Apesar de existirem há muitos anos e já terem gravado vários discos, as bandas paulistanas Gianoukas Papoulas e Lestics permanecem como “grupos secretos” para muita gente. “Acho que pelo fato de nenhuma delas fazer muitos shows, excursionar, fazer girar a roda, por assim dizer”, diz Olavo Rocha, um dos fundadores dos dois grupos (por sinal, o segundo funciona como um spin-off bem mais ativo do primeiro). E ele acrescenta mais uma banda à rede: o Dolores Fantasma, projeto realizado ao lado de seu filho, Pedro Canales, também do Gianoukas. O Dolores acaba de lançar o primeiro disco, Voto de silêncio/Horror vacui.

“Os Gianoukas Papoulas estão dando aquela tradicional hibernada, mas eu sempre espero que a gente faça alguma coisa bacana, assim, de supetão. E o Lestics, como eu disse, tem as composições do próximo disco na cartola. É um bom material, logo logo a gente arma um jeito de gravar e botar na rua”, conta Olavo, que partiu para uma onda mais eletrônica e experimental no álbum, repleto de participações e parcerias. A lista de convidados inclui Thomas Pappon (Fellini), Rubinho Troll (da banda mineira oitentista Sexo Explícito), Ivan Santos (da banda curitibana oaeoz), Loop B e músicos do Gianoukas/Lestics, como o guitarrista Umberto Serpieri.

Boa parte do material foi feito em 2018, quando o Lestics lançou o oitavo disco, Breu, e quase vazou para um disco solo. Olavo, que vinha há anos conversando com o filho sobre a ideia de um projeto em dupla, fez o convite para Pedro produzir e nasceu a banda.

“O trabalho foi fluindo até ficar evidente que a gente estava fazendo a parada muito juntos. Trabalhando como banda mesmo, trocando ideias, curtindo o que o outro propunha. Esse trampo do Pedro, de construir uma unidade sonora pro disco, trouxe ele pra dentro da história de um jeito muito intenso e muito natural. E a nossa parceria no disco, Outro lugar, é uma das coisas que eu mais me orgulho de ter feito na vida”, diz Olavo. “Acho que aprendemos um bocado no Gianoukas, sobre como não embaralhar a pessoa física com a pessoa jurídica (o que é vital trabalhando com pessoas mais próximas). Além disso, sinto que é muito precioso o fluxo criativo entre nós dois, até porque o Olavo tem um papel imenso na minha formação musical”, completa Pedro.

Os dois não procuraram nortear o resultado de forma que saísse diferente do Gianoukas e do Lestics. “Sempre achei legal trabalhar com parceiros diferentes, sem esperar desses encontros um resultado específico. Não penso ‘com fulano eu quero fazer uma música assim ou assado’. Vai saindo o que tiver pra sair. Acho esse ‘fator acaso’ mais rico pra quem faz e pra quem ouve a música”, conta Olavo.

No começo de 2019, começaram a surgir as parcerias, agitadas em dois dias de trocas de mensagens. A entrada de Thomas Pappon como parceiro em Espelho (ele também toca guitarra e piano na faixa) deu um orgulho especial a Olavo, que já trocava mensagens com o músico havia um tempo.

“Em 1988 eu ganhei de um amigo uma fitinha que era uma compilação de músicas do Fellini. Ouvi essa fita até estragar. Acho que isso me estragou um pouco também, hahaha! O fato é que a banda tem muita influência na forma como eu me relaciono com a música. O Fellini parece desencanado, mas não é despretensioso. Tem um desdém pela ‘fama’, mas também tem uma baita ambição artística. Pra mim, isso é muito inspirador”, conta ele.

Outro orgulho de Olavo é ter o filho na produção do disco. “Montamos o álbum em cima de composições bem diferentes entre si. A treta é que a gente queria fazer um álbum digno desse nome, um conjunto coerente de canções. A unidade rolava nas letras, no tratamento poético dos temas. Mas pra mim, o pulo do gato foi o jeito que o Pedro resolveu essa questão em termos de arranjos e sonoridade. Acho que aí reside o pequeno milagre do disco”, conta.

Pega aí o disco do Dolores Fantasma.

Fotos: Andrea Tedesco (Olavo Rocha, E) e Felipe Herculano (Pedro Canales, D)