Dü é que Mould não é um grande fã de Warehouse – pelo menos é o que ele revela no livro. O cantor diz que teria lançado um excelente disco simples se tivesse resolvido cortar algumas canções. Maldade com um disco que tem Could you be the one (“escrita especificamente para ser um single”, ele diz), These important years, Too much spice, Standing in the rain, She floated away e várias outras. Provavelmente o excesso de lembranças ruins turvou algumas coisas.

O álbum foi todo ensaiado num velho armazém (daí o título, “armazém: canções e histórias”) e foi quase um lançamento indie dentro da Warner, com Hart e Mould dividindo a produção e adotando técnicas malucas de gravação, como gravar os pratos da bateria em separado. Greg Norton, por sua vez, engoliu o fato de seus colegas terem resolvido regravar eles mesmos algumas linhas de baixo, sem avisá-lo. O grupo começou a sofrer pressões da Warner para entregar um disco mais comercial e surpreendentemente, não viu cara feia da gravadora quando avisou que havia feito um LP duplo. Só precisaram engolir uma redução de royalties, porque a multinacional só topava se eles não se incomodassem de receber o equivalente a um LP simples.

Entre brigas, animosidades e problemas com gravadora e empresários, o Hüsker fez de Warehouse um disco excelente, do tipo que passa voando, mas você vai querer voltar para ouvir um detalhe ou outro. O trio, formado por punks influenciados por Who e Byrds, retornava falando basicamente sobre desencontros, como em It’s not peculiar, Standing in the rain (sobre um pé na bunda mortal), Ice cold ice e várias outras. Charity, chastity, prudence and hope era um comentário particular de Hart sobre ganância.

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No reservations, de Mould, é tristeza pura (“como uma telha solta numa tempestade de vento/devo me soltar e voar?”), mas termina com notas de otimismo. A bela Turn it around, também de Mould, parecia um recado para Hart, assim como as músicas do baterista pareciam ter Mould como destinatário. Era nesse pé (de guerra!) que Warehouse poderia ser entendido.

O fim do Hüsker Dü viria em breve, e geralmente é creditado ao vício de Hart em heroína. O baterista sempre questionou isso, e em 1989 diria à Spin que apenas deixou a banda, e só conseguiu largar a droga quando finalmente ficou solo. Houve outros problemas graves que apressaram o fim, como a morte do empresário da banda, David Savoy – além de muita falta de comunicação, animosidade e arrogância, em doses quase iguais. Seja como for, a música de Bob Mould, Grant Hart e Greg Norton continua vencendo as barreiras de tempo e espaço.

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Cultura Pop

Coisas que Elza Soares me disse

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Coisas que Elza Soares me disse

Eu não tenho guardados, infelizmente, os áudios das entrevistas que fiz com Elza Soares na época em que eu trabalhava no jornal O Dia. No dia a dia de uma redação, muita coisa é feita por telefone e se perde – até porque qualquer pessoa que já trabalhou em redação sabe o quanto o trabalho é pesado, com várias entrevistas ao longo do dia, muito material que vai sendo jogado para HDs externos, etc.

Quem entrevistou Elza se recorda de uma coisa: ela gostava de falar. O apresentador e jornalista Zeca Camargo me contou – quando o entrevistei para conversar sobre a biografia que ele escreveu sobre dela, Elza – que tinha em seu smartphone cerca de “53 horas” de conversa com a cantora. Eram fatos nunca revelados, como seu breve namoro com as drogas durante os anos 1980, além de muitas histórias sobre seu relacionamento com o jogador Mané Garrincha. E o sempre atento Zeca notou uma coisa a respeito de Elza: a vida da cantora era como um videogame. “Sempre tem uma fase nova, com novos desafios”, contou.

Nas vezes em que entrevistei Elza, fui surpreendido com uma peculiaridade da fala dela: era rápida, e ficava mais rápida ainda quando ela se animava com algum assunto, ou quando se indignava com alguma coisa. Eu sempre fui um entrevistador que vai direto ao assunto. Essa minha característica rendeu bem com ela: a simples menção de alguns nomes, ou de palavras como “machismo” e “racismo”, já fazia com que ela dissesse as frases mais veementes, desse as declarações mais interessantes e falasse bastante. Sendo que cada lembrança, cada fala, cada entrevista, era um aprendizado.

E nada melhor do que ouvir Elza para homenageá-la. E não apenas sua música, mas também tudo o que ela, com vários anos de música, de vivência, de sofrimento, tinha a dizer. Também era adorável observar o carinho e a dedicação com que ela encarava sua música, e a produção de arte num país tão estranho como o Brasil. Nos últimos anos, os discos de Elza eram norteados pela escolha de canções com letras fortes e críticas. Era proposital: ela queria dar voz a uma série de pessoas em situação de vulnerabilidade, e queria produzir eco.

