Quando morreu, há exatos trinta anos, o roqueiro baiano Raul Seixas, ironicamente, renasceu. Foi redescoberto por fãs antigos (o cantor sumira dos palcos por alguns anos e chegou num ponto em que, como dizia o parceiro Marcelo Nova, “não havia mais carreira”), virou trilha sonora de vários novos fãs que eram crianças na época do sucesso Gita (1974) e sua obra passou a desfrutar de um status bem diferente no jogo de xadrez da MPB. Canções de Raul que tocaram bastante no rádio entre os anos 1970 e 1980 se tornaram clássicos e peças cultuadas. E do baú do cantor surgiram ainda itens que pouca gente associava a ele, como as músicas compostas para Jerry Adriani e Leno.

“VOCÊ AINDA PODE SONHAR” (Raulzito e os Panteras, 1968). “Pode parar! Entrem no primeiro ônibus de volta para a Bahia. Esse tipo de música tem 14 mil conjuntos fazendo igual. Raulzito, ainda por cima, é nome de cantor de bolero!”. Foi assim, dessa maneira calorosa, que o grupo liderado por Raul Seixas nos anos 60 foi recebido pelo produtor e empresário Carlos Imperial, quando eram apenas a banda de acompanhamento de Jerry Adriani e tentavam voos mais altos. O único disco lançado pelo grupo é um nugget sessentista sem muito brilho, mas destaca músicas como Trem 103, Dorminhoco e essa versão de Lucy in the sky with diamonds, dos Beatles – que o Ira! regravaria em 1991.

“SEU TÁXI ESTÁ ESPERANDO” (do álbum de Jerry Adriani Jerry, de 1970). Ao entrar na CBS para trabalhar como produtor, uma das primeiras funções de Raul foi passar um bombril na carreira do astro Jerry Adriani – que havia sido o responsável por sua ida para a gravadora. Pôs o cantor para posar de Elvis Presley na capa de Jerry, recrutou jovens compositores (como o futuro soulman Hyldon) para compor e inseriu mais rock, blues e soul no seu repertório. Seu táxi está esperando é uma das melhores músicas de Raulzito (como assinava na época) gravadas pelo jovemguardista. Doce doce amor, maior hit de Raul gravado por Jerry, sairia em 1972 no disco Pense em mim, quando o baiano já estava partindo para outra.

“SENTADO NO ARCO ÍRIS” (do álbum de Leno Vida e obra de Johnny McCartney, gravado em 1970/1971 e só lançado em 1995). Cortado pela censura em 1971 e transformado em compacto duplo, o álbum de Leno produzido por Raul trouxe parcerias dos dois, sempre acompanhados por bandas como A Bolha e Renato & Seus Blue Caps. Esse hard rock, que traz o baiano nos backing vocals, é tido como a primeira obra “política” escrita pelo então compositor popular Raulzito – que costumava dizer a Leno o quanto se orgulhava de tê-la feito.

“VÊ SE DÁ UM JEITO NISSO” (do álbum Trio Ternura, de 1971). O trio de irmãos formado no final da jovem guarda (e sempre confundido com o Trio Esperança, de mais duas irmãs e um irmão dos Golden Boys) gravou um inventivo e curioso disco em 1971 “produzido por Raul Seixas”. Além de recrutar autores como Sérgio Hinds, Dalto, Fred Falcão, Hyldon e Carlos Imperial para compor para o grupo, incluiu Vê se dá um jeito nisso, parceria com Mauro Motta e Sérgio Sampaio (creditado como Sérgio Augusto). E atendendo ao seu desejo de cantar, deu um jeito de se enfiar nos backing vocals da canção.

“DR. PAXECO” (Sociedade da grã-ordem kavernista apresenta Sessão das 10, 1971). Gravado por Raul ao lado de três talentos contratados por ele para a antiga CBS (Sergio Sampaio, Edy Star e Miriam Batucada), esse disco traz piadas musicais no estilo de Frank Zappa, vinhetas, letras críticas e um flerte com a psicodelia inaudito em outros álbuns do cantor. Com longa introdução e instrumentação lembrando nuggets perdidos da jovem guarda, essa música é um dos melhores momentos do álbum.

“AOS TRANCOS E BARRANCOS” (Sociedade da grã-ordem kavernista apresenta Sessão das 10, 1971). Do mesmo disco: um curioso e raro samba (!) composto e cantado por Raul.

“OBJETO VOADOR” (do álbum Leno & Lilian, de 1972). Em meio à parceria com Leno, Raul conseguiu emplacar essa música no repertório da dupla do amigo com Lilian, fazendo referência a Mr. Spaceman, dos Byrds. Em 1974, Objeto voador ressurgiu como SOS no disco Gita.

