Crítica
Ouvimos: Thunderpussy, “West”

- West é o segundo álbum da banda Thunderpussy, formada em 2014 em Seattle (Washington). Na formação, Molly Sides (voz), Whitney Petty (guitarra), Leah Julius (baixo) e Lindsey Elias (bateria). O primeiro single da banda, Velvet noose, foi um lançamento da HockeyTalkter Records, o selo de Mike McCready, guitarrista do Pearl Jam.
- “Todas nós quatro, mulheres, fazemos coisas que historicamente foram dominadas pelos homens. Tocamos música, andamos de motocicleta, namoramos garotas, e fazemos coisas pesadas para ganhar a vida”, chegou a falar Leah Julius numa entrevista. “Não fazemos isso como um ‘foda-se’ para a sociedade dominada pelos homens, ou em uma tentativa de promover os direitos das mulheres, nós fazemos isso porque podemos e queremos”.
- A banda teve problemas para registrar como marca seu nome – que significa exatamente aquilo que você está pensando. Um INPI dos Estados Unidos recusou-se a registrar, alegando que nega o procedimento para marcas “escandalosas, imorais ou depreciativas”. Depois, elas conseguiram e lançaram até uma cerveja com o nome da banda.
O que mais existe no mundo são bandas masculinas de rock pesado que soam parecidas em um ou outro aspecto com o Black Sabbath. Vindo de Seattle, o Thunderpussy, banda formada por quatro mulheres, une influências do Sabbath (e do Queen, e do Aerosmith) a várias referências de uma banda excelente que não deixou imitadores (as): o Heart, das irmãs Ann Wilson e Nancy Wilson. É parte da onda delas, que soam quase sempre em West como uma banda setentista que ainda não viu o punk começar.
Whitney Petty, Molly Sides, Leah Julius e Lindsey Elias, as quatro integrantes do Thunderpussy, curtem climas sombrios e apocalípticos, e às vezes, canções que passam dos cinco minutos e têm várias partes. Não é “metal sinfônico” nem nada do tipo: é rock pauleira com aquela mesma disposição para soar meio progressivo, que várias bandas tinham lá por 1972-1973. West abre com uma música nessa tradição, I can do better, e prossegue com peso suingado e ágil, herdado de bandas como Captain Beyond e Judas Priest, em Firebreather. Já Put your hands on me é blues elétrico e orquestral, com vários solos de guitarra. Até essa altura do disco, você percebe o quanto os vocais de Molly Sides honram a receita de soul, blues e gospel de vários/várias vocalistas da antiga.
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West, a faixa-título, é um tema folk que surge em duas versões, com e sem orquestra. Sallie Mae é o único momento quase próximo do punk no disco: um hard glam com acompanhamento de palmas, vocal “sujo” e conversas gravadas no meio da faixa. Misty morning, com mais de oito minutos e várias partes, soa como homenagem tripla a Heart, Black Sabbath e Led Zeppelin. E prepare-se para se encantar com o diálogo entre piano e guitarra (unindo hard rock, rock dos anos 1950 e jazz) da cavalar Setting sail.
Nota: 8
Gravadora: Trash Casual
Crítica
Ouvimos: Madonna – “Confessions II”

RESENHA: Confessions II reafirma Madonna com dance pop introspectivo, autobiográfico e ousado, unindo pista, memória, espiritualidade e reinvenção.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 10
Gravadora: Warner
Lançamento: 3 de julho de 2026
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E aí, Confessions II, de Madonna, é esse disco genial que todo mundo anda falando? Nossa resposta: sim, é. Mais que isso: ele é o mais próximo que Madonna chegou de lançar um manual de si própria. Ou um produto do tipo Como vejo o mundo, igualzinho ao livro de Albert Einstein – a segunda parte do disco Confessions on a dance floor (2005) é quase sobre isso, levando a dance music a um lugar cult na qual muitas vezes ela não é colocada nem pela crítica, nem por pensadores do segmento “música”, nem mesmo pelos trabalhadores da música feita para dançar.
- Mais Madonna no Pop Fantasma aqui.
