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Cultura Pop

Já leu o livro dos mil shows do Melvin?

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Melvin Ribeiro já passou por bandas como Autoramas, Los Hermanos (tocou com eles por uma noite, e trabalha até hoje com o merchandising deles), Hill Valleys, Carbona (“seu” grupo, que existe até hoje). Já tocou com os Buzzocks, numa situação que ele mesmo não acredita até hoje que aconteceu de verdade. Também quase tocou no CBGB’s, meca ramônica, e acabou precisando desmarcar o show. Quando foi remarcar, lidou com a incredulidade dos funcionários, que não imaginavam que alguém fosse desmarcar um show no local onde a cena de Nova York dos anos 1970 começou – mas conseguiu finalmente tocar! Em outra fase, foi cabeludão e tocou thrash metal com uma banda na Argentina – e chegou quase a gravar um disco por um selo de porte com ela.

Cada um dos seus mil shows rendeu histórias memoráveis, engraçadas e bizarras (como a do dia em que um músico convidado – e desavisado – dedicou uma canção para a namorada do baterista de sua banda). Agora, essa trajetória está contada no livro Estrada – Mil shows do Melvin, lançado a partir de financiamento coletivo. O lançamento rola ao mesmo tempo em que o Carbona faz uma turnê e volta ao disco, e em que Melvin, além dos vários shows, continua fazendo de tudo. Inclusive lançar projetos musicais novos – como Melvin & Os Inoxidáveis, com quem gravou um EP ano passado.

Batemos um papo com Melvin sobre o livro e, como tem sido comum no POP FANTASMA, a ideia é, ir além de música e livros. Giramos em torno do seguinte tema: o que a pessoa leva pra casa de interessante (ou até de inspirador) quando observa a trajetória de um cara como Melvin, que além de tocar e produzir, já trabalhou em gravadoras e viu muita coisa acontecer? Pega aí.

POP FANTASMA: Como você tem visto o interesse dos fãs de rock, de música pop, pelos bastidores dos seus shows, e pela sua história?
MELVIN: Tenho sempre encontrado gente interessada. Na minha trajetória toda, eu via uma coisa que me interessava e resolvia fazer também. Tipo: “Aquela banda fez CD independente. Pô, dá pra prensar CD já? Vamos fazer um selo?”. É importante falar que não fiz o livro numa coisa de “o incrível cara que deu mil shows”. Até porque muitos músicos já fizeram isso mas não pararam para contar: o Marcelo Callado, o Gustavo Benjão, os próprios Los Hermanos. Todo mundo ali já chegou nisso. Os mil shows serviram para dar um ponto de partida pro livro. E como eu sou viciado em livros de rock, de bastidores, fiz o meu. Hoje eu vejo até que fiz o livro que gostaria que outros músicos fizessem. Se o Callado, se o Marcelo Camelo fizerem um livro com esse tipo de história, eu vou ser o primeiro a ler.

No livro tem material de diários antigos seus, coisas antigas suas. Como esse material estava conservado? Esse material sempre ia comigo. É uma tragédia, porque morei com meus pais até os 20 e poucos e depois me mudei seis, sete vezes. E em todas as mudanças tinha aquelas caixas, pastas com cartazes. Tinha um por um no plástico. Quando cheguei com esse material na casa da minha namorada, ela ficou meio horrorizada, mas quando comecei o livro, ela entendeu (risos). Mas alguns dos diários já estavam em digital. Os diários do Carbona estavam num blog que a gente tinha na época. Eu comecei a escrever o livro pelo índice, o que é meio doido. Ou não, sei lá. Nunca fiz outro livro (rindo).

