Crítica
Ouvimos: The Last Dinner Party – “From the Pyre”

RESENHA: From the pyre aposta no glam-barroco performático do The Last Dinner Party, com ótimos momentos, mas perde equilíbrio e força na segunda metade.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 7,5
Gravadora: Island
Lançamento: 17 de outubro de 2025
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Muita gente teve certa má vontade com a estreia do The Last Dinner Party, Prelude to ecstasy (2024), encarando (de forma machista, vale dizer) o quinteto londrino como uma miragem musical ou algo do tipo. Depois que Prelude saiu, o rock barroco feito por mulheres ganhou um nível de atenção bem bacana: Folk Bitch Trio e The New Eves lançaram álbuns que cruzam vibes elaboradas, climas sagrados, Velvet Underground (e Nico) e bittersweet. Florence + The Machine, por sua vez, voltou com a catarse pesada de Everybody scream – um disco surgido de um lugar de dor, trauma e expiação.
Prelude tinha muito de Florence Welch (foi a referência citada por dez entre dez pessoas quando o disco saiu), mas o TLDP sempre foi além disso, focando numa onda quase glam-barroca. From the pyre, o segundo álbum, traz Abigail Morris (vocais), Lizzie Mayland (vocais, guitarra), Emily Roberts (guitarra solo, mandolin, flauta), Georgia Davies (baixo) e Aurora Nishevci (teclados, vocais) embarcando num clima até mais performático e glam-rocker que na estreia, pelo menos na primeira metade do disco. Agnus Dei, na abertura, soa como a união exata de Queen, ABBA e Sparks. Count the ways tem clima lúgubre e sombrio como nas músicas do T. Rex. E a belíssima Second best tem vocais patinantes e algo que remete ao Sweet e ao David Bowie do disco Hunky Dory (1971)
Esse primeiro terço do disco é continuado no single This is the killer speaking (basicamente uma canção metade ABBA, metade Velvet Underground) e no tom clássico, sofisticado e glam de Rifle. O lado B de From the pyre, no entanto, dá uma ligeira desandada, com sons mais próximos dos punhos de renda do que dos climas glam. De memorável na segunda metade, tem os vocais maravilhosos de I hold your anger e o arranjo de orquestra crescente de Woman is a tree. Mas falta o equilíbrio da estreia, sobrando o encavalamento da pianística Sail away ao lado de dois sons mais próximos do soft rock, The scythe e Inferno, que usam referências boas (Kate Bush, Stevie Nicks, Bonnie Tyler), mas não acrescentam muito. No geral: bom, mas poderia ser bem melhor.
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Crítica
Ouvimos: Melody’s Echo Chamber – “Unclouded”

RESENHA: Em Unclouded, Melody’s Echo Chamber transforma o trauma pós-acidente em pop psicodélico hipnótico, entre T. Rex, Caetano e ecos imaginários.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Domino
Lançamento: 5 de dezembro de 2025
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Qualquer obra que Melody Prochet – criadora do projeto Melody’s Echo Chamber – fizer, vai sempre vir acompanhada de descrições como “etéreo”, “psicodélico” e coisas do tipo. A experiência de quase-morte que ela teve após um acidente gravíssimo em 2017 (que lhe causou aneurisma cerebral e fraturas nas vértebras) fez com que muita gente também passasse a classificar seus trabalhos como “espirituais”, “tridimensionais” e nomes afins.
- Ouvimos: Ninush – The flowers I see in you
Unclouded, quinto álbum do projeto, vai só um pouco além disso, praticamente hipnotizando quem ouve o disco, com letras e melodias que aludem a lugares que existem só na imaginação, e clima multidimensional. Como na faixa de abertura, The house that doesn’t exist, balada com cara 60’s e elegante, próxima de uma canção francesa antiga. Ou na vibe mágica do quase trip hop In the stars, cuja letra traz Melody saindo de uma encosta fria e buscando “um lugar para chamar de meu / nas estrelas”. Ou no pop sofisticado de Into shadows.
É um clima que fica entre o glam rock espacial do T Rex e a poética escapista de Caetano Veloso em seu primeiro disco londrino, de 1970. Que se espalha também na viagem psicodélica feliz de Flowers turn into gold, no baixo hipnótico de Eyes closed (que busca a liberdade nas caminhadas noturnas e na observação dos golfinhos no mar) e no som clássico e pop de Childhood dream, que alude aos discos orquestrais brasileiros dos anos 1960/1970 (Erlon Chaves, Briamonte Orquestra).
Já Memory’s underground fala sobre memórias velhas que estavam lá à espera da redescoberta, com um som que remete tanto a Scott Walker quanto a Velvet Underground. E essa mistura de delicadeza e hipnose musical ganha outros contornos no som andarilho e quase marcial de Burning man, com distorções, celesta e flauta levando o / a ouvinte pra outros cantos. No terço final, destaque para o progressivismo de Daisy, lembrando o Pink Floyd de Atom heart mother (1970) e os italianos do Le Orme, e o pop esperançoso de How to leave misery behind, lembrando Burt Bacharach.
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Crítica
Ouvimos: Nick & June – “New year’s face”

