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Cultura Pop

Entrevista: Guilherme Arantes – “Meu próximo disco vai ser o meu ‘The Wall'”

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Vivendo desde 2019 em Ávila, cidade de pouco menos de 58 mil habitantes na Espanha, Guilherme Arantes já se prepara para voltar ao Brasil – possivelmente em julho, mês do seu aniversário de 68 anos. Foi para lá a princípio para se reciclar no piano e aproveitou para se isolar durante a pandemia. Além da saudade do Brasil, o motivo do retorno é o lançamento de um novo disco (o nome, ele não revela) que ele define como o seu The wall – a ópera-rock do Pink Floyd, lançada em 1979.

“Vou trazer de volta o meu lado progressivo, com músicas de nove minutos, umas coisas com primeira e segunda parte”, recorda Guilherme, que edita também uma espécie de making of do disco, incluindo imagens suas num auditório de Ávila e coisas que os músicos do disco (que gravaram à distância) mandaram. O álbum teve masterização do americano Howie Weinberg. “O cara que fez o disco Nevermind, do Nirvana. Ele me ligou e falou: ‘What the fuck? Que som lindo!'”, comemora.

Ele revela que muito do seu lado de fã de bandas como Dream Theatre e Iron Maiden também vai estar no álbum – recentemente ele revelou sua paixão pelo som do grupo de The number of the beast num post, e disse que “algo o chamava para se aproximar desse estilo”. Guilherme também vem dando uma de DJ no Facebook, postando músicas que gosta de ouvir e alguns clássicos – sua seleção inclui The Byrds, George Michael e Bjork.

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O autor de músicas como Planeta água começou a carreira solo em 1976 (após alguns anos no grupo progressivo Moto Perpétuo). Mas se considera bastante próximo da geração que veio com o rock nacional dos anos 1980. Defende inclusive que a geração de artistas como Paralamas do Sucesso, Blitz e Marina Lima deveria ganhar um lugar mais respeitável na história. “O movimento dos anos 1980 foi mais importante que a Jovem Guarda”, diz Guilherme, que conversou com o POP FANTASMA por chamada de vídeo.

POP FANTASMA: Como estão as coisas aí na Espanha?

GUILHERME ARANTES: Estou em Ávila, é como se eu estivesse no interior de São Paulo, uma cidade tipo Jaú, com a roda dos velhinhos conversando. Eu vim para cá para estudar piano, barroco, fazer exercício, estudar partituras. Acabei tendo até uma inflamação na cervical. Já estou com 68 e o organismo reclama. Fiz um tratamento à base de medicamentos fortíssimos. Estou na base de uma terapia a base de injeções e está controlado. Mas às vezes volta e dói o braço todo, uma coisa horrorosa.

Teve um período em que eu fiquei realmente de cama, com muita dor. Ficava deitado por causa do peso da cabeça. E comecei a ler muitos livros. Principalmente sobre as histórias da música popular brasileira. Me deu vontade de entender como eu estava dentro desse processo, da minha origem. Onde a gente entra, onde entra minha geração, o hiato que houve com o AI-5, o ano de 1968, a história do (Wilson) Simonal, a história do jornalismo cultural brasileiro, a fabricação da opinião no Brasil.

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Fui me entender nessas alturas, aos 40 e tantos anos de carreira. Fiz um balanço e vi que estou no bônus. E estou fazendo um disco maravilhoso, com letras bem estruturadas. As leituras fizeram bem, deu um upgrade. Mas vou voltar ao Brasil e vou me expor a esse ambiente tóxico da realidade, a como está o Brasil hoje. Se eu estivesse no Brasil não estaria fazendo grande coisa. Moro na Bahia e iria estar no estúdio, tocando piano, ia ficar dentro de casa, porque show não tem. Houve um prejuízo muito grande. Vários artistas até estão em gestação, Marisa Monte, Caetano Veloso.