Analisando bem, se você sabia o que queria escrever, era mesmo só organizar em tópicos. Acho que de repente foi até uma maneira boa de organizar tudo… Sim, sim. Na verdade nem sabia por onde começar. Muitas pessoas imaginavam que ia ser um livro de verbetes, falando show por show. Mas teve show que mesmo sendo importante, não tive muito o que contar dele. Deixei só as histórias que eu achei que eram relevantes mesmo, que eram divertidas. Peguei todas as histórias que eram best sellers, as que eu contava muito. E fui batendo com a minha lista de shows, os que não estavam sendo atendidos pela lista. Todo dia eu escolhia um capítulo para escrever e pesquisar sobre. Nessa de pesquisar, ir nos HDs, achei textos que mandamos para a Rock Press (revista, que hoje funciona na internet sob outra direção) e acabaram não saindo, e que contavam histórias que nem eu lembrava mais. Tem um capítulo que é o Henrique (cantor e guitarrista do Carbona) escrevendo tudo, porque é um diário de turnê que não achei registro meu e achei um dele, gigante. O Autoramas, fiz ali na hora, vendo e-mails e lembrando como foi.

Já leu o livro dos mil shows do Melvin?

Capa do livro

Aquela história do anão (que roubou a mochila do Melvin nos bastidores de um show) é muito engraçada! Você teve contato com esse anão depois? Ele tá vivo? É sensacional, né? Eu tomei cuidado, porque não falei onde aconteceu essa história…

É, percebi… Se você quiser muito saber onde foi, tem um capítulo onde eu falo sem querer o lugar. Até porque a ideia não era humilhar o cara. Era contar uma história tensa. Como a do vocalista que cantou com a gente e dedicou uma música para a namorada do baterista.

Isso foi muito engraçado. Bom, deve ter sido tenso na hora! Foi desesperador! Mas a história não ficava melhor se eu dissesse com quem foi. Mas o anão fez uma grande carreira. Ele era negro, de black power e tatuado. Ele foi para a Europa, morou um tempo lá, fez filmes lá – tem fotos dele em set de filmagem – e hoje ele é um leprechaun de St Patrick Day em alguns lugares. Acho que ele mora em São Paulo. Esse cara nunca passou incólume em lugar nenhum, acho que todo mundo que lê o conto e passou pela mesma cidade em que esse cara esteve pensa: “Ah, conheci”.

Como foi a trabalheira pra fazer o crowdfunding e como teve essa ideia? Engraçado porque eu tinha o Embolacha, que era uma empresa de crowdfunding. Entrei lá por um desafio profissional. Mas eu nunca achei crowdfunding muito legal. Achava meio pedir esmola. Fui entender o esquema, fiz para os outros, mas ficava bolado de fazer o meu. Eu fiz do Autoramas na época, mas antes disso eles já tinham feito dois. Eu ficava meio cagado, eu queria mesmo era uma editora para lançar. Mas fui vendo que o mar não tá pra peixe, mesmo as editoras que tinham mais a ver davam uma enrolada…

O mercado está complicado mesmo. Mas aí um dia um amigo meu, o Mateus, apareceu, e falei que estava escrevendo um livro. Perguntei se ele queria dar uma lida e ele: “Eu conheço uma menina que vai diagramar o livro pra você”. Era a Carol Santos, que fez a capa, depois saiu do projeto. E ela sugeriu de fazer crowdfunding. De fato, uns meses depois, com o livro meio pronto, eu tava sem horizonte. Não tinha a grana pra lançar, e ninguém aparentemente estava a fim de lançar. E pensei: vamos tentar o crowdfunding.
E deu certo. Não sei te explicar direito porque deu tão certo. Fazia isso no Embolacha, tinha uma noção, mas deu muito, muito certo. Foi uma mistura de coisas.

