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Cultura Pop

Underground Press Syndicate: um instagram só de jornais marginais ao redor do mundo

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Underground Press Syndicate: um instagram só de jornais marginais ao redor do mundo

Amanda Lucio tem 27 anos, é historiadora, mora em São Paulo, e em 2017 começou a estudar sobre políticas culturais na ditadura militar, imprensa marginal e temas adjacentes. “Comecei como curiosa mesmo, tive contato com as leituras na graduação e fui me aprofundando. Ainda sei pouco, é um universo de informações dispersas”, conta ela, que hoje faz mestrado e trabalha como redatora freelancer. No meio do caminho foi fazendo contatos, achando mais jornais independentes e decidiu fazer uma pesquisa de iniciação científica sobre o Almanaque Navilouca, organizado pelos poetas Torquato Neto e Wally Salomão, e lançado em 1974, dois anos após a morte do primeiro.

Amanda Lucio

A historiadora percebeu que havia um enorme intercâmbio de jornais alternativos entre vários países, a partir de uma olhadinha nos materiais ligados ao Navilouca. A pesquisa gerou uma dissertação de mestrado e também um dos endereços mais interessantes do Instagram, o Underground Press Syndicate, só com imagens de jornais alternativos ao redor do mundo – incluindo alguns brasileiros. Vários deles estão organizados por países nos stories.

“Tento fazer algo menos acadêmico, que seja mais fluido, assim como os jornais que estudo. Me preocupo em produzir algo que seja instigante, que consiga acessar as pessoas”, conta Amanda, que está planejando um podcast sobre o assunto e pensa também num catálogo ou livro.

O POP FANTASMA bateu um papo com Amanda sobre o instagram, sobre os projetos e sobre a pesquisa que ela vem fazendo. Leia e inspire-se.

Me fala um pouco da pesquisa de mestrado que você está fazendo? No que ela consiste?

Então, a minha pesquisa é uma espécie de incursão dentro do que se chamou nos anos 1960 e 1970 de “imprensa underground”, “contracultural”, “alternativa” e outros nomes que usavam para categorizar jornais que eram produzidos de maneira autônoma por pequenos grupos, abordavam temas que não participavam do debate da grande imprensa, além de circularem em circuitos específicos.

A minha ideia de estudar mais a respeito surgiu de uma pesquisa de Iniciação Científica sobre o Almanaque Navilouca (1974) que fiz durante a graduação. Essa publicação foi uma espécie de “grande acontecimento” da imprensa marginal e eu tentei entender como foram as alianças que se formaram em torno dela, aspectos do editorial e coisas assim. Nesse momento eu tive muito contato com as cartas dos editores e outros materiais, muita gente falava do exílio, foram para NY ou Londres. Foi então que percebi a existência de uma circulação desse tipo de impresso pelas mãos da galera. O pessoal que morava fora do país enviava uns exemplares pra cá e o pessoal se apropriava desses modelos, criando algo semelhante à moda brasileira, sabe?

Existiam muitas limitações tecnológicas e a censura não deixava o pessoal publicar coisas sobre determinados assuntos, então era bem complicado. Foi por esses indícios de circulação desses impressos entre o Brasil, EUA e Inglaterra, que eu decidi começar a procurar mais a respeito! Jornais que abordavam temas que circulavam lá fora e traziam novidades sobre o underground brasileiro: falavam de música, literatura, cinema, budismo, hinduísmo, viagens de carona, ícones da cultura “jovem” daquele período, longas matérias sobre Zé do Caixão e Andy Warhol, por exemplo.

Aqui não havia possibilidade de explorar alguns temas como lá fora, aqui tinha censura e então era tudo muito restrito. Os dois jornais assumidamente “undergrounds” do Brasil foram o Flor do Mal, editado por Luiz Carlos Maciel (que escrevia a coluna Underground do Pasquim), Torquato Neto, Rogério Duarte e Tite de Lemos; além do Presença, que era do Rubinho Gomes, mas tinha colaborações do Joel Macedo, Hélio Oiticica, Waly Salomão, Torquato Neto e mais uma galera. Ambos tiveram poucas edições, o Flor só teve cinco edições semanais e o Presença teve duas mensais.