Aqui a cidade está em excitação pela volta da convivência, os bares, os restaurantes, porque é a região da carne. Está chegando o verão e a Espanha se prepara para receber dez milhões de ingleses, alemães, eles vêm para a Costa do Mediterrâneo. Só que não acabou a pandemia. Eu já até me vacinei, tomei duas vacinas da Pfizer. A gente se cadastrou ali no serviço, porque meu seguro-saúde é no Brasil, a gente tá descoberto. E enfim, não posso pegar essa merda.

O disco já tem uma data para sair?

Eu faço aniversário dia 28 de julho, então deve sair fim de julho, começo de agosto. Várias vezes a gente saiu com coisas novas em agosto, que é um mês que as pessoas nem gostam porque é meio misterioso. Mas é uma data-limite, porque no segundo semestre já começa a escalada presidencial e o Brasil fica sem assunto. Nem sei como vai ser esse 2022. Não queremos entrar em 2022 sem ter lançado o disco porque o momento-janela é agora.

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Meus colegas não conseguem emplacar nada, o Brasil tá o país do desânimo, da catatonia, uma desproteção total. A sociedade se vê desprotegida, o estado é uma peste. Brasília parece que tem urucubaca. Antes era o Rio, isso não muda. Tem períodos em que você sente um mood positivo. Foi assim na época da bossa nova, no primeiro mandato do Lula. Mas parece que existe um sistema que leva tudo para o buraco. Procuro nem falar muito porque eu tô fora, tanto que nas redes quero sempre falar de música, propor coisas para as pessoas ampliarem o espectro emocional. Tenho esse handicap negativo, de estar fora desde 2019, alguém pode falar: “Ah, cala a boca e fica aí na Espanha…”

Mas isso como se você não tivesse liberdade de expressão de falar o que quiser sobre seu país, certo?

É, mas a raiva foi legitimada, já vem essa frase pronta: “Por que você não cala a boca? Você virou as costas para o Brasil!” Bom, eu assino todos os jornais, leio a direita, leio a esquerda. A informação que chega é uma informação processada, e iniciou-se um processo de solapar a imprensa. Aqui a gente vê uma TV de El Toro, que é de direita, e tem os debates do pessoal conservador. E tem uma TV da Andaluzia que é de outra linha.

Agora, tem o detalhe que a Espanha é um país do agronegócio, um grande fazendão. E o Brasil tá a caminho disso, de ser um grande fazendão, excludente, onde o povo vai se amontoar nos quilômetros da cidade. Vai virar só um provedor de commodities. É um projeto desempregador, desagregador de emprego.

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Isso é bem a cara do Brasil faz tempo.

E a Espanha é um fazendão também, cidadezinhas esvaziadas, um bar, um mercadinho, um monte de casas. Tudo vazio, no meio de uma plantação de trigo. E essa plantação é multinacional, industrializada, trigo transgênico. Você não tem mais natureza, povo, tudo se transforma numa produção de agro indústria. E é um país pequeno, do tamanho da Bahia. Acho que boa parte da Europa se recupera da crise, mas o Brasil me preocupa pelos próximos cinco anos.

Você tem postado músicas no Facebook e volta e meia isso vira notícia. Como começou a fazer isso?

O que tem de mais legal, positivo, é falar do mundo que a gente pertence. Todo mundo tá se metendo a ser politizado, mas eu acho que através da música a gente existiu politicamente com muita força. Outro dia eu postei o Turn turn turn, dos Byrds, o I wasn’t born to follow (também do The Byrds) que é uma música do filme Easy rider, foi basal para mim. É a marca de uma geração que através da arte construiu um mundo novo.

