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Cultura Pop

Weezer: a ópera-rock que nunca saiu

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Weezer: a ópera-rock que nunca saiu

No que dependesse de uma bendita viagem na maionese do vocalista e compositor Rivers Cuomo, o segundo disco do Weezer não teria sido Pinkerton (1996). E sim Songs from the black hole, uma bizarríssima ópera-rock que tratava da relação do próprio cantor com o sucesso. E que também tratava de sexo no espaço sideral (!).

Esse disco, que chegou a ser realmente composto e gravado (entre 1994 e 1996), entrou para o enorme acervo imaginário de discos jamais concluídos e lançados. E que viraram lenda entre fãs de determinados artistas. Agora fica a pergunta: isso daria certo?

Bom, sim e não. E talvez. O Weezer, em 1996, era uma banda meio estranha. O disco de estreia, epônimo, saiu em 1994 e conseguiu disco de platina tripla. Mas ainda assim, o grupo ainda tinha uma aparência meio cult e maluca demais até mesmo para uma década que transformou o grunge em sucesso de vendas.

>>> Veja também no POP FANTASMA: Pare de reclamar do disco de covers do Weezer e ouça o dos Smithereens e o do Ty Segall

Não apenas isso: o grupo de Rivers, Patrick Wilson (bateria), Brian Bell (guitarra) e Matt Sharp (baixo) tinha uma tendência nada ligeira a se autossabotar. Pinkerton, o segundo disco, tornou-se de qualquer maneira um álbum bem mais sombrio, que deu um susto nos fãs dos tons solares do primeiro lançamento.

A sequência que gerou o escondido Songs from the black hole foi marcada por alguns contratempos. Primeiro: Rivers tinha resolvido fazer um doloroso procedimento cirúrgico para resolver um problema de infância. O cantor da banda tinha a perna esquerda duas polegadas maior que a direita. Foram meses indo e voltando do hospital em 1995, andando de bengala e tomando analgésicos. O outro: o cantor decidiu se inscrever para estudar composição clássica na Universidade de Harvard.

Teve mais um: Cuomo, mesmo sendo marinheiro de primeira viagem no estrelato, estava cansado da vida de rockstar, por causa das longas noites em quartos de hotel e turnês entediantes. Já que havia entrado em Harvard, aproveitou para temperar esses sentimentos com uma dose de vergonha das canções “simplistas” que fazia com o Weezer. Em entrevistas e em papos com amigos, passou a falar que queria mesmo era compor músicas “complexas, intensas e bonitas”.

>>> Veja também no POP FANTASMA: Replacements e o show de duas horas e 43 músicas (!)

O tropo narrativo vivido por Cuomo nessa época é comum no rock: artista começa a fazer músicas complexas e influenciadas por sons clássicos, e passa a renegar o que já fez. Só que Cuomo ainda tinha pouco tempo de carreira e o risco não era exatamente calculado. Seja como for, ele decidiu que o disco novo do Weezer seria uma ópera-rock. E lá pelas tantas, passou a escutar as óperas Aida (1871) e Madame Butterfly (1904), além da ópera rock Jesus Christ Superstar (1970). Então, o novo álbum teria essas influências.

O plot de Songs from the black hole era muito estapafúrdio. Em 2126 (tá chegando!) uma espaçonave chamada Betsy embarcaria em uma missão por toda a galáxia. Toda a trupe da nave seria interpretada pelos integrantes da banda, cabendo a Cuomo o papel de Jonas, o capitão da aeronave – na verdade, um capitão indeciso e com sentimentos conflituosos. Ao longo da jornada, ele se envolve com duas mulheres. Elas eram a gente boa Laurel (cuja voz era a de Rachel Haden, da banda The Rentals) e a cozinheira do navio, a “menina má” Maria (Joan Wasser, das Danbuilders), com quem tem um filho.

O disco tem personagens que referenciam-se no dia a dia da banda. Betsy, a nave, tem o nome do ônibus de excursão do grupo. A nave tem um robô-patrão, M1, que é na verdade a gravadora do grupo (Geffen). A relação de Jonas com as duas garotas representa a relação de Cuomo com as mulheres e o sucesso. Esse material começou a ser gravado em 1994 num estúdio na casa da família Cuomo, cresceu após a ida para o estúdio Electric Lady. Só que foi interrompido por uma encrenca ou outra – problemas de família, a tal operação, a entrada em Harvard.