Era difícil manter esse tipo de jornal por aqui, além de vender pouco, era mal visto (coisa de “hippie”) e o risco de parar na polícia era grande. Só que como eu tinha dito antes, existia uma circulação desse tipo de impresso através de cartas e viagens, muita gente “perambulava” naquele período e levava/trazia informações. O exílio (voluntário ou forçado) foi muito importante nesse trânsito de informações. Em Londres existia o jornal International Times, que era o ícone contracultural de lá, inclusive era lido por Caetano e Gil durante o exílio deles, assim como por Torquato Neto e Hélio Oiticica que moraram lá em 1968-69. Esses são apenas alguns exemplos.

E o meu objetivo é entender como se caracteriza a identidade editorial desse tipo de publicação, já que são todos muito parecidos na forma de organização do conteúdo, das seções e nos temas. Eu separei o jornal britânico, que foi fundado em 1966 e lido por aqueles que participaram/enviavam matérias para publicarem aqui, porque haviam muitas menções e muita inspiração para criar a partir dos temas que surgiam lá. Então a ideia principal é essa, entender a apropriação desses modelo de impresso aqui no Brasil, levando em conta toda limitação tecnológica, política, social etc.

Como você tem encontrado alguns dos jornais que coloca no Instagram e como surgiu a ideia de partilhar o que você tem pesquisado ali?

Conforme fui pesquisando nos documentos, descobri que existia uma organização chamada Underground Press Syndicate (UPS) fundada em 1966 nos EUA por pessoas como Tom Forcade e outros jornalistas que produziam alguns desses jornais alternativos. E na lista de filiação, tinham jornais de diversas partes do mundo! A cada ano tinham mais filiados de locais diferentes, então comecei a pesquisar quais eram esses jornais e qual era o motivo da criação do sindicato.

A ideia era que os membros pudessem compartilhar conteúdos uns dos outros sem precisar pagar os direitos e coisas do tipo. Além de permitir uma divulgação ampla, pois essas listas de filiados eram publicadas nesses jornais com os endereços de correspondência da redação e também eram separadas por continentes. Assim, as pessoas se conheciam, faziam contatos e ficavam por dentro daquilo que acontecia em outras partes do mundo.

Foi então que veio a ideia da página no Instagram com o mesmo nome, Underground Press Syndicate. Vi que não existia um conteúdo parecido na internet, a não ser perfis de sebos e colecionadores que postavam um exemplar ou outro. Fui além e inclui também jornais que não eram filiados ao grupo. Eu achei que seria legal para quem gosta do tema da contracultura, jornalismo, psicodelia, colecionismo e afins. Agora há a possibilidade de encontrar e conhecer jornais tão diferentes e em idiomas distintos em um só lugar!

Os stories do seu instagram estão muito bem organizados por países e tal. Como foi organizar isso tudo? Você tem pessoas que mandam recortes e capas para você?

Na verdade, eu estou tentando criar um banco de dados para esses jornais, documentando os países, edições, datas e locais onde podem ser encontrados! A organização não é difícil, mas algumas vezes os jornais são de exilados que representam seus países em outros lugares. Um exemplo disso é o jornal Forward, criado no final de 1976 pelos estudantes etíopes em universidades estadunidenses durante o início da Guerra Civil da Etiópia na década de 1970.

