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Cultura Pop

Entrevista: Guilherme Arantes – “Meu próximo disco vai ser o meu ‘The Wall'”

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Vivendo desde 2019 em Ávila, cidade de pouco menos de 58 mil habitantes na Espanha, Guilherme Arantes já se prepara para voltar ao Brasil – possivelmente em julho, mês do seu aniversário de 68 anos. Foi para lá a princípio para se reciclar no piano e aproveitou para se isolar durante a pandemia. Além da saudade do Brasil, o motivo do retorno é o lançamento de um novo disco (o nome, ele não revela) que ele define como o seu The wall – a ópera-rock do Pink Floyd, lançada em 1979.

“Vou trazer de volta o meu lado progressivo, com músicas de nove minutos, umas coisas com primeira e segunda parte”, recorda Guilherme, que edita também uma espécie de making of do disco, incluindo imagens suas num auditório de Ávila e coisas que os músicos do disco (que gravaram à distância) mandaram. O álbum teve masterização do americano Howie Weinberg. “O cara que fez o disco Nevermind, do Nirvana. Ele me ligou e falou: ‘What the fuck? Que som lindo!'”, comemora.

Ele revela que muito do seu lado de fã de bandas como Dream Theatre e Iron Maiden também vai estar no álbum – recentemente ele revelou sua paixão pelo som do grupo de The number of the beast num post, e disse que “algo o chamava para se aproximar desse estilo”. Guilherme também vem dando uma de DJ no Facebook, postando músicas que gosta de ouvir e alguns clássicos – sua seleção inclui The Byrds, George Michael e Bjork.

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O autor de músicas como Planeta água começou a carreira solo em 1976 (após alguns anos no grupo progressivo Moto Perpétuo). Mas se considera bastante próximo da geração que veio com o rock nacional dos anos 1980. Defende inclusive que a geração de artistas como Paralamas do Sucesso, Blitz e Marina Lima deveria ganhar um lugar mais respeitável na história. “O movimento dos anos 1980 foi mais importante que a Jovem Guarda”, diz Guilherme, que conversou com o POP FANTASMA por chamada de vídeo.

POP FANTASMA: Como estão as coisas aí na Espanha?

GUILHERME ARANTES: Estou em Ávila, é como se eu estivesse no interior de São Paulo, uma cidade tipo Jaú, com a roda dos velhinhos conversando. Eu vim para cá para estudar piano, barroco, fazer exercício, estudar partituras. Acabei tendo até uma inflamação na cervical. Já estou com 68 e o organismo reclama. Fiz um tratamento à base de medicamentos fortíssimos. Estou na base de uma terapia a base de injeções e está controlado. Mas às vezes volta e dói o braço todo, uma coisa horrorosa.

Teve um período em que eu fiquei realmente de cama, com muita dor. Ficava deitado por causa do peso da cabeça. E comecei a ler muitos livros. Principalmente sobre as histórias da música popular brasileira. Me deu vontade de entender como eu estava dentro desse processo, da minha origem. Onde a gente entra, onde entra minha geração, o hiato que houve com o AI-5, o ano de 1968, a história do (Wilson) Simonal, a história do jornalismo cultural brasileiro, a fabricação da opinião no Brasil.

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Fui me entender nessas alturas, aos 40 e tantos anos de carreira. Fiz um balanço e vi que estou no bônus. E estou fazendo um disco maravilhoso, com letras bem estruturadas. As leituras fizeram bem, deu um upgrade. Mas vou voltar ao Brasil e vou me expor a esse ambiente tóxico da realidade, a como está o Brasil hoje. Se eu estivesse no Brasil não estaria fazendo grande coisa. Moro na Bahia e iria estar no estúdio, tocando piano, ia ficar dentro de casa, porque show não tem. Houve um prejuízo muito grande. Vários artistas até estão em gestação, Marisa Monte, Caetano Veloso.

Aqui a cidade está em excitação pela volta da convivência, os bares, os restaurantes, porque é a região da carne. Está chegando o verão e a Espanha se prepara para receber dez milhões de ingleses, alemães, eles vêm para a Costa do Mediterrâneo. Só que não acabou a pandemia. Eu já até me vacinei, tomei duas vacinas da Pfizer. A gente se cadastrou ali no serviço, porque meu seguro-saúde é no Brasil, a gente tá descoberto. E enfim, não posso pegar essa merda.

