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Crítica

Ouvimos: Guilherme Arantes – “Interdimensional”

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Interdimensional reafirma Guilherme Arantes como MPB-pop sofisticado, unindo rock 70/80, bossa e hits, em diálogo com novas gerações.

RESENHA: Interdimensional reafirma Guilherme Arantes como MPB-pop sofisticado, unindo rock 70/80, bossa e hits, em diálogo com novas gerações.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 10
Gravadora: Coaxo do Sapo / Virgin Music
Lançamento: 15 de janeiro de 2026

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Às vezes as coisas demoram para acontecer porque… demoram. Mesmo tendo o respeito da crítica, Guilherme Arantes poucas vezes teve seu trabalho avaliado como merecia. E mesmo sendo um artista pop completíssimo e cheio de hits, sempre teve dificuldades para encontrar seu lugar num mercado cheio de estranhezas. Nesse cenário, Interdimensional, seu novo disco, tem um papel quase de “entendeu ou quer que eu desenhe?”: mais do que apresentar Guilherme às novas gerações (enfim, à turma que vai a festivais, redescobriu o vinil, despreza o CD e conhece música no Tik Tok), ele parece mostrar o que sempre esteve lá, mas nem sempre era enxergado por muita gente.

Para começar, ainda que Guilherme seja enxergado como um cara do pop (e, enfim, após anos de “imprensa roqueira” e bastiões da MPB na crítica musical, todo mundo sabe da condescendência com que o segmento “música pop” costuma ser tratado), Interdimensional é um disco de MPB baseado no rock anos 1970/1980 e no pop. Mais do que em sucessos como Coisas do Brasil e Pedacinhos, explicita de vez as influências da bossa nova em geral, e de Tom Jobim em particular, no som do paulistano. Faixas como A vida vale a pena, Libido da alma, a balada sofisticada e soturna Puro sangue (Libelo do perdão) e o jazz-bossa Toda felicidade têm bastante esse clima. Mas são referências que surgem até mesmo em trechos de 50 anos-luz, instrumental progressivo que emana o som de bandas como Focus e Trace.

  • Ouvimos: Tavito, Clarisse Grova, Marcio Lott – Inéditas / Tunai – Dança das cadeiras

Essa união de brasilidade com progressões sonoras surge bastante equilibrada em Interdimensional. Aliás formam quase um jogo de figura-e-fundo – em que cada uma dessas faces sobressai por alguns segundos numa mesma faixa, ao lado de outras pulsações. Como na idealista Minúcias, no pop sofisticado O prazer de viver pra mim é você, e na quase bossa No mel dos seus olhos (cuja letra, cheia de versos grandes, pontiagudos e rápidos, como num rap, desafia o fôlego de qualquer cantor). Ou na valsa Luar de prata, canção quase erudita, com Monica Salmaso dividindo os vocais com Guilherme, e melodia que aponta simultaneamente para Francis Hime e Paul McCartney.

O Guilherme dos anos 1970/1980 ressurge numa parte boa do disco: tem a mescla Rita Lee + Steely Dan + Santana Band de Enredo de romance, a vibe Eurythmics de O espelho (que tem muito do hit Olhos vermelhos), os vocais em inglês de A vida vale a pena – que remetem a Pedacinhos e seu “bye bye, so long, farewell”. Algo entre os hits Um dia, um adeus e Muito diferente desponta na espacial Intergaláctica missão (Balada interdimensional), a melhor do disco. Uma música em tons altíssimos, que também evoca Paul McCartney e David Bowie, além de trazer à memória o Space oddity particular de Guilherme, que é Nave errante – faixa pouco lembrada de seu disco de estreia, de 1976. Mas Interdimensional tem beleza celestial do começo ao fim.

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Crítica

Ouvimos: All Them Witches – “House of mirrors”

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Resenha: All Them Witches – “House of mirrors”

RESENHA: Entre doom, blues e psicodelia, All Them Witches faz House of mirrors, um disco pesado, viajante e cheio de climas estranhos.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: BMG
Lançamento: 29 de maio de 2026

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All Them Witches é uma banda sombria, lisérgica, que funciona numa encruzilhada entre o stoner e o hardão setentista, com referências de country e blues. A música é carregada, cheia de climas estranhos (em alguns momentos você tem que encostar o ouvido na caixa de som para entender os vocais – em outros, parece que você está ouvindo o som numa caverna) e dá mostras de funcionar otimamente bem ao vivo. House of mirrors, primeiro álbum da banda desde 2020, vai além dessa receita logo na abertura, com os seis minutos de Red rocking chair – uma canção folclórica tradicional dos Apalaches que ganha versão entre o blues, o country e o doom metal, em tom demoníaco e profundo.

Algo entre Black Sabbath e Pink Floyd se aproxima do grupo em Culling line, uma música tão boa e viajante que bem poderia ter uns dez minutos (tem só quatro). Aethernet vai fundo na disposição blues-country do grupo, enquanto Hold up, say what?, com baixo distorcido na introdução, soa quase como punk de máquina, até se estabilizar numa suingueira metal que lembra um Led Zeppelin mais lascado (do meio pro fim, rola um retorno ao punk). Go-getter, por sua vez, volta ao lado mais viajante do grupo, soando como um country tempestuoso.