Nesse caso, como classificar? Eles se identificam, assinam endereçando à terra natal deles, mantinham laços políticos e sociais com a Etiópia e estão em outro país por conta do ativismo estudantil e para evitar perseguição política, então mesmo que seja produzido nos EUA e escrito em inglês, é um jornal etíope. Houve uma coisa parecida com os jornais da Somália, Espanha e Catalunha, as lutas pela independência rolavam e essas pessoas precisam ter suas identidades reconhecidas. No caso da Espanha e Catalunha, coloquei os jornais de Barcelona como catalães, ao invés de espanhóis, por exemplo. São aspectos importantes na hora da classificação do material.

Eu sempre tento ler o conteúdo (quando o idioma torna isso possível, rs) e pesquisar a respeito. Quero construir um acervo bem sólido, baseado em um trabalho de fôlego com pesquisa e que dialogue com as questões históricas e sociais que envolveram suas produções. E não, infelizmente as pessoas não me enviam nada, eu gostaria que enviassem, mas acho que ainda vai rolar!

Há alguma raridade que você conseguiu publicar?

Olha, acredito que boa parte deles são raridades, pois se tratam de publicações com baixa tiragem e circulação, duração curta, periodicidade irregular e tal. Só que tem algumas que são ainda mais raras, não sei se é porque estou no Brasil e não tenho amplo acesso, além das dificuldades de idioma e essas coisas. Só que até os jornais daqui são dificílimos de encontrar (inclusive são os mais difíceis). Nem na internet tem acesso, nem digitalizado. Tem que ir nos arquivos ou acervos de colecionadores tirar fotos. Os jornais brasileiros Flor do Mal e Presença que eu publiquei são bem difíceis de encontrar, o Flor tem algumas edições online, mas o Presença não tem nadinha.

Consegui minhas edições por contatos com amigos que também são pesquisadores do tema. E do exterior, o jornal palestino Al Hadaf, o suíço Ouef, o soviético Leaflet e o japonês Buzoku são alguns bons exemplos de raridades. Deu pra ver que é difícil escolher um, né?!

Onde você tem achado alguns jornais? Guarda alguns deles em casa?

Encontro em acervos online, blogs de colecionadores, arquivos do próprio jornal, bibliotecas de universidades, lojas de colecionadores, sites de museus nacionais ou temáticos, organizações sociais ou partidárias que divulgam e tantos outros. Minha pesquisa é toda feita online, algumas vezes leio sobre algo sobre alguma organização, partido, grupos artísticos e penso que eles produziram algum material impresso. Então vou atrás e começo a pesquisar. Dependendo do idioma, o Google Tradutor me ajuda e eu consigo ir fazendo a busca no idioma do local de produção do jornal, o que facilita bastante na busca de resultados.

E eu não tenho nenhum deles em casa, infelizmente. Boa parte deles são itens de colecionador, eu encontro vários para vender em sites gringos, mas são uma fortuna. Fico paquerando as edições online, quem sabe visito um arquivo para manusear alguns exemplares? Só isso já seria incrível.

O que você percebe de comum entre todos os jornais que você pesquisou?

Bem, posso dizer que praticamente todos eles foram movidos por iniciativas independentes. Foram jornais feitos por indivíduos e grupos que queriam mostrar suas ideias, discutir projetos políticos, sociais ou culturais. Já que não encontravam espaço na rádio, televisão e grande imprensa, os idealizadores desses jornais formularam um espaço próprio para se comunicar com seus pares. Muitos deles foram fundamentais para formular circuitos de produção, redes de sociabilidade, movimentos e partilha de sensibilidades. Alguns movimentos formularam esses jornais e também foram formulados através deles. Há um grande senso de colaboração e partilha em todos eles.

A imprensa alternativa latino-americana tem algo que una países, por exemplo?

Havia algo entre os países do cone sul, principalmente Argentina, Chile e Uruguai. O Brasil não participou muito desse diálogo, mas consumia bastante coisa dos argentinos, em especial do poeta e jornalista Miguel Grinberg. Na imprensa alternativa brasileira há muitas menções sobre os textos dele, as edições do jornal argentino “Eco Contemporâneo” eram lidas pelos brasileiros, acredito que traziam por meio das viagens e contatos. Só que lá fora, os nossos irmãos latino-americanos não liam nossos jornais contraculturais.

