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Underground Press Syndicate: um instagram só de jornais marginais ao redor do mundo

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Underground Press Syndicate: um instagram só de jornais marginais ao redor do mundo

Amanda Lucio tem 27 anos, é historiadora, mora em São Paulo, e em 2017 começou a estudar sobre políticas culturais na ditadura militar, imprensa marginal e temas adjacentes. “Comecei como curiosa mesmo, tive contato com as leituras na graduação e fui me aprofundando. Ainda sei pouco, é um universo de informações dispersas”, conta ela, que hoje faz mestrado e trabalha como redatora freelancer. No meio do caminho foi fazendo contatos, achando mais jornais independentes e decidiu fazer uma pesquisa de iniciação científica sobre o Almanaque Navilouca, organizado pelos poetas Torquato Neto e Wally Salomão, e lançado em 1974, dois anos após a morte do primeiro.

Amanda Lucio

A historiadora percebeu que havia um enorme intercâmbio de jornais alternativos entre vários países, a partir de uma olhadinha nos materiais ligados ao Navilouca. A pesquisa gerou uma dissertação de mestrado e também um dos endereços mais interessantes do Instagram, o Underground Press Syndicate, só com imagens de jornais alternativos ao redor do mundo – incluindo alguns brasileiros. Vários deles estão organizados por países nos stories.

“Tento fazer algo menos acadêmico, que seja mais fluido, assim como os jornais que estudo. Me preocupo em produzir algo que seja instigante, que consiga acessar as pessoas”, conta Amanda, que está planejando um podcast sobre o assunto e pensa também num catálogo ou livro.

O POP FANTASMA bateu um papo com Amanda sobre o instagram, sobre os projetos e sobre a pesquisa que ela vem fazendo. Leia e inspire-se.

Me fala um pouco da pesquisa de mestrado que você está fazendo? No que ela consiste?

Então, a minha pesquisa é uma espécie de incursão dentro do que se chamou nos anos 1960 e 1970 de “imprensa underground”, “contracultural”, “alternativa” e outros nomes que usavam para categorizar jornais que eram produzidos de maneira autônoma por pequenos grupos, abordavam temas que não participavam do debate da grande imprensa, além de circularem em circuitos específicos.

A minha ideia de estudar mais a respeito surgiu de uma pesquisa de Iniciação Científica sobre o Almanaque Navilouca (1974) que fiz durante a graduação. Essa publicação foi uma espécie de “grande acontecimento” da imprensa marginal e eu tentei entender como foram as alianças que se formaram em torno dela, aspectos do editorial e coisas assim. Nesse momento eu tive muito contato com as cartas dos editores e outros materiais, muita gente falava do exílio, foram para NY ou Londres. Foi então que percebi a existência de uma circulação desse tipo de impresso pelas mãos da galera. O pessoal que morava fora do país enviava uns exemplares pra cá e o pessoal se apropriava desses modelos, criando algo semelhante à moda brasileira, sabe?

Existiam muitas limitações tecnológicas e a censura não deixava o pessoal publicar coisas sobre determinados assuntos, então era bem complicado. Foi por esses indícios de circulação desses impressos entre o Brasil, EUA e Inglaterra, que eu decidi começar a procurar mais a respeito! Jornais que abordavam temas que circulavam lá fora e traziam novidades sobre o underground brasileiro: falavam de música, literatura, cinema, budismo, hinduísmo, viagens de carona, ícones da cultura “jovem” daquele período, longas matérias sobre Zé do Caixão e Andy Warhol, por exemplo.

Aqui não havia possibilidade de explorar alguns temas como lá fora, aqui tinha censura e então era tudo muito restrito. Os dois jornais assumidamente “undergrounds” do Brasil foram o Flor do Mal, editado por Luiz Carlos Maciel (que escrevia a coluna Underground do Pasquim), Torquato Neto, Rogério Duarte e Tite de Lemos; além do Presença, que era do Rubinho Gomes, mas tinha colaborações do Joel Macedo, Hélio Oiticica, Waly Salomão, Torquato Neto e mais uma galera. Ambos tiveram poucas edições, o Flor só teve cinco edições semanais e o Presença teve duas mensais.

