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Crítica

Ouvimos: Pete Yorn, “The hard way”

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Ouvimos: Pete Yorn, “The hard way”
  • The hard way é o décimo-segundo (incluindo os discos com a atriz Scarlett Johansson) álbum de estúdio do cantor e compositor Pete Yorn. O material, mais acústico que o habitual, foi composto ao lado de um amigo que andava sumido havia anos Josh Goodwin, e que mandou uma mensagem dizendo que estava tocando violão e tinha algumas ideias. A dupla passou um tempo trocando letras e músicas pela internet.
  • “Acabamos nos reunindo e trabalhando mais um pouco e desenvolvendo um pouco mais e a partir disso meio que começou essa colaboração de co-escrita, relacionamento criativo. Foi realmente ótimo e realmente orgânico”, contou aqui.
  • Acostumado a usar o estúdio como uma ferramenta de composição, Pete dessa vez procurou fazer músicas que se sustentam no violão e na voz. “Uma vez que começamos a gravá-las, e faríamos uma de cada vez, percebemos que o paladar do disco era mais um disco suave e acústico com instrumentações orgânicas e cordas e esse tipo de floreio”, disse.

O que mais tem por aí é cantor e compositor precisando aprender com a inspiração e a objetividade de Pete Yorn – um daqueles cantautores que soam quase como um Paul Simon dos anos 2000, pela capacidade de contar histórias e sintetizar sentimentos.

Bom, não que o som dele tenha algo a ver com o de Simon. Mesmo com seus momentos de tranquilidade, a música de Pete sempre esteve mais para um power pop meio próximo de bandas como Lemonheads, Weezer e Sloan (esta, uma de suas grandes inspirações). Ou até de algo análogo a um Dinosaur Jr mais arrumadinho, já que seu registro vocal volta e meia lembra o de J Mascis, cantor do veterano grupo indie.

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Foi com essa sonoridade que Yorn atravessou quase uma década contratado da Columbia, além de um período na Capitol (sem falar nos dois discos gravados ao lado da atriz Scarlett Johansson, Break up, de 2009, e Apart, de 2018). De volta ao universo indie já há alguns anos, Pete vem trilhando seu som num corredor mais próximo do pós-punk – fez isso em diversos momentos de discos como Caretakers, de 2019, e Hawaii, de 2022. Agora, o novo The hard way surge na história de Yorn como uma contrapartida folk-country do seu trabalho – e mais próxima, veja só, do já citado Paul Simon. O disco, bem curto e direto (25 minutos, oito faixas) é baseado em violões, baterias delicadas, orquestrações, e melodias sinuosas e introvertidas.

Quem só escutar esse disco de Yorn sem conhecer os antigos vai ficar com uma impressão bem diferente de sua música: músicas como It’s alright, com rearranjos aqui e ali, poderia ter ido parar no repertório de Willie Nelson, enquanto a faixa título explora o mesmo filão folk-com-toques-de-soul que Paul Simon e seu amigo Art Garfunkel exploraram a vida inteira. A desolação da capa ganha a trilha sonora perfeita em faixas contemplativas como Golden dream, Someday, someday e Different roads. Uma exceção às guitarras que sempre marcaram suas músicas.

Nota: 8,5
Gravadora: Shelly

Crítica

Ouvimos: Automatic – “Is it now?”

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Automatic mistura synthpop gelado e pós-punk dançante em Is it now?: muitas referências, mas identidade própria e letras de recusa ao padrão.

RESENHA: Automatic mistura synthpop gelado e pós-punk dançante em Is it now?: muitas referências, mas identidade própria e letras de recusa ao padrão.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Stones Throw Records
Lançamento: 26 de setembro de 2025

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Formado pelo trio Izzy Glaudini, Halle Saxon e Lola Dompé, o Automatic faz música como se criasse seu próprio som – ou como se usasse referências apenas na base do “eu achei legal, mas mudaria tudo”. Ouvindo Is it now?, é meio claro que bandas como Slits, Japan e Suicide foram ouvidas pelas três em algum momento (nesse papo na comunidade do reddit Indie Heads, Gary Numan foi igualmente citado), mas a colagem foi realizada de um jeito tão particular que dá para imaginar que se usassem IA, iam enlouquecer o sistema.

Vai daí que o synthpop estilingado e pontiagudo delas envolve pós-punk dançante e sustentado pelo baixo (Black box, Lazy, o beat eletrônico rudimental de Don’t wanna dance, o voo controlado de The prize), sons que lembram Ultravox, Talking Heads e o começo sombrio do Human League (PlayBoi, Smog summer, o eletropop alemão de Country song), coisas entre o pós-punk e a psicodelia (a flautinha de mq9, a vibe quase dub de Mercury). O teclado entra para dar uma onda “gelada” em meio ao clima bem pé-no-chão do baixo e da bateria, como se cumprisse a cota de climas mais viajantes no som. De bandas mais novas, dá para perceber algo linkado a Bravery e Arctic Monkeys na faixa-título, marcada também por vocais maquinados e onda meio krautrock.

