Crítica
Ouvimos: Ty Segall, “Love rudiments”

- Love rudiments, disco novo do cantor e guitarrista de garage rock Ty Segall, é definido por ele como “uma meditação sobre seu primeiro amor: a bateria”, já que o material é composto por quatro longas faixas percussivas.
- O selo Drag City o define dessa forma: “Ty mapeia o crescimento e o declínio de um caso de amor, para explorar alguns dos espaços mais delicados que conhecemos — o local emocional privado onde apenas dois podem se encontrar”.
Se você chegou ao final de Love rudiments e se perguntou “será que eu gostei?”, fique calmo/calma. Você é apenas uma pessoa normal. Provando e comprovando sua versatilidade, com direito a uma dose bem alta de cara de pau, o músico norte-americano Ty Segall – que já gravou uma enormidade de discos e já foi do glam rock ao acid rock, passando por sons experimentais – resolveu se dedicar em seu novo álbum a temas de jazz meditativo, tocados na bateria e na percussão. E também em instrumentos como vibrafone e xilofone, além de um ou outro instrumento eletrônico.
O resultado é bastante desafiador e está longe de ser ruim, mas nem a pau é um disco de jazz formal – o approach de Ty está um pouco mais próximo das encucações jazzísticas dos nomões do rock progressivo, do heavy metal e da música experimental, com tons sombrios, andamentos mais próximos do rock (o excerto Walk home pt.1, por exemplo, é bem marcial, quase motorik). No geral, tudo mais próximo do toque de um Bill Ward, ex-baterista do Black Sabbath, do que dos tons tribais ou delicados da turma do jazz. A entrada dos vibrafones no disco faz lembrar bandas como os progressivos pouco lembrados do Patto, aliás.
Um detalhe curioso é que Love rudiments é um disco instrumental e… conceitual, já que suas quatro longas faixas, por intermédio de títulos e excertos, “falam” musicalmente sobre a ascensão e a queda de um caso amoroso. A sequência começa com First look e First conversation e chega à sêxtupla Honeymoon/Life/Confrontation/Argument/Separation/Realization, já indicando que a coisa não terminou nada bem.
Nota: 7
Gravadora: Drag City
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Crítica
Ouvimos: Boris – “Dronevil – example -” (relançamento)

RESENHA: O Boris revisita o caos de seu álbum Dronevil em versão mais prática: drone, doom e ruído extremo para quem ama barulho experimental.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 7,5
Gravadora: Relapse Records
Lançamento: 19 de agosto de 2025
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O Boris é um trio japonês extremamente barulhento – quase uma materialização da doideira ruidosa e misteriosa do Les Rallizes Dénudés – e que grava e lança discos compulsivamente. O som une drone, sludge metal, doom metal, psicodelia e música assustadora em geral (volta e meia o som fica mais violento sem aviso prévio). Ultimamente a banda anda revisitando seus discos antigos e voltando do passeio com algumas surpresas e lançamentos comemorativos. Foi daí que veio Dronevil – example-, um “retrabalho” em cima de seu disco de 2005, Dronevil.
Dronevil era um disco duplo cujos álbuns podiam ser ouvidos em separado, mas a ideia era que o ouvinte desse um jeito de tocar os dois discos ao mesmo tempo – adaptando aquela ideia maluca do Flaming Lips para o álbum quádruplo Zaireeka, de 1997. O disco passou por algumas mudanças nos relançamentos: nomes de faixas foram trocados, músicas foram acrescentadas, a capa, originalmente um desenho de Stephen O’Malley, da banda Sunn O))), foi mudada. A versão “example” continua sendo dupla, mas junta os dois discos originais num só para ninguém ter o trabalho de usar dois CDs (ou dois aparelhos de som, dois celulares, duas caixas) para escutar o pacote todo.
E aí que não tem como falar de Dronevil sem falar termos como “atmosférico”, “experimental”, sendo que cada faixa é atmosférica e experimental de um jeito. A associação com o Sunn O))) faz todo sentido, já que o som do Boris tem dois lados: ou é puro drone, ou cai no sludge e doom metal, com sons que lembram o Godzilla se movimentando e pisando em prédios.
Loose x Red começa dando medo: uma guitarra “tranquila”, um prato de bateria que vai se tornando foco de terror, microfonias e um som gelado que vai tomando a frente, dando um clima de sonambulismo. Giddiness throne x Evil wave form é menos insinuante e mais agressiva, mas com clima fantasmagórico, com ruído geral lá pelas tantas.
Nem falei, mas vale avisar: são quatro faixas com cerca de 20 minutos cada. Interference demon x The evilone which sobs, abre no drone e se torna quase um blues metal triste. O final é com A bao a qu, “single” de 17 minutos incluído no disco, e mixado com o material menos metálico de Dronevil. Uma música cuja curva é em formato de sino: drone + metal+ som que vai silenciando aos poucos. Tem que amar barulho e experimentalismo para curtir Boris de verdade.
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Crítica
Ouvimos: Pentelho – “Adesivo de Ferrari” (EP)

