Connect with us

Crítica

Ouvimos: Samia, “Bloodless”

Published

on

Ouvimos: Samia, “Bloodless”

A poesia de Samia é bastante crua, chegando a lembrar Kurt Cobain, ou algo bem punk, em alguns momentos. Seu terceiro álbum não se chama Bloodless à toa – a chave de compreensão para o álbum é a chamada mutilação do gado com drenagem total de sangue (se você não se recorda, era o que diziam que o lendário Chupacabra fazia em animais como ovelhas, bois e cavalos). Tanto que, após uma vinheta em que se ouvem passos e ruídos indistinguíveis, surge a verdadeira primeira faixa do álbum, Bovine excision, rock noventista com alma folk, que usa a imagem da drenagem sanguínea para falar de sentimentos que se esvaziam.

Essa sensação de vazio perpassa vários momentos de Bloodless, basicamente um disco variando entre os anos 1970 e 1990, entre o soft rock e uma vibe pesada – ou entre o som de quarto e as gravações em estúdios-resort, que estavam na moda lá por 1977, 1978. Hole in a frame é basicamente uma fábula sobre ausência (soft rock com guitarra, violão e bateria abafada, setentista). Lizard é pop adulto dançante e ruidoso que usa imagens mórbidas para falar sobre tesão. Fair game investe em tons agridoces e em folk-rock, e em versos inconclusivos e bem estranhos (“você pode sair numa noite quente e bater palmas / mas você não terá seu sangue de volta”).

  • Apoie a gente e mantenha nosso trabalho (site, podcast e futuros projetos) funcionando diariamente.

Até mesmo numa música bem curta, o bittersweet de quarto Craziest person, de pouco mais de 1 minuto, Samia trata de meter um pouco de ausência e sarcasmo na história – afinal, o papo é sobre alguém que procura sempre estar ao lado da pessoa mais louca da sala, porque prefere ouvir os problemas dela “do que me preocupar com o que devo fazer”. Um conceito que aproxima Bloodless de um pop ligado ao punk, e de um folk ligado à estranheza – como em Carousel, que tem algo de Breeders e Mazzy Star, e ainda termina de forma bem ruidosa.

Mesmo quando parece dançante, como em North poles, Samia dá um jeito de dificultar um pouco as coisas. Mas para facilitar, o folk climático de Proof e o rock gostosinho de Sacred são o tipo de música feita para as rádios de perfil adulto. No geral, Bloodless traz uma música pop bem desbravadora, e que vale conhecer.

Nota: 8,5
Gravadora: Grand Jury Music
Lançamento: 25 de abril de 2025.

Crítica

Ouvimos: Kiko Dinucci – “Medusa”

Published

on

Resenha: Kiko Dinucci – “Medusa”

RESENHA: Em Medusa, Kiko Dinucci cruza samba, noise rock, no wave, bolero e experimentação em um disco de atmosfera cinematográfica, entre fantasmas urbanos, estranhamento e destruição.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 10
Gravadora: RISCO
Lançamento: 9 de setembro de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Existe uma possibilidade bem grande de você ouvir Medusa, disco novo de Kiko Dinucci, e sentir que sua cabeça abriu de repente – é o que rola quando a gente toma contato com alguma obra que mexe totalmente com os sentidos e tira o cérebro e as emoções do estado normal, a ponto de você não saber mais onde começa a razão ou a emoção. A montanha sagrada, filme de Alejandro Jodorovski (1973), tem essa onda: é pra entender, é pra sentir, é pra fazer as duas coisas ou…? Eita, acho que é pra fazer tudo ao mesmo tempo. Socorro!

Se você passou vários dias da sua vida ouvindo Velvet Underground, My Bloody Valentine, Sonic Youth, Nico, Lou Reed, John Cale e Neil Young, vai sacar qual é a de Medusa rapidinho. Se o teu lance é samba, Jards Macalé, Paulinho da Viola, Roberto Carlos, mas existe um lado indie-roqueiro-experimental em você, a mesma coisa. O fato é que, no geral, a mistura de Kiko ainda aponta para outros lados: Medusa é um disco-cinema, em que faixas como Cão perdido lembram um faroeste desértico vivido em plena selva urbana, num clima impressionante-impressionista de arrepiar.

Água viva, por sua vez, é como se ele tivesse feito uma música para Marina Lima, mas tivesse rearranjado a canção como matéria-prima de sustos. Uma espécie de anti-pop que é seguido também pela estética fantasmagórica do samba Casca do olho, pelo bolerinho lynchiano Loira Palmer (com Crystal, do Vera Fischer Era Clubber) e o samba-no-wave Frota, Claudia e eu, que é um abrasileiramento de Madonna, Sean and Me, do Sonic Youth (e é também um samba batido na guitarra, com algo de brega nas células rítmicas).

