Nos anos 1970, era mais fácil achar dez milhões de dólares perdidos na rua do que um crítico/crítica musical que falasse bem da nova onda de bandas de som pesado. O Led Zeppelin hoje é considerado um clássico, mas quando os primeiros discos da banda saíram, os jornalistas não perdoaram. A banda era massacrada por quase todas as publicações e nem mesmo a mudança de sonoridade que empreenderam em Led Zeppelin III (1970, quando abusaram de influências do folk) ganhou atenção especial.

Uma série de lançamentos, vários anos depois, foram reavaliados até mesmo por publicações históricas como a Rolling Stone. O Black Sabbath não agradou muitos críticos quando lançou seus primeiros discos – que hoje, fazem parte de qualquer enciclopédia de rock.  Bandas como Blue Cheer, Sir Lord Baltimore e até o Deep Purple nos primeiros tempos ou eram espinafradas ou solenemente ignoradas.

Tinha também o Queen, que não era exatamente o tipo da banda que agradava aos críticos nos primeiros tempos. O primeiro disco, de 1973, dividiu opiniões: foi recebido como “uma estreia impactante e dinâmica” pela revista underground Time Out,  mas foi torpedeado pelo New Musical Express, que o classificou como “um balde de urina”.

Já o primeiro disco do Uriah Heep, Very ‘eavy, very ‘umble, lançado há 50 anos (fez aniversário no dia 13 de junho) causou verdadeiro ódio numa jornalista da Rolling Stone, Melissa Mills. Muitos resenhistas já deixaram bandas e artistas a ponto de vomitar, mas a primeira frase da crítica que ela escreveu foi nada menos que: “Se esse grupo fizer sucesso, vou ter que cometer suicídio”.

Quando o primeiro disco do Uriah Heep provocou ódio numa jornalista

“Logo na primeira nota que eles tocam, você já sabe que não quer ouvir mais nada. O Uriah Heep é aguado como um Jethro Tull de quinta, apenas mais aborrecido e insano. O grupo tem voz, órgão, guitarra, baixo e bateria. Falham em criar um som distintivo. Outro fator em seu estilo desinteressante é que tudo que eles tocam é baseado em riffs repetitivos.

De acordo com informações do material de divulgação, o UH passou o ano passado no estúdio, ensaiando e escrevendo canções. Não há dúvida que sua falta de experiência em se apresentar ao vivo contribuiu para a qualidade do disco. Se tivessem tocado em clubes, ao vivo, teriam sido expulsos do palco. E nós teríamos sido poupados dessa perda de tempo, dinheiro e vinil”.

A resenha do Uriah Heep passou para a história, mas Melissa também resenhou outras bandas para a publicação. Ouviu Mad shadows, segundo disco do Mott The Hoople (1970) e detectou toda a indefinição que o som do grupo tinha na época. Mas foi bem mais branda. “O grupo é por si só, uma espécie de borrão de tinta, desta vez: possivelmente a razão pela qual eu não fui capaz de decidir se eu realmente gosto ou não desse álbum é que eles ainda não decidiram o que serão”, escreveu.

O Uriah Heep fez (muito) sucesso, mas vá lá que o grupo nunca fez parte do primeiro escalão do rock. E discute-se até hoje se o mix de som pesado, pura doideira e esoterismo da banda merece figurar no cânone do estilo. De qualquer maneira, Ken Hensley, tecladista, guitarrista e cantor do grupo, garrou ódio de Melissa a ponto de, num papo com o New Musical Express, em 1974, lamentar que a jornalista não tivesse cumprido o que prometeu.

No tal papo, não custa lembrar, o músico admitiu que não eram a banda mais preparada do mundo no começo da carreira. “Éramos muito crus e algumas críticas estavam certas”, disse ele, só puto da vida com os pobres jornalistas que não fizeram comentários construtivos sobre o grupo.