RESENHA: Pentelho estreia com hardcore powerviolence sufocante, protesto feroz e clima sombrio em Adesivo de Ferrari.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Lixo-O-Rama Discos
Lançamentos: 23 de maio de 2026
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O selo Lixo-O-Rama Discos estreia avisando que os discos da gravadora “explodem feito dinamite”. Não é mera figura de linguagem. O Pentelho se dedica a um subgênero do hardcore chamado powerviolence – basicamente são quilos de peso inseridos num estilo que já é pesado por natureza, o que pode tornar a audição dos discos dessa turma experiências verdadeiramente imersivas.
Adesivo de Ferrari, EP de estreia do grupo, soa como se guitarra, baixo, bateria e vocais despontassem num espaço que não dá vazão para o som alto. A sensação de compressão, de sons brigando no ouvido, faz parte da experiência – bem como a onda sombria de muitos momentos, como a abertura com o monólogo Monólogo.
- Ouvimos: War On Women – Time under tension
Faixas como Adesivo de Ferrari e Desejo carnal investem no protesto contra as estruturas do poder (milionários, patriarcado) e num som quase noise rock – a bateria parece tocada com uma chave de roda, e soa como as latadas do disco Saint anger, do Metallica (2003), só que em tom mais industrial. Show na esquina vem bem menos atmosférica que o restante do disco, enquanto Eu não sou feliz, surge lembrando as bandas do selo Läjä Records, com letra gozadora e clima pouca coisa menos violento.
No final, tem a porrada de Ameaça patriota, que mostra bem o que é violência de verdade, e de onde ela vem: “De farda invisível e arma na palavra / mentira gritada vira lei na marra / rindo da morte, chamando de histeria / mil corpos no chão, estatística fria / não foi erro, foi projeto”. Um som que chama o ouvinte pra porrada, no melhor dos sentidos.
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Crítica
Ouvimos: War On Women – “Time under tension”

RESENHA: Hardcore feroz e político: War On Women mistura grunge, punk pop e revolta feminista em Time under tension, disco pesado e cheio de hinos contra o sistema.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Smartpunk Records
Lançamento: 8 de maio de 2026
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“Guerra contra as mulheres” é um ótimo nome para uma banda punk feminina cheia de músicas ferozes no repertório. O War On Women faz jus ao nome, pesando bastante o som e escrevendo hinos contra o patriarcado. Time under tension mantém a vibe de sempre, mas com algumas mudanças. Uma delas: Messages unsent, uma canção quase punk pop para os padrões delas, é uma raríssima canção de amor do repertório do grupo, “a primeira que escrevi em muito tempo e certamente, a primeira nesta banda”, diz a vocalista Shawna Potter.
Outra: Serve, a melhor do disco, tem clima próximo do grunge e uma guitarra na abertura que lembra Dinosaur Jr. De certa forma, é uma canção romântica, mas sem deixar de lado as espetadas do sistema que desprotege as mulheres: Shawna reclama de um parceiro descansado que não luta por nada, mas não está disposta a aguentar a aporrinhação por muito tempo (“você não quer trabalhar, você não quer se sujar, você não quer suar, você não quer sentir a maldita dor / como eu te mantenho no meu coração enquanto te deixo ir?”).
O War On Women é uma banda feminina que tem dois homens na formação: Shawna, Jenarchy (guitarra, vocal) e Sue Werner (baixo, vocal) dividem o grupo com Brooks Harlan (guitarra) e Dave Cavalieri (bateria). Entre temas pesados contra o machismo, acham-se músicas que, no geral, falam sobre opressão, violência e revolta, e sobre guerra aberta com quem instalou os botões do sistema. Precious problem (que abre na eletrônica e embarca no hardcore), Spun sugar e More than muscles têm versos diretos como “quem te mantém no seu lugar e mente na sua cara? / o que eles chamam de fraqueza, nós chamamos de força” e “que se danem os bons momentos, eu quero sair daqui / você está me transformando em todos os fantasmas do seu passado”.
- Ouvimos: Death Lens – What’s left now?
No repertório, há também punk rocks originais e despadronizados (Shapes) e lembranças sonoras de L7 e Ramones (Malevolence, Feels good), além de vibes mais sombrias (Balance, Hunger stones). Uma curiosidade é a melódica e feroz The movie Fear starring Reese Whiterspoon, com lembranças de Medo (1996, dirigido por James Foley), que conta a história de uma adolescente, Nicole (Reese) apaixonada pelo psicopata David (Mark Wahlberg). Na letra, espectadora e personagens se confundem: “Ondas e ondas, diga como se fosse verdade / é o nosso pequeno segredo até que acabe / um tremor na câmera, um toque de falsidade / eu quero que isso seja real?”.
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