Talvez fosse pela restrição, os anos de chumbo da ditadura no Brasil estavam pesando e esses impressos duravam pouco, circulavam em uma rede específica, enfim. Só que entre eles, havia uma partilha e colaboração, já encontrei várias menções. Inclusive, na lista da UPS, o Eco Contemporáneo do Miguel Grinberg consta como representante do sindicato na América Latina. Alguns anos depois, o Luiz Carlos Maciel vai aparecer lá com o Pasquim! Esse contato é algo que estou buscando entender também, fico pensando como que se deu essa troca.

Você pensa em transformar isso em algum outro material? Livro, podcast, site?

Poxa, boa pergunta! Eu queria transformar esse material que eu levantei em um livro, uma espécie de catálogo que seria separado por países, algo na lógica da página mesmo.. Ainda é algo muito remoto, pois precisaria de tempo e investimento financeiro. Queria algo que fosse organizado por mim e por meus amigos, pessoas que acreditam nesse projeto. Um ebook é uma via mais fácil, além de possibilitar a disseminação na internet de forma gratuita. Acho que é um material legal e pouco conhecido, vale a pena reunir e divulgar.

Enquanto o livro não chega, estou planejando um podcast com um amigo meu que também é pesquisador do tema, a gente tava trocando uma ideia e decidimos que seria legal gravar algo sobre. Por enquanto, o nome vai ser “Mini Mistério”, que nem a música da Gal Costa de 1970. A proposta é falar de contracultura e suas vertentes culturais/sociais, seja no Brasil ou no exterior. A gente tá fazendo a pesquisa do conteúdo e esperamos que até o final do ano seja lançado o episódio piloto!

Tem falado com editores de alguns desses jornais? O que eles contam sobre como era fazer imprensa alternativa em tempos complicados?

Falei com alguns! Foi uma grande experiência e serviu até para desmistificar algumas ideias. Falei com o Joel Macedo, que foi editor das primeiras edições da Rolling Stone brasileira lá em 1971 junto com o Luiz Carlos Maciel. Também falei com o Rubinho Gomes, editor do jornal Presença em 1971. Do exterior, falei com o John May, que editou o jornal britânico Frendz durante a década de 70. Boa parte dos editores desses jornais já faleceram, infelizmente. Leio algumas entrevistas, vejo vídeos, mas contato mesmo só tive com esses. Os três me relataram experiências bem diferentes, mesmo os brasileiros.

No geral, falaram sobre a dificuldade de conseguir informações e como que as revistas gringas como a NME  serviam para saber o que acontecia lá fora, além das questões da falta de dinheiro, volume baixo de vendas e de como era difícil tratar de alguns temas. No fim, disseram que era divertido, eram jovens jornalistas e faziam aquilo por acreditar no que se publicava, estavam tentando construir uma carreira. Tinha algo de despretensioso naquilo. Já o John May me contou sobre seu apreço pela tropicália, sobre os brasileiros exilados em Londres, as drogas e a cena cultural britânica que os jornais relatavam. Falaram daquilo com ternura, acredito que são lembranças boas para eles.

Recomenda alguma leitura sobre o assunto?

Tenho algumas leituras que me ajudaram a abrir a cabeça e me dedicar mais à pesquisa! Uma delas é o livro do historiador John McMillian Smoking typewriters, que é um panorama da imprensa alternativa, só que com foco nos EUA. No Brasil, tem o livro do Sérgio Cohn, chamado Revistas de invenção que é um compilado, espécie de catálogo de impressos brasileiros com viés experimental desde a década de 20 até os anos 2000. A Elizabeth Nelson tem um livro sobre imprensa underground britânica, o British counterculture 1966-73.

