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Crítica

Ouvimos: Idles – “Caught stealing” / Nine Inch Nails – “Tron: Ares” (trilhas sonoras)

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Idles e Nine Inch Nails brilham em trilhas de 2025: um pós-punk tenso e experimental em Caught stealing e um NIN sombrio e autoral em Tron: Ares.

RESENHA: Idles e Nine Inch Nails brilham em trilhas de 2025: um pós-punk tenso e experimental em Caught stealing e um NIN sombrio e autoral em Tron: Ares.

Texto: Ricardo Schott

Notas: 8 (Idles) e 8,5 (NIN)
Gravadora: Partisan (Idles) e Interscope (NIN)
Lançamento: 29 de agosto de 2025 (Idles) e 19 de setembro de 2025 (NIN).

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2025 foi o ano em que duas bandas significativas – uma delas mais recente, a outra bem mais veterana – fizeram duas trilhas sonoras que chamaram a atenção. No caso de Ladrões (Caught stealing), filme novo de Darren Aronofsky, o Idles passou boa parte do tempo ocupado tocando a trilha incidental composta por Rob Simonsen (de trilhas como A baleia, Deadpool & Wolverine), mas ainda teve tempo de contribuir com quatro inéditas autorais.

Ao contrário da linha que o grupo havia seguindo em seu disco mais recente, Tangk (2024, resenhado aqui), mais glam e até bem humorada, os Idles voltam ao peso de seus álbuns anteriores e fazem um pós-punk quase tão aterrorizante quanto alguns filmes do próprio Darren. Doom é um som marcial, com bateria lembrando vários tiros. Cheerleader tem distorções, bateria intermitente e vocais gritados e fortes, enquanto Coper é um jazz-rap eletrônico, amedrontador e brigão, e Rabbit run põe um pouco de psicodelia na história.

Boa parte do material incidental, por sua vez, tem uma espécie de beleza tensa, cheia de ruídos e climas fantasmagóricos. E, complementando, os Idles ainda fizeram uma versão de Police and thieves, de Junior Murvin, imortalizada pelo Clash – só que aqui, ela paredce mais coisa do Faust ou de alguma banda pouco conhecida de krautrock.

Teve também o Nine Inch Nails, que fez a trilha de Tron: Ares – e acabou assinando a trilha por sugestão do próprio presidente da Disney Music, Tom McDougall. Ele inicialmente havia convidado Trent Reznor e Atticus Ross, mas preferiu que o nome do grupo constasse do material.

Com isso, Tom acabou jogando um holofote no fato de que Tron e suas trilhas seguem uma linhagem de vanguarda na música eletrônica que iniciou com Wendy Carlos fazendo a trilha do filme original (1982), seguiu com o Daft Punk criando a de Tron: Legacy (2010), e agora o NIN. A diferença do Idles pro NIN, no trabalho de trilheiro, é que Tron: Ares é um disco do Nine Inch Nails sem tirar nem pôr, com aquele mesmo clima perigoso e sombrio associado a álbuns do grupo como The donwnward spiral (1992) – ainda que, na prática, haja poucas faixas que sejam 100% NIN.

O disco tem uma vibe meio ambient em faixas como Init, a apocalíptica Forked reality e o instrumental desorientador Echoes, além de fantasmagoria sonora em músicas como This changes everything, a velvetiana I know you can feel it e a solene Building better worlds. Who wants to live forever?, por sua vez, faz lembrar David Bowie, e A question of trust tem peso industrial, sujo e eletrônico nos teclados.

Vendo por aí, o Idles se entregaram mais ao papel de trilheiros, e o NIN fez um disco bem próprio – que, na boa, tem menos cara de trilha do que o trabalho feito pelo Daft Punk. Ouvidos em separado dos filmes, Tron: Ares se sustenta, e Caught stealing soa um tanto mais solto e experimental.

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Crítica

Ouvimos: Douglas Germano – “Branco”

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Em Branco, Douglas Germano mistura samba, Nordeste e experimentação para cutucar a elite: disco político, inventivo e feito para provocar.

RESENHA: Em Branco, Douglas Germano mistura samba, Nordeste e experimentação para cutucar a elite: disco político, inventivo e feito para provocar.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Independente
Lançamento: 19 de setembro de 2025

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“A Zelite não gosta de forró/ A Zelite no samba, que caô”, diz Zelite, samba nordestino do novo disco do paulista Douglas Germano, Branco. A elite (que surge na faixa como trocadilho) fecha os olhos para estilos como o piseiro e para as renovações da música nordestina – mas cai dentro do que pode ser considerado cult, do que tem passe livre. A mesma elite que…

Bom, milhares de eventos poderiam ser citados aqui, mas vale dizer que Branco, novo disco de Douglas, é tudo ao mesmo tempo: experimentação, samba, nordeste, dedo na cara, verdades nada secretas. Douglas disse (num papo com ninguém menos que Tárik de Souza) ter feito tudo sozinho no estúdio, com alguns convidados e parceiros (Luiz Antonio Simas, Roberto Didio e Alfredo Del Penho entre eles), e que decidiu usar instrumentos de percussão onde eles necessariamente não seriam usados.