Na letra de Is it now?, a faixa-título, dá para sentir que o Automatic propõe antes de tudo um manifesto estético – da mesma forma que Re-make / Re-model, do Roxy Music, propunha mudar tudo e enxergar beleza onde o movimento hippie poderia ver caretice ou sujeira. “Corte o cabelo com tesoura de cozinha / novo visual, uma imagem diferente / de segunda mão, não de televisão / shoppings, eles te tornam cruel”, avisam elas. Don’t wanna dance mostra que elas, de fato, não querem se parecer com todo mundo: “as luzes estão me cegando / eu não quero dançar, estou me escondendo / cada momento aqui me lembra que / eu não quero dançar”. Um “não é não” musical, de fino trato e em alto volume.

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Ouvimos: Carlos Dafé, Adrian Younge – “Carlos Dafé JID025”

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Adrian Younge e Carlos Dafé unem soul e samba em JID025, disco setentista, orquestral e psicodélico que reencontra passado e presente.

RESENHA: Carlos Dafé e Adrian Younge unem soul e samba em JID025, disco setentista, orquestral e psicodélico que reencontra passado e presente.

Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Jazz Is Dead
Lançamento: 17 de outubro de 2025

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Enxergando o soul e o balanço brasileiros como um precioso álbum de figurinhas, o norte-americano Adrian Younge vem fazendo uma série de lances especiais: vem por aí um álbum gravado ao lado de Antonio Carlos & Jocafi, e já saíram discos feitos com Hyldon e Dom Salvador, além de um solo cheio de convidados. E tem também JID025, gravado ao lado de Carlos Dafé, uma das melhores vozes da história da MPB, e um dos compositores mais hábeis no oscilar entre soul e samba.

JID025 parece um disco que Dafé adoraria ter lançado nos anos 1970: Amor enfeitiçado, logo na abertura, tem psicodelia nos acordes de guitarra, mudanças de tom e clima de abertura antiga de novela. E um pouco de paz, com recordações do som de Cassiano, lembra tema de filme policial. Bloco da harmonia tem metais e cordas vibrando junto com a percussão, além de lembranças do lado sambista de Dafé, compositor já gravado por Alcione e Nana Caymmi – embora a canção ganhe clima sombrio no fim. Jazz está morto une jazz, soul e grandiloquência herdada de Isaac Hayes e do Marvin Gave do disco What’s going on (1971). Cítara e harpa marcam o início de Verdadeiro sentimento, balada como as dos discos setentistas de Dafé.

Do começo ao fim, JID025 soa como um flashback turbinado e ácido, que também aponta para o Funkadelic em O baile funk vai rolar, e ganha ar voador em É real… é verdade, no samba orquestral Esse som é verdadeiro e na declamada Como entender o amor. Um reencontro entre passado e presente.

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Ouvimos: Period Bomb – “Cuntageous”

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Period Bomb, de Camila Alvarez, retoma o riot grrrl com inclusão e barulho experimental. O EP Cuntageous mistura egg punk e críticas diretas ao machismo.

RESENHA: Period Bomb, de Camila Alvarez, retoma o riot grrrl com inclusão e barulho experimental. O EP Cuntageous mistura egg punk e críticas diretas ao machismo.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Crass Lips Records
Lançamento: 2 de dezembro de 2025

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No Brasil ainda não tem muita gente comentando a respeito do Period Bomb – uma pena. Esse projeto estadunidense criado pela musicista Camila Alvarez reavivou o cenário riot grrrl em Los Angeles nos últimos 15 anos, e já lançou discos como Permanently wet (2020) e o EP 24-carat clit (literalmente, “clitóris de 24 quilates”, que saiu em janeiro do ano passado). Um dos trabalhos dela foi ajudar a incluir mulheres trans e mulheres negras que se sentiram excluídas das ondas riot grrl anteriores – como a própria Camila conta nessa entrevista.

  • Ouvimos: Ratboys – Singin’ to an empty chair

Cuntageous, o EP mais recente do Period Bomb, não economiza em duas coisas: sons experimentais e dedo na cara de homens babacas. Em alguns momentos lembra Yoko Ono, em outros parece um som ligado também à onda egg punk, de teclados distorcidos e sujos. Cunty boy (“garoto cuzão”) tem vocais afinados, mas prontos para zoar e meter o malho – lado a lado com programação eletrônica e teclados. Parking ticket junta teclados maníacos e voz com vibe fantasmagórica de brincadeira. Birth of labubu zoa uma das manias de 2025 em clima sonoro que mistura Devo, Yoko Ono e Young Marble Giants.

O Period Bomb faz também samba latino experimental em espanhol, Porriquitico, lembrando Mutantes – e lembrando também o quanto o “não é não” é difícil no dia a dia. No final, os 40 segundos da vinheta-título, fazendo questão de explicar que a babaquice masculina é bastante contagiosa. E é.

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