Crítica
Ouvimos: The Rasmus – “Weirdo”

RESENHA: No álbum Weirdo, The Rasmus mistura pop e metal com o auxílio de Desmond Child, unindo refrãos grudentos, peso à moda anos 80/90 e sons irresistíveis.
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Lembra quando Hide from the sun (2005), aquele disco da banda finlandesa The Rasmus que tinha a silhueta de uma borboleta na capa, saiu no Brasil? O single No fear virou meio-hit, tocou em rádios-rock e em algumas rádios pop, e deu uma despertada na curiosidade de várias pessoas – que quiseram saber, pelo menos, quem é que estava fazendo aquele som que mais se parecia com um desdobre robótico da fase It’s my life, do Bon Jovi.
De lá para cá, The Rasmus teve mudanças de formação, mas continuou na ativa nos estúdios e palcos. Por acaso, Weirdo, o décimo-primeiro disco da banda, segue na mesma missão de vinte anos atrás: tentar fazer uma música que seja tão grudenta quanto a do grupo de Livin’ on a prayer, mas que una estilos como metal, rap e sons eletrônicos. Um Bon Jovi nu-metal, você poderia dizer – e é exatamente esse o som de músicas como a sombria faixa-título do disco, por exemplo. Aliás, não é surpresa alguma que o co-produtor de Weirdo seja justamente um antigo parça de Jon Bon Jovi, o compositor e produtor Desmond Child.
A parceria da banda com o eficiente Desmond não vem de hoje – o Rasmus já havia trabalhado com ele em discos como o bem sucedido Black roses, de 2008, e ele é tido como um dos maiores responsáveis pelo sucesso do grupo na época. Em Weirdo, a marca de Child surge em faixas como a boa Dead ringer, praticamente uma canção de boy band com batidas que lembram o Dave Grohl de Nevermind, álbum do Nirvana (1991). Ou na atmosfera “de hino” de Creatures of chaos, que convoca todas as pessoas rejeitadas pela sociedade (“criaturas do caos / isso é o que eles fizeram com a gente / somos contagiosos / o futuro tem medo de nós”). E tem ainda Bad things, rockão pauleira, de estileira totalmente metal anos 1980.
O conceito de Weirdo é unir peso, elementos pop e letras em tom de revolta, como no r&b “de atitude” Break these chains e no metal eletrônico de Rest in pieces. Essa última não dá para chamar de nu-metal porque os vocais são bem melódicos. Já a letra é um primor de ranço por algum traíra do passado: “descanse em paz / porque não dou a mínima se perdi você (…) / e não dou a mínima para o que você fez no verão passado / descanse em paz, irmão / filho da puta”. Já Love is a bitch, a melhor do disco, é o maior gol do grupo: riff irresistível de assovio-e-piano no começo, refrão ótimo, guitarras pesadas, coral estilo Bee Gees e estilo metal-Michael Jackson. Tem também a alegria punk-metal de Banksy, que faz referência ao ex-grafiteiro inglês – com direito a versos tolos e felizes como “você é só um punk barracuda / aposto que você pensa que é Pablo Neruda” (!).
Se você achava que Weirdo ia terminar sem nenhuma balada, tem You want it all, música de clima sixties que lembra nada levemente o A-Ha. E no encerramento do disco tem I’m coming for you, aberta com um piano estilo Richard Clayderman, e seguida com vibe de pop adulto oitentista – só que é uma música sem muita conexão, praticamente a única bola fora de Weirdo. De qualquer jeito, no geral, o novo do The Rasmus é um disco BEM difícil de não gostar.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Playground Music Scandinavia / Better Noise Music
Lançamento: 12 de setembro de 2025.
Crítica
Ouvimos: Luvcat – “Vicious delicious”

RESENHA: Luvcat estreia com Vicious delicious, disco de pop nostálgico e lânguido, entre Hollywood vintage, art-pop e sombras pós-punk, com poucos tropeços.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: AWAL
Lançamento: 31 de outubro de 2025
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Luvcat é a segunda encarnação – e o segundo ato de carreira – da britânica Sophie Morgan Howarth, nascida em Liverpool em 1996, e que tem três EPs de folk alternativo lançados como Sophie Morgan. Rola um subtexto pós-punk/britpop na história dela: ainda com seu nome anterior, ela abriu uma turnê dos Waterboys e foi ajudada pelo baixista do The Verve, Simon Jones. Luvcat, seu novo nome artístico, é uma referência ao sucesso do The Cure, The lovecats.
Vale citar que folk e pós-punk são estilos que até aparecem em Vicious delicious, estreia de Luvcat, mas são secundários ou terciários num manifesto pop que, basicamente, é tão nostálgico da velha Hollywood quanto os discos de Lana Del Rey, e tão “lânguido” quanto Lana e Billie Eilish – e cuja estética mexe com as mesmas estranhices pop de vários lançamentos de hoje.
- Ouvimos: Angélica Duarte – Toska
É um álbum pop, feito com um alvo à frente, mas com princípios básicos que o tornam às vezes mais próximo do art-pop, como na sexy e latina Lipstick, no soft rock Alien (música sobre inadequação, drogas e introspecção, com versos como “sempre fui uma de nós / garotinha verde em seu próprio mundo”), a experimentação reggae-pós-punk-gore de Matador (“eu queria amor / mas você quis sangue”). E na onda sofisticada de Dinner @ Brasserie Zedel, com heranças da música francesa, e He’s my man, alt-folk com recordações de Jacques Brel, Scott Walker e David Bowie do começo.
Tem um lado sombrio no disco, como no folk mórbido de Laurie, música de amor tristonho com metais, violão e cordas. Ou na vertigem de The Kazimier Garden, e ono clima meio Siouxsie + David Bowie de Emma Dilemma. Faz parte da lista de sensações visitadas por Luvcat, no disco, embora haja também uma canção que poderia concorrer ao Eurovision (a faixa-título) e algo que faz lembrar o lado praiano e desértico do Roxy Music (Love & money).
Lá pelas tantas, dá para se perguntar até o que o dispensável hard rock country Blushing, que lembra Bon Jovi, está fazendo no disco, já que Vicious delicious, mesmo com uma certa confusão conceitual e musical, tem lados melhores para apresentar.
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Crítica
Ouvimos: Ira Glass – “Joy is no knocking nation” (EP)