O disco já tem uma data para sair?

Eu faço aniversário dia 28 de julho, então deve sair fim de julho, começo de agosto. Várias vezes a gente saiu com coisas novas em agosto, que é um mês que as pessoas nem gostam porque é meio misterioso. Mas é uma data-limite, porque no segundo semestre já começa a escalada presidencial e o Brasil fica sem assunto. Nem sei como vai ser esse 2022. Não queremos entrar em 2022 sem ter lançado o disco porque o momento-janela é agora.

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Meus colegas não conseguem emplacar nada, o Brasil tá o país do desânimo, da catatonia, uma desproteção total. A sociedade se vê desprotegida, o estado é uma peste. Brasília parece que tem urucubaca. Antes era o Rio, isso não muda. Tem períodos em que você sente um mood positivo. Foi assim na época da bossa nova, no primeiro mandato do Lula. Mas parece que existe um sistema que leva tudo para o buraco. Procuro nem falar muito porque eu tô fora, tanto que nas redes quero sempre falar de música, propor coisas para as pessoas ampliarem o espectro emocional. Tenho esse handicap negativo, de estar fora desde 2019, alguém pode falar: “Ah, cala a boca e fica aí na Espanha…”

Mas isso como se você não tivesse liberdade de expressão de falar o que quiser sobre seu país, certo?

É, mas a raiva foi legitimada, já vem essa frase pronta: “Por que você não cala a boca? Você virou as costas para o Brasil!” Bom, eu assino todos os jornais, leio a direita, leio a esquerda. A informação que chega é uma informação processada, e iniciou-se um processo de solapar a imprensa. Aqui a gente vê uma TV de El Toro, que é de direita, e tem os debates do pessoal conservador. E tem uma TV da Andaluzia que é de outra linha.

Agora, tem o detalhe que a Espanha é um país do agronegócio, um grande fazendão. E o Brasil tá a caminho disso, de ser um grande fazendão, excludente, onde o povo vai se amontoar nos quilômetros da cidade. Vai virar só um provedor de commodities. É um projeto desempregador, desagregador de emprego.

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Isso é bem a cara do Brasil faz tempo.

E a Espanha é um fazendão também, cidadezinhas esvaziadas, um bar, um mercadinho, um monte de casas. Tudo vazio, no meio de uma plantação de trigo. E essa plantação é multinacional, industrializada, trigo transgênico. Você não tem mais natureza, povo, tudo se transforma numa produção de agro indústria. E é um país pequeno, do tamanho da Bahia. Acho que boa parte da Europa se recupera da crise, mas o Brasil me preocupa pelos próximos cinco anos.

Você tem postado músicas no Facebook e volta e meia isso vira notícia. Como começou a fazer isso?

O que tem de mais legal, positivo, é falar do mundo que a gente pertence. Todo mundo tá se metendo a ser politizado, mas eu acho que através da música a gente existiu politicamente com muita força. Outro dia eu postei o Turn turn turn, dos Byrds, o I wasn’t born to follow (também do The Byrds) que é uma música do filme Easy rider, foi basal para mim. É a marca de uma geração que através da arte construiu um mundo novo.

A indústria cultural do século 20 conseguiu mudar o mundo de várias maneiras, fazer as pessoas viverem melhor por terem um conteúdo emocional preenchido. Sinto falta disso, porque o mundo hoje está muito utilitário. Os gêneros hoje não trazem o sentimento. Não deslegitimo o funk, o sertanejo, mas são janelas de marketing que se basearam no utilitarismo, no coletivismo hedonista. E tem um movimento que é um neo-hippismo, influenciado pelo folk: Tiago Iorc, Anavitória, Melim, Vitor Kley, Ana Vilela…

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Você cantou Trem bala, da Ana Vilela, numa live, inclusive…

Ela é um manifesto de uma geração, uma música muito bonita e muito simples. Inclusive é interessante porque ela e a Anavitória nasceram de um Centro-Oeste de agronegócio onde tem o sertanejo predominante, mas ela é um movimento de uma juventude ávida por sentimento. É um manifesto anti-utilitário, de uma juventude que sente falta de sensibilidade, daquela coisa do interior, comfort food. Uma leveza do interior, do fogãozinho de lenha. O único componente que essa juventude não inclui é o LSD, né? Era um elemento revolucionário e a gente pegou isso em cheio na nossa geração.