A indústria cultural do século 20 conseguiu mudar o mundo de várias maneiras, fazer as pessoas viverem melhor por terem um conteúdo emocional preenchido. Sinto falta disso, porque o mundo hoje está muito utilitário. Os gêneros hoje não trazem o sentimento. Não deslegitimo o funk, o sertanejo, mas são janelas de marketing que se basearam no utilitarismo, no coletivismo hedonista. E tem um movimento que é um neo-hippismo, influenciado pelo folk: Tiago Iorc, Anavitória, Melim, Vitor Kley, Ana Vilela…

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Você cantou Trem bala, da Ana Vilela, numa live, inclusive…

Ela é um manifesto de uma geração, uma música muito bonita e muito simples. Inclusive é interessante porque ela e a Anavitória nasceram de um Centro-Oeste de agronegócio onde tem o sertanejo predominante, mas ela é um movimento de uma juventude ávida por sentimento. É um manifesto anti-utilitário, de uma juventude que sente falta de sensibilidade, daquela coisa do interior, comfort food. Uma leveza do interior, do fogãozinho de lenha. O único componente que essa juventude não inclui é o LSD, né? Era um elemento revolucionário e a gente pegou isso em cheio na nossa geração.

Nas minhas redes, a única coisa que eu não coloco são as predominantes na cultura de massa, a cultura de balada. A música baladeira tem uma proposta que é antirreflexiva, anti-individual, anti-sentimento. As pessoas se embrutecem. Isso ocorria também no rock, no show do Kiss, um lado tribal, que você propõe um rito. Minha filha mais nova ia nos shows do Wesley Safadão na Bahia, e era uma galera achando lindo se dissolver numa multidão emburrecida.

É gostoso emburrecer, parar de pensar, sentir, mas a música de balada foi caindo em qualidade. Teve o movimento disco que trouxe Donna Summer, Giorgio Moroder… Tinha uma estética musical elaborada, uma riqueza, mas era desse comportamento de se dissolver. A nossa geração também teve isso com as danceterias. Mas nossa geração foi muito boa para a música popular, para a juventude brasileira. Eu classifico o movimento dos anos 1980 como sendo mais importante do que a Jovem Guarda. Porque nós duramos. Paralamas durou, Titãs durou, Legião Urbana durou, até o Guilherme Arantes durou. Tocamos na vida das pessoas.

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Muita coisa da Jovem Guarda era vazia de letras, e eram versões na maior parte. Tinha muita coisa idiota, na nossa geração também teve. Mas fomos uma geração que deu Marina, Lulu, Ritchie… Um repertório vasto. Você não pode comparar Jovem Guarda com Paula Toller, com Marina, Herbert Vianna. Não vendemos aquela quantidade de disco da Jovem Guarda, mas nossa geração durou.

Mas entram coisas novas no seu Facebook.

Sim, às vezes eu coloco o Letrux, o Vanguart. Eu gosto. São pessoas que estão procurando ainda esse espaço reflexivo, viajeiro na música. E acho que tem um movimento aí. Tem a turma do dub, do soundsystem, uma celebração, um rito, mas é diferente do baladão sertanejo, que se baseia numa vaidade, numa exibição de poder. As figuras do neosertanejo são de um se achar… Se acham maravilhosos. Imagina, você é um desses cantores que tocam todos os dias da semana para 40 mil pessoas a cada dia. No fim de semana você tocou para um milhão de pessoas. Você é muito mais importante que os Beatles!

Bom, vendo pelo público nos shows…

Os Beatles nunca tocaram para essa multidão. O cara se sente, ele sobre no palco e é uma figura ridiculamente histriônica. Bem diferente de ir num show da Madonna, ou da Dua Lipa. Eu morei uns meses em Londres e vi o Prince fazendo o show Diamonds and pearls. Fui no Earl’s Court ver o Prince e alucinei. Lembro que vi onze shows da turnê em vários pontos e a última vez comprei no gargarejo. Custou 600 libras a entrada. Vi Prince alguns metros distante de mim, a pedaleira com pele de carneiro. O cara era um esteta.

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E na Espanha, o que tem?