Era difícil manter esse tipo de jornal por aqui, além de vender pouco, era mal visto (coisa de “hippie”) e o risco de parar na polícia era grande. Só que como eu tinha dito antes, existia uma circulação desse tipo de impresso através de cartas e viagens, muita gente “perambulava” naquele período e levava/trazia informações. O exílio (voluntário ou forçado) foi muito importante nesse trânsito de informações. Em Londres existia o jornal International Times, que era o ícone contracultural de lá, inclusive era lido por Caetano e Gil durante o exílio deles, assim como por Torquato Neto e Hélio Oiticica que moraram lá em 1968-69. Esses são apenas alguns exemplos.

E o meu objetivo é entender como se caracteriza a identidade editorial desse tipo de publicação, já que são todos muito parecidos na forma de organização do conteúdo, das seções e nos temas. Eu separei o jornal britânico, que foi fundado em 1966 e lido por aqueles que participaram/enviavam matérias para publicarem aqui, porque haviam muitas menções e muita inspiração para criar a partir dos temas que surgiam lá. Então a ideia principal é essa, entender a apropriação desses modelo de impresso aqui no Brasil, levando em conta toda limitação tecnológica, política, social etc.

Como você tem encontrado alguns dos jornais que coloca no Instagram e como surgiu a ideia de partilhar o que você tem pesquisado ali?

Conforme fui pesquisando nos documentos, descobri que existia uma organização chamada Underground Press Syndicate (UPS) fundada em 1966 nos EUA por pessoas como Tom Forcade e outros jornalistas que produziam alguns desses jornais alternativos. E na lista de filiação, tinham jornais de diversas partes do mundo! A cada ano tinham mais filiados de locais diferentes, então comecei a pesquisar quais eram esses jornais e qual era o motivo da criação do sindicato.

A ideia era que os membros pudessem compartilhar conteúdos uns dos outros sem precisar pagar os direitos e coisas do tipo. Além de permitir uma divulgação ampla, pois essas listas de filiados eram publicadas nesses jornais com os endereços de correspondência da redação e também eram separadas por continentes. Assim, as pessoas se conheciam, faziam contatos e ficavam por dentro daquilo que acontecia em outras partes do mundo.

Foi então que veio a ideia da página no Instagram com o mesmo nome, Underground Press Syndicate. Vi que não existia um conteúdo parecido na internet, a não ser perfis de sebos e colecionadores que postavam um exemplar ou outro. Fui além e inclui também jornais que não eram filiados ao grupo. Eu achei que seria legal para quem gosta do tema da contracultura, jornalismo, psicodelia, colecionismo e afins. Agora há a possibilidade de encontrar e conhecer jornais tão diferentes e em idiomas distintos em um só lugar!

Os stories do seu instagram estão muito bem organizados por países e tal. Como foi organizar isso tudo? Você tem pessoas que mandam recortes e capas para você?

Na verdade, eu estou tentando criar um banco de dados para esses jornais, documentando os países, edições, datas e locais onde podem ser encontrados! A organização não é difícil, mas algumas vezes os jornais são de exilados que representam seus países em outros lugares. Um exemplo disso é o jornal Forward, criado no final de 1976 pelos estudantes etíopes em universidades estadunidenses durante o início da Guerra Civil da Etiópia na década de 1970.

Nesse caso, como classificar? Eles se identificam, assinam endereçando à terra natal deles, mantinham laços políticos e sociais com a Etiópia e estão em outro país por conta do ativismo estudantil e para evitar perseguição política, então mesmo que seja produzido nos EUA e escrito em inglês, é um jornal etíope. Houve uma coisa parecida com os jornais da Somália, Espanha e Catalunha, as lutas pela independência rolavam e essas pessoas precisam ter suas identidades reconhecidas. No caso da Espanha e Catalunha, coloquei os jornais de Barcelona como catalães, ao invés de espanhóis, por exemplo. São aspectos importantes na hora da classificação do material.