Nas minhas redes, a única coisa que eu não coloco são as predominantes na cultura de massa, a cultura de balada. A música baladeira tem uma proposta que é antirreflexiva, anti-individual, anti-sentimento. As pessoas se embrutecem. Isso ocorria também no rock, no show do Kiss, um lado tribal, que você propõe um rito. Minha filha mais nova ia nos shows do Wesley Safadão na Bahia, e era uma galera achando lindo se dissolver numa multidão emburrecida.

É gostoso emburrecer, parar de pensar, sentir, mas a música de balada foi caindo em qualidade. Teve o movimento disco que trouxe Donna Summer, Giorgio Moroder… Tinha uma estética musical elaborada, uma riqueza, mas era desse comportamento de se dissolver. A nossa geração também teve isso com as danceterias. Mas nossa geração foi muito boa para a música popular, para a juventude brasileira. Eu classifico o movimento dos anos 1980 como sendo mais importante do que a Jovem Guarda. Porque nós duramos. Paralamas durou, Titãs durou, Legião Urbana durou, até o Guilherme Arantes durou. Tocamos na vida das pessoas.

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Muita coisa da Jovem Guarda era vazia de letras, e eram versões na maior parte. Tinha muita coisa idiota, na nossa geração também teve. Mas fomos uma geração que deu Marina, Lulu, Ritchie… Um repertório vasto. Você não pode comparar Jovem Guarda com Paula Toller, com Marina, Herbert Vianna. Não vendemos aquela quantidade de disco da Jovem Guarda, mas nossa geração durou.

Mas entram coisas novas no seu Facebook.

Sim, às vezes eu coloco o Letrux, o Vanguart. Eu gosto. São pessoas que estão procurando ainda esse espaço reflexivo, viajeiro na música. E acho que tem um movimento aí. Tem a turma do dub, do soundsystem, uma celebração, um rito, mas é diferente do baladão sertanejo, que se baseia numa vaidade, numa exibição de poder. As figuras do neosertanejo são de um se achar… Se acham maravilhosos. Imagina, você é um desses cantores que tocam todos os dias da semana para 40 mil pessoas a cada dia. No fim de semana você tocou para um milhão de pessoas. Você é muito mais importante que os Beatles!

Bom, vendo pelo público nos shows…

Os Beatles nunca tocaram para essa multidão. O cara se sente, ele sobre no palco e é uma figura ridiculamente histriônica. Bem diferente de ir num show da Madonna, ou da Dua Lipa. Eu morei uns meses em Londres e vi o Prince fazendo o show Diamonds and pearls. Fui no Earl’s Court ver o Prince e alucinei. Lembro que vi onze shows da turnê em vários pontos e a última vez comprei no gargarejo. Custou 600 libras a entrada. Vi Prince alguns metros distante de mim, a pedaleira com pele de carneiro. O cara era um esteta.

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E na Espanha, o que tem?

Aqui tem a coisa do reggaeton (imita a batida) que é o ritmo mais careta que se criou, pobre e chatérrimo. Eu não sei que graça tem, as pessoas tomam toda, todo mundo lindo de morrer, muito enfeitado, e vão lá dançar essa porcaria dessa música. Odeio essa música, muito mais que o sertanejo, o axé, o arrocha… Acho até o Safadão mais divertido que o J Balvin. Você teve recentemente o Despacito, do Luis Fonsi… A estrutura da música é a mesma harmonia do Forever young (do Alphaville), aquela harmonia que tantas vezes já foi denunciada (toca no piano). No fundo é algo mais comportamental do que musical. Os Beatles, Madonna, Led Zeppelin, são comportamentais mas não só isso. Outro dia mostrei meu lado que gosta de Iron Maiden. Isso causou bastante…

Sim, muitos sites publicaram que você faria um disco de metal, inclusive.