Aqui tem a coisa do reggaeton (imita a batida) que é o ritmo mais careta que se criou, pobre e chatérrimo. Eu não sei que graça tem, as pessoas tomam toda, todo mundo lindo de morrer, muito enfeitado, e vão lá dançar essa porcaria dessa música. Odeio essa música, muito mais que o sertanejo, o axé, o arrocha… Acho até o Safadão mais divertido que o J Balvin. Você teve recentemente o Despacito, do Luis Fonsi… A estrutura da música é a mesma harmonia do Forever young (do Alphaville), aquela harmonia que tantas vezes já foi denunciada (toca no piano). No fundo é algo mais comportamental do que musical. Os Beatles, Madonna, Led Zeppelin, são comportamentais mas não só isso. Outro dia mostrei meu lado que gosta de Iron Maiden. Isso causou bastante…

Sim, muitos sites publicaram que você faria um disco de metal, inclusive.

Outro dia toquei no show do Edu Falaschi, há um ano mais ou menos participei de um DVD dele e fui tocar Redemption, do Angra. Uma música emblemática, belíssima. Fui super bem recebido, me senti em casa. Sempre tive preconceito com metal, achava uma coisa caricarta, mas ser caricato não é problema. The Cure é caricato, mas é lindo. Red Hot Chili Peppers também, Nirvana também. O mundo precisa desse guts que o rock propõe. As pessoas dizem que o rock é pouco ativista, ele é muito vítima de maledicência, mas o The Wall, do Pink Floyd, é um disco político. Aliás esse meu disco novo é o meu The wall.

Como assim?

É um disco para causar. Um disco abordando a truculência do mundo, já que convivemos com governos unidos com religião… Estamos vivendo a era das cruzadas. O mundo está cheio de ódio, de raiva, com esse potencial de explosão. Parece que a humanidade perdeu o rumo da globalização, da social democracia, da convivência.

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Musicalmente como vai ser?

Ele é progressivo, tem música de nove minutos, que é uma suíte tipo o Yes. É o Close to the edge do Guilherme. Tem canções amorosas que são o cardápio mais usual, instrumentos barrocos, arranjos de cordas super bem feitos. Cantei como nunca cantei na vida, fiz um coaching vocal meu para cantar mais delicado, aprender a respirar melhor. Vai marcar a volta do Guilherme do Raça de heróis, do Planeta água, porque o mundo espera isso de mim. Tenho que fazer o que o minha geração fazia de melhor. Talvez eu seja crucificado por desenterrar o progressivo, mas eu ou faço isso, ou vou ficar me orientando por regras de mercado. Podem falar: “Ah, nove minutos não é radiofônico”. Mas ser radiofônico é importante?

Minha mãe morreu nesse período e fiz uma música para ela ouvir no leito de morte. Se chama Estrela mãe, é uma música para você cantar para sua mãe que está indo embora. Minha irmã colocou para ela ouvir, ela partindo, aos 94 anos. Foi a maior emoção da minha vida explicar como eu amo a minha mãe, como ela estava à frente do tempo. Uma mulher que cantava dentro de casa, as dificuldades que ela passou. Meu pai não a deixava trabalhar. Ela se tornou uma dona de casa infeliz. Ela era uma mulher do mercado, que queria trabalhar no centro de São Paulo…

Tem umas cinco músicas que quando eu ouço, eu choro, é lindo pra caralho. Comecei o ano estudando barroco, depois comecei a passear pela cidade. Começou a esfriar, começou a dar uma angústia com a chegada da pandemia, as pessoas morrendo. Me deu uma angústia muito grande, um sentimento de preocupação com a humanidade.

Guilherme lê um trecho de uma letra do próximo disco: “As crianças com receio de crescer/contaminar o céu/da cápsula de um tempo sem rancor/cada dia uma batalha desigual/em nome de uma paz e tudo que se entende por normal/é a bandeira incandescente da exclusão/exércitos rivais disputam seus desejos ancestrais/são troféus de honras e glórias sem pudor/vitórias sem perdão/remorso já ficou pra trás”.

Essa é uma música cavalar que tem segunda, terceira parte, como se fosse uma música de festival – Ponteio, Disparada, aquela coisa “oooh”, que não tem mais. Eu vou ver o que dá, de repente o mercado vai falar: “Nossa, tá se achando. Pô, canta Cheia de charme e não enche o saco!” Mas eu tenho que procurar meu caminho. Eu sou progressivo, coloco muitas bandas progressivas no Facebook. Adoro Jethro Tull, Thick as a brick. Mas nem posto só bandas antigas. Outro dia mesmo postei o Muse.

