Connect with us

Crítica

Ouvimos: Stuck – “Optimizer”

Published

on

Em Optimizer, Stuck faz punk ácido e político, atacando o capitalismo com riffs frios e ecos 60’s, entre caos, ironia e um desencanto sem saída.

RESENHA: Em Optimizer, Stuck faz punk ácido e político, atacando o capitalismo com riffs frios e ecos 60’s, entre caos, ironia e um desencanto sem saída.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Exploding In Sound Records
Lançamento: 27 de março de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

“Otimizador”? Mas nem de brincadeira: o Stuck, uma banda de Chicago, faz punk altamente depreciativo e consciente de que a vida seria bem melhor sem multimilionários querendo dominar o mundo – e querendo explorar cada vez mais as pessoas, os recursos, o seu salário, a sua aposentadoria e tudo o que aparece na frente. O som deles em Optimizer é outra curiosidade: é blasé como o Sex Pistols, afrontoso como o Shame, mas tem algo que passa por uma noção 60’s de rock – dá para dizer que o Stuck é mais filho do pré-punk do que do próprio punk.

O Stuck resume as sacanagens do capitalismo em uma única frase de Instakill (“soluções de hoje são apenas problemas de amanhã”, em meio a escrotizações com coaches de plantão). Obrigam os ouvintes a dar uma olhadinha para o lado em Totally vexed (“quando o que antes era normal começa a parecer absurdo / dê uma olhada ao redor: todo mundo está pra baixo / a juventude totalmente irritada, um show após o outro”). Falam da autoestima performática das redes sociais em Sicko (“você nunca se cansa de si mesmo? / dia após dia, um inferno na Terra? / você não gostaria de ser outra pessoa?”).

  • Ouvimos: Microwaves – Temporal shifter

Fazem isso tudo aí enquanto enfileiram riff atrás de riff e soltam punks e pós-punks que lembram mais The Sound e Stranglers (além de outra banda com S, os Stooges) do que qualquer outra coisa. É o que rola nas duronas e frias Deadlift e Fire, man – essa última batendo em trumpismos, imigrantes banidos e guerras do dia a dia (“você sente: compulsão / um desejo incontrolável, destruição / compartilhe a raiz, compartilhe a podridão”). Os 46 segundos de punk extremamente ágil de More is less trazem dor em meio ao caos (a letra enigmática resume-se à frase “mais um amigo que se foi”, gritada).

Prosseguindo, Net negative volta a misturar anos 60 e punk, mas com agilidade, clima frio e paixão pelo ruído. It isn’t, com vibe marcial e baixo caminhando e conduzindo a melodia antes dos riffs de guitarra, é o “você vai continuar fazendo música?” deles, em clima bem mais dramático. “Você diz que acabou, desta vez é definitivo / desligue as guitarras e venda seus vinis / já está na hora de encerrar sua música”, cantam, antes da conclusão meio dolorosa, meio esperançosa: “você é velho o suficiente para saber que não pode controlar o tempo / mas isso não o impedirá de tentar ganhar a vida com algo que está morrendo”.

Optimizer tem humor. Mas não chega a conclusões otimistas nem mesmo no fim: Punchline é o punk rock mais sombrio do disco. Já GG varia entre o clima solar e os tons doloridos – num resultado mais próximo até de bandas como My Bloody Valentine – com uma letra que narra a perda de controle sobre a própria vida: “Você acorda no banco do passageiro de alguém que você não reconhece / mas vê nos olhos dessa pessoa que ela não se importa”. Que vá tudo bem com a turma do Stuck…

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Crítica

Ouvimos: XCOMM – “Time to burn”

Published

on

Resenha: XCOMM – “Time to burn”

RESENHA: XCOMM estreia com o explosivo Time to burn: hardcore punk juvenil, caótico e pesado, entre D.R.I., screamo e psicodelia.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Blowed Out Records
Lançamento: 22 de maio de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Quando os integrantes da banda californiana XCOMM tiverem a idade de Keith Richards, vão ter deixado uma bruta discografia para trás, espera-se – afinal, trata-se de uma banda formada por integrantes entre 14 e 19 anos, além de um DJ e sampleiro que acompanha o grupo e tem 20 anos. Tem que já ande falando que Time to burn, o primeiro álbum, é uma baita “revolução do punk e do hardcore”.

Na real, o principal do XCOMM é que eles tocam tudo como se fosse a mais absoluta novidade para eles, e ainda fazem com que sons herdados dos anos 1980 e 1990 se choquem com o design musical dos dias de hoje. O vocalista Michael Gatto, de 19 anos, o baterista Revel Ian, de 14, o baixista Adan Escoto, de 16, o guitarrista Jay Vargas, de 15 (além do sampleador Hunter Grogan, de 20) berram como o Extreme Noise Terror fazendo screamo, e inserem climas diversos e efeitos sonoros em canções lascadas como Reasons e Hot pursuit, one and nothing, que abrem esse Time to burn.

  • Sex Mex transforma Brian Eno em punk acelerado e caótico

Em Hot pursuit, por exemplo, guitarras, ecos e ambientações fazem nascer um dub breve em meio ao punk do grupo. Fake ID abre ameaçando um nu-metal (opa, a banda é produzida por Ross Robinson, que pilotou discos do Korn e do Slipknot) e vira um punk rock quase psicodélico, cheio de ruídos e ambiências – mas sempre pesado. Borrowed happiness, por sua vez, junta D.R.I., Motörhead e Ramones no mesmo caldeirão. A faixa-título e Pirates vão fundo no hardcore desesperador – essa última, contando com o rap sombrio de Ghostemane.