Outro dia toquei no show do Edu Falaschi, há um ano mais ou menos participei de um DVD dele e fui tocar Redemption, do Angra. Uma música emblemática, belíssima. Fui super bem recebido, me senti em casa. Sempre tive preconceito com metal, achava uma coisa caricarta, mas ser caricato não é problema. The Cure é caricato, mas é lindo. Red Hot Chili Peppers também, Nirvana também. O mundo precisa desse guts que o rock propõe. As pessoas dizem que o rock é pouco ativista, ele é muito vítima de maledicência, mas o The Wall, do Pink Floyd, é um disco político. Aliás esse meu disco novo é o meu The wall.

Como assim?

É um disco para causar. Um disco abordando a truculência do mundo, já que convivemos com governos unidos com religião… Estamos vivendo a era das cruzadas. O mundo está cheio de ódio, de raiva, com esse potencial de explosão. Parece que a humanidade perdeu o rumo da globalização, da social democracia, da convivência.

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Musicalmente como vai ser?

Ele é progressivo, tem música de nove minutos, que é uma suíte tipo o Yes. É o Close to the edge do Guilherme. Tem canções amorosas que são o cardápio mais usual, instrumentos barrocos, arranjos de cordas super bem feitos. Cantei como nunca cantei na vida, fiz um coaching vocal meu para cantar mais delicado, aprender a respirar melhor. Vai marcar a volta do Guilherme do Raça de heróis, do Planeta água, porque o mundo espera isso de mim. Tenho que fazer o que o minha geração fazia de melhor. Talvez eu seja crucificado por desenterrar o progressivo, mas eu ou faço isso, ou vou ficar me orientando por regras de mercado. Podem falar: “Ah, nove minutos não é radiofônico”. Mas ser radiofônico é importante?

Minha mãe morreu nesse período e fiz uma música para ela ouvir no leito de morte. Se chama Estrela mãe, é uma música para você cantar para sua mãe que está indo embora. Minha irmã colocou para ela ouvir, ela partindo, aos 94 anos. Foi a maior emoção da minha vida explicar como eu amo a minha mãe, como ela estava à frente do tempo. Uma mulher que cantava dentro de casa, as dificuldades que ela passou. Meu pai não a deixava trabalhar. Ela se tornou uma dona de casa infeliz. Ela era uma mulher do mercado, que queria trabalhar no centro de São Paulo…

Tem umas cinco músicas que quando eu ouço, eu choro, é lindo pra caralho. Comecei o ano estudando barroco, depois comecei a passear pela cidade. Começou a esfriar, começou a dar uma angústia com a chegada da pandemia, as pessoas morrendo. Me deu uma angústia muito grande, um sentimento de preocupação com a humanidade.

Guilherme lê um trecho de uma letra do próximo disco: “As crianças com receio de crescer/contaminar o céu/da cápsula de um tempo sem rancor/cada dia uma batalha desigual/em nome de uma paz e tudo que se entende por normal/é a bandeira incandescente da exclusão/exércitos rivais disputam seus desejos ancestrais/são troféus de honras e glórias sem pudor/vitórias sem perdão/remorso já ficou pra trás”.

Essa é uma música cavalar que tem segunda, terceira parte, como se fosse uma música de festival – Ponteio, Disparada, aquela coisa “oooh”, que não tem mais. Eu vou ver o que dá, de repente o mercado vai falar: “Nossa, tá se achando. Pô, canta Cheia de charme e não enche o saco!” Mas eu tenho que procurar meu caminho. Eu sou progressivo, coloco muitas bandas progressivas no Facebook. Adoro Jethro Tull, Thick as a brick. Mas nem posto só bandas antigas. Outro dia mesmo postei o Muse.

O Muse tem a ver com seu som um pouco…

É demais, tem uma pegada, adoro o som. E adoro o Dream Theater também, tem cara de Guilherme Arantes aquilo lá. E tá na hora de eu mostrar meu lado Dream Theater. A nação metaleira adora o Guilherme Arantes. E é um público que é aguerrido, que compra briga. Acho que você tem esse espírito também no segmento LGBTQI+, no rap… As pessoas estão lá se posicionando.