Justamente pela tensão de climas, o All Them Witches tem um clima loud-quiet-loud que passa por alguns momentos do repertório de House of mirrors – aquela mesma receita dos Pixies dá um pouco as caras nos climas calmos e nervosos da bela Starting line, e na viagem quase pós-punk de Turn on the light. Surge ate uma faceta imediatamente pós-psicodélica em Angel on the wayside, lembrando as bandas pesadas que surgiram na segunda metade dos anos 1960 (Steppenwolf, Vanilla Fudge, Grand Funk na primeira fase).

O disco só dá uma desestabilizada pela falta de surpresas no final – as duas últimas faixas, The welterweight e Saturn song, são pontes bacanas que poderiam levar a um grande final, que não acontece. Até lá, rolam surpresas legais em House of mirrors.

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Crítica

Ouvimos: Youbet – “Youbet”

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Resenha: Youbet – “Youbet”

RESENHA: Youbet mistura folk, punk e ruído num disco instável, psicodélico e cheio de identidade própria.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Hardly Art
Lançamento: 1 de maio de 2026

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O que chama mais a atenção no Youbet é o fato do projeto musical comandado pelo professor de música Nick Llobet ter uma cara própria forte pra burro – não apenas em composição como também em produção. O som deles parece uma construção de cenário, ou uma instalação em que se vai por diferentes caminhos, dos mais calmos aos mais tensos.

E isso aí parece bem mais pronunciado agora que o Youbet não é mais uma viagem solo, já que no segundo disco, intitulado apenas Youbet, Nick tem a companhia agora da baixista e também professora de música Micah Prussack. Nem adianta que Ground kiss, a faixa de abertura, inicie com uma bateria leve, com escovinha, e tenha vocais bem melódicos, com cadência quase folk. Até porque você vai acabar lembrando mesmo é das guitarras que fazem um estrondo tão grande, que parecem estar saindo de um alto-falante com defeito.

Essa estética de “som comprimido” é a cara de muita coisa feita hoje em dia, e às vezes parece uma brincadeira-comentário-adesão disfarçada à loudness war dos anos 2000. Mas tem outras ideias misturadas ali. See thru é punk rock com vocal gritado e cheio de efeitos – às vezes lembra Sugarcubes. Worship é soft rock com maldade e ruído, ganhando clima psicodélico e sombrio lá pelas tantas.

Mais: Receiver, cuja letra mistura crença, compaixão e meritocracia furada na mesma história, é um punk rock com cadência lembrando bastante Kurt Cobain. Fertile eyes invade o corredor do alt-country. E se você já se pegou pensando que uma determinada música deveria durar 20 minutos, digo que é o caso de Nadia, folk cigano de letra curta, com melodia lindíssima.

Outras faixas em Youbet, o álbum, vão da beleza ao ruído em pouco tempo, como na psicodelia de Undefined e no soft rock de Bad moon. Tudo combinado a momentos como Embryonic, música tranquila e pop que tem lá seus lados estranhos, e chega a lembrar os Cardigans. Instabilidade transformada em identidade própria.

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Crítica

Ouvimos: Una Sofía – “Canção para o caminho” (EP)

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Resenha: Una Sofía - "Canção para o caminho"

RESENHA: Una Sofía mistura samba, folk latino e bolero em Canção para o caminho, EP delicado, cinematográfico e cheio de travessias internas.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 14 de maio de 2026

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“Esse EP fala sobre movimento, penso nele como um coming of age em forma de música. É um deslocamento externo, unindo as raízes colombianas e brasileiras que têm crescido dentro de mim, mas também é uma travessia interna”, conta Una Sofía, cantora colombiana radicada em São Paulo, sobre Canção para o caminho. O EP de Una Sofía é balizado pelo samba, mesmo começando pelo bolero + jazz em espanhol (Confesiones, que lembra João Bosco e Aldir Blanc) e prosseguindo no corredor do folk latino (Cadê?, música de vocais em português, com sotaque hispânico e extensão de longo alcance).

  • Ouvimos: Duo Violeta – Mar pequeno

Com voz, violão e percussão tomando a frente em todas as seis músicas, Canção para o caminho destaca a delicadeza e o clima introvertido de algumas faixas, como o jazz latino Só eu sei (com Nina Nicolaievsky). Pido perdón é um samba com alguma coisa de Jorge Ben e de Elis Regina, em que Sofía olha para trás e conclui que “passei a vida pedindo perdão por existir”. Nubes é uma canção delicada e chuvosa, combinando valsa tocada ao piano, jazz e clima de sonho.

A faixa-título encerra o EP inserindo confiança e esperança na história – é uma balada folk linda, com clima interiorano e sons que lembram os discos setentistas de Lô Borges e Beto Guedes. Canção para o caminho é um filme sonoro (por acaso, Una Sofía é compositora e cineasta) em que sempre se trabalha pelo final feliz.

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