Eu vi uma história num filme sobre crowdfunding. O cara fala que quando você consegue transmitir para as pessoas que aquilo é um projeto que importa muito para a sua vida, elas chegam junto. Mais do que o fato de ser um produto legal ou não: quando as pessoas entendem que você quer muito fazer isso, elas ajudam. No Embolacha a gente tinha uma meta que era fazer 10% no primeiro dia. É porque arranca, depois estaciona e no final arranca de novo. E fiz 10% em uma hora. Em um dia, eu estava com 40%, o que é um absurdo. Tanto que nem enchi muito o saco com a campanha depois. Minha namorada é escritora e ela ficava tentando dimensionar o que podia acontecer comigo, pra eu não me decepcionar muito. Falava: “Pensa que vai vender uns duzentos livros”. E vendi 188 no crowdfunding. Pra minha cabeça, já saiu resolvido.

Já leu o livro dos mil shows do Melvin?

Melvin e o livro

E o livro ainda tá à venda? Eu prensei 500 livros, eles estão quase acabando. Não dá pra prometer, mas a minha ideia era fazer uma segunda edição com uma ou outra revisão de erros que já achei. E ainda continuar vendendo. Mas chegou a 500 e eu já achei uma loucura.

Como que você analisa esse tempo todo de Carbona, que é uma banda que já passou por vários lançamentos e selos, já tocou lá fora, já teve altas mudanças de formação, agora tá tendo esse gás aí de ter o Fred (Raimundos) na bateria… Qual o balanço que você faz da história do grupo? Cara, é muito louco. Se você olhar pra sua coleção de CDs e pensar em bandas que você gostou na vida, a quantidade de bandas que passam do quarto disco, do quinto disco, é pequena. A maioria das bandas que passa disso é muito pequena, diria que 5%. E a gente virou isso. Uma banda de 22 anos, onze discos, que sempre manteve a mesma base – Eu, Henrique e o Pedro (bateria). O Fred entrou tem dois anos. A gente preferia esperar o Pedro voltar pro Brasil, porque ele está morando fora. Mas chegou uma hora que bateu vontade de tocar mais, o Fred eu tinha acabado de conhecer no Autoramas e o chamei para entrar na formação nova, que é meio família. A gente tem grupo com o Pedro e com o Fred (no WhatsApp). O Pedro veio tocar em dezembro com a gente e o Fred emprestou os pratos pra ele. E a gente acabou de fazer o melhor disco da gente.

Disco novo? Isso. Se chama Vingue no ringue, foi gravado com um produtor de Porto Alegre, tem as melhores composições e a melhor gravação disparado. Depois das turnês em que a gente passou o Brasil todo, fizemos menos show. Durante quatro anos a gente fazia só show no Rio, gravava disco, mas não saía do Rio. Quando o Hangar foi fechar, anunciou que ia fechar um ano antes, a gente pensou: “Precisamos dar um jeito de ir pra São Paulo”. Marcamos um show no Hangar, o cara de Curitiba chamou (para fazer show), o de Porto Alegre chamou, o de Goiânia chamou… Não sei dizer se hoje está pior, estamos como a gente aguenta. Por causa dos compromissos de todo mundo não temos como viajar muito, mas estamos fazendo Rio e São Paulo direto, uma ou outra cidade.

Você considera que sua trajetória como profissional da música, e não apenas como músico de banda, é inspiradora para outros profissionais? Você foi um cara que além de ser músico passou por diversos outros lugares: Som Livre, Embolacha… E agora tem o livro. Pois é, eu cheguei a escrever em algumas dedicatórias do livro: “Que esse livro possa te inspirar…”. Achei meio pretensioso, mas eu estava meio pretensioso no dia (risos). Eu tenho um amigo que é técnico de futebol e comprou meu livro. E ele me fez umas perguntas bem interessantes, me disse: “Pô, eu li seu livro inteiro e queria saber em qual momento você deixou de perseguir aquele sonho da rádio e do estádio lotado”. Uma pergunta que eu nunca tinha me feito. Quando comecei, o sonho não era estádio lotado. Era o sonho de ter uma banda empreendedora, que corria atrás de tudo, que queria desbravar. O CD independente estava em voga, as bandas estavam começando a se virar só com isso. Nunca teve uma coisa de: ‘Ah, daqui a pouco a gente vai estar na trilha da novela!’. Era: “Daqui a pouco a gente pode prensar nosso CD e viajar”. Mesmo em termos de hoje o Carbona é um absurdo. Em 1997, com seis meses de banda, a gente estava com repertório, já tinha gravado disco e estava em Detroit com CD no bolso.