Eu sempre tento ler o conteúdo (quando o idioma torna isso possível, rs) e pesquisar a respeito. Quero construir um acervo bem sólido, baseado em um trabalho de fôlego com pesquisa e que dialogue com as questões históricas e sociais que envolveram suas produções. E não, infelizmente as pessoas não me enviam nada, eu gostaria que enviassem, mas acho que ainda vai rolar!

Há alguma raridade que você conseguiu publicar?

Olha, acredito que boa parte deles são raridades, pois se tratam de publicações com baixa tiragem e circulação, duração curta, periodicidade irregular e tal. Só que tem algumas que são ainda mais raras, não sei se é porque estou no Brasil e não tenho amplo acesso, além das dificuldades de idioma e essas coisas. Só que até os jornais daqui são dificílimos de encontrar (inclusive são os mais difíceis). Nem na internet tem acesso, nem digitalizado. Tem que ir nos arquivos ou acervos de colecionadores tirar fotos. Os jornais brasileiros Flor do Mal e Presença que eu publiquei são bem difíceis de encontrar, o Flor tem algumas edições online, mas o Presença não tem nadinha.

Consegui minhas edições por contatos com amigos que também são pesquisadores do tema. E do exterior, o jornal palestino Al Hadaf, o suíço Ouef, o soviético Leaflet e o japonês Buzoku são alguns bons exemplos de raridades. Deu pra ver que é difícil escolher um, né?!

Onde você tem achado alguns jornais? Guarda alguns deles em casa?

Encontro em acervos online, blogs de colecionadores, arquivos do próprio jornal, bibliotecas de universidades, lojas de colecionadores, sites de museus nacionais ou temáticos, organizações sociais ou partidárias que divulgam e tantos outros. Minha pesquisa é toda feita online, algumas vezes leio sobre algo sobre alguma organização, partido, grupos artísticos e penso que eles produziram algum material impresso. Então vou atrás e começo a pesquisar. Dependendo do idioma, o Google Tradutor me ajuda e eu consigo ir fazendo a busca no idioma do local de produção do jornal, o que facilita bastante na busca de resultados.

E eu não tenho nenhum deles em casa, infelizmente. Boa parte deles são itens de colecionador, eu encontro vários para vender em sites gringos, mas são uma fortuna. Fico paquerando as edições online, quem sabe visito um arquivo para manusear alguns exemplares? Só isso já seria incrível.

O que você percebe de comum entre todos os jornais que você pesquisou?

Bem, posso dizer que praticamente todos eles foram movidos por iniciativas independentes. Foram jornais feitos por indivíduos e grupos que queriam mostrar suas ideias, discutir projetos políticos, sociais ou culturais. Já que não encontravam espaço na rádio, televisão e grande imprensa, os idealizadores desses jornais formularam um espaço próprio para se comunicar com seus pares. Muitos deles foram fundamentais para formular circuitos de produção, redes de sociabilidade, movimentos e partilha de sensibilidades. Alguns movimentos formularam esses jornais e também foram formulados através deles. Há um grande senso de colaboração e partilha em todos eles.

A imprensa alternativa latino-americana tem algo que una países, por exemplo?

Havia algo entre os países do cone sul, principalmente Argentina, Chile e Uruguai. O Brasil não participou muito desse diálogo, mas consumia bastante coisa dos argentinos, em especial do poeta e jornalista Miguel Grinberg. Na imprensa alternativa brasileira há muitas menções sobre os textos dele, as edições do jornal argentino “Eco Contemporâneo” eram lidas pelos brasileiros, acredito que traziam por meio das viagens e contatos. Só que lá fora, os nossos irmãos latino-americanos não liam nossos jornais contraculturais.

Talvez fosse pela restrição, os anos de chumbo da ditadura no Brasil estavam pesando e esses impressos duravam pouco, circulavam em uma rede específica, enfim. Só que entre eles, havia uma partilha e colaboração, já encontrei várias menções. Inclusive, na lista da UPS, o Eco Contemporáneo do Miguel Grinberg consta como representante do sindicato na América Latina. Alguns anos depois, o Luiz Carlos Maciel vai aparecer lá com o Pasquim! Esse contato é algo que estou buscando entender também, fico pensando como que se deu essa troca.