RESENHA: Ex-casal, Nick & June gravam New year’s face: dream pop misterioso, orquestral e eletrônico, produzido por Peter Katis, cheio de clima romântico e melancólico.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 5 de dezembro de 2025
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Vindos de Berlim, Nick & June são um ex-casal que topou continuar junto… a trabalho. Depois de meses de composições e arranjos, saiu New year’s face, um disco “desvanescente” e misterioso, produzido por Peter Katis (The National, Interpol, Sharon Van Etten), e marcado por opções sonoras tão próximas do dream pop quanto de vibes mais orquestrais ou eletrônicas.
- Ouvimos: Ratboys – Singin’ to an empty chair
A faixa-título reúne isso tudo enquanto fala da divisão de coisas acumuladas numa vida inteira. Crying in a cool way, com vocais e pianos celestiais, abre unindo Ultravox e OMD, mas ganha clima sujinho e quase dub logo na sequência. Sombras que lembram de PJ Harvey a Velvet Underground tomam conta de 2017 e Dark dark bright – que abre como uma bossa-pop sombria, ganhando depois aspecto de rock eletrônico.
Nomes como Lana Del Rey e Beach House são citados como referências no release – e o clima hollywoodiano da primeira, além da sofisticação dream pop do BC, casam bem com a sonoridade e o drama de New year’s face. Tem bem mais aí: The boy with the jealous eyes tem algo tanto de Jesus and Mary Chain quanto de Everly Brothers, Trouble tem a ver com Beach Boys, e muito do álbum lembra um Joy Division mais amoroso e afetuoso. Já a grandiosa Husband & wife, que encerra o disco, é uma música de beleza triste, que poderia estar no repertório do ABBA ou do My Bloody Valentine – cada banda com seu arranjo.
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Crítica
Ouvimos: Ratboys – “Singin’ to an empty chair”

RESENHA: Ratboys mistura indie e alt-country em Singin’ to an empty chair: terapia Gestalt, memórias familiares e dor transformam-se em canções ruidosas e delicadas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: New West
Lançamento: 6 de fevereiro de 2026
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“Navegando para longe, rindo apesar da dor / sim, estamos navegando para longe / é um novo dia”, diz a sensível letra de At pace in the hundred acre wood, música que encerra o sexto disco da banda indie norte-americana Ratboys, Singin’ to an empty chair. O novo álbum da banda surgiu de imersões totais não apenas no processo de composição, como também no dia a dia da cantora Julia Steiner, que fez terapia com foco em Gestalt e participou de técnicas como conversar com uma cadeira vazia.
O título do disco veio justamente disso aí, mas também faz surgir outras interpretações – afinal, cantores passam muito tempo soltando a voz diante de lugares desocupados (ou plateias vazias) no começo da carreira. Os nove minutos de Just want you to know the truth contêm a ideia do título: um relacionamento de família que desapareceu, cartas nunca lidas que chegaram, esqueletos no armário e lembranças doloridas e varridas para debaixo do tapete.
Na moldura sonora dessa faixa, a banda exercita seu clima meio ruidoso, meio country rock, soando muito parecida com uma versão 2026 do R.E.M. do álbum Monster (1994), e unindo porrada e delicadeza, autoconhecimento e destruição. Soando às vezes como um primo sensível e country do Mandy, Indiana, o Ratboys une distorções e vocais sentidos em Open up, Know you them, Light night mountains all that (faixa de 6 minutos com lembranças do começo do Soundgarden e dos sons mais sombrios de Suzanne veja) e Anywhere (punk melódico e com ar folk, com recordações do emo). What’s right?, por sua vez, parece unir sons do rock oitentista e do alternativo dos anos 1990 em prol do soft rock.
Músicas como Penny in the lake trazem um tema que parecem mover o Ratboys: o que muitas vezes parece uma oportunidade imperdível é só um pega-trouxa que foi dispensado por alguém, ou algo ao qual outras pessoas não dariam importância alguma. Esse peso existencial divide espaço com slide guitars, ar country, senso melódico herdado de power pop e emo, e referências de Beatles em faixas como Strange love, The world, so madly e a própria Penny. Realidades duras e tentativas de superação se tornam incêndios pessoais no folk rock sonhador Burn it down – com solos de guitarra que parecem encarnar o fogo da letra.
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