https://www.youtube.com/watch?v=U_ew72wP_Wk

Minha escola foi muito mais de cair dentro do que tentar outro tipo de recompensa. E eu penso até muito no Panço, que sempre foi muito inspirador. Era um cara que se tinha alguma coisa que ele queria fazer, ele fazia. Na minha leitura era assim: quer lançar um zine? Lança um zine. Quer lançar um livro? Lança um livro. Isso é inspirador, o lance de correr atrás, de fazer as coisas. É legal passar isso adiante, mostrar que se você cair dentro, você vai conseguir resultados. Não é uma coisa de “fiz isso e fiquei milionário”, mas vai fazendo as paradas.

Vou tocar agora em Portugal com o Guga Bruno, meu guitarrista, e quero armar shows lá. E eu estava pensando: “Cara, tá difícil pra caralho, um lugar pode, o outro quer mas não pode porque a bateria faz barulho, o outro não responde e-mail há cinco dias…”. Mas é tão legal fazer isso, sabe? Quero tanto fazer esse show, que nem estou aguentando isso. Tem uma galera que desiste antes porque é chato pra caralho mesmo, sabe? O quanto você está disposto a disparar de e-mails para fazer um show numa cidade onde você não tem interesses comercial nenhum, que você quer fazer porque quer fazer? Acho que se for pra inspirar alguém, é nesse lado de “faz as paradas”. Tem uma galera que me escreve e fala: “Que maneiro seu livro. Quero fazer também”. E eu: “Faz seu livro! Quero conhecer suas histórias!”. Muita gente me pergunta onde fiz o livro, com quem diagramei, como cheguei na editora mais barata… E vamo lá, vamo só fazer.

Hoje em dia mudou muito o jeito como as pessoas se relacionam com tudo isso. O alcance de internet é tão grande que o cara tenta ser grande no mundo antes de ser grande na cidade dele! A gente pirava em lotar em Empório. Não tem uma banda hoje em dia querendo lotar o Audio Rebel. Nego parece que já tá querendo ir mais adiante, tipo: “Quando é que eu vou tocar no Maracanã também? Los Hermanos já tocou!” (risos). Bom, eu queria inspirar as pessoas a terem resultados maneiros e pra mim o melhor resultado que cheguei até hoje foi o livro. Achei que dava trabalho e foi o maior barato escrever. E dá pra sonhar com alguém falando: “Pô, eu caí muito dentro de uma parada porque li aquele livro”.

Você falou de Los Hermanos e muita gente comprou o livro para ver as histórias suas com a banda. Como você vê essa conexão e como tem sido o contato com os fãs deles? Bom, desde a turnê de 2015 sou o responsável pelo merchandising deles. Você acaba batendo papo com as pessoas da lojinha, numa hora você conta que tocou na banda… Quando fiz o crowdfunding, o produtor deles, o Alex, foi um dos primeiros a entrar. Ele e o Barba foram no show de lançamento pegar o livro. Depois o Alex me falou: “O livro tá muito legal, vamos vender na lojinha”. Na lojinha tem um menu com camisa, ecobag, LP e… “livro do Melvin” (risos). As pessoas sempre perguntam: “Mas quem é Melvin e por que o livro dele tá aqui?” (risos). E é uma deixa, como aquela sobremesa especial do Outback que os funcionários vão adorar explicar. É o item do menu que nosso funcionário vai adorar explicar: “Ah, o Melvin tá aqui, é amigo deles, já tocou na banda”. Volta e meia alguém se interessa. O Marcelo (Camelo) já veio comentar do livro, falou de algumas histórias. Tá fluindo bem no universo deles. O show que fiz com o Los Hermanos eu subi no YouTube, inclusive.

