Parceiro de Mahmundi em várias músicas, o cantor e compositor carioca Roberto Barrucho usa desde 2017 o codinome Dossel, por intermédio do qual lançou, no fim de 2020, sua mais nova música, Filho da aldeia. A mudança veio quando ele sentiu necessidade de se deslocar para uma nova persona para mostrar seu trabalho artístico.

“Acho importante essa separação, me ajuda a organizar as coisas, colocar nas gavetas e tudo mais. Não significa que os processos artísticos se dissociem da minha vida pessoal, mas auxilia uma leitura e organização das coisas”, conta ele, que pensou primeiro na biodiversidade do dossel florestal ao escolher o nome. “Percebi assim, como um espaço a ser explorado, um ambiente a ser habitado”, recorda.

MATERNIDADE

O som novo de Dossel, que tem também na discografia o disco Ouvindo vozes (2019), traz um conceito bem percussivo e afro-brasileiro, incluindo duas participações – a do percussionista Jam da Silva e a de Pai Guga, frontman da banda Amplexos, de Volta Redonda (RJ). A letra, recorda ele, foi inspirada por observações do tema da maternidade solo, e das pressões sociais que existem diante da criação de uma criança.

“Essa temática me levou a pensar e ler sobre isso, foi quando cheguei ao conceito africano de que é preciso de uma aldeia inteira para se educar uma criança. Essa filosofia me encantou e me fez pensar ainda mais no senso de coletividade e formas de vida possíveis. A partir disso, acabei cruzei com algumas ideias que estavam pairando por aqui com vontade de serem compartilhadas”, recorda ele, cujo início de projeto solo também incluiu uma relação maior com a espiritualidade. “Não foi algo planejado. Foi quase uma forma de começar a existir dessa forma, numa relação de ferramenta. Enquanto temática, acaba refletindo em alguns momentos e também na maneira de conduzir as coisas”.

Jam, de quem ele já era fã há tempos, surgiu pessoalmente em sua vida após uma participação de Dossel num show no Etnohaus (Botafogo, Rio). De lá para cá, foram várias conversas sobre música e outros assuntos. A participação na faixa rolou à distância, cada um no seu canto, até por conta da pandemia. “Mas de forma muito orgânica, pelo tempo e o processo em si”, conta. “Nesse meio tempo convidei o Pai Guga pra participar do processo. Senti que a entoação dele cairia bem pra essa canção, para a maneira que pensei de construir e comunicar com essa música”.

COMEÇO

Roberto, ou Dossel, recorda ter se envolvido com música na infância, quando foi aluno de uma escola que seguia a pedagogia Waldorf, baseada na filosofia da educação do austríaco Rudolf Steiner. Hoje, ele toca piano e violão e, em suas músicas, atua em diferentes instrumentos, a partir de colagens, edições e experimentações. Também convida colegas se sente que a ideia pode ganhar outro resultado se executada por mais alguém.

“Acho que (a escola) foi uma semente importante, um estímulo inicial às artes de forma geral e a um modo de lidar com o mundo de forma mais atenta ao sensível. Na adolescência convivia com alguns músicos e artistas amigos de meus pais, apesar deles não serem do meio, se relacionavam com pessoas da área”, conta, lembrando que a composição veio aos 15 anos, após ganhar seu primeiro violão. “Mas como a gente ‘vinha de um outro lugar’, eu nunca pensei em fazer música de forma profissional ou escolher algum ofício artístico pra me dedicar enquanto atividade principal”.

PARCEIRA

Com Mahmundi, Dossel compôs músicas como Calor do amor. “O início da nossa amizade já foi perpassado pela poesia, pelo fazer música, se encontrar enquanto ator nesse gigante cenário da música e buscar existir de alguma forma. Logo que apresentei os meus escritos pra Marcela (nome verdadeiro da cantora), lembro dela gostar muito, logo de cara. A gente se encontrava sempre nesse contexto da música, e naquele momento ela trabalhava na Fundição Progresso, casa de shows tradicional aqui da Lapa”, recorda.

A amizade e a parceria evoluíram a ponto da cantora se tornar o Trabalho de Conclusão de Curso de Dossel em em Produção Fonográfica. “Gravamos um EP e preparei o projeto para inserção na Lei Rouanet. Essa experiência me deu um panorama de como era colocar um trabalho na rua. Antes disso já havíamos composto e gravado algumas, mas a partir dali a coisa foi se estruturando e no ano seguinte saiu o Efeito das cores (EP de 2013 de Mahmundi)”, conta.

ÁLBUM

Dossel conta que tem um “trabalho em caminho” por aí, que pode indicar um álbum. “Mas ainda é uma concepção muito nova”, afirma. “O que consigo adiantar é que ele acaba sendo fruto desse período de maior recolhimento, que nos permitiu um contato maior com o nosso íntimo, e nos convidou a olhar cada cantinho da alma, das feridas, possíveis obstruções, traumas, enfim, o autocuidado, acolhimento das sombras enfrentamento dos ‘demônios’. Mas ele não fica só por aí. Ele pulsa no sentido da esperança, da beleza e da contemplação, passeia entre o claro e o escuro, buscando a luz”, detalha.

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