Aliás, Kiko já pode se jactar de ter criado uma espécie de desert samba: é Segundo eterno, com participação de Juçara Marçal. Uma música tão fantasmagórica e imaginária que precisa do ouvinte para completar as lacunas – como também acontece com a estranhamente infantil Cascuda, algo entre samba, Ramones e até Eurythmics, com Maria Beraldo.

Como foi?, lançada como single, como clipe e como documentário paulistano, já era uma música em super-8 antes de ir parar no YouTube – com direito à referência a Outra vez, de Isolda, imortalizada por Roberto Carlos, e ao encerramento com uma bela tempestade sonora. Já o final, com Fantasmagoria IV (tema da peça de mesmo nome, de Felipe Hirsch), traz Kiko cantando que “eu preciso destruir pra nascer / já não sei pra onde ir / nem você sabe o que faz”.

Fantasmagoria IV soa como hino à beleza do dia a dia que é destruída por mais um prédio, mais uma farmácia (em Niterói), e a toda a história que fica suspensa naquele espaço novo – principalmente, é um raro momento em que Mutantes, Yoko Ono, Tom Zé e Paulinho da Viola parecem ocupar o mesmo espaço na história da música. Todo mundo unido por Kiko e sua Medusa.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: My Wife’s An Angel – “Keep honking I’m about to fucking kill myself”

Published

on

Resenha: My Wife’s An Angel - “Keep honking I'm about to fucking kill myself”

RESENHA: No terceiro álbum, o My Wife’s An Angel mistura noise rock, psicodelia e humor brutal em músicas sobre pobreza, redes sociais, violência, relações de trabalho e o lado mais sombrio do sonho americano.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 10
Gravadora: Knife Hits Records
Lançamento: 24 de abril de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Essa banda da Filadélfia não faz música, faz ódio. Liderada por Garrett VanDeMark, um vocalista tão sarcástico quanto nervoso, o My Wife’s An Angel não chega nem a ser a “melhor resposta ao sonho americano”, porque a onda deles é bem mais destrutiva, sem repostas a dar. Keep honking I’m about to fucking kill myself, o terceiro álbum do grupo, soa como um bizarro stand-up, como o do filme Coringa, estrelado por Joaquin Phoenix, em que as pessoas riem de situações deprimentes – aquele momento em que a risada vira uma punhalada, pelas costas ou não.

A diferença é que o universo de Keep honking é o de alguém que, no palco, compra pipoca para ver o público brigando após o show de horrores. O climão abre com o noise rock psicodélico de Goz chile, e prossegue com a miséria absoluta de Lil bug, barulheira com risadas de uma hipotética plateia, versos desgracentos (“todo mundo vai passar fome o inverno inteiro / porque não tem trabalho e todo o dinheiro sumiu”) e a possibilidade de ter pelo menos um inseto para servir de lanche – já que os víveres acabaram.

Garrett também apresenta ao / à ouvinte uma conversa com o psiquiatra (Karaoke), uma festa em que o narrador é o bêbado chato e começa uma briga (Bowser’s), o hino de um rio vingativo, tocado com ruídos de guitarra e bateria (Imagine a river) e uma canção que mais parece uma homenagem a quem anda em péssimas companhias só para ter amigos (Pause!), mas que depois se revela um clássico do homoerotismo buddy em negação.

Keep honking segue com um cântico de morador de rua, entremeado pela chuva e por um carro de polícia (Help the homeless). Depois chega a uma espécie de hino de ódio às redes sociais cantado por um sujeito viciado nelas (Doom scroll). E finaliza com um American dream aberto por um discurso de Jimmy Carter, prosseguido por informações sobre o massacre na Palestina, e entremeado com palavras de ordem gritadas por Garrett: “você devia processar seu chefe / fumar maconha num carro alugado (YEAH) / mas ainda assim apoiar a polícia / se alistar nos fuzileiros navais (HUH) / depois ir pro clube de striptease”.

Não para por aí: “compre diamantes, coma frango, assista esportes (…) / o Hamas é uma organização terrorista!” Uma mistura do que os fascistas querem que você acredite, com o que realmente fazem quando você não está olhando – e com o que eles fazem debaixo do seu nariz porque sabem que não vai acontecer nada. Esse é o tom de Keep honking.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: Wow, Okay, Cool – “If this is where it got us, what good is it?”

Published

on

Resenha: Wow, Okay, Cool - “If this is where it got us, what good is it?”

RESENHA: Liderado por Tim Fitzpatrick, o Wow, Okay, Cool cruza pós-punk, pós-hardcore, punk e peso sabbathiano em um álbum de ritmos imprevisíveis e letras contra capitalismo e padrões da indústria musical. O disco novo se chama If this is where it got us, what good is it?