Recentemente, duas sociólogas argentinas publicaram um artigo bem legal sobre imprensa e experiências contraculturais na América Latina, o nome é Experiencias contraculturales en Argentina y Bolivia: conexiones dispersas en contextos de opresión. Tem uma grande lista de leituras, mas acho que essas indicações servem pra entender um pouco sobre cada continente. Ainda preciso descobrir leituras sobre a Ásia!

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No nosso podcast, os primeiros anos do Soft Cell

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No nosso podcast, os primeiros anos do Soft Cell

O Soft Cell tá vindo aí pela primeira vez. A dupla de Marc Almond e Dave Ball se apresenta no Brasil em maio, e vai trazer – claro – seu principal hit, Tainted love. Uma música que marcou os anos 1980 e vem marcando todas as décadas desde então, e que deu ao Soft Cell um conceito todo próprio – mesmo não sendo (você deve saber) uma canção autoral. Era um dos destaques de seu álbum de estreia, Non stop erotic cabaret (1981), um dos grandes discos da história do synth pop.

No nosso podcast, o Pop Fantasma Documento, voltamos lá no comecinho do Soft Cell, mostramos a relação da dupla com uma das cidades mais fervilhantes da Inglaterra (Leeds) e damos uma olhada no que é que está impresso no DNA musical dos dois – uma receita que une David Bowie, T Rex, filmes de terror, Kenneth Anger, sadomasoquismo e vários outros elementos.

Século 21 no podcast: Red Cell e Noporn.

Estamos no Castbox, no Mixcloud, no Spotify, no Deezer e no Google Podcasts. 

Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch. Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.

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Relembrando: Mick Ronson, “Play don’t worry”

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Guitarrista de David Bowie na fase Spiders From Mars, Mick Ronson foi uma promessa injustamente não cumprida como artista solo. Inicialmente teve cobertura da Mainman (mesma empresa que cuidava de Bowie nessa fase), contrato com a RCA, interesse da mesma imprensa que cobria o dia a dia dos popstars do glam rock, certa migração de fãs do cantor de Starman.

Até porque Ronson estreou com treze shows no Reino Unido em março de 1974, quando Bowie estava fora dos palcos. E o guitarrista volta e meia era chamado de “substituto” de seu patrão. Ironicamente o próprio Bowie ficaria com ciúmes de sua “cria”, começando a armar sua volta aos palcos a partir daí. Esbarraria no fato de que a turnê solo do guitarrista havia comido uma boa parte da grana que seria investida em sua própria carreira, mas isso é outra história.

No começo, Ronson era um músico desprotegido a ponto de, mesmo sendo mais velho que Bowie e sua mulher Angie, ser cuidado pelo casal como se fosse um irmão mais novo. Com Bowie, chamou a atenção das plateias e foi um quase parceiro. Merecia ter ganhado crédito de co-autor em faixas de discos como The man who sold the world, de 1970, cuja gravação havia sido marcada pelo desapego do maior interessado, que era o próprio Bowie. Como compensação, fica o fato de que é impossível lembrar de músicas como Life on Mars? e Starman sem lembrar das guitarras de Ronson.

Surgiu a chance de tornar-se artista solo, quando Bowie havia resolvido ficar longe dos palcos. O repertório da estreia de Ronson, Slaughter on 10h avenue (1974), unia as duas faces do músico, um cara que tocava guitarra como se o instrumento viesse do espaço sideral, e também regia orquestras, além de tocar piano.

Era o disco da hard roqueira Only after dark, do blues glam I’m the one (de Annette Peacock, musicista pioneira dos sons eletrônicos que também gravava pela RCA naquele período). E da grandiloquência da faixa título (uma canção dos anos 1930 revisitada), do romantismo de Love me tender (aquela mesma, imortalizada por Elvis Presley). Mick, por sua vez, era o guitarrista experiente que tinha talento dramático a ponto de fazer um anúncio-curta metragem para divulgar Slaughter – a foto da capa, que trazia o guitarrista chorando, era um trecho do tal filme.