>>> Veja também no POP FANTASMA: Discos de 1991 #1: Out of time, R.E.M.

Das sessões do Electric lady, saíram músicas como Blast off!, Longtime sunshine, I just threw out the love of my dreams, Tired of sex e Getchoo. Aliás, algumas dessas músicas surgiram no Pinkerton, outras só apareceram em definitivo nos relançamentos do disco, e mais algumas em discos solo de Cuomo. Mas de qualquer jeito, ninguém gostou das sessões de gravação do álbum, a ópera-rock parecia sem graça, e nem Rivers nem a banda sabiam como tornar aquilo mais interessante. Não estava dando certo. Por sua vez, o conceito de Pinkerton veio quando Rivers sentiu-se sozinho e meio abandonado em Harvard.

Na era do cancelamento, o humor de Songs… poderia causar problemas ao Weezer. Bom, a  mordacidade de Pinkerton, com canções como Tired of sex e Pink triangle (esta, sobre um rapaz hetero que se apaixona por uma garota lésbica) fez com que Rivers resolvesse mandar uma carta para o seu fã-clube “explicando” as letras antecipadamente, relacionando-as com sentimentos experimentados em fases recentes de sua vida. “Você pode estar mais disposto a perdoar as letras se as vir como pontos baixos em uma história maior”, afirmou.

E, ah sim: já saíram uns piratas com o repertório do disco.

  • Tem mais sobre esse disco aqui e aqui.
  • No Instagram do POP FANTASMA você conhece a capa que Songs from the black hole teria se tivesse saído, e conhece outros discos nunca lançados.

Ricardo Schott é jornalista, radialista, editor e principal colaborador do POP FANTASMA.

Cultura Pop

George Harrison em 2001: “O que é Eminem?”

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George Harrison (Reprodução YouTube)

RESUMO: Em 2001, George Harrison participou de chats no Yahoo e MSN para divulgar All Things Must Pass; com humor, respondeu fãs poucos meses antes de morrer – e desdenhou Eminem (rs)

Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução YouTube

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“Que Deus abençoe a todos vocês. Não se esqueçam de fazer suas orações esta noite. Sejam boas almas. Muito amor! George!”. Essa recomendação foi feita por ninguém menos que o beatle George Harrison no dia 15 de fevereiro de 2001 – há 25 anos e alguns dias, portanto – ao participar de dois emocionantes chats (pelo Yahoo e pelo MSN).

O tal bate-papo, além de hoje em dia ser importante pelos motivos mais tristes (George morreria naquele mesmo ano, em 29 de novembro), foi uma raridade causada pelo relançamento remasterizado de seu álbum triplo All things must pass (1970), em janeiro de 2001. George estava cuidando pessoalmente da remasterização de todo seu catálogo e o disco, com capa colorida e fotos reimaginadas, além de um kit de imprensa eletrônico (novidade na época), era o carro-chefe de toda a história. O lançamento de um site do cantor, o allthingsmustpass.com, também era a parada do momento (hoje o endereço aponta para o georgeharrison.com).

Os dois bate-papos tiveram momentos, digamos assim, inesquecíveis. No do Yahoo, George fez questão de dizer que era sua primeira vez num computador: “Sou praticamente analfabeto 🙂 “, escreveu, com emoji e tudo. Ainda assim, um fã meio distraído quis saber se ele surfava muito na internet. “Não, eu nunca surfo. Não tenho a senha”, disse o paciente beatle. Um fã mais brincalhão quis saber das influências dos Rutles, banda-paródia dos Beatles que teve apoio do próprio Harrison, no som dele (“tirei todas as minhas influências deles!”) e outro perguntou sobre a indicação de Bob Dylan ao Oscar (sua Things have changed fazia parte da trilha de Garotos incríveis, de Curtis Hanson). “Acho que ele deveria ganhar TODOS os Oscars, todos os Tonys, todos os Grammys”, exultou.