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Ben’s Hens Records
Lançamento: 4 de setembro de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Criado por um vocalista e tecladista chamado Tim Fitzpatrick, o Wow, Okay, Cool se sente mais à vontade com a denominação “pós-punk” – os riffs fincados e a estileira fria das bandas do gênero têm bastante a ver com o som deles, de verdade.

Na prática, o som do álbum If this is where it got us, what good is it? tem muito do punk quase puro, e mais ainda dos ritmos próprios do pós-hardcore, que vão dando uma cara imprevisível a faixas como Milquetoast libs (and the fascists who love them), Haruspex e Indie sleaze industrial complex, com seus ritmos sendo criados aos poucos, e sua martelação nas guitarras e até nos vocais. Nas letras, o sistema, o capitalismo e os padrões da música sendo tratados aos pontapés e empurrados pra bem longe (e vale dizer que o novo álbum, pelo menos até o momento, não está no Spotify.

O grupo também mostra uma vibe bem sabbathiana em músicas como Arrogant abcess, apesar das coronhadas punk no som, e parte do aro de caixa reloginho para o hardcore levanta-pistas em músicas como Notes on the vise e Fuck, that’s bleak. Completando com o punk brigão de A note to my enemies e If this boy’s still breathing, e com o afro-pós-punk de Long dead kin.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Acompanhe pos RSS

Aquele Jon transforma medos e inseguranças da vida urbana em “Jogo do bicho”
Urgente3 horas ago

Aquele Jon transforma medos e inseguranças da vida urbana em “Jogo do bicho”

Urgente5 horas ago

Cvrrículos Em Branco: som gótico e bem profundo, do interior de SP

Resenha: Kiko Dinucci – “Medusa”
Crítica6 horas ago

Ouvimos: Kiko Dinucci – “Medusa”

Resenha: My Wife’s An Angel - “Keep honking I'm about to fucking kill myself”
Crítica6 horas ago

Ouvimos: My Wife’s An Angel – “Keep honking I’m about to fucking kill myself”

Resenha: Wow, Okay, Cool - “If this is where it got us, what good is it?”
Crítica6 horas ago

Ouvimos: Wow, Okay, Cool – “If this is where it got us, what good is it?”

Resenha: 3 Mil Ekos - "3 Mil Ekos" (EP)
Crítica6 horas ago

Ouvimos: 3 Mil Ekos – “3 Mil Ekos” (EP)

Resenha: Limbo7 – “Relíquias do ódio”
Crítica17 horas ago

Ouvimos: Limbo7 – “Relíquias do ódio”

Christine Valença - Foto: Lucas Campbell Barbato / Divulgação
Urgente24 horas ago

Christine Valença questiona a exposição excessiva em “Holofotes”

Grisa e Vinícius Gouveia - Foto: Stephany Stramb / Divulgação
Urgente24 horas ago

Vinícius Gouveia e Grisa cruzam indie e dream pop em “Anjos de papel”

Roger Waters chama Ed Sheeran de "babaca" e mete um "Ed Who?" num vídeo
Urgente1 dia ago

Roger Waters chama Ed Sheeran de “babaca” e mete um “Ed Who?” num vídeo

Peter Hook - Foto: Adam Kennedy / Divulgação
Urgente1 dia ago

Peter Hook toca Joy Division com o The Light em São Paulo em 2027

Resenha: Jubba & Samyr – “Até que foi bom, sabe?”
Crítica1 dia ago

Ouvimos: Jubba & Samyr – “Até que foi bom, sabe?”

Resenha: Septik – “World of turmoil” (EP)
Crítica1 dia ago

Ouvimos: Septik – “World of turmoil” (EP)

Resenha: Elli Ott- “The how to sing tape”
Crítica1 dia ago

Ouvimos: Elli Ott- “The how to sing tape”

Rafael Panke (Afterhourless) - Foto: Divulgação
Urgente1 dia ago

Afterhourless transforma guerra nuclear em shoegaze romântico em “Magnetic”

Radar: Dani Vallejo, Jambu, A Olívia, Dimas e mais novos sons nacionais
Urgente1 dia ago

Mr. Trip Fest reúne rock autoral carioca com Dani Vallejo, Mauren McGee, Ladrão e Massive Fire

Surfe cruza MPB e psicodelia no single duplo "Saudades tropicais - Volume 1"
Urgente2 dias ago

Surfe cruza MPB e psicodelia no single duplo “Saudades tropicais – Volume 1”

Johnny Mafia (Foto: Maxime e Valentin Tanchaud / Divulgação)
Urgente2 dias ago

Johnny Mafia: clichês do rock pesado e clima inusitado em “Colorful”