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Cultura Pop

Quando o Against Me gravou uma demo sem usar pratos na bateria (???)

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Aposto que você já deu uma olhada por curiosidade em sites como o Discogs para ter uma noção do quão raro é aquele disco que você tem na sua coleção, não é? E certamente já deve ter tomado alguns sustos. Por exemplo: se você é o feliz proprietário do primeiro single do Misfits, você tem uma pequena fortuna em mãos. Isso porque recentemente uma cópia do mesmo foi vendida por – pasmem – R$ 100 mil!.

Mas dentre todos esses trabalhos raros e valiosos, um bem obscuro também costuma chamar a atenção. É a segunda demo do Against Me, Vivida-vis!. O álbum saiu em 1998 apenas em fita K7 e não costuma ser vendido por aí por menos de R$ 1 mil.

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Nessa época, aos 17 anos, a vocalista Laura Jane Grace (que ainda não tinha feito a transição de gênero da qual falou em entrevistas como essa aqui), já andava fazendo shows como Against Me. Embora a banda fosse um projeto solo no melhor estilo “um banquinho e um violão”. Mas tudo mudou quando conheceu um garoto três anos mais novo e de visual gótico chamado Kevin Mahon.

Os dois tinham gostos musicais semelhantes e eram verdadeiros peixes fora d’água na cidade onde moravam (Naples, na Flórida). E por isso, tornaram-se muito próximos. Kevin se mudou pra casa de Laura e, numa das inúmeras noites que passaram em claro bebendo e ouvindo LPs do Crass, ela teve a ideia de adicioná-lo à banda como baterista.

Tudo muito bonito na teoria, mas não só Kevin nunca tinha tocado bateria na vida como também sequer tinha dinheiro pra comprar uma. A solução encontrada foi a mais inusitada possível: usar como kit de bateria BALDES e abolir os pratos.

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A ideia dos baldes foi, segundo a biografia de Laura (Tranny, lançada aqui no Brasil pela editora Canal 3), não só para baratear os custos mas também pra facilitar a logística. Afinal, já que não teriam tanto equipamento para carregar, ficaria muito mais fácil armar suas coisas em qualquer esquina e tocar por uns trocados.

Já a ausência de pratos foi não só para simplificar o trabalho do Kevin, haja vista que ele não tinha experiência alguma no instrumento. Mas também para fazer um som que tivesse uma proposta distinta.

Com o auxílio do amigo Dustin Fridkin, que quebrou um galho no baixo, eles gravaram de forma completamente mambembe. Usaram uma mesinha de 4 canais e usando como estúdio a garagem do pai de Laura. Como estava, Vivida-vis! foi lançado pouco tempo depois pela Misanthrope Records, selo da Flórida especializado em divulgar bandas locais apenas em K7.

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Apesar da precariedade latente, algumas músicas como Tearing down the walls e Burning bridges chamavam a atenção pelas letras fortes e inteligentes. Isso lhes rendeu convites para excursionar pela costa leste americana nos anos subsequentes.

Animados, chamaram James Bowman para uma segunda guitarra e a coisa pareceu que iria finalmente tomar forma e se transformar numa banda de verdade. Mas um incidente em abril de 2001 quase por tudo a perder, literalmente. Isso porque a van que dirigiam colidiu com um caminhão e capotou.

Por sorte, nenhum integrante do Against Me se feriu com gravidade. Porém o veículo teve perda total e todo o equipamento (instrumentos, amplificadores) foi pro espaço. Isso fez com que Laura, desiludida, decretasse o fim da banda ali mesmo.

Mas para nossa sorte, alguns meses depois o Against Me voltaria, porém sem Kevin Mahon. A relação entre os dois andava meio azeda desde que ele passou a demonstrar uma certa atração sexual por Laura, mas que nunca foi correspondida, e o acidente automobilístico foi só o pretexto que ele precisava para jogar a toalha de vez.

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Já em 2003, com o novo baterista Warren Oakes, lançaram seu primeiro CD, Reinventing Axl Rose. O disco tem alguns dos maiores hits da banda, como Pints of Guiness make you strong, e o resto é história.

Se você ficou interessado em comprar Vivida-Vis!, prepare-se, pois a procura vai ser longa, extenuante e cara (isso se você finalmente achar a fita). Mas se você se contenta somente em ouvir, alguma boa alma já fez o favor de jogá-lo no YouTube. Confira as músicas na playlist abaixo e divirta-se!