Muita coisa contribuiria para afastar a Mainman de Ronson e entre elas, estava o fato da relação entre Bowie e o empresário Tony Defries estar saindo do controle e ter chegado a um ponto bem complicado em 1974.Por acaso, foi em janeiro de 1975 que saiu Play don’t worry, o segundo disco do guitarrista.

Era mais um disco realizado sob as barbas de Pin-ups, disco de covers de Bowie (1973). O primeiro de Ronson havia sido gravado com a mesma banda do cantor na época, assim que o serviço no disco do patrão terminara. Já em Play, Mick reaproveitava uma backing track realizada para Pin ups, e nunca lançada: a da versão de White light/white heat, do Velvet Underground, mais viva e pesada que a original, e uma das melhores faixas do disco de um compositor e guitarrista que, ao se tornar um intérprete e fazedor de covers, quase sempre acertava.

Play don’t worry tinha a mesma aparência ora melancólica, ora feliz do disco anterior. Era o disco da balada glam Angel nº9, releitura do grupo country-rock Pure Prairie League (de cuja gravação original Mick havia participado fazendo arranjos), e do agito de Girl can’t help it, clássico do repertório de Little Richard, relido em clima protopunk. Outro rock countryficado do Pure Prairie League, Woman, encerrava o álbum. Por outro lado, Empty bed, versão de Io me ne andrei, do pop-roqueiro italiano Claudio Baglioni, era um baladão romântico, pronto para entrar em trilha de novela no Brasil (infelizmente não entrou).

Ronson aparecia como autor apenas em duas faixas, talvez escolhidas a dedo para mostrar que nem tudo ali eram flores. Play don’t worry, feita ao lado do amigo produtor e compositor Bob Sargeant, falava sobre os altos e baixos da vida, e era a provável admissão de que a vida de potencial rockstar havia trazido mais problemas do que soluções. Hazy days, faixa-solo, trazia aquelas discussões sobre a obsolescência programada do pop, típicas da própria música de Bowie (“o que você vai fazer agora, quando você achar que estou no passado?”, diz a letra).

Parecia recado para alguém. Talvez para o próprio Ronson, que não se sentia nem um pouco confortável ou feliz como artista solo. “Sabia que as pessoas perceberiam meu desconforto na plateia e eu não queria isso”, chegou a afirmar o músico, que também considerava a vida de popstar solo algo parecido como ter dúvidas e ter que responder suas próprias dúvidas, sem contar com a parceria de ninguém.

Mick respondeu suas próprias dúvidas quando resolveu, ainda com Play don’t worry em curso, juntar-se ao Mott The Hoople, banda do amigo Ian Hunter. O Mott estava com os dias contados e restou a Mick voltar à vida de músico contratado. Gravou com muita gente, mas ficou conhecido pelas colaborações com Ian, com quem chegou a gravar um disco em dupla – Yui orta, de 1990. Infelizmente tornou-se menos reconhecido do que deveria, e a decepção com as expectativas do pop tornou-se um vazio nunca devidamente preenchido.

Mick morreu em 29 de abril de 1993, já resgatado para as novas gerações. Pouco antes, havia produzido Your arsenal, de Morrissey, e tinha se juntado a David Bowie, a Ian Hunter e aos remanescentes do Queen no concerto de tributo a Freddie Mercury. A notícia de sua partida ressoa até hoje como os últimos ruídos de guitarra de Play don’t worry, a canção. São sons que desaparecem aos poucos, como numa transmissão de TV cheia de interferências que vai sumindo. Nossa sorte é que o recado estava dado: “Não pense muito neles/comece a sonhar novamente com o amanhã”.