Tá no YouTube? Sim, o da final da turnê do Bloco do eu sozinho (em 2002). Mas tem coisas ali que são raras em vídeo. Não sei exatamente o que é, mas tem coisas que são meio raras ali, volta e meia comentam. Tem um cara achando que eu sou o Patrick (Laplan, ex-baixista da banda).

https://www.instagram.com/p/BxHqW0KlxtB/

E como você analisa esse sucesso que os Hermanos fizeram até chegar no Maracanã? No livro eu falo uma coisa que eu não consigo falar diferente… Durante muito tempo vi as pessoas usando eles como referência, porque a relação que aquelas músicas criaram com os fãs é uma loucura. Ninguém acreditava no Maracanã, um amigo meu foi e não estava acreditando lá (risos). Ele chegou cedo pro Tim Bernardes e quando viu o estádio vazio falou: “Ufa, achei que eu estava ficando maluco”. Só que depois ele viu o estádio enchendo e falou: “Caralho, eu tô maluco mesmo!” (risos). Eu fico na gerência, correndo de uma lojinha para outra, e sempre tento ver o início do show. Ver o cara tocando A flor e levantando o Maracanã, uma Fonte Nova… É sempre emocionante. O do Maracanã, eu lembro de ter visto uma galera falar depois: “Ah, vou pra São Paulo ver!”. Eu sempre falava: “Cara, vai, mas o que rolou no Maracanã não pode ser recriado”. Acho que pesou pra todo mundo, tava todo mundo com nó na garganta, senti a banda eletrizada de outro jeito. E não tem explicação, não tem fórmula mesmo. Acho quase uma ofensa alguém se achar muito conhecedor do business e achar que descobriu a fórmula que está por trás. Não tem isso! É uma relação dos fãs com as músicas que eu vi poucas vezes na vida.

Algum recado para quem não conhece o livro? Bom, quem se interessar fico muito feliz. São os maiores sucessos das histórias que eu já contei várias vezes, e o livro mostra um pouco do que foi ter banda nesses vinte anos. Viajei em van com banda, fui pra fora com baixo nas costas… O livro é uma forma de retratar isso sem ter a pretensão de dar uma forma definitiva. Nem eu, nem Panço nem Pedro de Luna saímos para escrever a verdade absoluta disso tudo. Quem ler todos esses livros vai ter um entendimento mais legal.

Fotos: Divulgação/André Oliveira

Cultura Pop

Bono trapalhão? U2 antes da fama, na TV irlandesa, usando fantasias de palhaço

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Bono trapalhão? U2 antes da fama, na TV irlandesa, usando fantasias de palhaço

RESUMO: Antes da fama, o U2 tocou Out of control na TV irlandesa vestido de palhaço. Tem gente achando que é obra da IA, mas não é não.

Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução

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No comecinho de sua história, prestes a fazer as primeiras gravações, o U2 fez um vídeo de Out of control na TV irlandesa em clima de circo, com maquiagens faciais e roupas de palhaço. Tá aí o vídeo.

O vídeo é de 1979 e pertence aos arquivos da RTÉ, emissora pública irlandesa – e pelo que a emissora diz, apareceu no programa Our times. Já teve gente levantando a hipótese de ser obra de IA. Não é, pelo visto. “Embora a estética crua e a qualidade amadora das possam levar os espectadores a questionar a sua autenticidade, este vídeo específico foi documentado e discutido pela comunidade de fãs do U2 como uma peça genuína da história da banda”, diz um comentário publicado no canal do YouTube @DutchU2Fan.