Com um clima sonoro que soa primo simultaneamente de Tom Zé e João Bosco, Douglas abre Branco com Na ronda, samba de umbanda com sons rangendo em meio aos acordes, ruídos que lembram algo trilhado no aço. Zelite, além de desmascarar pessoas, cria imagens (“surfista de trem faz vagão virar mar”), enquanto a ágil Tudo é samba, com Loretta Colucci nos vocais, lembra algo feito para Elis Regina. Ramo tem orações e diálogos entre o narrador e uma rezadeira, e a percussiva Ruge leão, troveja Xangô ganha ares de samba-enredo. Uma das faixas que mais ganharam beleza com o coral de dez integrantes que surge no disco.

Mais climas nordestinos surgem em Ode do pode ou não pode, 19 de março e nas evocações de Lenine na melodia e no arranjo de Xaxará. Bala perdida é um samba sombrio, comparando traçantes a luzes na escuridão, enquanto Desbancando Gordon Banks é um samba agitado, cuja letra visita vários mundos ao mesmo tempo. Uma surpresa é Branco, ijexá tocado no piano – cuja mixagem destaca o instrumento como condutor das melodias.

E já que as plataformas digitais não dão ficha técnica, não tem problema: Branco é encerrado com Branco áudio encarte, trazendo todos os créditos do disco em meio a violão e percussão. O fim de um disco feito para cutucar consciências.

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Ouvimos: These New South Whales – “Godspeed”

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Godspeed mostra os australianos do These New South Whales fazendo um caldeirão de punk: pós-punk, Ramones e anos 1990, som instintivo, cheio de referências.

RESENHA: Godspeed mostra os australianos do These New South Whales fazendo um caldeirão de punk: pós-punk, Ramones e anos 1990, som instintivo, cheio de referências.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 28 de novembro de 2025

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Vindo da Austrália, o These New South Whales faz parte de uma geração mais recente do punk – na qual entram também grupos como Home Front e Spiritual Cramp. No caso deles, que lançam agora o quarto álbum, Godspeed, o resultado está mais para um cozidão bem feito e bem atualizado de referências. Ainda que até faça falta a procura de uma onda mais inovadora (território, por sinal, do Home Front), é um som mais instintivo – por sinal, Instinct, segunda faixa de Godspeed, tem guitarra estiligando e sonoridade que une Iggy Pop e Ramones.

A romântica Miss her varia entre pós-punk e Buzzcocks + Ramones. Big machine (a melhor do disco e a que tem mais cara de hit) e R.I.P. me aludem à nova leva de bandas pós-punk. Músicas como a faixa-título e Ecstasy aludem ao rock dos anos 1990, unindo punk, grunge e evocações de Pixies e Therapy?, enquanto a ágil Birdbrain alude a T.S.O.L. e a New Model Army.

Uma curiosidade em Godspeed é Nobody listens, uma espécie de punk sofisticado levado adiante por piano, voz e cordas, e que faz lembrar Changes, hit do Black Sabbath. Já as letras do álbum seguem o mesmo esquema de apelo aos instintos, recomendando mandar um foda-se para as expectativas alheias (Be what U wanna be e justamente Instinct), afastar FDPs de plantão (R.I.P me e a faixa-título) e coisas do tipo. O fato de unir referências e fases do estilo faz o TNSW soar às vezes como uma colcha de retalhos punk – mas os acertos são maiores.

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Ouvimos: Jubba – “Caminhos tortos” (EP)

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Jubba estreia com o EP Caminhos tortos, lo-fi e shoegaze à la Mac deMarco e DIIV, transformando inquietações em canções deprês e sensíveis.

RESENHA: Jubba estreia com o EP Caminhos tortos, lo-fi e shoegaze à la Mac deMarco e DIIV, transformando inquietações em canções deprês e sensíveis.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Slowrecords
Lançamento: 28 de novembro de 2025

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Inspirado em nomes como Mac deMarco e nos cenários lo-fi e shoegaze dos anos 2010 – e volta e meia lembrando a música de bandas como DIIV – Jubba estreia no EP Caminhos tortos pondo música e barulho em deprês, inquietações e altos e baixos pessoais.

O conceito do disco é basicamente a busca de caminhos pessoais, ainda que de forma totalmente distante dos padrões. Tanto que a abertura é com os ruídos e o beat eletronico leve de Ode aos esquisitinhos, música de versos como “eles esperam que eu caia / que eu fique na merda pra sempre” e “não vou mais fingir quem sou”. Climas deprês e vibes da “vida de artista” surgem em Empregos reais, balada de guitarra e de percussão eletrônica, que acaba ficando próxima do pós-punk e do eletrorock, com direito a citação de Teatro dos vampiros, da Legião Urbana.

Há algo de Legião também em Flores no meu quarto, música com beat eletrônico seco, que depois vira algo quase ambient, com guitarras e teclados – quase na cola do final de Fábrica, penúltima música do segundo álbum do grupo, Dois (1986) – e cuja letra fala sobre beleza na amargura e no isolamento. Sensível ganha ares de trip hop, com direito a uma segunda parte bem mais hipnótica. Climas herdados do hip hop lo-fi surgem nos efeitos sonoros de A sensação. No final, a triste balada experimental Eu não sei dizer adeus propõe seguir em frente.

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