Se você se incomodou com entrada do nome de Albert Einstein aqui… Bom, a internet costuma atribuir QIs altissimos para ambos e ele foi uma espécie de popstar das ciências – assim como Confessions II une clinicamente tudo o que se pode esperar da dance music em particular e da música pop “estilo Madonna” em geral. Se a cantora de hits como Erotica sempre demonstrou ambições quase literárias na hora de produzir música – cada disco funciona como um capítulo não apenas de sua vida e seu pensamento, como da produção de música pop – Confessions II tem muito disso.
Em termos de musicalidade, Confessions II é bem mais sombrio e cerimonial do que Confessions on a dance floor. Quase tudo aqui é “pós-disco” por aproximação, mas você não vai achar nada deslavadamente camp, nem nada referente ao ABBA, como rolava com o hit Hung up, há 21 anos. Tem até “psicodelia” no clima quase trance de The test, parceria de Madonna com a filha Lourdes Maria (ou Lola Leon, como assina) e que reproduz um diálogo e uma reaproximação entre mãe e filha. Uma canção em que Madonna fala sobre tentar evitar que suas próprias escolhas deixem feridas permanentes na relação com a filha.
O terço final do Confessions II, aliás, é bastante autobiográfico, com Madonna mexendo nas feridas do relacionamento com a madrasta (o trip hop Betrayal) e lembrando a época em que vivia no Lower East Side de Nova York e se apaixonou por um músico (o ambient pop L.E.S. girl). Na real, todo o disco com a história dela, mas o bpm vai ficando mais lento e o clima vai ficando mais nostálgico-triste no fim. Porque de modo geral, ele é um disco de música quase contínua (bem mais contínua do que no Confessions original), com beats acelerados e letras que dão uma volta na história – mostrando que Madonna, com o tempo, passou a ver dance music de uma forma bem diferente.
- Ouvimos: Art School Girlfriend – Lean in
Vai daí que Confessions II é uma “continuação” diferente – não é um “disco II” feito para aproveitar a fama do I, nem nada disso. Soa como a continuação do I, falando sobre pista de dança como criação e crescimento existencial (I feel so free e One step away, dos versos “compreenda sua violência e o trauma que você sobreviveu / ninguém é livre até ser quebrado”), espiritualidade pop (Good for the soul), amor (Love sensation, Love without words), sexo (School).
Fragile lembra a época em que Madonna envolveu-se com a Cabala (“eu sei que você é frágil / porque já foi machucada, decepcionada / você não conseguia ser você mesma agora / teve um colapso nervoso”). Danceteria volta nos tempos em que ela frequentava o clube de Nova York que serviu de modelo para todas as “danceterias” do mundo, com direito a lembranças do hit Vogue em melodia, conceito e vocais. Vozes feitas como na época de Erotica (e que serviram de modelo para o ASMR selvagem de Billie Eilish) dão as caras em muita coisa do disco, de School à quebra de bpm de Bizarre.
E aí, Confessions II, de Madonna, é esse disco genial que todo mundo anda falando? Mais uma resposta: diante do renascimento musical dela nesse disco, nem importa. Vale o que você ouve.
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Crítica
Ouvindo: Modest Mouse – “An eraser and a maze”

RESENHA: Modest Mouse retorna com An eraser and a maze, um disco inventivo, unindo alt-rock, pós-punk, folk e sarcasmo em canções sobre memória, humanidade e estranheza.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Glacial Pace Recordings
Lançamento: 5 de junho de 2026
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Muita gente mal lembra disso, mas o Modest Mouse já foi uma aposta musical ligada à MTV – Float on, primeiro hit deles, saiu há três décadas e virou sucesso na telinha. Isaac Brock, líder do grupo, pode parecer uma figurinha bem pouco comercial, mas veio de uma época em que o conceito de “rock alternativo” atraía fãs, por mais “alternativo” que fosse – e quase sempre o sucesso rolava exatamente por conta disso.
Tanto que Float on é aquele tipo de música que muita gente lembra, mas não lembra quem toca – coisa comum na farra de clipes e hits dos anos 1990, mesmo que o Modest Mouse tenha lançado seu repertório mais conhecido por uma gravadora grande. O grupo sempre teve um público fiel, que esperava há anos um retorno como o de An eraser and a maze. Um disco “sombrio” de brincadeira, e essencialmente belo, experimental e envolvente, com o pula-pula de arena de Picking dragons’ pockets, o folk uterino, eletrônico e funkeado de Remember yourself, o cântico pós-punk de Life’s a dream e Third side of the moon (sons herdeiros de Pixies e Replacements simultaneamente). Por aí.