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Os discos do poeta John Sinclair

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Os discos do poeta John Sinclair

O nome de John Sinclair, morto nesta terça (2) aos 82 anos. não é tão estranho assim para o fã de rock clássico. Afinal, ele foi empresário do MC5 na época do disco Kick out the jams (1969), foi homenageado por John Lennon numa música justamente chamada John Sinclair (de 1972) e até mesmo aquele discurso que o ativista Abbie Hoffman tentou fazer durante o show do Who no Festival de Woodstock (1969) aconteceria para conscientizar as pessoas em relação à situação de John. Que estava encarcerado por tráfico após vender maconha a um policial disfarçado.

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John havia sido condenado a dez anos de prisão, uma arbitrariedade. Mas foi solto em 1971 quatro deias depois de Lennon organizar um comício por sua liberdade, ao lado de Bob Seger, Stevie Wonder, Bobby Seale (do Partido dos Panteras Negras) e outros. Assim que saiu da prisão, Sinclair mergulhou de cabeça no ativismo pró-maconha e na produção de livros e escritos de poesia. Só que como seu estilo de texto tem tudo a ver com a cadência do jazz, pela maneira como é escrito e declamado, normal que ele não tenha ficado restrito aos livros, jornais e revistas. Tanto que dos anos 1990 para cá, ele vinha acumulando uma discografia bem grande.

Em 1994, por exemplo, saiu Full moon night, primeiro disco no qual Sinclair aparecia acompanhado pela agremiação variável de músicos que ganhou o nome de The Blues Scholars. O disco trazia textos como Homage to John Coltrane, Spiritual e Like Sonny, e saiu direto em CD por um selo chamado Total Energy, responsável por lançamentos retrospectivos de pré-punk – álbuns escarafunchando os baús de grupos como The Deviants, The New Race e o próprio MC5 saíram por esta etiqueta. Em 1996 saiu Full circle, mais um CD de Sinclair e sua banda, com participação de ninguém menos que o ex-MC5 Wayke Kramer, morto recentemente.

Um outro álbum bastante significativo de Sinclair saiu em 2008, com o nome de sua banda modificado para His Motor City Blues Scholars. É o ao vivo Detroit life, trazendo 15 faixas entre o jazz e o blues, com John declamando (às vezes bem alto, com voz gutural) textos de inspiração beat como The screamers, April in Paris, Let’s call this e Walking on a tightrope. As músicas são grandes, e boa parte dos números é quase instrumental, cabendo intervenções de John lá pelos dois minutos de faixa, em alguns casos.

A discografia de Sinclair inclui também vários discos apenas com seu nome (o mais recente é Beatnik youth, de 2017) além de álbuns impressionante feitos com a banda de jazz experimental e ruidoso Hollow Bones – como Honoring the local gods, de 2011. Já o percussivo PeyoteMind, de 2002, foi gravado ao lado da banda de psicojazzfolk Monster Island, e traz recordações de uma viagem feita em 1963 sob o efeito do psicoativo peiote.

Esse material vem encontrando relativamente poucos ouvintes nas plataformas – no Spotify, John tem apenas 207 (207!) ouvintes mensais. Não são discos muito divulgados –  enfim, poesia e jazz não formam exatamente uma combinação de sucesso. E saíram por selos independentes de alcance restrito. Mas boa parte do que Sinclair gravou está lá, e está ao alcance de futuros fãs – mesmo com a barreira da língua, tem a declamação de John e a maneira como ele faz tudo parecer uma espécie de jazz maldito e tribal. Além do seu ativismo anti-capitalismo, pró-maconha e pró-liberdade de expressão, perceptível em vários versos.

E só pra complementar, um material multimídia recente e importantíssimo saiu justamente da última aparição ao vivo de Sinclair. Em Paris, no dia 16 de fevereiro, ele leu o longo poema 21 days in jail, gravado por uma pessoa da plateia. A letra já havia sido musicada e gravada por ele com os Blues Scholars, mas aqui aparece sendo lida pelo autor.

Foto: Wikipedia.

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