Crítica
Ouvimos: Hidden Cameras – “Bronto”

RESENHA: Em Bronto, o Hidden Cameras leva seu “folk gay de igreja” à pista, com eletrônica minimalista, hi-NRG e ecos de Kraftwerk e Queen.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: EvilEvil
Lançamento: 12 de setembro de 2025
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O mundo parecia esperar por uma banda que unisse o mundo queer ao clima solene do pop barroco – com a chegada de nomes como Anohni, essa união parece ter ficado bem mais clara. Joel Gibbs, músico canadense que criou o Hidden Cameras, encontrou razões para existir musicalmente em torno disso aí, tanto que já definiu seu grupo como “folk gay de igreja”.
Enfim: um som contemplativo, que às vezes lembra o lado gospel e torturado do folk setentista, e que decididamente ousa dizer nomes. Discos como The smell of our own (2003, com foto de capa emoldurada por bundas masculinas), Age (2014) e o surpreendentemente country Home of native land (2016) são as provas dessa coragem. Isso sem falar que Gibbs, filho de missionários batistas cristãos, une em seu som leituras bem próprias da Bíblia e climas quase sacros. Se você não entender patavinas de inglês, vai achar que a melô do golden shower Golden streams é uma canção de Natal, ou que a putaria santa de Ban marriage poderia tocar em Encontros de Casais com Cristo.
- Ouvimos: Anohni and The Johnsons – My back was a bridge for you to cross
E aí que Bronto, o oitavo disco do Hidden Cameras, marca diferença na discografia de Gibbs indo com tudo no universo dance. Quase sempre é uma eletrônica dançante, texturizada e minimalista, como no hi-NRG de How do you love?, ou no eletrorock sombrio Full cycle, ou na instrumentação esparsa de Quantify, que abre com voz e beat, vai ganhando teclados, efeitos e eco, e depois mais beats e percussões.
Por outro lado, tem o tecnopop voador de Undertow, que tem muito de I want to break free, do Queen. Além de lembranças claras de Kraftwerk, Dead Can Dance e Orchestral Manoeuvres In The Dark em faixas como Brontosaurus law, Wie wald e o tecnopop alegrinho You can call. As letras, por sua vez, têm menos ironia, mais tristeza e mais reconforto – e mais convite à luta. Em You can call, Gibbs diz que estará por perto quando um amigo passar por abusos. Undertow é dor de cotovelo sem disfarces. Wie wald prega que “descobrimos que somos melhores quando mais sábios. E voamos muito melhor quando somos mais selvagens”.
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Crítica
Ouvimos: Prisonnier Du Temps – “Prendre le pouvoir par la force”

RESENHA: Em seu projeto solo Prisonnier Du Temps, Lionel Cadiou cruza oi!, pós-punk, hardcore e skate-punk em faixas de guitarras nervosas, vocais de revolta e espírito de confronto.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: La Vida Es Un Mus
Lançamento: 15 de maio de 2026
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Lionel Cadiou faz parte do Syndrome 81’, banda francesa que uniu estilos como oi! punk e pós-punk. Prisonnier Du Temps é seu “projeto solo”, funcionando quase como um codinome. E o álbum Prendre le pouvoir par la force ganha ares de mudança de atitude sonora, em que faixas como Trahisons et mensonges abrem num clima que chega a lembrar bandas como New Model Army – com violões, microfonias e ataques sonoros. Depois, a faixa embarca na oi! music à maneira de bandas como Angelic Upstarts.
La liberté s’obtient par le sang (“a liberdade é conquistada através do sangue”), sustentada por guitarras nervosas e por uma linha de baixo dominante (além do violão na base), tem a mesma cara guerreira de bandas como Social Distortion, com melodia simples e bem feita. O mesmo clima toma conta de faixas como L’armée des ombres, música ágil e quase pós-punk, e do clima quase gótico de Dans la douleur et les larmes e Le genou à Terre.
O Prisonnier investe também em climas abertos e de pura roda na plateia, como Dernier regard, punk para ouvir com os braços pra cima – caindo no skate-punk e no hardcore em Et jusqu’à la mort, gravada em meio a uma parede de som. Berrando como um sindicalista, Lionel convoca à revolta geral fazendo guitarras soarem como sirenes em Bout de nervs – que encerra tudo promovendo a melhor união oi! + pós-punk do álbum.
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Crítica
Ouvimos: Changing Places In The Fire – “Changing Places In The Fire”