Já na balada é aquela paquera coletiva. Em dupla sertaneja, você pode muitas vezes trocar o artista que ninguém repara. Sinto que o show business brasileiro se perdeu, não sei como vai ser com a volta da pandemia. O discurso do funk tem que evoluir, como foi com o de Anitta, que está fazendo outras coisas, crescendo, se organizando. É uma figura notável. E chega de artistas que morrem jovens. A babaquice da morte daquele garoto Kevin (funkeiro) é a mesma da morte do Jimi Hendrix. Jimi morreu jovenzinho, mas tinha proposto uma coisa que era um turning point do mundo. A mesma babaquice também do Kurt Cobain meter uma bala na cabeça.

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Eu me julgo um sobrevivente da minha geração. A gente passou pelos anos 1980, uma época de muita cheiração, mas chegou uma época em que era babaquice. Começou como uma coisa leve. Eu estava nessa matriz dos anos 1980 com a Gang 90, com o Julio Barroso. Eu faço parte dessa matriz do pop rock brasileiro, de tudo o que aconteceu. Os críticos de música falam que o festival de 1981 (o MPB Shell) foi o mais fraco de todos.

O festival que você participou (com a Gang 90 cantando Perdidos na selva e com Planeta água)?

Isso foi escrito, tá em todos os livros. Mas teve festival mais fraco. O que teve Cabeça, com o Walter Franco (1972), que era meu amigo, um gênio… Ele nem é citado, é como se não tivesse existido aquele festival, e quem ganhou foi a Maria Alcina, com Fio Maravilha. E foi um festival fraquíssimo. O de 1981 foi praticamente ganho pelo Planeta água (a vitória foi para Purpurina, de Jerônimo Jardim, na voz de Lucinha Lins, o que decepcionou a plateia).

E Perdidos na selva foi detonadora de toda a década de 1980. As pessoas tinham que fazer uma revisão histórica da nossa geração. A geração de 1968 não se compara. Chico, Caetano, Gil, Milton, ficaram tombados num patrimônio histórico, como os répteis antes das glaciações. Nossa geração, que veio em 1972, pós-Libelu, é importante. A Rita Lee é anterior, ela é beneficiária de um pouco de tombamento e veio brilhar depois. A mesma coisa com Novos Baianos. Mas nossa geração teve Djavan, que é muito importante. Costumam criticá-lo por causa das letras, que são lindas.

Nós somos inocentes políticos e comportamentais, porque também não pegamos o enlouquecimento de Rita Lee, Raul Seixas. Nem drogados nós somos. Mas construímos uma história belíssima. Lulu faz parte disso, Marina também.

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Bono trapalhão? U2 antes da fama, na TV irlandesa, usando fantasias de palhaço

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Bono trapalhão? U2 antes da fama, na TV irlandesa, usando fantasias de palhaço

RESUMO: Antes da fama, o U2 tocou Out of control na TV irlandesa vestido de palhaço. Tem gente achando que é obra da IA, mas não é não.

Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução

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No comecinho de sua história, prestes a fazer as primeiras gravações, o U2 fez um vídeo de Out of control na TV irlandesa em clima de circo, com maquiagens faciais e roupas de palhaço. Tá aí o vídeo.

O vídeo é de 1979 e pertence aos arquivos da RTÉ, emissora pública irlandesa – e pelo que a emissora diz, apareceu no programa Our times. Já teve gente levantando a hipótese de ser obra de IA. Não é, pelo visto. “Embora a estética crua e a qualidade amadora das possam levar os espectadores a questionar a sua autenticidade, este vídeo específico foi documentado e discutido pela comunidade de fãs do U2 como uma peça genuína da história da banda”, diz um comentário publicado no canal do YouTube @DutchU2Fan.

Não foi a primeira vez que a banda esteve na atração: em 13 de novembro de 1978, tocaram a música The fool, numa apresentação que acabou sendo reprisada em 27 de novembro. Aliás, a primeira vez que Bono, The Edge, Larry Mullen e Adam Clayton foram à RTE rolou em 2 de março de 1978, quando ainda se chamavam The Hype – na ocasião, foram a programa Youngline e cantaram Street mission.

