Crítica
Ouvimos: Liquid Mike – “Hell is an airport”

RESENHA: Hell is an airport, do Liquid Mike, mistura emo, power pop e punk-pop em faixas curtas e urgentes — boas ideias que às vezes acabam rápido demais.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 7
Gravadora: AWAL
Lançamento: 12 de setembro de 2025
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Hell is an airport, sexto álbum do Liquid Mike, é um disco curto – as duas primeiras nem têm dois minutos e surgem emendadas, caindo logo na terceira faixa. Essa noção de continuidade marca o comecinho do álbum, que surge repleto de hinos emo, canções próximas do power pop, e alguns temas mais sombrios – como AT&T, que tem uma onda hip hop (rola até um scratch) e lembra um Red Hot Chili Peppers depressivo. Selling swords tem a mesma pegada emo, mas é uma balada folk com violões e percussões.
- Ouvimos: Charm School – Schadenfreude ploy (EP)
Esse clima punk-pop, de guitarras pesadas, letras emocionadas e clima acessível, é o melhor de Hell is an airport, passando também pelas emanações de Weezer e Teenage Fanclub de Meteor hammer, pela mordacidade de Groucho Marx (de versos como “você realmente não quer saber o que pergunta no espelho / você vai se encolher e morrer? / ok, eu também” e “nunca acaba bem / mas ninguém prometeu que acabaria”) e pelas heranças de bandas como Goo Goo Dolls e Soul Asylum em músicas como Claws e Double dutch.
Problema: o Liquid Mike funciona quase sempre na base do “vai ser bom, não foi?”, com músicas que acabam rápido demais – Grand am, power pop bacana, acaba sendo interrompida (cortada!) bem rapidamente. Essa urgência excessiva tira um pouco a graça da audição e dá um certo ar de mixtape a Hell is an airport, como se o espírito dos EPs que a banda lançou ainda estivesse um pouco lá. De certa forma está.
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Crítica
Ouvimos: Pale Blue Eyes – “PBE archive vol.1”.

RESENHA: Coletânea do Pale Blue Eyes reúne raridades (2018–25) e mistura pós-punk, dream pop e krautrock em clima hipnótico, com ecos de Velvet e C86.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Broadcast Recordings
Lançamento: 23 de janeiro de 2026
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O som dessa banda britânica de Devon, obviamente, tem muito de Lou Reed e Velvet Underground – Pale blue eyes é uma música do terceiro disco do Velvet (epônimo, 1968), que já foi gravada até por Marisa Monte. E realmente, tem momentos em que o casal Matt e Lucy Board, e a baixista Aubrey Simpson, parecem realmente querer emular o som dessa música, uma das canções mais delicadas do Velvet.
Isso rola só em algumas ocasiões, porque no geral, o PBE é um grupo de pós-punk maquínico, que usa guitarras para produzir sons hipnóticos e cujos teclados seguem uma linha do tempo que vem lá do krautrock. Daria para definir o som deles como dream pop, ou como um primo menos contemplativo e menos quieto do mesmo estilo, ou até como shoegaze. Muito embora eles prefiram usar a nomenclatura cream pop, brincadeira com a ideia de um som aveludado e mágico, próximo tanto de Cocteau Twins e New Order quanto de bandas mais recentes, como Beach House.
Bandas como Cigarettes After Sex e The Chromatics têm, digamos, esse mesmo DNA do Pale Blue Eyes – e uma boa parte do “código” do grupo está em PBE archive vol.1, que já é o quarto lançamento do trio, e a primeira coletânea. São gravações de arquivo feitas entre 2018 e 2025: sobras de estúdio, versões alternativas e material inédito da banda, tudo servindo como um complemento dos álbuns, e como uma visão do trabalho de “garagem” dos três.