Seguem aí algumas coisas que Elza Soares me contou em algumas entrevistas. Em tempo: o bate papo mais inusitado que tive com ela foi num Prêmio da Música Brasileira, no momento em que repórteres e fotógrafos esperavam pela saída triunfal de Ivete Sangalo. Elza, com quem eu nunca havia me encontrado na vida, passava por ali, simplesmente me cutucou e perguntou “oi, vocês estão esperando quem?”. Parei tudo imediatamente para conversar com ela – uns dez minutos de papo sobre o prêmio – e mandei a conversa para os editores do online. Deve ter sido a entrevista mais surpreendente da minha vida.

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E é isso. Obrigado pela música e pela história, Elza Soares (foto: Stephane Murnier/Divulgação)

“Todo mundo está aqui para fazer uma coisa. Meti na cabeça que vim não para deixar uma marca no mundo, mas uma mancha! Abri uma porta para entrar. Tem sempre que dizer ‘sou boa, sou maravilhosa’, bota isso na cabeça. Olha no espelho e ri para você mesmo, faz alguma coisa. Tem que ter fé, acreditar!”

“Você viu essa história de um funcionário de um bar na Tijuca, negro, que ganhou uma banana do gerente? Tinham que inventar uma vacina contra o racismo! Luto desde sempre contra o preconceito, acreditando em mim, brigando. Levei muita porrada”.

“Gravei Pra fuder (do Kiko Dinucci), mas acho que hoje em dia isso nem choca ninguém, sabe? ‘Fuder’ não pode ser mais feio que desemprego, fome”.

“Maria da Vila Matilde é uma denúncia. Os homens têm que aprender que respeito é bom e a gente gosta. A mulher precisa ser mais amiga da mulher. Elas não têm solidariedade, vivem competindo. É estranho isso. Conto nos dedos quantas amigas mulheres eu tenho. E com quase todas as mulheres isso acontece”.

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Perguntei a Elza sobre a vez em que ela apareceu no programa Calouros em desfile, do Ary Barroso, e foi sacaneada pelo apresentador. Apareceu no palco da atração com um vestido vários números maior, remendado com alfinetes, além de várias marias-chiquinha. Foi recepcionada por ele com um “de que planeta você veio, minha filha?”, e ele respondeu: “Do Planeta Fome, seu Ary”.

Como eu havia conversado antes com ela sobre os programas musicais de TV da década passada (SuperStar, The Voice Brasil, os quais ela dizia não acompanhar), lembrei a ela que a Susan Boyle, candidata do programa Britain’s got talent, havia também sido ridicularizada no palco, por apresentadores e jurados. “Lembro da Susan Boyle. Ela canta pra caramba, calou a boca de todo mundo no programa, né? É a tal discriminação, a pessoa nem conhece e já sai discriminando. E depois eu encontrei o Ary. Ele foi me ver ao vivo e queria mudar o meu nome. Dizia: ‘Esse negócio de Elza não vai dar certo!’”

“Em alguns momentos da minha carreira (nos períodos de baixa), eu hibernava. Às vezes, é bom estar invisível, porque você leva muita pedrada. Quando você está invisível, a pedra passa distante”.

Em junho de 2018, falei com ela sobre o disco Deus é mulher, que ela acabara de lançar. E ela dizia que as letras eram fator determinante para ela escolher repertório. “Eu passo noite e dia pensando no que quero dizer para quem quer me ouvir, para esse povo que me elegeu como cantora. Quero o melhor para o meu país, me orgulho muito de ser brasileira e sofro de ver o país da maneira que está. Acabou o amor, acabou a dignidade. Meu momento é de parar pra pensar se tenho algo a fazer também, para ajudar”.

“Não quero só ter voz, quero eco. uma andorinha só não faz verão. Gostaria que todo o povo brasileiro tivesse esse momento de ter voz, de falar. O povo está dormindo! Que sono é esse, meu Deus? Vamos acordar. Vê só essa greve dos caminhoneiros, em que ninguém falou nada”.

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“As mulheres estão falando mais, sabem da violência que acontece com elas. Vê só essa morte da Marielle Franco, que coisa estúpida. E não pode parar de falar nisso não, mesmo na Copa do Mundo. Tem que falar, não pode esquecer, não pode deixar de falar sempre”.

“Não sei se minha música atual é samba-punk ou até samba-funk. Sei que é música de qualidade e que tem conteúdo”.

“Deus é mãe, Deus é mãe. Esse país tá precisando de um pouco de colo de mãe. A gente está precisando dar colo para esse país, porque ele tá muito abandonado. Fico muito furiosa não porque penso no futuro, mas porque penso no presente do país. Até hoje se fala que o Brasil é o país do futuro, mas o Brasil tinha que ser o país do presente”.

“Quem faz arte quer sempre fazer uma coisa de valor, que valha a pena”.

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