 

LUCIANO CIRNE é jornalista, flamenguista, casado, ama cachorros e aceita doações de CDs, DVDs, videogames e carrinhos!

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Cultura Pop

No nosso podcast. Rita Lee (e Roberto de Carvalho) entre 1980 e 1983

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No nosso podcast. Rita Lee (e Roberto de Carvalho) entre 1980 e 1983

No começo dos anos 1980, se bobear o Brasil tinha bem poucos seres humanos vivos que nunca tinham sequer ouvido falar de Rita Lee – uma cantora que, ao lado do marido Roberto de Carvalho, vendia muitos discos, tinha música em abertura de novela e ganhava especiais de TV no horário nobre. E como se não bastasse, era contratada do verdadeiro canhão de comunicação que era a Som Livre daquela época. Mesmo com a censura do fim do governo militar no contrapé, foi um período de shows inesquecíveis, muitos hits, álbuns lançados um atrás do outro, e uma verdadeira ritaleemania tomando conta do país.

Hoje no nosso podcast, o Pop Fantasma Documento, damos um sobrevoo na trajetória de Rita e Roberto no começo dos anos 1980 – a época dos álbuns Rita Lee (mais conhecido como Baila comigo, 1980), Saúde (1981), Rita Lee & Roberto de Carvalho (mais conhecido como Flagra, 1982) e Bom bom (1983). Ouça em alto volume e escute os discos depois.

Século 21 no podcast: Jane Penny e Bel Medula.

Estamos no Castbox, no Mixcloud, no Spotify, no Deezer e no Google Podcasts. 

Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch (fotos: reproduções das capas dos álbuns de Rita entre 1980 e 1983). Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.

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Crítica

Ouvimos: Alan Vega, “Insurrection”

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Ouvimos: Alan Vega, "Insurrection"

Alan Vega e sua ex-banda Suicide não eram apenas “rock industrial”. Eram música infernal, mostrando para todos os ouvintes que situações assustadoras eram vividas não apenas em filmes de terror, mas no dia a dia. No contato com vizinhos perturbados, na violência nossa de cada dia, na vida fodida dos debandados do capitalismo – que é o verdadeiro assunto de Frankie Teardrop, música assustadora lançada no epônimo primeiro disco da dupla formada por ele e Martin Rev, de 1977.

Vega viveu no limite: antes do Suicide ter qualquer tipo de sucesso, passou fome e enfrentou dificuldades. No palco, era do tipo que se cortava e saía sangrando dos shows. Seu som sempre teve ideais radicais, inclusive politicamente – ele chegou a ser atacado pela polícia ao participar de passeatas, e o Suicide homenageou Che Guevara na música Che. Dos dois integrantes do Suicide, hoje só Martin Rev vive para perturbar os ouvidos dos outros com som pesado, distorcido e sintetizado. Alan, que prosseguiu por décadas como lenda viva do punk e da música eletrônica, lançando discos e fazendo exposições de arte, teve um derrame em 2012 e morreu durante o sono em 2016.

Seu material como compositor, ironicamente, devia bastante às raízes do rock, e à postura de “herói” do estilo. O novaiorquino Alan era fanático por Iggy Pop e Stooges, e seu vocal variava entre dois uivos – o de Elvis Presley, cujo visual inicial trabalhado-no-couro passou a imitar, e evidentemente o de Iggy. Os primeiros álbuns solo de Alan variavam entre o synth-pop nervoso e uma espécie de rockabilly aceleradíssimo e violento (o melhor exemplo é a estreia epônima de Vega, lançada em 1980). Não custa lembrar que o som do Suicide, de fato, chegou a impressionar até mesmo Bruce Springsteen, que já disse ser (pode acreditar) fã da dupla.

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Insurrection é uma coletânea de gravações inéditas que estavam no baú de Alan. São músicas industriais e infernais feitas no fim dos anos 1990, todas falando sobre morte, sofrimento e contagem de mortos como se fosse algo natural, do dia a dia – e pensando bem, olhando os jornais e andando pelas ruas, é meio isso. É “bom de ouvir” dependendo do seu humor: é o disco das dançantes e góticas Sewer e Crash, do synth pop monocórdico Invasion, do pesadelo selvagem Cyanide soul e do lamento sonoro (de quase dez minutos) de Murder one.

