Vencedor do festival É Tudo Verdade em 2019, o documentário Cine Marrocos, dirigido por Ricardo Calil (Uma noite em 67) está nesta semana enfrentando um enorme desafio. O filme acaba de estrear nos cinemas na época da pandemia, com plateias reduzidas e muitos cuidados a serem tomados. Quem for assistir, vai conferir na tela grande uma história impressionante: a da comunidade de mais de 2 mil sem-teto (incluindo refugiados dos mais diversos países) que passou a ocupar um dos cinemas mais luxuosos de São Paulo, o Marrocos, cujas salas permaneceram fechadas, e deterioradas, por mais de vinte anos.

Considerado o melhor e mais luxuoso cinema da América do Sul em seu lançamento, o Cine Marrocos abrigou o primeiro festival internacional de cinema do Brasil em 1954, com a presença de vários astros de Hollywood. Calil e sua equipe tiveram trabalho para convencer alguns moradores a conhecer a história do local, assistir algumas das obras exibidas no festival (obras como Noites de circo, de Ingmar Bergman, e O crepúsculo dos deuses, de Billy Wilder), e fazer oficinas para realizar algumas das cenas dos filmes. Lidaram também com uma realidade: os ocupantes teriam que deixar o local em breve. E realizaram um fato histórico: exibiram vários filmes do antigo festival de 1954 para os habitantes da ocupação. “Foi um esquema de guerrilha”, diz Calil ao POP FANTASMA.

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POP FANTASMA: Como está sendo lançar o filme nas telas na pandemia?

RICARDO CALIL: Não é o melhor momento para estrear o filme nos cinemas, todo mundo sabe disso. A gente tinha compromisso de estrear no cinema por conta de apoios que recebemos. Íamos estrear em abril do ano passado, mas quando veio a pandemia, retiramos a estreia, mas não conseguiu adiar indefinidamente. Aqui em São Paulo, e no Rio também nesse momento, os cinemas estão abertos, seguindo os protocolos de limitação de número de espectadores, de distanciamento das cadeiras, obrigatoriedade de uso de máscaras, etc.

O filme fica bem numa tela pequena, mas é uma experiência diferente vê-lo numa tela grande. Fico na esperança de que quem estiver confortável ou estiver vacinado que vá ao cinema, porque esse é um filme de amor ao cinema, é um filme sobre o amor ao cinema também, e é um filme sobre o amor a uma sala de cinema. Não vai ser a mesma coisa que ver o filme fora da pandemia, mas quem estiver tranquilo, toma um banho de álcool gel antes e depois e vá lá.

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Aliás, as imagens do cinema por dentro são bem bonitas mesmo…

O cinema é muito sui generis, porque quando ele foi inaugurado em 1951 ele já surgiu como o melhor e mais luxuoso cinema da América do Sul. É um cinema bonito, chamativo, e ao mesmo tempo tem o contraste muito forte do glamour do passado com precariedade da ocupação que havia lá. Tinha num saguão aquelas paredes vermelhas e as pessoas dormindo lá, em quartos improvisados com aquelas divisórias de escritório. Um cenário muito particular e muito forte. Então se tem gente que encara ir ao cinema, e que ama uma sala de cinema, vão sentir que esse amor está sendo retribuído pelo filme de alguma forma. O filme é apaixonado pelo tema dele, tanto pelo lado artístico quanto pelo lado social.

Como você chegou àquelas pessoas? Você já tinha uma ideia de que ali circulavam tantas histórias? Ou foi algo que você foi descobrindo depois?

Bom, o filme começa no início de 2015 quando eu leio a notícia de que havia uma ocupação, e a ideia de um cinema que vira lar me parece muito fascinante. A história do Marrocos é muito interessante também. O cinema é inaugurado como o mais luxuoso da América do Sul também sede do primeiro festival internacional de cinema do Brasil em 1954. Então a gente, vendo a notícia sobre o cinema, já tinha a ideia de que era um espaço diverso, na ocupação tinha muito refugiado africano, latino-americano, uma comunidade LGBTQI+ razoável. A riqueza humana daquele espaço eu só fui descobrindo aos poucos, no meio do processo, quando fomos chamando as pessoas para as sessões, depois para as oficinas. Fui entender como aquele lugar reunia histórias tão ricas e fantásticas. Você tem desde uma pessoa que é um iluminador teatral que teve depressão e foi morar na rua…

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Que é um dos personagens mais interessantes do filme.