Não foi a primeira vez que a banda esteve na atração: em 13 de novembro de 1978, tocaram a música The fool, numa apresentação que acabou sendo reprisada em 27 de novembro. Aliás, a primeira vez que Bono, The Edge, Larry Mullen e Adam Clayton foram à RTE rolou em 2 de março de 1978, quando ainda se chamavam The Hype – na ocasião, foram a programa Youngline e cantaram Street mission.

Além das maquiagens, Bono surge usando apetrechos teatrais e fazendo caras e bocas para a câmera – em alguns momentos, tudo parece uma cena de humorístico brasileiro dos anos 1970. E naquela altura, Out of control era praticamente o cartão de visitas do U2. Em agosto de 1979, o radialista Dave Fanning apresentou três músicas do grupo em seu programa na RTÉ — Out of control, Stories for boys e Boy/Girl — e deixou os ouvintes escolherem qual delas deveria ocupar o lado A do primeiro lançamento da banda. Out of control venceu. No mês seguinte, as três músicas apareceram no EP Three, cuja primeira edição teve mil cópias numeradas.

A canção também tinha uma origem bastante pessoal. Bono a escreveu quando completou 18 anos, pensando no desconforto de perceber que dois dos acontecimentos mais importantes da existência estão totalmente fora das nossas mãos: ninguém decide nascer e, em última instância, também não controla a própria morte.

Agora: por que diabos eles estão vestidos daquele jeito?

Bom, não há, pelo menos na documentação conhecida sobre a apresentação, uma explicação de Bono, The Edge, Adam Clayton ou Larry Mullen Jr. para as roupas, mas maquiagens e os apetrechos. Também não aparece nos arquivos disponibilizados pela RTÉ uma justificativa para o figurino. Pode ter sido uma ideia do programa, uma brincadeira da própria banda ou simplesmente parte da estética daquela atração

O vídeo pertence a uma fase realmente embrionária do U2, que ainda traria uma apresentação no programa Aspects Of rock em setembro de 1979, tocando Life on a distant planet. Em janeiro de 1980, a banda chegou ao Late late show com Stories for boys. E pouco depois, aquela banda de garotos que ainda podia surgir fantasiada na televisão começaria a gravar a estreia Boy, lançada em outubro de 1980. Um primeiro passo na construção do U2 que a gente conhece hoje.

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Cultura Pop

Video Vanguard Award: afinal, que prêmio é esse que o Nirvana recebeu?

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Video Vanguard Award: afinal, que prêmio é esse que o Nirvana recebeu?

RESUMO: O Nirvana recebeu o Video Vanguard Award no VMA e entrou numa história que começou em 1984 com Beatles e David Bowie. Entenda como surgiu e por que o prêmio mudou ao longo das décadas.

Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução

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O Nirvana voltou ao VMA neste domingo (27) para receber um prêmio que, de certa forma, conta a própria história da MTV. Dave Grohl, Krist Novoselic e Pat Smear subiram ao palco para buscar o Video Vanguard Award, homenagem pelo conjunto da obra audiovisual da banda.

Recebendo a honraria, os mais ilustres três ex-integrantes vivos da baanda entraram numa lista que começou com Beatles e David Bowie e, ao longo de mais de quatro décadas, passou por Madonna, Michael Jackson, R.E.M., Beastie Boys, U2, Beyoncé e vários outros.

Mas o que exatamente é o Video Vanguard? Bom, temos duas respostas, uma curta e uma longa. A resposta curta: é uma espécie de prêmio pelo conjunto da obra do VMA, dedicado a artistas que tiveram impacto importante sobre o videoclipe e a cultura pop. Não está ligado a um vídeo específico lançado naquele ano e nem sequer é entregue em todas as edições.

A resposta longa é… a própria história do prêmio. E é a melhor resposta, já que o prêmio nasceu junto com o próprio VMA, em 1984. E não custa lembrar que nessa época videoclipe ainda era uma linguagem em formação e a MTV tinha apenas três anos. Na primeira cerimônia, só pra você ter uma ideia, David Bowie ganhou o prêmio, e houve menção especial aos Beatles e a Richard Lester, que dirigiu os filmes Help e A hard days night, do quarteto.