O Muse tem a ver com seu som um pouco…

É demais, tem uma pegada, adoro o som. E adoro o Dream Theater também, tem cara de Guilherme Arantes aquilo lá. E tá na hora de eu mostrar meu lado Dream Theater. A nação metaleira adora o Guilherme Arantes. E é um público que é aguerrido, que compra briga. Acho que você tem esse espírito também no segmento LGBTQI+, no rap… As pessoas estão lá se posicionando.

Já na balada é aquela paquera coletiva. Em dupla sertaneja, você pode muitas vezes trocar o artista que ninguém repara. Sinto que o show business brasileiro se perdeu, não sei como vai ser com a volta da pandemia. O discurso do funk tem que evoluir, como foi com o de Anitta, que está fazendo outras coisas, crescendo, se organizando. É uma figura notável. E chega de artistas que morrem jovens. A babaquice da morte daquele garoto Kevin (funkeiro) é a mesma da morte do Jimi Hendrix. Jimi morreu jovenzinho, mas tinha proposto uma coisa que era um turning point do mundo. A mesma babaquice também do Kurt Cobain meter uma bala na cabeça.

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Eu me julgo um sobrevivente da minha geração. A gente passou pelos anos 1980, uma época de muita cheiração, mas chegou uma época em que era babaquice. Começou como uma coisa leve. Eu estava nessa matriz dos anos 1980 com a Gang 90, com o Julio Barroso. Eu faço parte dessa matriz do pop rock brasileiro, de tudo o que aconteceu. Os críticos de música falam que o festival de 1981 (o MPB Shell) foi o mais fraco de todos.

O festival que você participou (com a Gang 90 cantando Perdidos na selva e com Planeta água)?

Isso foi escrito, tá em todos os livros. Mas teve festival mais fraco. O que teve Cabeça, com o Walter Franco (1972), que era meu amigo, um gênio… Ele nem é citado, é como se não tivesse existido aquele festival, e quem ganhou foi a Maria Alcina, com Fio Maravilha. E foi um festival fraquíssimo. O de 1981 foi praticamente ganho pelo Planeta água (a vitória foi para Purpurina, de Jerônimo Jardim, na voz de Lucinha Lins, o que decepcionou a plateia).

E Perdidos na selva foi detonadora de toda a década de 1980. As pessoas tinham que fazer uma revisão histórica da nossa geração. A geração de 1968 não se compara. Chico, Caetano, Gil, Milton, ficaram tombados num patrimônio histórico, como os répteis antes das glaciações. Nossa geração, que veio em 1972, pós-Libelu, é importante. A Rita Lee é anterior, ela é beneficiária de um pouco de tombamento e veio brilhar depois. A mesma coisa com Novos Baianos. Mas nossa geração teve Djavan, que é muito importante. Costumam criticá-lo por causa das letras, que são lindas.

Nós somos inocentes políticos e comportamentais, porque também não pegamos o enlouquecimento de Rita Lee, Raul Seixas. Nem drogados nós somos. Mas construímos uma história belíssima. Lulu faz parte disso, Marina também.

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Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

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Peter Hook: "Roubamos muito o Kraftwerk"

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.

Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.

Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.

O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.

Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.

Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.

Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.

Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.

A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.

Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.

E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.

Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.

Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.

Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.

Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.

Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.

Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.

Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.

O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.

O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!

Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.

Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).

Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.

A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.

Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados ​​de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.

Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.

Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.

Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.

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“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

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“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

Quem assistiu ao clipe de Adjourn it, single novo de Tom Morello (que tem participações de seu filho Roman Morello, na guitarra, e do cantor do System Of A Down, Serj Tankian, nos vocais) reparou que há várias cenas em preto e branco, com greves, manifestações e gente sendo presa. Dirigido por Isabella Margolis, o clipe intercala cenas do trio em estúdio, com trechos do filme Salt of the Earth, lançado em 1954, e que conta a história real de mineiros mexicano-americanos que lutaram contra a opressão e o racismo.