Você pensa em transformar isso em algum outro material? Livro, podcast, site?

Poxa, boa pergunta! Eu queria transformar esse material que eu levantei em um livro, uma espécie de catálogo que seria separado por países, algo na lógica da página mesmo.. Ainda é algo muito remoto, pois precisaria de tempo e investimento financeiro. Queria algo que fosse organizado por mim e por meus amigos, pessoas que acreditam nesse projeto. Um ebook é uma via mais fácil, além de possibilitar a disseminação na internet de forma gratuita. Acho que é um material legal e pouco conhecido, vale a pena reunir e divulgar.

Enquanto o livro não chega, estou planejando um podcast com um amigo meu que também é pesquisador do tema, a gente tava trocando uma ideia e decidimos que seria legal gravar algo sobre. Por enquanto, o nome vai ser “Mini Mistério”, que nem a música da Gal Costa de 1970. A proposta é falar de contracultura e suas vertentes culturais/sociais, seja no Brasil ou no exterior. A gente tá fazendo a pesquisa do conteúdo e esperamos que até o final do ano seja lançado o episódio piloto!

Tem falado com editores de alguns desses jornais? O que eles contam sobre como era fazer imprensa alternativa em tempos complicados?

Falei com alguns! Foi uma grande experiência e serviu até para desmistificar algumas ideias. Falei com o Joel Macedo, que foi editor das primeiras edições da Rolling Stone brasileira lá em 1971 junto com o Luiz Carlos Maciel. Também falei com o Rubinho Gomes, editor do jornal Presença em 1971. Do exterior, falei com o John May, que editou o jornal britânico Frendz durante a década de 70. Boa parte dos editores desses jornais já faleceram, infelizmente. Leio algumas entrevistas, vejo vídeos, mas contato mesmo só tive com esses. Os três me relataram experiências bem diferentes, mesmo os brasileiros.

No geral, falaram sobre a dificuldade de conseguir informações e como que as revistas gringas como a NME  serviam para saber o que acontecia lá fora, além das questões da falta de dinheiro, volume baixo de vendas e de como era difícil tratar de alguns temas. No fim, disseram que era divertido, eram jovens jornalistas e faziam aquilo por acreditar no que se publicava, estavam tentando construir uma carreira. Tinha algo de despretensioso naquilo. Já o John May me contou sobre seu apreço pela tropicália, sobre os brasileiros exilados em Londres, as drogas e a cena cultural britânica que os jornais relatavam. Falaram daquilo com ternura, acredito que são lembranças boas para eles.

Recomenda alguma leitura sobre o assunto?

Tenho algumas leituras que me ajudaram a abrir a cabeça e me dedicar mais à pesquisa! Uma delas é o livro do historiador John McMillian Smoking typewriters, que é um panorama da imprensa alternativa, só que com foco nos EUA. No Brasil, tem o livro do Sérgio Cohn, chamado Revistas de invenção que é um compilado, espécie de catálogo de impressos brasileiros com viés experimental desde a década de 20 até os anos 2000. A Elizabeth Nelson tem um livro sobre imprensa underground britânica, o British counterculture 1966-73.

Recentemente, duas sociólogas argentinas publicaram um artigo bem legal sobre imprensa e experiências contraculturais na América Latina, o nome é Experiencias contraculturales en Argentina y Bolivia: conexiones dispersas en contextos de opresión. Tem uma grande lista de leituras, mas acho que essas indicações servem pra entender um pouco sobre cada continente. Ainda preciso descobrir leituras sobre a Ásia!

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Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

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Peter Hook: "Roubamos muito o Kraftwerk"

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.

Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.

Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.

O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.

Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.

Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.

Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.

Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.

A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.

Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.

E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.

Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.

Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.

Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.

Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.

Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.

Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.

Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.

O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.

O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!

Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.

Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).

Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.

A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.

Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados ​​de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.

Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.

Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.

Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.