“PODE VIR QUENTE QUE EU ESTOU FERVENDO” (Os 24 maiores sucessos da era do rock, 1972). Antes de estrear como cantor solo, gravando discos com seu nome, Raul surgiu como crooner de um grupo-armação chamado Rock Generation (na verdade sua própria banda de shows e estúdio, com músicos como Jay Vaquer na guitarra) em uma coletânea-picadinho de clássicos do rock produzida por Nelson Motta. A versão do clássico gravado por Erasmo Carlos tocou em rádio (com Raul falando “felvendo” em vez de “fervendo”) e reapareceu recentemente num comercial de banco.

“LET ME SING MY ROCK´N ROLL” (compacto, 1972). A música que mostrou de verdade ao Brasil quem era Raul Seixas – que, na época, era um rapaz magrelo, de cabelos curtos, topete e casaco de couro, que dançava rock e forró na frente da plateia do Festival Internacional da Canção, exibido pela Rede Globo. Não havia ainda Paulo Coelho. Raul era apenas uma promessa da Philips (hoje Universal), contratado para fazer o que quisesse: cantar, compor, produzir…

“OURO DE TOLO” (Krig ha bandolo!, 1973). Com melodia lembrando um pouco Set you free this time, dos Byrds, Raul solta uma letra que deveria ser lembrada em momentos cruciais como: planos econômicos do governo, campanhas eleitorais, Copas do Mundo, Olimpíadas, carnavais e em todos os momentos em que é possível se sentir num jardim zoológico dando pipocas aos macacos. Obrigatório.

“CAROÇO DE MANGA” (da trilha da novela A volta de Beto Rockfeller, 1973). O retorno do personagem imortalizado pelo ator Luiz Gustavo trouxe, em sua trilha sonora, uma interessante mistura pop, que incluía Bee Gees (My life has been a song, Method to my madness), The Osmonds (That’s my girl), o dueto entre James Brown e Lyn Collins (The guy/This girl’s in love), Jorge Ben (Jazz potatoes) e o forró-soul de Raul.

“LOTERIA DA BABILÔNIA” (do LP Phono 73, 1973). A Sociedade Alternativa (tentativa de comunidade esotérica, criada por Raul e Paulo Coelho) nasceu no palco do Anhembi, em São Paulo, quando Raul cantou essa música e, de peito nu, pintou a “chave” da agremiação em seu próprio corpo. No volume 1 do trio de discos Phono 73, essa música e seu arranjo (inspiradíssimo em How many more times, do Led Zeppelin, que já era uma chupação do blueseiro Willie Dixon) aparecem em versão mais crua. No álbum Gita, o produtor Mazzola manteve a base (e as palmas), regravou vocais e acrescentou metais regidos por Erlon Chaves.

“PRELÚDIO” (Gita, 1974). Vinheta orquestrada cujo único verso (“sonho que se sonha só/é só um sonho que se sonha só/mas sonho que se sonha junto é realidade”) foi, digamos, levemente chupado de Now or never, de Yoko Ono. Algo que não atrapalha a beleza e o esoterismo de um dos mais belos momentos de Gita.

“UM SOM PARA LAIO” (da trilha da novela O rebu, 1974). Composta para a trilha de O rebu original, de 1974, foi feita para um personagem que não reapareceu no remake que a Globo levou ao ar recentemente (Laio, interpretado por Carlos Vereza). Foi gravado por Raul com A Bolha. O som é mais próximo do hard rock.

“NÃO PARE NA PISTA” (compacto, 1974). Curioso power pop incluído num compacto e no álbum do festival Hollywood rock, em 1975 (mas com a inclusão de palmas pré-gravadas). Mais uma vez, traz A Bolha no acompanhamento.

“NOVO AEON” (Novo aeon, 1975). Em tom country-hard-rock (com uma inesperada participação de Altamiro Carrilho em um solinho de flauta), Raul, com os parceiros Marcelo Motta e Claudio Roberto, fala sobre mudanças de ciclos mágicos e revoluções silenciosas na humanidade. E prega corajosamente “o direito de ter riso e de prazer/e até direito de deixar Jesus sofrer”.

“O PRÍNCIPE VALENTE” – LUIZA MARIA (do álbum de Luiza Maria Eu queria ser um anjo, de 1975). Parceria com Paulo Coelho que foi parar no primeiro disco da cantora carioca Luiza Maria, com produção de Rick Ferreira (guitarrista de quase todos os álbuns de Raul) e participações de Dadi (A Cor do Som), Sergio Dias (Mutantes), Arnaldo Brandão (A Bolha), Jim Capaldi (Traffic) e outros,

“EU TAMBÉM VOU RECLAMAR” (Há dez mil anos atrás, 1976). Country-rock sem refrão e com letra enorme, zoando novidades pop lançadas no mercado nos anos 70 e que costumavam ser associadas a Raul: Belchior (“agora eu sou apenas um rapaz latino americano/que não tem cheiro nem sabor”), Hermes Aquino (“e sendo nuvem passageira não me leva nem à beira/disso tudo que eu quero chegar”) e Silvio Brito (“ligo o rádio e ouço um chato/que me grita nos ouvidos: ‘Pare o mundo que eu quero descer'”).