Salt of the Earth tem muita história: para começar, ele foi dirigido por Herbert Biberman (1900-1971), um cineasta que fazia parte da lista dos “dez de Hollywood” – um grupo de dez roteiristas e cineastas de esquerda, que estava sendo vítima de uma caça às bruxas. Ou melhor, de uma caça a supostos comunistas, realizada no começo da guerra ideológica entre Estados Unidos e União Soviética.

Biberman chegou a ficar encarcerado durante seis meses, e ao sair da prisão, decidiu dirigir um filme ficcional sobre a greve dos mineiros do Condado de Grant, no Novo México. O tal filme acabou ganhando roteiro de Michael Wilson e produção de Paul Jarrico – e ele é justamente Salt of the Earth, uma produção que já inovava por ser totalmente independente, off-Hollywood.

O filme acabou sendo uma das principais aparições na telona da atriz mexicana Rosaura Revueltas – por sinal, durante as filmagens, ela foi presa por uma suposta violação de passaporte e acabou sendo proibida de trabalhar nos Estados Unidos, um baque nunca superado em sua carreira. Ela interpreta Esperanza Quintero, a esposa de um mineiro, que faz parte de um grupo de manifestantes mexicano-americanos – a queixa deles era que a Delaware Zinc, Inc, para a qual trabalhavam, não dava a eles a mesmas condições que dava aos mineiros anglo-saxões.

Pra acompanhar a história é melhor ver o filme (tá no YouTube), mas vale dizer que Esperanza fica grávida, seu marido acaba preso e ela se junta a um grupo de esposas de mineiros, que faz piquete no lugar dos maridos. Um detalhe importante sobre Salt of the Earth é que só cinco atores profissionais estavam no elenco: Biberman e a produção convocaram mineiros de verdade, além de moradores do Condado. Nas cenas que você vê no filme, muita gente viveu aquilo de verdade.

Se você está achando que isso foi uma ideia para dar mais veracidade ao filme, não foi nada disso: os sindicatos de atores e de profissionais de Hollywood simplesmente proibiram seus associados de ter qualquer relação com Salt of the Earth, e a equipe ficou sem ter com quem contar. Houve quem notasse que aquela situação era absurda, já que eram sindicatos prejudicando um filme que fazia basicamente uma apologia ao movimento sindical. Mas isso não ajudou em nada, até porque veículos como Hollywood Reporter e Newsweek já estavam falando barbaridades como “filme de comunistas anti-americanos” e outras babaquices.

Claro que a pós-produção e o lançamento de Salt of the Earth não foram nada tranquilos: a equipe teve dificuldade de achar laboratórios que terminassem o filme e ele foi censurado e incluído na lista anti-comunismo dos EUA (foi o único filme incluído lá, aliás). Pauline Kael, uma dessas críticas de cinema que tiravam o sono dos cineastas, desprezou o filme e ainda escreveu que ele não passava de “uma peça de propaganda comunista tão clara quanto qualquer outra que tivemos em muitos anos”. Com o tempo, o filme foi sendo descoberto, e ganhou lançamentos em formatos como laserdisc e DVD. Uma matéria recente do The Guardian traz uma declaração de Biberman dizendo que ele foi “o primeiro longa-metragem já realizado nos EUA pelos trabalhadores, sobre os trabalhadores e para os trabalhadores”.

Salt of the Earth foi um poderoso ato de desafio em sua época e, mais de meio século depois, seus temas continuam a ressoar no cenário político atual. Adjourn it canaliza o legado de resistência do filme, reforçando a importância da solidariedade para unir as pessoas contra o medo e a divisão”, escreveu Tom Morello num dos textos de divulgação do clipe. E os dois (clipe e filme) estão aí embaixo.

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Cultura Pop

Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

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O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).

“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.

Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.

Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.

“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.

“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.

E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.

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