RESENHA: EP maníaco do Ira Glass, Joy is no knocking nation mistura pós-hardcore, math rock, fanfarra sombria e ataques free-jazz, criando uma avalanche ruidosa, tensa e coesa.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Fire Talk
Lançamento: 14 de novembro de 2025.
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Vindo de Chicago, o Ira Glass vive de causar estranhamento: é um quarteto escoladíssimo no pós-hardcore e no math rock, mas que às vezes, parece estar querendo repetir eternamente o final de 21 century schizoid man, do King Crimson, com aquele ataque free-jazz de guitarra, baixo, bateria e metais.
Joy is no knocking nation, segundo EP da banda, é basicamente um disco de rock experimental maníaco, soando como uma fanfarra sombria em faixas como It’s a whole “Who shot John” story – faixa, que curiosamente tem vocal em clima grunge e destruidor, chegando a lembrar Alice In Chains. Essa onda de fanfarra do mal chega no seu ápice em fd&c red 40, repleta de vocais guturais e gritos mais chegados do screamo, e no stoner tenso e quebradiço de New guy (Big softie). Nem precisa falar que nomes como James Chance, Wire e Swans pairam sobre todo o repertório do disco, e que o próprio Fugazi, com suas quebras rítmicas, também é citado aqui e ali.
Jill Roth, saxofonista da banda, é um dos responsáveis pela tal cara free-jazz que o Ira Glass tem – e que, felizmente, não surge forçada nem mesmo quando é inserida em momentos mais pesados do disco. Fritz all over you é o mais progressivo e suave que o grupo parece querer soar, mas sempre numa onda sombria. No fim, That’s it/That? That’s all you can say?, entre gritos e vocais demoníacos, soa como uma música tocada ao contrário, uma roda de ruídos presa numa corrente igualmente ruidosa. Uma porrada bem elaborada, mesmo quando parece que tudo saiu do controle.
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Crítica
Ouvimos: Jerk – “As night falls”

RESENHA: Jerk mistura soul, smooth jazz, city pop e MPB instrumental em um álbum curto e hipnótico, cheio de fusão psicodélica, clima noturno e achados sonoros.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: DeepMatter Records
Lançamento: 14 de novembro de 2025
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Com um nome artístico bem autodepreciativo, Jerk (ou Joshua Kinney, seu nome verdadeiro) pode soar como um daqueles sujeitos que falam da alegria e da tristeza do perdedor – pelo menos quando a gente lê o nome dele por aí. Nada a ver: As night falls, seu novo álbum, é basicamente uma mescla de soul, smooth jazz, jazz fusion, drum’n bossa, city pop, sons psicodélicos e MPB instrumental transante na onda de Lincoln Olivetti e Robson Jorge. Nas oito curtas faixas do disco (que dura 20 minutos), ele toca de tudo: guitarra, baixo, flautas, saxofone, sintetizador, piano Rhodes – a bateria fica com a amiga e colaboradora Martina Wade.
As night falls é a primeira parte de um projeto dividido em dois discos (ele fala que são dois EPs, mas o disco figura como álbum nas plataformas). Aliás, ele também diz aqui que cada lançamento representa “dia” e “noite”, e que se lançasse as 16 faixas de uma só vez, o disco poderia nem ser tão ouvido, já que é “difícil captar a atenção das pessoas hoje em dia”.
Seja como for, As night falls captura a atenção imediatamente, especialmente de caçadores de raridades nos sebos. A faixa-título abre com violão e flauta, chegando a lembrar Dori Caymmi – até que ganha programação eletrõnica e som comandado pelo piano elétrico e pelos beats enérgicos. Dance beneath the dripping moon e o soul latino Stealthy, she moves! soam como sobras jazzísticas de Robson e Lincoln. Incoming, A divine wrath e Set adrift são jazz fusion psicodélico e vaporoso.
Wading, com percussão relaxante e clima quase espacial, tem tom musical de mergulho – segundo o próprio Jerk, que quase pôs na faixa o nome de “underwater” (subaquático), e decidiu dar à faixa uma cara diferente e experimental, usando pedais de guitarra em todos os instrumentos. Emergence and reckoning tem beat brasileiro, som derretido (com guitarra parecendo que vem de uma fita antiga) e metais. Uma viagem sonora daquelas.
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