No caso dos Beatles e Lester, a escolha reconhecia especialmente a importância dos filmes do grupo para aquilo que, anos depois, se consolidaria como a linguagem do videoclipe – e da mesma forma, Bowie havia desenvolvido muito do idioma dos clipes vários anos antes. Na real, como ainda nem sequer havia uma “história” do videoclipe, era fundamental apontar quem havia ajudado a inventar aquela nova linguagem.

Nos anos seguintes, por sua vez, já estava claro que o grande lance era premiar quem já estava fazendo história ali mesmo, com a linguagem dos clipes. Em 1985, ganharam o prêmio David Byrne (então apenas o líder dos Talking Heads) e os diretores Russell Mulcahy e Godley & Creme. Madonna recebeu em 1986. Peter Gabriel, em 1987.

Detalhe: Michael Jackson ganhou em 1988 e, a partir de 1991, seu nome passou a ser associado oficialmente à honraria, que durante décadas ficou conhecida como Michael Jackson Video Vanguard Award. Em 2019, a MTV silenciosamente, mas nem tanto, tirou o nome do astro do prêmio. Nesse ano, a vencedora foi a rapper Missy Elliott.

Na década seguinte, a lista parece quase um resumo do período em que rock e MTV andavam grudados. Bon Jovi recebeu o Vanguard em 1991; Guns N’ Roses, em 1992; Tom Petty e Rolling Stones, em 1994; R.E.M., em 1995; Red Hot Chili Peppers, em 2000; U2, em 2001; e Duran Duran, em 2003. Exceções à regra: em 1997 o rapper LL Cool J levou a estatueta pra casa. No ano seguinte, os Beastie Boys ganharam o prêmio.

Depois, o perfil foi mudando junto com a própria MTV e com a cultura pop. Britney Spears, Justin Timberlake, Beyoncé, Kanye West, Rihanna, Pink, Jennifer Lopez e Missy Elliott estão entre os homenageados. Nos últimos anos vieram Nicki Minaj, Shakira, Katy Perry e Mariah Carey. Agora o prêmio volta ao rock com o Nirvana.

Dá pra dizer que poucos grupos carregam uma ligação tão evidente com a era clássica da MTV. Smells like teen spirit não apenas virou um dos clipes mais associados aos anos 1990 como ajudou a transformar a imagem do rock no canal. Come as you are, In bloom e Heart-shaped box reforçaram uma identidade visual que misturava estranheza, humor, desconforto e uma boa dose de antipatia pelos padrões do estrelato.

No VMA deste ano, coube a Chuck D, do Public Enemy, entregar o prêmio. Novoselic aproveitou o discurso para colocar Kurt Cobain no centro da história e lembrou que muitas ideias dos vídeos vinham da visão artística do vocalista. Para ele, a permanência do Nirvana também tem relação com uma busca do público por autenticidade.

Grohl, Novoselic e Smear receberam a homenagem sem Cobain, morto em 1994, mas com sua imagem aparecendo durante a cerimônia. A escolha fecha um círculo curioso: uma banda que ajudou a definir a MTV dos anos 1990 recebe, mais de três décadas depois, um prêmio criado justamente para reconhecer quem mudou a maneira de juntar música e imagem.

Mais do que um troféu para quem acumulou clipes famosos, o Video Vanguard começou como uma homenagem a quem empurrou o videoclipe para algum lugar novo. E sua lista de vencedores acabou registrando também as mudanças da própria MTV: dos Beatles e dos diretores pioneiros ao domínio do rock, daí às grandes estrelas do pop e do hip hop.

Agora o Nirvana entrou nessa história. Digamos que, para uma banda que chegou à MTV parecendo não pertencer àquele mundo, demorou bastante.