Além das maquiagens, Bono surge usando apetrechos teatrais e fazendo caras e bocas para a câmera – em alguns momentos, tudo parece uma cena de humorístico brasileiro dos anos 1970. E naquela altura, Out of control era praticamente o cartão de visitas do U2. Em agosto de 1979, o radialista Dave Fanning apresentou três músicas do grupo em seu programa na RTÉ — Out of control, Stories for boys e Boy/Girl — e deixou os ouvintes escolherem qual delas deveria ocupar o lado A do primeiro lançamento da banda. Out of control venceu. No mês seguinte, as três músicas apareceram no EP Three, cuja primeira edição teve mil cópias numeradas.

A canção também tinha uma origem bastante pessoal. Bono a escreveu quando completou 18 anos, pensando no desconforto de perceber que dois dos acontecimentos mais importantes da existência estão totalmente fora das nossas mãos: ninguém decide nascer e, em última instância, também não controla a própria morte.

Agora: por que diabos eles estão vestidos daquele jeito?

Bom, não há, pelo menos na documentação conhecida sobre a apresentação, uma explicação de Bono, The Edge, Adam Clayton ou Larry Mullen Jr. para as roupas, mas maquiagens e os apetrechos. Também não aparece nos arquivos disponibilizados pela RTÉ uma justificativa para o figurino. Pode ter sido uma ideia do programa, uma brincadeira da própria banda ou simplesmente parte da estética daquela atração

O vídeo pertence a uma fase realmente embrionária do U2, que ainda traria uma apresentação no programa Aspects Of rock em setembro de 1979, tocando Life on a distant planet. Em janeiro de 1980, a banda chegou ao Late late show com Stories for boys. E pouco depois, aquela banda de garotos que ainda podia surgir fantasiada na televisão começaria a gravar a estreia Boy, lançada em outubro de 1980. Um primeiro passo na construção do U2 que a gente conhece hoje.

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Cultura Pop

Video Vanguard Award: afinal, que prêmio é esse que o Nirvana recebeu?

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Video Vanguard Award: afinal, que prêmio é esse que o Nirvana recebeu?

RESUMO: O Nirvana recebeu o Video Vanguard Award no VMA e entrou numa história que começou em 1984 com Beatles e David Bowie. Entenda como surgiu e por que o prêmio mudou ao longo das décadas.

Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução

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O Nirvana voltou ao VMA neste domingo (27) para receber um prêmio que, de certa forma, conta a própria história da MTV. Dave Grohl, Krist Novoselic e Pat Smear subiram ao palco para buscar o Video Vanguard Award, homenagem pelo conjunto da obra audiovisual da banda.

Recebendo a honraria, os mais ilustres três ex-integrantes vivos da baanda entraram numa lista que começou com Beatles e David Bowie e, ao longo de mais de quatro décadas, passou por Madonna, Michael Jackson, R.E.M., Beastie Boys, U2, Beyoncé e vários outros.

Mas o que exatamente é o Video Vanguard? Bom, temos duas respostas, uma curta e uma longa. A resposta curta: é uma espécie de prêmio pelo conjunto da obra do VMA, dedicado a artistas que tiveram impacto importante sobre o videoclipe e a cultura pop. Não está ligado a um vídeo específico lançado naquele ano e nem sequer é entregue em todas as edições.

A resposta longa é… a própria história do prêmio. E é a melhor resposta, já que o prêmio nasceu junto com o próprio VMA, em 1984. E não custa lembrar que nessa época videoclipe ainda era uma linguagem em formação e a MTV tinha apenas três anos. Na primeira cerimônia, só pra você ter uma ideia, David Bowie ganhou o prêmio, e houve menção especial aos Beatles e a Richard Lester, que dirigiu os filmes Help e A hard days night, do quarteto.