RESENHA: Na estreia, a banda venezuelana radicada nos EUA Changing Places In The Fire cruza prog-metal, math rock, nu metal e grunge para falar de exílio, falta de perspectivas e deslocamento.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Wild Thing Records
Lançamento: 24 de julho de 2026
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O Changing Places In The Fire é uma banda venezuelana radicada nos Estados Unidos – só isso já dá pano pra manga e assunto pra vários discos. A banda foi para lá fugindo da porradaria, provavelmente antes do aperto geral do governo Trump, e o próprio nome do grupo já indica o dilema entre a cruz e a caldeirinha. Um dilema que domina quase todas as faixas de Changing Places In The Fire, a estreia deles, com faixas falando diretamente sobre exílio (The epiphany tree) e falta de perspectivas (A case against the world).
Já o som do Changing Places In The Fire é um prog-metal bem feito, que capricha em beats quebrados, às vezes próximos do math rock – como em The epiphany tree e no clima pós-punk + nu metal de A reason to fall. Tem muita coisa que caminha para o lado do metalzão cromado (as ótimas guitarras de The fury and the sound e Home). Além de uma balada metálica (Into the unknown) e climas próximos do metal-grunge (Learn to die), e de coisas bem progressivas, como a balada sintetizada e fantasmagórica Black oceans, e a tranquila The door left behind.
Não chega a ser uma proposta original, mas o Changing Places une momentos de cara própria em meio a lembranças de bandas como Tool e Avenged Sevenfold – é um metal progressivo acessível e que valoriza mais a emoção do que a técnica ou a construção de atmosferas. Tanto que dá pra achar riffs econômicos em faixas como A case against the world, valorizando momentos de simplicidade em meio à elaboração mesmo em músicas quase psicodélicas como As if you were free.
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Crítica
Ouvimos: Anaïs Sylla – “Exil”

RESENHA: Em seu disco de estreia, Exil, Anaïs Sylla transforma a experiência do exílio em pop sofisticado, cruzando ritmos afro-caribenhos, reggae, r&b, ambient e folk malinês.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Alá Comunicação e Cultura
Lançamento: 21 de agosto de 2026
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Exil, nome do álbum de estreia da franco-suíça-senegalesa Anaïs Sylla, foi tirado de Exil, filme do cineasta Tony Gatlif – uma obra sobre pessoas errantes, que passam por culturas e identidades diferentes. Anaïs, radicada no Brasil, começou a pensar o disco na época da pandemia, quando o “exílio” que geralmente é feito entre países e novas culturas, virou uma obrigatoriedade que deveria ser vivida dentro de casa.
Acabou se tornando uma usina pessoal de criação rítmica e melódica, em que efeitos sonoros, violões, percussões e vocais macios unem-se em canções pop de clima afro e caribenho, como em Minha irmã (com Anelis Assumpção), Regard croisés, Rêver (com Jota.Pê e Caê) e o reggae De bouche à bouche. Em alguns momentos, Exil lembra o começo da carreira de Céu, mas com outras ideias rítmicas no lugar do samba-jazz eletrônico.
O som também abarca r&b ultratexturizado (Silhouette), um ambient viajante e leve (La mer) e o folk do Mali de Je chantrai pour toi (com Tiganá Santana). Exil traz tambem Anaïs lembrando do tempo em que cantou com João Donato na versão de Lugar comum em francês (Endroit commun), e fazendo pop sofisticado e marítimo em Traverséé.
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