Mercy é um estranho e assustador pedido de clemência, falando em gritos, anjos sangrando e tempestades sombrias. E nessa música o vocal de Alan lembra de verdade o de Elvis Presley, o que soa mais estranho ainda. Os beats são dados por uma percussão intermitente e tribal, seguida por uma batida eletrônica mais próxima do “dançante”. Soa mais insociável do que qualquer coisa lançada pelo Ministry ou pelo Alien Sex Fiend, por exemplo. Chains soa como entrar numa bizarra ressonância magnética de distorção. E Fireballer spirit oferece a mesma sensação, só que acrescida de barulhos eletrônicos.

Nota: 7,5
Gravadora: In The Red

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Cultura Pop

4 discos: Joy Division e seus “the best of”

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Peter Hook: "Roubamos muito o Kraftwerk"

O material não-lançado pelo Joy Division em LP dá (como aliás deu) um número considerável de coletâneas. Ainda que o grupo tenha só dois LPs para contar história (Unknown pleasures, de 1979, e Closer, de 1980). Mesmo que não seja um número maluco de coletâneas como acontece com o Who – que tem um monte de “the best ofs” com poucas diferenças entre um álbum e outro – quem quiser se abastecer de discos com faixas de singles, ou melhores sucessos do grupo, não fica sem opções. Pode achar por aí discos unindo músicas do JD e de sua continuação post-mortem, o New Order. Ou sets variados com gravações da BBC, faixas ao vivo, compactos e músicas mais conhecidas dos dois álbuns.

Comemorando os 46 não-redondos anos de Unknown pleasures (lançado em 15 de junho de 1979), tá aí uma lista condensadíssima – só quatro discos – de coletâneas que em algum momento valeram a pena para futuros fãs do grupo.

“WARSAW” (1981, RZM). Apesar do título, esse disco não traz só as sessões do grupo com seu primeiro nome. Dependendo da edição, tem as demos do Warsaw que depois foram lançadas já como Joy Division no EP An ideal for living (1978), as gravações feitas no período breve em que o Joy Division quase foi contratado pela RCA (igualmente em 1978) e o lado B As you said. As primeiras edições traziam as ondas de rádio da capa de Unknown pleasures ocupando quase toda a arte. Em Portugal, o disco chegou a ser lançado semioficialmente pelo selo Movieplay.

“SUBSTANCE (1978-1980) (1988, Factory). O correspondente do Substance do New Order levava para vinil e CD oficiais faixas obscuras de singles do grupo, incluindo material do pirata Warsaw. Além de faixas mais conhecidas lançadas em compacto, como Dead souls, Atmosphere e Love will tear us apart. O principal era que o disco mostrava, de maneira cronológica, o Joy partindo do punk para a quase neo-psicodelia, indicando que a banda talvez se tornasse uma ótima concorrente de grupos como Echo and The Bunnymen, Teardrop Explodes e Cocteau Twins caso o vocalista Ian Curtis não tivesse morrido (falamos desse disco aqui).

  • Temos episódios sobre New Order e Joy Division em nosso podcast.
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“PERMANENT” (1995, London). Lançada quando o antigo selo Factory já havia declarado falência e seu material estava nas mãos da London Records, essa coletânea teve grande valor quando lançada. Pelo menos por aproveitar o então recente retorno do New Order com o disco Republic (1993) e o hit Regret, e o começo da revalorização do rock inglês via Oasis, Blur, Elastica, Suede e vários outros nomes. Love will tear us apart aparecia em duas versões: a versão gravada no Pennine Studios, mais rara, lançada até então apenas no lado B do single original (e depois resgatada para uma versão expandida de Substance), e um novo mix.

“HEART AND SOUL” (1997, London). Para fãs extremamente roxos do JD, essa caixa quádrupla tem praticamente todo o material de estúdio que havia surgido do grupo até então. Nos dois primeiros CDs, Unknown pleasures e Closer surgem expandidos com material de compactos e coletâneas. O terceiro CD traz faixas de compactos, demos e sessões de rádio – incluindo as demos de Ceremony e In a lonely place, gravadas um mês antes da morte de Ian Curtis (essas músicas seriam depois gravadas pelo New Order). O quarto CD tem só material gravado ao vivo.

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