“QUANDO VOCÊ CRESCER” (Há dez mil anos atrás, 1976). Se tivesse outra letra, essa música, com piano elétrico e discretas guitarras, poderia estar no repertório de Hyldon ou Carlos Dafé. Nas mãos de Raul, tornou-se uma música sobre as convenções e chatices da “vida de adulto”.

“O HOMEM” (Há dez mil anos atrás, 1976). Num disco conhecido por sua bipolaridade, Raul Seixas esfrega tristeza na cara do ouvinte, neste gospel com cordas chorosas. Curiosamente, a letra traz renascimento e crescimento pessoal após a depressão, lembrando o discurso de Renato Russo em O descobrimento do Brasil, álbum de 1994 da Legião Urbana.

“JUDAS” (Mata virgem, 1978). De volta (breve) à parceria com Paulo Coelho, Raul gravou seu melhor disco na Warner, Mata virgem, com uma constelação de músicos de estúdio (Antonio Adolfo e Pepeu Gomes entre eles). Judas, narrada “em primeira pessoa” pelo personagem bíblico, é um curioso flerte com a disco music. Paulo Coelho é o “narrador” da abertura da faixa (“quem é você?”, etc).

“ILHA DA FANTASIA” (Por quem os sinos dobram, 1979). Um dos poucos momentos de respiração num dos mais confusos e estranhos álbuns de Raul, todo composto em parceria com o argentino Oscar Rasmussen, com quem dividiu apartamento em Copacabana. Na época, o baiano arrumou sérias encrencas ao contratar uma equipe de caratecas argentinos como seguranças. Um deles, ligado ao tráfico, foi assassinado a tiros no apartamento de Raul.

“ALUGA-SE” (Abre-te sésamo, 1980). Protesto bem humorado e desaforado, com solos de guitarra de um jovem músico chamado Celso Blues Boy. Regravada anos depois pelo Camisa de Vênus e pelos Titãs. Segundo o guitarrista Rick Ferreira, o “grande Soluça!”, gritado por Raul antes de um dos solos, seria um apelido que o cantor deu para Celso.

“O CARIMBADOR MALUCO” (do disco Raul Seixas, 1983). Compondo e cantando o tema de abertura do infantil Plunct plact zummm, Raul reinventou-se no mercado, chamou a atenção de um improvável público infantil e, de certa forma, se enfiou a seu modo no circo pop dos anos 80.

“MAMÃE EU NÃO QUERIA” (do disco Metrô linha 743, de 1984). Censurada e proibida para execução em rádio, a criação de Raul em cima de I don’t want to be a soldier, mama, de John Lennon, traz o cantor, digamos, parecendo um tanto quanto etilicamente alterado. Kika Seixas surge logo na introdução fazendo “o papel” de mãe do artista.

“GERAÇÃO DA LUZ” (do disco Metrô linha 743, de 1984). O testamento de Raul, gravado para o Plunct plact zummm 2, cinco anos antes do cantor morrer.

“MUITA ESTRELA POUCA CONSTELAÇÃO” (do disco do Camisa de Vênus Duplo sentido, de 1987). Rara participação de Raul num disco de outro artista e mais rara ainda relação do cantor com um grupo de rock brasileiro dos anos 80. Em parceria com Marcelo Nova (com quem gravaria um álbum, A panela do diabo, em 1989), o baiano fez vocais e ainda assinou a letra.

“A LEI” (A pedra do gênesis, 1988). No penúltimo disco de Raul, voltam à capa o “imprimatur” (imprima-se, em latim, como nos primeiros escritos católicos) da Sociedade Alternativa e o logotipo do cantor escrito em fontes góticas. Na capa, o cantor aparece numa foto de 1974, segurando um livro de magia. Em A lei, Raul compõe um funk torto usando o refrão de Sociedade alternativa e lendo textos de Aleister Crowley quase na íntegra.

“LUA BONITA” (A pedra do gênesis, 1988). Cantando com um fiapo de voz no fim da carreira (seus últimos discos foram gravados em meio a muito abuso de álcool), Raul faz chorar ao reler um clássico do compositor paraibano Zé do Norte – autor também de Sodade meu bem, sodade e, alega-se, de Mulher rendeira.

“NUIT” (A panela do diabo, 1989). Momento solo de Raul em seu último disco, gravado em dupla com Marcelo Nova. Sobra de um disco-fantasma do baiano, também chamado Nuit (que chegou a ser anunciado por ele em 1981), a balada de Raul e Kika Seixas foi a última canção gravada por ele no álbum, com as luzes do estúdio todas apagadas. “Todos na sala de gravação estavam com os olhos rasos d’água, porque entenderam que aquela era uma letra de despedida”, contou o produtor Pena Schmidt em 1999 à Trip.