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Cultura Pop

Qual é a do The Coverups, banda de covers de Billie Joe (Green Day) e amigos?

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The Coverups: Billie Joe recebe Bruce Dickinson (Foto: Reprodução Internet)

Antes de Bruce Dickinson, cantor do Iron Maiden, aparecer de surpresa no palco em Québec, o The Coverups já dava muitos sinais de vida havia anos. O projeto paralelo de Billie Joe Armstrong continua funcionando exatamente como nasceu: como uma desculpa para tocar músicas que seus integrantes amam, sem a pressão de lançar discos ou sair em turnê.

Criado em 2018, o grupo reúne integrantes e colaboradores do Green Day em apresentações pequenas, normalmente em clubes da Califórnia. A formação original contava com Billie Joe Armstrong (voz e guitarra), Mike Dirnt (baixo e voz), Jason White (guitarra), Bill Schneider (baixo) e Chris Dugan (bateria) – Mike e Jason são os únicos que fazem parte também do Green Day, sendo que Jason atua como músico de turnê. Nos últimos anos, porém, Dirnt deixou de participar dos shows, e o The Coverups passou a atuar como quarteto.

O repertório é uma carta de amor ao rock e ao punk. Clássicos de Ramones, David Bowie, The Clash, Cheap Trick, Joan Jett, Tom Petty, Misfits, Nirvana, Rolling Stones e até Strokes costumam aparecer nas apresentações, que muitas vezes são anunciadas poucas horas antes de acontecer. Diferentemente de outros projetos paralelos de Billie Joe, como Foxboro Hot Tubs e The Longshot, o The Coverups nunca teve a intenção de gravar músicas próprias. A proposta é apenas revisitar clássicos em um ambiente intimista, recriando um pouco da atmosfera dos primeiros dias do Green Day nos clubes da região de Berkeley e Oakland.

Mesmo sem lançar um único álbum de estúdio, a banda conquistou um público fiel justamente por isso: oferece a rara oportunidade de ver Billie Joe tocando as músicas que ajudaram a moldar sua formação musical, longe das grandes produções e da rotina de estádios do Green Day.

Nos últimos meses, o The Coverups voltou a fazer apresentações esporádicas na Califórnia, mantendo esse espírito despretensioso. Não havia qualquer indicação de mudanças de rumo, nem anúncios de gravações ou turnês. A maior novidade acabou sendo justamente a participação-surpresa de Bruce Dickinson em um show realizado em Québec. Sem aviso prévio, o vocalista do Iron Maiden subiu ao palco para cantar All the young dudes, clássico do Mott the Hoople escrito por David Bowie, num encontro improvável que reuniu dois dos nomes mais conhecidos do rock em um contexto bastante informal.

Houve uma outra novidade recente, que rolou durante o show da banda no Roxy, na Califórnia, dia 21, uma segunda-feira. Antes de tocar Drain you, clássico do Nirvana (do disco Nevermind, de 1991), Armstrong dedicou a música a Jennifer Finch, baixista do L7, que morreu recentemente. Antes, Adrienne Armstrong, esposa do músico, havia doado US$ 5 mil para uma campanha criada para ajudar a custear o tratamento de Finch.

De qualquer jeito, Bruce fi a primeira participação especial de grande repercussão na história recente do The Coverups e, naturalmente, chamou muito mais atenção do que os próprios shows da banda. Ainda assim, tudo indica que o projeto continuará exatamente como sempre foi: um grupo de amigos reunidos para tocar os discos que mudaram suas vidas, sem maiores pretensões além da diversão.

Ah, sim: importante falar que All the young dudes faz parte do repertório solo de Bruce há bastante tempo. Ele a havia regravado em seu primeiro álbum solo, Tattoed millionaire, de 1990. Na época, teve até clipe da faixa.

Foto: Reprodução Internet

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