Devia ser uma tarefa bastante complicada rir de (ou com) Sharon Tate em maio de 1970, quase um ano após o assassinato dela por um bando de hippies malucos comandados por um cretino chamado Charles Manson. Nessa época, a Embassy Pictures Corporation decidiu finalmente soltar nas salas de exibição dos Estados Unidos Thirteen chairs, produção franco-italiana que havia sido dirigida entre fevereiro e maio de 1969 por Nicolas Gessner e Luciano Lucignani. A comédia foi o último filme feito pela atriz.

Thirteen chairs foi o nome que a produção acabou ganhando para seu lançamento americano. Na Itália, onde fora lançado em 1969, antes de chegar nos cinemas dos EUA, ele é mais conhecido como Una su 13 ou 13 + 1. No Brasil, foi exibido como Eram 13… Mas faltava uma. A história havia sido inspirada no livro As doze cadeiras de Iliá Ilf e Evguêni Petrov. Apesar de Sharon Tate ganhar status de estrela da produção (ela aparece com destaque nos cartazes do filme), o protagonista é Vittorio Gassman, que interpreta Mario Beretti, um garotão sem muito rumo que trabalha como barbeiro. Mario recebe treze cadeiras velhas como herança de uma tia. Sem saber o que fazer com aquilo, resolve vendê-las para levantar uma grana.

O problema é que, depois da venda, Mario fica sabendo que uma das cadeiras contém em seu forro uma fortuna em joias. O cara enlouquece e resolve ir atrás das cadeiras – que ele nem sabe direito onde foram parar. Nessa busca, ele faz contato com a personagem de Sharon Tate: Pat, uma bela negociante de artes.

Sharon, na época da filmagem de Thirteen chairs, estava grávida do primeiro filho com o diretor de cinema Roman Polanski. Os diretores não alteraram o script por conta disso: filmaram primeiro as cenas em que ela aparecia com pouca roupa, e cobriram a barriga dela com qualquer objeto ou peça de vestuário que estivesse à frente, quando era necessário. Outro destaque do filme é ninguém menos que Orson Welles fazendo um dos personagens bizarros que Mario e Pat encontram na busca pelas cadeiras: um líder de companhia de teatro independente chamado Maurice, que encena uma versão baixa-renda de O médico e o monstro.

Por sinal, Thirteen chairs pegava Sharon num momento complicado de seu casamento com Roman. A relação não ia bem, e ela descobrira que o cineasta havia tido um caso passageiro com uma amiga do casal – ninguém menos que Michelle Phillips, do grupo The Mamas & The Papas (anos depois Michelle disse que se arrependia muito do acontecido, e que a transa rolou enquanto os dois estavam bêbados). Roman tinha ficado entusiasmado pelo bebê que estava vindo e Sharon esperava que as coisas mudassem, mas já tinha sabido por amigos de outras infidelidades do diretor. A atriz já havia informado a amigos que se separaria caso Roman não sossegasse o facho, e que assinaria contrato para fazer o filme soft-core The story of O, cheio de cenas de sado-masoquismo (não chegou a trabalhar no filme, que só seria feito em 1975).

O filme acabou ofuscadíssimo pela morte de Sharon e ainda hoje, Thirteen chairs é bastante impopular nos Estados Unidos. Tanto que só foi ganhar uma versão em DVD na Itália, em 2008, sem legendas em inglês ou faixa de áudio no idioma. Em 1986, ele havia saído em VHS mas acabou virando raridades. Tanto que, mesmo já tendo passado a era dos grandes relançamentos em DVD, alguém fez uma campanha pelo relançamento do filme com áudio remasterizado. Que não deu certo, porque ninguém até agora se animou a colocar o longa de volta nas lojas em formato nenhum. Quem sabe com a chegada aos cinemas de Era uma vez… em Hollywood, novo filme do diretor Quentin Tarantino – que, entre outros assuntos, fala sobre o assassinato de Sharon – alguém se anime a resgatar o filme.

De qualquer jeito, tem uma boa notícia para quem ficou curioso para ver Thirteen chairs: jogaram no YouTube o filme inteiro, no original em inglês, em várias partes. Pega a primeira aí.