Isso não dá nem a metade de An eraser and a maze, disco de 50 minutos e 15 músicas no qual se contam vários contos sobre memória, humanidade e heranças, das mais esquisitas às mais bem vindas. O sarcasmo do single Look how far… é bem isso aí, unindo “berço” histórico e sentimentos de superioridade: “você disse que é parente de antigos reis ou czares / por que você não constrói uma máquina do tempo e mostra a eles o quanto você caiu? / veja o quão longe chegamos / meu deus, somos tão burros”.
A dupla Dogbed in heaven / Give it a skeleton vai do folk esquisitão e psicodélico ao baixo fincado no chão – e questiona vida e morte ao mesmo tempo. Absolute necessary never, um synth pop excêntrico, é daquelas músicas que mostram que a vida acontece quando a gente olha os acontecimentos pelos prismas alheios. Enquanto alguém se destrói com baixa autoestima, outra pessoa só quer comer num fast food (na letra, Brock cita a cadeia de restaurantes White Castle) e ir pra casa.
Essa noção de “música excêntrica” é uma boa chave para entender o Modest Mouse: Brock e seus cometas parecem interessados em transformar tudo em um universo próprio – que alude ao pós-punk e ao alt rock noventista, mas com letras sarcásticas, personagens estranhos e vinhetas que dão sensação de “conceito”. A ponto de uma das músicas mais bacanas do disco ter 34 segundos, Stoner party, e de Song about nothing fazer o / a ouvinte vibrar com uma faixa que apenas oferece “uma canção sobre nada”, pra “cantar junto”.
Impossible somedays, no final, é mais um alt-rock anos 1990, com ritmo andarilho, trama bacana de guitarras e tom guitar rock. Já a letra entrega que o Modest Mouse é mais “gente como a gente” do que parece. Afinal, versos como “bem, tudo é impossível se você nem tentar / embora ninguém permaneça o mesmo o tempo todo” e “adivinhe quem dormiu todas as segundas-feiras? / sonhando com dias impossíveis” falam da nossa vida – e aí você volta ao começo de An eraser and a maze e busca entender até os momentos mais desconcertantes do disco.
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Crítica
Ouvimos: Castlebeat – “Castlebeat II”

RESENHA: Dream pop e pós-punk se unem no novo Castlebeat, que transforma riffs melancólicos e batidas eletrônicas em paisagens sonoras contemplativas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Spirit Goth Records
Lançamento: 26 de junho e 2026
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O Castlebeat tem jeitão de banda do selo Shore Dive, que investe em maravilhas novas do dream pop. Na real é um projeto criado pelo músico norte-americano de ascendência coreana Josh Hwang e pertencente ao selo que ele próprio criou, Spirit Goth. Castlebeat II, o sétimo álbum do projeto (o “II” é porque se trata do segundo álbum epônimo), tem muito de New Order nas composições.
Especialmente se a gente levar em conta a fase dos primeiros discos do NO, com clima ainda herdeiro do Joy Division, riff atrás de riff e gravação que hoje soa como lo-fi. Castlebeat II se diferencia disso pelos beats conseguidos em bateria eletrônica, e pelo vapor sonoro que encobre guitarras e vocais, como um som que vem lá de longe.
- Ouvimos: KuleeAngee – Love & affection (EP)
Josh dá um clima meditativo aos riffs e transforma canções como Awake, Stay with me e This takes time em momentos de contemplação, ainda que as batidas sugiram algo mais próximo do pós-punk. As canções são cheias de detalhes – uma dobra de voz, uma mumunha de mixagem, o eco nos riffs de guitarra, o emparedamento de voz e guitarras da balada Plastic bag, tudo contribuindo para uma relação quase mágica entre música e ouvinte.
Castlebeat II caminha para um pós-punk em tom sonhador e agitado em faixas como My love e Table and chair, antes de ganhar uma vibe quase espacial em Soft light e um curioso acento meio Ultravox meio Beatles na bela Sun god. Uma beleza.
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