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“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

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“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

Quem assistiu ao clipe de Adjourn it, single novo de Tom Morello (que tem participações de seu filho Roman Morello, na guitarra, e do cantor do System Of A Down, Serj Tankian, nos vocais) reparou que há várias cenas em preto e branco, com greves, manifestações e gente sendo presa. Dirigido por Isabella Margolis, o clipe intercala cenas do trio em estúdio, com trechos do filme Salt of the Earth, lançado em 1954, e que conta a história real de mineiros mexicano-americanos que lutaram contra a opressão e o racismo.

Salt of the Earth tem muita história: para começar, ele foi dirigido por Herbert Biberman (1900-1971), um cineasta que fazia parte da lista dos “dez de Hollywood” – um grupo de dez roteiristas e cineastas de esquerda, que estava sendo vítima de uma caça às bruxas. Ou melhor, de uma caça a supostos comunistas, realizada no começo da guerra ideológica entre Estados Unidos e União Soviética.

Biberman chegou a ficar encarcerado durante seis meses, e ao sair da prisão, decidiu dirigir um filme ficcional sobre a greve dos mineiros do Condado de Grant, no Novo México. O tal filme acabou ganhando roteiro de Michael Wilson e produção de Paul Jarrico – e ele é justamente Salt of the Earth, uma produção que já inovava por ser totalmente independente, off-Hollywood.

O filme acabou sendo uma das principais aparições na telona da atriz mexicana Rosaura Revueltas – por sinal, durante as filmagens, ela foi presa por uma suposta violação de passaporte e acabou sendo proibida de trabalhar nos Estados Unidos, um baque nunca superado em sua carreira. Ela interpreta Esperanza Quintero, a esposa de um mineiro, que faz parte de um grupo de manifestantes mexicano-americanos – a queixa deles era que a Delaware Zinc, Inc, para a qual trabalhavam, não dava a eles a mesmas condições que dava aos mineiros anglo-saxões.

Pra acompanhar a história é melhor ver o filme (tá no YouTube), mas vale dizer que Esperanza fica grávida, seu marido acaba preso e ela se junta a um grupo de esposas de mineiros, que faz piquete no lugar dos maridos. Um detalhe importante sobre Salt of the Earth é que só cinco atores profissionais estavam no elenco: Biberman e a produção convocaram mineiros de verdade, além de moradores do Condado. Nas cenas que você vê no filme, muita gente viveu aquilo de verdade.

Se você está achando que isso foi uma ideia para dar mais veracidade ao filme, não foi nada disso: os sindicatos de atores e de profissionais de Hollywood simplesmente proibiram seus associados de ter qualquer relação com Salt of the Earth, e a equipe ficou sem ter com quem contar. Houve quem notasse que aquela situação era absurda, já que eram sindicatos prejudicando um filme que fazia basicamente uma apologia ao movimento sindical. Mas isso não ajudou em nada, até porque veículos como Hollywood Reporter e Newsweek já estavam falando barbaridades como “filme de comunistas anti-americanos” e outras babaquices.

Claro que a pós-produção e o lançamento de Salt of the Earth não foram nada tranquilos: a equipe teve dificuldade de achar laboratórios que terminassem o filme e ele foi censurado e incluído na lista anti-comunismo dos EUA (foi o único filme incluído lá, aliás). Pauline Kael, uma dessas críticas de cinema que tiravam o sono dos cineastas, desprezou o filme e ainda escreveu que ele não passava de “uma peça de propaganda comunista tão clara quanto qualquer outra que tivemos em muitos anos”. Com o tempo, o filme foi sendo descoberto, e ganhou lançamentos em formatos como laserdisc e DVD. Uma matéria recente do The Guardian traz uma declaração de Biberman dizendo que ele foi “o primeiro longa-metragem já realizado nos EUA pelos trabalhadores, sobre os trabalhadores e para os trabalhadores”.

Salt of the Earth foi um poderoso ato de desafio em sua época e, mais de meio século depois, seus temas continuam a ressoar no cenário político atual. Adjourn it canaliza o legado de resistência do filme, reforçando a importância da solidariedade para unir as pessoas contra o medo e a divisão”, escreveu Tom Morello num dos textos de divulgação do clipe. E os dois (clipe e filme) estão aí embaixo.

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Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

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O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).

“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.

Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.

Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.

“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.

“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.

E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.

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