É, o Walter, uma grande figura humana. E tem o filho do ministro da defesa do Congo, que foi assassinado pela ditadura local. Um cara que fugiu do Boko Haram, um cara que faz rap, uma lutadora de muai thai… Muita riqueza humana.

Foi preciso ganhar a confiança dos moradores do local com o tempo?

Cara, foi um trabalho de corpo a corpo. Porque primeiro a gente tinha que convencer pessoas que estão tentando batalhar a vida ali a tirar duas horas do dia deles para ver filmes antigos em preto e branco, todo mundo morrendo de cansaço. Ficamos no corpo a corpo, conversando com um por um no saguão, conversando na base do “olha, esse cinema foi importante, teve esse festival, a gente vai reabrir o cinema, vem ver a sessão”.

Primeiro, teve esse corpo a corpo para as pessoas virem. Depois da sessão, a gente falava: “Quando acabarem as sessões, estamos esperando vocês para fazerem uma oficina de teatro, é uma oficina que tem a ver com os filmes que vocês estão vendo”. Eram 2 mil pessoas morando lá e aparecem 50 pessoas para falar com a gente. Dessas 50 pessoas, umas 30 podiam encarar um trabalho intenso de oficina por um mês. A gente se aproximou muito dessas 30 pessoas que ficaram na oficina, foi pouco a pouco. A relação mais intensa foi com esses 30 moradores.

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Vocês usaram o equipamento de lá mesmo para exibir os filmes?

Não, a gente tentou botar pra funcionar o projetor. Levamos até o antigo projecionista do Marrocos, conseguimos até botar o antigo projetor pra funcionar. Mas ele não tinha força pra projetar até a tela, porque o cinema é gigante. Conseguimos mas sem a potência necessária para exibir os 35 milímetros.

Acabamos fazendo um esquema de exibir em DVD, que funcionou pro esquema de guerrilha. A gente nem conseguiria exibir todos aqueles filmes, porque é uma dificuldade conseguir copia de 35 milímetros de cada filmes. A gente fez tudo na guerrilha na hora da filmagem. Só fomos conseguir os direitos autorais desses filmes muito tempo depois.

Fizemos na hora o que foi possível fazer, que não foi pouco. Todos os filmes que escolhemos exibir foram exibidos em 1954 no Marrocos.

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Há cenas no filme em que aparecem negativos jogados pelo chão. Aquilo já estava lá?

Estava lá sim. A sala de projeção era um lugar muito fascinante, quando agente foi lá ainda tinha dois projetores antigões. E era como se fosse um sítio arquelógico do cinema. Fizemos uma entrevista bem interessante com o projecionista, mas na montagem, a parte histórica do cinema foi perdendo espaço porque a gente estava muito apaixonado pelos moradores. A gente fez entrevista com jornalista que cobriu o festival de 1954, com o filho do dono da sala, e tudo mais. Mas o filme foi tomando outra forma. Os negativos eram umas relíquias, uns materiais de cinema antigo mesmo. Quase um fantasma do cinema, muito interessante.

Durante a filmagem vocês já estavam lidando com a questão da desocupação? Era um subtexto do filme todo, né?

Quando fomos visitar a ocupação, o pessoal já me falou que havia uma reintegração de posse marcada para daqui a três meses. E isso foi um drama, porque “cara, esse filme que eu quero fazer só faz sentido com o prédio ocupado”. E foi um drama para viabilizar o filme nesses três meses, a gente conseguiu um pouco de apoio do Canal Brasil e fez as filmagens com essa pouca grana. Um pouco de dinheiro pessoal, uma equipe muito aguerrida, trabalhando por muito pouco. Alguns moradores ajudaram na produção.

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Havia a perspectiva deles saírem muito rápido. Isso acabou sendo adiado e fomos ficando com a perspectiva de que a reintegração aconteceria em julho de 2015, só que ela foi acontecer em outubro de 2016, porque eles vão protelando na justiça, pedindo mais tempo. Isso só aconteceu um ano e três meses depois do que a gente esperava. Mas numa ocupação você está sempre com a perspectiva de perder a casa do dia para a noite, o esquema é de precariedade.

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