Crítica
Ouvimos: Demi Lovato – “It’s not that deep”

RESENHA: Em It’s not that deep, Demi Lovato aposta em pop leve e feliz, mas falta gás para transformar a fase boa em algo realmente marcante.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 6,5
Gravadora: Island
Lançamento: 24 de outubro de 2025
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Tem algo rolando com Demi Lovato há alguns anos: ela continuou a carreira, lança discos, faz shows, mas de uma forma ou de outra, a coisa não engrena como já engrenou. Na época em que ela decidiu agregar referências de metal, soava diferente (nossa, uma cantora pop que usa guitarras e imaginário sinistro! – como se Madonna e Lady Gaga não o fizessem) e os discos deram uma repaginada na carreira dela. Mas Demi já vinha de discos mais acessíveis e bem interessantes, como Tell me you love me (2017), o que afasta qualquer explicação do tipo “quando ela parecia roqueira, era melhor”.
Vai daí que It’s not that deep vem trilhado no mesmo corredor de discos novos de Ke$ha e Zara Larsson – pop sem pedir desculpas por ser pop e sem a intenção de arrastar um verão por trás de si, como Charli XCX fez com Brat. Segundo ela, a questão toda se resume no seguinte fato: Demi está feliz. “Comecei a escrever músicas muito emotivas, mas elas simplesmente não ressoavam porque não estou mais nesse momento. Não estou passando por uma fase ruim da minha vida que me obrigasse a escrever músicas tão intensas e emotivas. Estou feliz, estou apaixonada, e não é mais tão profundo assim”, disse recentemente.
Vai daí que o pop de It’s not that deep não é desafiador, e parece destinado a uma legião de “fatimores” do dia a dia de Demi. Gente que fica feliz com o fato de ela estar sóbria, ter encontrado o amor (está casada com o músico canadense Jordan “Jutes” Lutes há quase um ano) e ter lançado uma seleção de músicas dançantes e positivas, como Fast, Frequency, o synthpop oitentista e dramático Here all night, o reggaezinho frouxo (na linha de All that she wants, do Ace Of Base) Let you go, além do hi-NRGizinho de Song to myself. É, digamos, basicamente o que uma / um artista faz quando quer divertir seu público sem maiores encucações.
Nessa de “divertir seu público sem maiores encucações”, vá lá, muita gente encontra motivos para as maiores revoluções do mundo – o funk veio disso, o pagode também, o trap idem. Demi basicamente canta o amor, como em Frequency (“encontrei alguém que combina com a minha frequência / você não pode negar toda essa energia elétrica”), Fast (basicamente uma canção em que ela anuncia que quer ir com o namorado para um local reservado e “ir mais rápido”), no pé na bunda “adulto” de Let you go e no romantismo fantasmagórico de Ghost.
Da mesma forma que não é “profundo”, tem algo em It’s not that deep que não conecta com facilidade justamente porque tudo parece normal demais, tranquilo demais – ou porque até mesmo na música pop, nos últimos anos, todo mundo tenha se acostumado a ver felicidade como enfrentamento. Ou talvez porque a felicidade, em forma de música, precisa mesmo é da disposição para fazer futuros clássicos, daqueles que todo mundo canta quando está feliz. Ou triste.
Demi evita que o novo disco seja associado ao “álbum casadoiro” de Gwen Stefani, felizmente – essa fuga fica evidente em momentos como Fast, Frequency, a feroz In my head e até na balada Ghost. Mas tem um certo gás que tá faltando nesse disco, essencial para que uma não-descida às profundezas possa soar legítima e bacana de verdade.
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Crítica
Ouvimos: Suki Waterhouse – “Loveland”

RESENHA: Em Loveland, Suki Waterhouse mistura indie pop, folk e britpop em canções sobre paixão, autoconfiança e desilusões amorosas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Island / UMG
Lançamento: 10 de julho de 2026
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Suki Waterhouse começou a carreira como modelo. É uma cantora bonita e chama a atenção não apenas pela voz e pela criatividade – nem a mais antiobjetificante leitura da obra dela iria deixar de prestar atenção nesses detalhes. O lance é que ela usa todos esses “detalhes” justamente a favor de uma visão diferente do seu trabalho.
Traduzindo: Suki está mais para uma musa indie, ou uma musa boêmia, do que para uma it girl poderosa. Discos, clipes, músicas e letras vão se seguindo, e essa imagem da mulher fashion, nostálgica, atraente, mas que vê o sofrimento como surpresa desagradável do Kinder Ovo amoroso, fica mais cristalizada. Veio muita gente antes dela que já era isso: Nina Persson (Cardigans), Amy Winehouse… Mas Suki parece já ter chegado dando nome às coisas, e sabendo onde se metia (e como se metia).
- Ouvimos: Mary In The Junkyard – Role model hermit
Vai daí que Loveland, o novo disco, é basicamente um disco sobre apaixonamento e confusão – vá lá que é um disco em que Suki confessa que, sim, é bastante autoconfiante (como em Any men, em que ela diz que “posso ter qualquer homem / tenho um toque especial, não preciso fazer muito”), e diz que não tem a menor necessidade de continuar num relacionamento que só causa tristeza (Happy with it).
Weirdo traz um outro lado, com Suki dizendo que está louca para ser uma boa esposa e passar as camisas do marido (!) – aí já deve ser o limite de muita gente (na vida real, ela é casada de maneira bem discreta com o ator Robert Pattinson, e a letra menciona sets de filmagem).
Já musicalmente, Loveland tem aquele mesmo esquema conhecido de Suki, de levar o / a ouvinte para uma ilha de escapismo musical, abrindo com a fanfarra synth da lânguida Back in love – quase um trip hop de ares sessentistas. E prosseguindo com a veia indie pop e nostálgica de Any man, Seasons e Happy with it, a onda britpop da boêmia Notting Hill, além do rock gélido, quase pós-punk, de Teardrops.
O lado que oscila entre o folk, o r&b e um clima esfumaçado, quase trip hop, surge em When I get drunk (I want you boy) e Weirdo. E um clima basicamente indie rocker toma conta de hits potenciais como Tiny raisin, Puppy dog eyes, Loveland e Jukebox, faixas que devem tanto a The Killers quanto a Phil Spector. Ficou bacana e Loveland é um dos produtos pop mais bem acabados de 2026.
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Crítica
Ouvimos: Ursamenor – “Quero ir pra casa” (EP)