No caso dos Beatles e Lester, a escolha reconhecia especialmente a importância dos filmes do grupo para aquilo que, anos depois, se consolidaria como a linguagem do videoclipe – e da mesma forma, Bowie havia desenvolvido muito do idioma dos clipes vários anos antes. Na real, como ainda nem sequer havia uma “história” do videoclipe, era fundamental apontar quem havia ajudado a inventar aquela nova linguagem.

Nos anos seguintes, por sua vez, já estava claro que o grande lance era premiar quem já estava fazendo história ali mesmo, com a linguagem dos clipes. Em 1985, ganharam o prêmio David Byrne (então apenas o líder dos Talking Heads) e os diretores Russell Mulcahy e Godley & Creme. Madonna recebeu em 1986. Peter Gabriel, em 1987.

Detalhe: Michael Jackson ganhou em 1988 e, a partir de 1991, seu nome passou a ser associado oficialmente à honraria, que durante décadas ficou conhecida como Michael Jackson Video Vanguard Award. Em 2019, a MTV silenciosamente, mas nem tanto, tirou o nome do astro do prêmio. Nesse ano, a vencedora foi a rapper Missy Elliott.

Na década seguinte, a lista parece quase um resumo do período em que rock e MTV andavam grudados. Bon Jovi recebeu o Vanguard em 1991; Guns N’ Roses, em 1992; Tom Petty e Rolling Stones, em 1994; R.E.M., em 1995; Red Hot Chili Peppers, em 2000; U2, em 2001; e Duran Duran, em 2003. Exceções à regra: em 1997 o rapper LL Cool J levou a estatueta pra casa. No ano seguinte, os Beastie Boys ganharam o prêmio.

Depois, o perfil foi mudando junto com a própria MTV e com a cultura pop. Britney Spears, Justin Timberlake, Beyoncé, Kanye West, Rihanna, Pink, Jennifer Lopez e Missy Elliott estão entre os homenageados. Nos últimos anos vieram Nicki Minaj, Shakira, Katy Perry e Mariah Carey. Agora o prêmio volta ao rock com o Nirvana.

Dá pra dizer que poucos grupos carregam uma ligação tão evidente com a era clássica da MTV. Smells like teen spirit não apenas virou um dos clipes mais associados aos anos 1990 como ajudou a transformar a imagem do rock no canal. Come as you are, In bloom e Heart-shaped box reforçaram uma identidade visual que misturava estranheza, humor, desconforto e uma boa dose de antipatia pelos padrões do estrelato.

No VMA deste ano, coube a Chuck D, do Public Enemy, entregar o prêmio. Novoselic aproveitou o discurso para colocar Kurt Cobain no centro da história e lembrou que muitas ideias dos vídeos vinham da visão artística do vocalista. Para ele, a permanência do Nirvana também tem relação com uma busca do público por autenticidade.

Grohl, Novoselic e Smear receberam a homenagem sem Cobain, morto em 1994, mas com sua imagem aparecendo durante a cerimônia. A escolha fecha um círculo curioso: uma banda que ajudou a definir a MTV dos anos 1990 recebe, mais de três décadas depois, um prêmio criado justamente para reconhecer quem mudou a maneira de juntar música e imagem.

Mais do que um troféu para quem acumulou clipes famosos, o Video Vanguard começou como uma homenagem a quem empurrou o videoclipe para algum lugar novo. E sua lista de vencedores acabou registrando também as mudanças da própria MTV: dos Beatles e dos diretores pioneiros ao domínio do rock, daí às grandes estrelas do pop e do hip hop.

Agora o Nirvana entrou nessa história. Digamos que, para uma banda que chegou à MTV parecendo não pertencer àquele mundo, demorou bastante.

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Cultura Pop

Qual é a do The Coverups, banda de covers de Billie Joe (Green Day) e amigos?

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The Coverups: Billie Joe recebe Bruce Dickinson (Foto: Reprodução Internet)

Antes de Bruce Dickinson, cantor do Iron Maiden, aparecer de surpresa no palco em Québec, o The Coverups já dava muitos sinais de vida havia anos. O projeto paralelo de Billie Joe Armstrong continua funcionando exatamente como nasceu: como uma desculpa para tocar músicas que seus integrantes amam, sem a pressão de lançar discos ou sair em turnê.

