Crítica
Ouvimos: DMenezes – “Trama”

RESENHA: DMenezes faz MPB lo-fi com alma setentista. Em Trama, mistura Fagner, Jorge Ben e trilhas antigas num pop sombrio e caseiro.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Independente
Lançamento: 17 de outubro de 2025
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Guilherme de Menezes (ou DMenezes) é um músico de Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, que faz bedroom… Bom, digamos que é mais bedroom MPB do que bedroom pop. Ou quem sabe um bedroom pop com cara emepebística, vinda do hábito de colecionar discos – no Instagram dele, ele mostra os álbuns que tem, alguns deles bem raros, e faz comentários bem bacanas em reels curtos.
Trama, o segundo disco de DMenezes, traz uma referência no título – a gravadora que “renovou a MPB” nos anos 2000, mas que não resistiu às mudanças no mercado e às variações nas modas musicais (e vá la, à falta de grana do mundo fonográfico pós-CD). Pode não ser proposital, mas passou pela minha mente o tempo todo ao ouvir o clima das faixas do disco, basicamente um lo-fi derretido feito com a mente nas trilhas internacionais de novelas como O espigão (1974) e O grito (1976), ou nas trilhas de filmes nacionais dos anos 1970. Ou quem sabe nos arranjos de discos setentistas nacionais, como rola em Não vou pra capital (algo entre Raul Seixas, Som Imaginário e Silvio Brito) e Experiência programada (clima herdado de Fagner e Belchior).
- Ouvimos: Chico Chico – Let it burn / Deixa arder
As gêmeas Presságio e Inevitável lembram as experiências de Fagner ao lado de letristas como Abel Silva e Fausto Nilo, enquanto Velha rede, cheia de lembranças de casas antigas e vidas reais passadas, cruza desafinações propositais com uma musicalidade que lembra o Som Imaginário – mas o Som Imaginário que tocou em discos de Odair José. Manduka e Jorge Ben residem no violão de Oeste, algo entre Tame Impala e Lincoln Olivetti aparece em Fantástica 1974, e em Diga…, a musicalidade de Plano de voo, disco de 1975 de Gonzaguinha, parece ser a referência, com órgão Hammond, synths mais modernos, piano Rhodes, num lo-fi voador. Em alguns momentos, os vocais de DMenezes lembram uma versão mais oldies de Cazuza.
Curiosamente, o disco vai ficando menos “antigo” no fim. As duas partes de Medo e desejo têm tanto dos discos da RCA e da Odeon nos anos 1970, quanto de Rita Lee e Ney Matogrosso. A faixa-título, uma balada romântica de violão que encerra o disco, tem muito do pop adulto dos anos 1980 (Marcelo, Leoni, Cazuza), mas ganha uma tensão de tons, notas e timbres que vai tornando a canção um experiência sonora bem sombria. Como se houvesse um filme de horror por trás do pop e da MPB.
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Crítica
Ouvimos: Suki Waterhouse – “Loveland”

RESENHA: Em Loveland, Suki Waterhouse mistura indie pop, folk e britpop em canções sobre paixão, autoconfiança e desilusões amorosas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Island / UMG
Lançamento: 10 de julho de 2026
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Suki Waterhouse começou a carreira como modelo. É uma cantora bonita e chama a atenção não apenas pela voz e pela criatividade – nem a mais antiobjetificante leitura da obra dela iria deixar de prestar atenção nesses detalhes. O lance é que ela usa todos esses “detalhes” justamente a favor de uma visão diferente do seu trabalho.
Traduzindo: Suki está mais para uma musa indie, ou uma musa boêmia, do que para uma it girl poderosa. Discos, clipes, músicas e letras vão se seguindo, e essa imagem da mulher fashion, nostálgica, atraente, mas que vê o sofrimento como surpresa desagradável do Kinder Ovo amoroso, fica mais cristalizada. Veio muita gente antes dela que já era isso: Nina Persson (Cardigans), Amy Winehouse… Mas Suki parece já ter chegado dando nome às coisas, e sabendo onde se metia (e como se metia).
- Ouvimos: Mary In The Junkyard – Role model hermit
Vai daí que Loveland, o novo disco, é basicamente um disco sobre apaixonamento e confusão – vá lá que é um disco em que Suki confessa que, sim, é bastante autoconfiante (como em Any men, em que ela diz que “posso ter qualquer homem / tenho um toque especial, não preciso fazer muito”), e diz que não tem a menor necessidade de continuar num relacionamento que só causa tristeza (Happy with it).
Weirdo traz um outro lado, com Suki dizendo que está louca para ser uma boa esposa e passar as camisas do marido (!) – aí já deve ser o limite de muita gente (na vida real, ela é casada de maneira bem discreta com o ator Robert Pattinson, e a letra menciona sets de filmagem).
Já musicalmente, Loveland tem aquele mesmo esquema conhecido de Suki, de levar o / a ouvinte para uma ilha de escapismo musical, abrindo com a fanfarra synth da lânguida Back in love – quase um trip hop de ares sessentistas. E prosseguindo com a veia indie pop e nostálgica de Any man, Seasons e Happy with it, a onda britpop da boêmia Notting Hill, além do rock gélido, quase pós-punk, de Teardrops.
O lado que oscila entre o folk, o r&b e um clima esfumaçado, quase trip hop, surge em When I get drunk (I want you boy) e Weirdo. E um clima basicamente indie rocker toma conta de hits potenciais como Tiny raisin, Puppy dog eyes, Loveland e Jukebox, faixas que devem tanto a The Killers quanto a Phil Spector. Ficou bacana e Loveland é um dos produtos pop mais bem acabados de 2026.
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Crítica
Ouvimos: Ursamenor – “Quero ir pra casa” (EP)