- Ouvimos: Friko – Something worth waiting for
Direto do arquivo da banda, surge muita coisa herdada de Joy Division e de bandas alemãs como Neu! e o próprio Kraftwerk. É uma onda que toma conta praticamente de todas as 18 faixas do álbum, como The park, New boots, Football stadium, Believe it all, músicas que soam como uma psicodelia light, que surge aos poucos dos climas sonhadores. Se mexer um pouco em faixas como Daisy, This house e How long is now, o som entra direto no corredor do jangle pop, e da turma da fitinha C86, do New Musical Express – aliás, o PBE é daquelas bandas que você pode até tocar pros amigos, fingir que é um som feito em 1986 e ver uma turma enorme cair na mentira.
O PBE consegue um equilíbrio impensável entre emanações de The Cure, Primal Scream e até Pink Floyd em Signify. Vai também para os lados do folk fantasmagórico em Not the end of the world, além de se parecer com um Buzzcocks tristonho e com um Dinosaur Jr tecladeiro em, respectivamente, Records e Loops. Lou Reed, por sua vez, parece surgir em This design, música mais selvagem do disco (evidentemente “selvagem” para os padrões do PBE), com vibe glam e clima rocker. Don’t hurry time é um dos sons mais tipicamente shoegaze do álbum.
Archives é uma viagem de 63 minutos pelas sessões da banda – e um disco que, vá lá, requer bastante envolvimento com o grupo, mesmo quando a coisa fica meio cansativa. Mas é um complemento importante não apenas para fãs, como também para quem curte processos de criação de forma geral.
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Crítica
Ouvimos: Julia Cumming – “Julia”

RESENHA: Julia Cumming, baixista e cantora do Sunflower Bean, estreia solo com Julia: soft rock retrô à la anos 70/80, letras íntimas e som que atualiza o estilo sem virar imitação.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Partisan
Lançamento: 24 de abril de 2026
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Dá pra entrar até em ritmo de “eu já sabia” agora: Julia Cumming, cantora e baixista do Sunflower Bean, estreia solo com o disco íntimo e pessoal Julia. Pessoalmente, acredito que a questão nem seria se ela ia gravar solo, mas quando ela faria isso. Até porque o Sunflower Bean ainda soava meio vacilante diante do mercado. Parecia que o trio não queria compor outra pérola a la Fleetwood Mac como I was a fool (que atualmente nem é a mais ouvida da banda no ispotifai) e ficava explorando estilo atrás de estilo – tendo chegado em seu momento mais bacana e equilibrado no sombrio e glam-rocker Mortal primetime, lançado em 2025.
Acabou que Julia (um disco cujo título alude tanto a uma escrita íntima, quanto à necessidade de reintrodução no mercado) soa como um posto avançado de Twentytwo in blue, disco de 2018 do Sunflower – e por acaso, o disco de I was a fool. Julia abraça o soft rock, a união de sons dos anos 1970 1980, e soa como uma versão quase alt-pop de Carole King, Laura Nyro e Linda Ronstadt. Sons devidamente inspirados em discos como Tapestry, de Carole (1971) e Heart like a wheel, de Linda (1974), além da onda baladeira e pianística de Laura, surgem um atrás do outro em Julia.
É preciso só explicar (até por causa dos nomes citados) que Julia Cumming é uma ótima cantora e compositora – não é uma ratazana de estúdio criada nos anos 1970, nem uma super backing vocal ou top seller que pulou pra frente do palco. A voz dela é a de uma cantora de 2026 cujo disco de estreia, em faixas como My life, Hollywood communication, Please let me remember this e Sounds of a secret (esta, uma balada andarilha no estilo dos Carpenters), revisita uma época, um estilo e uma perspectiva de canção pop, influenciada pelo folk, pelo country e pelo soul. Aquela onda que passou a ser chamada de soft rock, enfim. O disco tem baladões legais (Emotional labor), soft rock com infusão de pop sintetizado oitentista (Ruled by fear), pop gostosinho com discreto ar new-bossa (I dream of a fire that stays burning when nobody tends it), baladinha de violão lembrando Rita Coolidge (Fucking closure) – por aí.