RESENHA: Trio mineiro Ursamenor une noise pop, shoegaze e punk em um EP sobre cura, cotidiano urbano e mudanças, com guitarras densas e melodias marcantes.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Estúdio Central / YB Music
Lançamento: 15 de julho de 2026
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Trio feminino de indie rock, o Ursamenor vem de Belo Horizonte (MG) e no EP Quero ir pra casa, fala basicamente de cura, de aprendizados com os próprios sentimentos. As letras funcionam como uma terapia entre a autora e seu caderno – e ao mesmo tempo, trazem muito espanto com as mudanças que ninguém conseguiu controlar direito, além de momentos de adeus a coisas ruins do passado. O noise rock dedilhado de Eu sei muito bem, com melodia pop, mas clima ruidoso, fala de uma época em que as coisas “tinham outro sabor, outra cor”.
- Ouvimos: Trash No Star – Existir é resistir (EP)
São letras que falam bastante do dia a dia nas grandes cidades, de trabalhos sufocantes e de prédios que parecem engolir todo mundo. Falam disso até quando não falam diretamente, como em Desvio e Meia volta. Já o som de Camila Silva, Mariana Coura e Iara Dias vai numa onda mais próxima, quase sempre, do noise pop oitentista, de bandas como Velocity Girl – só que com densidade de quem ouviu shoegaze, e clima “aberto” de quem ouviu Paramore.
Músicas como Da janela têm maior proximidade com o punk, e o clima mais denso fica com músicas como Desvio, com guitarras em formato de nuvem. Meia volta é quase um power pop com apreço ao ruído. Já Sombra, canção de quase sete minutos que fecha o EP, tem a solenidade quase britpop de uma música do Fontaines DC, mas com foco na densidade sonora.
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Crítica
Ouvimos: Among Legends – “Lose my grip”

RESENHA: Among Legends, banda de punk melódico de Toronto, mistura emo, hardcore e pop punk em faixas rápidas, pesadas e cheias de refrãos marcantes no ótimo álbum Lose my grip.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Little Rocket Records
Lançamento: 10 de julho de 2026
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Nos anos 2000, Ontario, no Canadá, parecia funcionar de modo diferente do resto do país no que dizia respeito ao punk. A variação mais pop do estilo chegava às FMs (e à MTV) com Avril Lavigne, enquanto a província se destacava por uma atitude bem do it yourself, e por bandas que pareciam misturar tudo: emo, vocais trabalhados a la Bad Religion, sons 60’s a la Ramones e músicas próprias para serem ouvidas a bordo de um skate.
O trio Among Legends, de Toronto (maior cidade da província de Ontario), vem como herança desse universo musical. Lose my grip, segundo álbum, é ágil, pesado e bonito – vocais bem feitos e melodias grudentas são acháveis em todas as doze faixas. H/A/C/K, a faixa de abertura, insere um peso e uma dinâmica que fazem lembrar bandas como Rancid. Sound the alarm tem certo clima de oi! music, e faixas como Open wide e Go on exploram a onda do hardcore melódico.
- Ouvimos: Cuir – Monoface
Mitchell Buchanan (baixo, voz), Tyler Boles (guitarra) e Sara Fellin (bateria e voz) têm peso, mas o principal é a melodia. E ela é sempre bem explorada em canções como o emo-rapcore Back again, as venturosas Hollow, The last time, Floating here for years (punk com várias partes e clima 60’s nos vocais e na melodia, mesmo com o beat intermitente e ágil) e What’s it gonna be.
Band dudes fuck off, com Laura DeRocchis nos vocais, traz as escrotidões nossas de cada dia, só que dentro de uma banda. A bela Familiar fictions, por sua vez, fala sobre aqueles momentos em que a maior dificuldade é dar nomes aos sentimentos e acontecimentos.
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