Se você estava pensando “poxa, essa garotada é bem nova, claro que eles não ‘chegaram lá’ sem uma ajudinha…”, vai aí a revelação: Revel Ian, o baterista, é filho de Scott Ian, do Anthrax – musicalmente, há bem pouco de metal no som deles, vale informar, e o grupo é bem focado no punk. Com uma vibe “radical” à primeira vista, o XCOMM está nessa pelo peso e pela música. Tanto que depois surge Running zeros, punk de arena com lembranças de Agent Orange, Concrete Blonde e Midnight Oil.

Relevance segue a receita crua do grupo, mas deixa entrever algo de Buzzcocks. No teeth visita climas sombrios, Purity volta às lições de D.R.I. e Extreme Noise Terror, e Negativity, no final, engana bem: tem um clima até “new wave” no começo, mas embarca no hardcore, nas sombras sonoras e em estilhaços de psicodelia. Pode ouvir sem susto.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: Boards Of Canada – “Inferno”

Published

on

Resenha: Boards Of Canada - "Inferno"

RESENHA: Boards Of Canada volta com Inferno, disco de eletrônica sombria, ritualística e paranoica em disco denso e cinematográfico.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 10
Gravadora: Warp Records
Lançamento: 29 de maio de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Vindos do interior da Escócia, os irmãos Michael Sandison e Marcus Eoin – que formam o Boards Of Canada – sempre demonstraram ter uma visão bem conceitual e própria da música eletrônica. O mesmo estilo musical que já foi usado para experimentar coisas novas, ou para botar uma turma enorme pra dançar, já foi usado como trilha sonora de telejornais, de campanhas políticas escrotas, de filmes de treinamento, de documentários que vendem gato por lebre (de pseudo-ciências a time-lapses de construção de condomínios, tudo exibido como maravilhas do progresso), de vídeos caseiros… Tudo de bom e de ruim, em faixas que muitas vezes mal têm letra.

Vai daí que a música do Boards Of Canada é uma espécie de, digamos, parte interessada nesse bololô todo. Michael e Marcus sempre fizeram questão de explorar esse mundo em que os sons eletrônicos não parecem mais do que uma vinheta de comercial das pilhas Duracell, ou um som de “estamos apresentando” – só que deram a isso uma aura cult e um poder tão viciante, que qualquer disco do BoC é pra ouvir várias vezes seguidas. Inferno, quinto disco (e primeiro desde 2013) vai fundo nessa emoção. A começar por Introit e Prophecy at 1420 MHz, faixas de abertura, lançadas como single.

A primeira lembra uma vinheta de produtora de vídeo da era VHS. A segunda, é uma espécie de tecnorock tuaregue, percussivo, em que um sujeito com voz distorcida afirma ser “deus, a principal ressonância do espírito”. Sim, parece que você está ouvindo rádio e entrou uma voz fantasma – mas em meio às faixas de Inferno, o “produto deus” não parece estar sendo vendido adequadamente. Inferno é bem intranquilo e parece exibir um som cerimonial para uma era complexa e cheia de guerras, fascismos e sombras.

Você vai achar isso na música sombria de Hydrogen helium lithium leviathan, nas transmissões cortadas de Father and son, no clima sinistro de Something right now in the future (que vai se desfazendo como numa fita com defeito), no hare-krishna estranho de Naraka e no som de moscas como se sobrevoassem um cadáver em Memory deaths. Ou em Blood in the labyrinth, uma espécie de trip hop totalmente desprovido do caráter sexy do estilo.

Deep time, faixa que a banda havia lançado exclusivamente no YouTube como Tape 05, é um cinema pra ouvir, com teclados que parecem vir de um sonho, ou de um pesadelo, ou de ambos. Uma vibe que surge também na marítima Arena Americanada, um quase eletrorock progressivo, que deixa o / a ouvinte à espera sempre de algo bem estranho, e nos seis minutos de All reason departs, música percussiva e tecnológica, com vozes que lembram o Darth Vader.

Levando em conta a vibe sombria de Inferno, o fim do disco é até bem calmo, com o voo sonoro de You retreat in time and space e o blues cardíaco de I see though Platonia. Inferno foi feito para lembrar que os sons eletrônicos podem ser uma arma tão potente (e de uso tão duvidoso) quanto uma metralhadora.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: Beatriz e A Fita – “Sombra” (EP)

Published

on

Resenha: Beatriz e A Fita – “Sombra” (EP)

RESENHA: Beatriz e A Fita lançam o EP Sombra: folk, country alternativo e blues em EP sombrio e moderno.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 22 de maio de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Se você sentia falta de um som feito no Brasil que encarasse as mesmas misturas alt-country de lá de fora – uma onda que passa por Witch Post, Julien Baker e Torres, Katie Gavin, Waxahatchee, etc – a mineira Beatriz Parisi Pinheiro é parte disso. Com sua banda Beatriz e A Fita, ela faz um som folk e moderno, às vezes tangenciando o soft rock, mas que quase sempre fica entre uma visão alternativa do country e do blues.

Sombra, EP novo do grupo, fala de relacionamentos bem sombrios e bem estranhos – e que ganham sonoridade igualmente soturna em vários momentos. A faixa-título tem clima de faroeste nas guitarras, clima folk e moderno, e letra avisando: “vai me procurar no sol / mas eu ando nas sombras”.

Minha vez tem dobro, clima country e galopante, metais, e clima de relação indiferente. Disfarce, a melhor do disco, é uma balada com clima country, com muito de música brasileira nas linhas vocais (Gabi Metzker divide as vozes com Beatriz), mas que vai ganhando mais ruídos e ficando mais sombria.

A segunda metade de Sombra tem a balada contemplativa de Estrela e o country-blues estradeiro de Duelo e Luzes. Sombra é um EP muito bom para um começo, mas Beatriz e A Fita têm a missão de não deixar nenhum produtor comercializar demais o som.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Acompanhe pos RSS