Aliás, tem uma onda “pop adulto” no disco, surgida em faixas como Revel in the knowledge, que (fica a dica) remete logo à banda canadense Tops – um daqueles grupos que, quem ouve, se pergunta logo porque é que mais gente não está ouvindo o som deles. Tem algo disso também no soft rock falso Do it all again – cortado depois por um segmento mais texturizado e ruidoso. Ao contrário de qualquer disco que tenta revisitar uma época, Julia não tenta gabaritar o manual do disco pop setentista, nem soa como imitação barata. Muita coisa aqui soa como 2026 olhando pra 1973, mesmo.
Nas letras, vale dizer, Julia canta sobre temas pessoais e confessionais, às vezes soando como se tudo partisse de uma personagem (como em Hollywood communication e Please let me remember this). Ruled by fear, uma das letras mais diretas do álbum, é um lado no qual Julia deveria investir em discos posteriores (“minha mãe me disse uma vez / quem não usa seus dons, perde / por que fico esperando que as pessoas abusem deles? / será que confio mais no julgamento delas do que no meu?”).
Em Emotional labor, ela faz uma espécie de versão ranço de baladas de amor perdido, como Nem um toque (aquela da Rosana, lembra?), em que avisa à outra pessoa que “eu não serei a primeira a pedir desculpas / você tem a mesma oportunidade que eu”. Já na balada 60’s Forget the rest, a ironia toma conta: Julia conversa com uma pessoa cuja lista de mancadas voluntárias e involuntárias chega a dar pena, mas garante que “esqueça o resto / eu te amo”. Eita.
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Crítica
Ouvimos: Raw Distractions – “奇しく燃える”

RESENHA: Em 奇しく燃える, Raw Distractions mistura punk pesado e veloz com clima de guerrilha urbana, riffs afiados e ecos de Exploited, GBH e Buzzcocks. Energia pura e combativa.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: La Vida Es Un Mus
Lançamento: 24 de abril de 2026
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Fui pesquisar na internet o significado desse 奇しく燃える que dá nome à estreia do grupo punk japonês Raw Distractions – o ChatGPT bebeu meu estoque de água mineral inteiro e disse que se trata da expressão japonesa kushiku moeru, algo como “ardendo de forma inesperada”. No geral, o som de Tama (vocais), Kenta (guitarra), Aoi (baixo) e Raman (bateria) é tão ágil e pesado, que você vai acabar nem esquentando a cabeça com as letras – quase todas em inglês e sempre berradas em alto e bom som, na estileira de Wattie Butchan, cantor da veterana banda punk britânica Exploited.
- Ouvimos: Chalk – Crystalpunk
No geral, Raw Distractions faz som de guerrilha urbana, de bombas sendo atiradas e gente enfrentando poderosos à unha. Músicas como Raw fight, Bomb attack, Wake up e Police vão bem nessa onda, com baixo à frente, guitarras ágeis e beat rápido, sempre de olho nos legados de bandas como Exploited, GBH (em especial) e Discharge. Kenta é um ótimo guitarrista – não se prende ao be-a-bá punk e faz ótimos solos, além de bases ágeis. Músicas como Pressure to conform têm agilidade do skate-punk, enquanto 雑踏 (uma das faixas em japonês do álbum) ganham um ar mais melódico que faz lembrar o Buzzcocks.
Lá pelas tantas, dá pra lembrar até de Inocentes na ágil Divided e na porradeira 立脚 – que ganha umas guitarras esparsas, numa onda meio The Edge. Midnight, uma das melhores do álbum, tem um tom diferente: punk oitentista com vocal grave ao fundo, lembrando tanto Joy Division quanto Agent Orange. Um disco que provoca várias combustões – todas mais do que bem planejadas.
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