RESENHA: Trio mineiro Ursamenor une noise pop, shoegaze e punk em um EP sobre cura, cotidiano urbano e mudanças, com guitarras densas e melodias marcantes.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Estúdio Central / YB Music
Lançamento: 15 de julho de 2026
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Trio feminino de indie rock, o Ursamenor vem de Belo Horizonte (MG) e no EP Quero ir pra casa, fala basicamente de cura, de aprendizados com os próprios sentimentos. As letras funcionam como uma terapia entre a autora e seu caderno – e ao mesmo tempo, trazem muito espanto com as mudanças que ninguém conseguiu controlar direito, além de momentos de adeus a coisas ruins do passado. O noise rock dedilhado de Eu sei muito bem, com melodia pop, mas clima ruidoso, fala de uma época em que as coisas “tinham outro sabor, outra cor”.
- Ouvimos: Trash No Star – Existir é resistir (EP)
São letras que falam bastante do dia a dia nas grandes cidades, de trabalhos sufocantes e de prédios que parecem engolir todo mundo. Falam disso até quando não falam diretamente, como em Desvio e Meia volta. Já o som de Camila Silva, Mariana Coura e Iara Dias vai numa onda mais próxima, quase sempre, do noise pop oitentista, de bandas como Velocity Girl – só que com densidade de quem ouviu shoegaze, e clima “aberto” de quem ouviu Paramore.
Músicas como Da janela têm maior proximidade com o punk, e o clima mais denso fica com músicas como Desvio, com guitarras em formato de nuvem. Meia volta é quase um power pop com apreço ao ruído. Já Sombra, canção de quase sete minutos que fecha o EP, tem a solenidade quase britpop de uma música do Fontaines DC, mas com foco na densidade sonora.
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Crítica
Ouvimos: Among Legends – “Lose my grip”

RESENHA: Among Legends, banda de punk melódico de Toronto, mistura emo, hardcore e pop punk em faixas rápidas, pesadas e cheias de refrãos marcantes no ótimo álbum Lose my grip.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Little Rocket Records
Lançamento: 10 de julho de 2026
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Nos anos 2000, Ontario, no Canadá, parecia funcionar de modo diferente do resto do país no que dizia respeito ao punk. A variação mais pop do estilo chegava às FMs (e à MTV) com Avril Lavigne, enquanto a província se destacava por uma atitude bem do it yourself, e por bandas que pareciam misturar tudo: emo, vocais trabalhados a la Bad Religion, sons 60’s a la Ramones e músicas próprias para serem ouvidas a bordo de um skate.
O trio Among Legends, de Toronto (maior cidade da província de Ontario), vem como herança desse universo musical. Lose my grip, segundo álbum, é ágil, pesado e bonito – vocais bem feitos e melodias grudentas são acháveis em todas as doze faixas. H/A/C/K, a faixa de abertura, insere um peso e uma dinâmica que fazem lembrar bandas como Rancid. Sound the alarm tem certo clima de oi! music, e faixas como Open wide e Go on exploram a onda do hardcore melódico.
- Ouvimos: Cuir – Monoface
Mitchell Buchanan (baixo, voz), Tyler Boles (guitarra) e Sara Fellin (bateria e voz) têm peso, mas o principal é a melodia. E ela é sempre bem explorada em canções como o emo-rapcore Back again, as venturosas Hollow, The last time, Floating here for years (punk com várias partes e clima 60’s nos vocais e na melodia, mesmo com o beat intermitente e ágil) e What’s it gonna be.
Band dudes fuck off, com Laura DeRocchis nos vocais, traz as escrotidões nossas de cada dia, só que dentro de uma banda. A bela Familiar fictions, por sua vez, fala sobre aqueles momentos em que a maior dificuldade é dar nomes aos sentimentos e acontecimentos.
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