Criado em 2018, o grupo reúne integrantes e colaboradores do Green Day em apresentações pequenas, normalmente em clubes da Califórnia. A formação original contava com Billie Joe Armstrong (voz e guitarra), Mike Dirnt (baixo e voz), Jason White (guitarra), Bill Schneider (baixo) e Chris Dugan (bateria) – Mike e Jason são os únicos que fazem parte também do Green Day, sendo que Jason atua como músico de turnê. Nos últimos anos, porém, Dirnt deixou de participar dos shows, e o The Coverups passou a atuar como quarteto.

O repertório é uma carta de amor ao rock e ao punk. Clássicos de Ramones, David Bowie, The Clash, Cheap Trick, Joan Jett, Tom Petty, Misfits, Nirvana, Rolling Stones e até Strokes costumam aparecer nas apresentações, que muitas vezes são anunciadas poucas horas antes de acontecer. Diferentemente de outros projetos paralelos de Billie Joe, como Foxboro Hot Tubs e The Longshot, o The Coverups nunca teve a intenção de gravar músicas próprias. A proposta é apenas revisitar clássicos em um ambiente intimista, recriando um pouco da atmosfera dos primeiros dias do Green Day nos clubes da região de Berkeley e Oakland.

Mesmo sem lançar um único álbum de estúdio, a banda conquistou um público fiel justamente por isso: oferece a rara oportunidade de ver Billie Joe tocando as músicas que ajudaram a moldar sua formação musical, longe das grandes produções e da rotina de estádios do Green Day.

Nos últimos meses, o The Coverups voltou a fazer apresentações esporádicas na Califórnia, mantendo esse espírito despretensioso. Não havia qualquer indicação de mudanças de rumo, nem anúncios de gravações ou turnês. A maior novidade acabou sendo justamente a participação-surpresa de Bruce Dickinson em um show realizado em Québec. Sem aviso prévio, o vocalista do Iron Maiden subiu ao palco para cantar All the young dudes, clássico do Mott the Hoople escrito por David Bowie, num encontro improvável que reuniu dois dos nomes mais conhecidos do rock em um contexto bastante informal.

Houve uma outra novidade recente, que rolou durante o show da banda no Roxy, na Califórnia, dia 21, uma segunda-feira. Antes de tocar Drain you, clássico do Nirvana (do disco Nevermind, de 1991), Armstrong dedicou a música a Jennifer Finch, baixista do L7, que morreu recentemente. Antes, Adrienne Armstrong, esposa do músico, havia doado US$ 5 mil para uma campanha criada para ajudar a custear o tratamento de Finch.

De qualquer jeito, Bruce fi a primeira participação especial de grande repercussão na história recente do The Coverups e, naturalmente, chamou muito mais atenção do que os próprios shows da banda. Ainda assim, tudo indica que o projeto continuará exatamente como sempre foi: um grupo de amigos reunidos para tocar os discos que mudaram suas vidas, sem maiores pretensões além da diversão.

Ah, sim: importante falar que All the young dudes faz parte do repertório solo de Bruce há bastante tempo. Ele a havia regravado em seu primeiro álbum solo, Tattoed millionaire, de 1990. Na época, teve até clipe da faixa.

Foto: Reprodução Internet

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Ouvimos: Mike D – “Thank you”

Resenha: Nazz – “The complete Nazz” (compilação)
Crítica19 horas ago

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Resenha: Spike Fuck – “Evidence”
Crítica19 horas ago

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Resenha: Field Hospitals – “Ethel Green” (EP)
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Fontaines D.C. e Rosalía se encontram em “Where is gone?”, novo single de “Dopamine chamber”

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Wry mistura shoegaze e pós-punk em “Décimo andar”, faixa sobre solidão e espera

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Zimbra (Foto: André Calvão / Divulgação)
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Zimbra: lembranças de acidente sofrido por integrante em single novo

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Charm Offensive transforma insônia e crises de identidade em power pop nervoso

Superfuzzy - Foto: Lucas Shtorach / Divulgação
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Superfuzzy fala sobre depressão e dificuldades emocionais no single “Sem direção”