A conta do Instagram @diariobeatle deu uma resumida no chat do Yahoo e lembrou que George contou sobre a origem dos gnomos da capa de All things must pass, além de associá-los a um certo quarteto de Liverpool. “Originalmente, quando tiramos a foto eu tinha esses gnomos bávaros antigos, que eu pensei em colocar ali tipo… John, Paul, George e Ringo”, disse. “Gnomos são muito populares na Europa. E esses gnomos foram feitos por volta de 1860”.

A ironia estava em alta: George tambem disse que se começasse um movimento como o Live Aid ajudaria… Bob Geldof (!)., o criador do evento. Perguntado sobre se Paul McCartney ainda o irritava, contemporizou: “Não examine um amigo com uma lupa microscópica: você conhece seus defeitos. Então deixe suas fraquezas passarem. Provérbio vitoriano antigo”, disse. “Tenho certeza de que há coisas suficientes em mim que o irritam, mas acho que já crescemos o suficiente para perceber que nós dois somos muito fofos!”. Um / uma fã perguntou sobre o que ele achava da nominação de Eminem para o Grammy. “O que é Eminem?”, perguntou. “É uma marca de chocolates ou algo assim?”.

Bom, no papo do MSN um fã abusou da ingenuidade e perguntou se o próprio George era o webmaster de si próprio. “Eu não sou técnico. Mas conversei com o pessoal da Radical Media. Eles vieram à minha casa e instalaram os computadores. Os técnicos fizeram tudo e eu fiquei pensando em ideias. Eu não tinha noção do que era um site e ainda não entendo o conceito. Eu queria ver pessoas pequenas se cutucando com gravetos, tipo no Monty Python”, disse.

Pra ler tudo e matar as saudades do beatle (cuja saída de cena também faz 25 anos em 2026), só ir aqui.

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Cultura Pop

No nosso podcast, os erros e acertos dos Foo Fighters

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Você pensava que o Pop Fantasma Documento, nosso podcast, não ia mais voltar? Olha ele aqui de novo, por três edições especiais no fim de 2025 – e ano que vem estamos de volta de vez. No terceiro e último episódio, o papo é o começo dos Foo Fighters, e o pedaço de história que vai de Foo Fighters (1995, o primeiro disco) até There’s nothing left to lose (o terceirão, de 1999), esticando um pouco até a chegada de Dave Grohl e seus cometas no ano 2000.

Uma história e tanto: você vai conferir a metamorfose de Grohl – de baterista do Nirvana a rockstar e líder de banda -, o entra e sai de integrantes, os grandes acertos e as monumentais cagadas cometidas por uma das maiores bandas da história do rock. Bora conferir mais essa?

Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch (foto: encarte do álbum Foo Fighters). Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.

(a parte do FF no ano 2000 foi feita com base na pesquisa feita pelo jornalista Renan Guerra, e publicada originalmente por ele neste link)

Ouça a gente preferencialmente no Castbox. Mas estamos também no Mixcloud, no Deezer e no Spotify.

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Cultura Pop

No nosso podcast, Alanis Morissette da pré-história a “Jagged little pill”

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No nosso podcast, Alanis Morissette da pré-história a "Jagged little pill"

Você pensava que o Pop Fantasma Documento, nosso podcast, não ia mais voltar? Olha ele aqui de novo, por três edições especiais no fim de 2025 – e ano que vem estamos de volta de vez. No segundo e penúltimo episódio desse ano, o papo é um dos maiores sucessos dos anos 1990. Sucesso, aliás, é pouco: há uns 30 anos, pra onde quer que você fosse, jamais escaparia de Alanis Morissette e do seu extremamente popular terceiro disco, Jagged little pill (1995).

Peraí, “terceiro” disco? Sim, porque Jagged era só o segundo ato da carreira de Alanis Morissette. E ainda havia uma pré-história dela, em seu país de origem, o Canadá – em que ela fazia um som beeeem diferente do que a consagrou. Bora conferir essa história?

Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch (foto: Capa de Jagged little pill). Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.

Ouça a gente preferencialmente no Castbox. Mas estamos também no Mixcloud, no Deezer e no Spotify.

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