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Crítica

Ouvimos: Georgia, “Euphoric”

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Ouvimos: Georgia, "Euphoric"
  • A produtora, cantora e musicista britânica Georgia Barnes é filha de Neil Barnes, cofundador do grupo de música eletrônica Leftfield. Já foi jogadora de futebol, baterista (tocou com a cantora e artista de spoken word Kae Tempest) e Euphoric é seu terceiro disco.
  • Euphoric foi produzido por Rostam Batmanglij, fundador do Vampire Weekend e produtor de Haim e Clairo – é a primeira vez que Georgia não se envolve com a produção de um disco seu. Segundo ela, as letras confessionais do disco são uma rendição “aos meus problemas, ao meu passado, às minhas falhas e ao processo de cura”.
  • Mesmo com o trabalho ao lado de Rostam, Georgia aproveitou bastante o fato de ainda pertencer a um selo indie, e diz ter feito tudo com liberdade, até mesmo quando ia para Los Angeles encontrar o produtor. “Não estávamos confinados a tendências, tendências do TikTok, tudo isso… E não havia gravadoras dizendo: ‘Deveria soar assim, deveria soar assado’. Então dependia de mim e de Rostam”, contou ao New Musical Express.

O terceiro disco de Georgia existe porque Madonna encarou uma fase repleta de influências da nova música eletrônica nos anos 1990, trabalhando com produtores de grife (na época) e fazendo experimentações de estúdio. Euphoric parece uma rendição a discos como Ray of light, de Madonna, em composição e arranjos. Da cantora de Oh father, Georgia parece ter herdado a disposição para letras que quase fazem um “diário” de sua vida (ou de algum personagem) e para vocais que soam confessionais na maior parte do tempo.

Parece que a meta a ser seguida foi soar tão “alto astral” e variada quanto essa fase da rainha do pop, em várias faixas do disco, como Keep on (dance music relaxante, apresentando uma curiosa combinação de percussão, piano, coral gospel e solinhos básicos de mellotron e cítara), Give it up for love e All night. Ou na bacana Live like we’re dancing (part II), canção melancólica e (talvez, caso seja testada) boa de pista. Mas no repertório de Euphoric tem ainda um tecnopop renovado, The dream, e uma música dançante e tristinha, com programações eletrônicas ferozes (tanto quanto possível) mas discretas (idem): Friends will never let you go. É tudo “pop altenativo” (na definição boa do New Musical Express), mas nem tanto.

Euphoric pode ganhar o ouvinte pela variedade e pela existência de climas diferentes, às vezes, numa mesma faixa – vai do mais dançante ao mais (muito entre aspas) “psicodélico” em poucos segundos. Era algo que já acontecia nos discos anteriores de Georgia, bem mais rascunhados e com total cara de música feita no quarto – e vale dizer que, para quem gostou de Seeking thrills (2020), o disco novo deu mais profissionalismo pop mas não parece ter cortado a onda dela como criadora e produtora. E isso é bem legal.

Gravadora: Domino
Nota: 7,5

Foto: Reprodução da capa do álbum

Crítica

Ouvimos: Big|Brave – “In grief or in hope”

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Resenha: Big|Brave - “In grief or in hope”

RESENHA: Big|Brave troca o drone puro por canções sombrias, ruidosas e experimentais em In grief or in hope, disco de guitarra, baixo e voz, sem bateria (!).

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Thrill Jockey Records
Lançamento: 12 de junho de 2026

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No ano passado, o Big|Brave fez um disco, OST, que era drone purinho. In grief or in hope, o novo álbum, não chega a ser apenas drone e até dá pra dizer que tem um “formato canção” aqui. Mas é um formato misterioso, sombrio e que passa longe do design comum do rock, ou do pop. Pra começar, Matthieu Ball (guitarra e Robin Wattie (voz e guitarra) dispensaram a bateria em In grief or in hope. Todas as longas oito faixas do disco são tocadas por eles ao lado de Liam Andrews, baixista de turnê.

Por mais que o disco novo possa ate ganhar a denominação noise-rock, o experimentalismo do Big|Brave no disco novo tá mais próximo de Glenn Branca, do Lou Reed de Metal machine music (1975), dos ruídos do Velvet Underground, Nico e John Cale. Mas se você usar bastante a imaginação, dá até para enxergar psicodelia nos quase oito minutos de What may be the kindest way to leave, que abre o disco. Só não dá pra fazer isso nas sombras sonoras da fúnebre A way to shame, que lembra um Sunn O))) folk, e na qual Robin faz vocais raivosos na onda de PJ Harvey – o clima é de masmorra, de gente isolada de qualquer contato com o mundo exterior.

Muito menos você vai conseguir viajar muito no som de The ineptitude for mutual discerniment, essa sim drone quase puro – mas constantemente interrompido por glitches. Holding tongue volta ao clima funéreo (com guitarras fazendo poucos acordes e alguns ruídos ambientes) e Verdure traz interferência e feedback usados como instrumentos e beats, enquanto Robin solta a voz – antes que a música se torne um inferno de ruídos, rodando como numa betoneira.

Tem mais: comparada ao que já surgiu em In grief or in hope, Skin ripper é quase sabbathiana, quase metálica. Mas tem uma beleza próxima do post rock, que toma conta também da ruidosa e surpreendentemente melódica An uttering of antipathy. Chegando ao fim, efeitos de phaser transformam a faixa-título na experiência mais uterina e mais lisérgica de In grief or in hope.

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Crítica

Ouvimos: Snail Mail – “Ricochet”

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Resenha: Snail Mail – “Ricochet”

RESENHA: Snail Mail encara mudanças, perdas e resistência em Ricochet, disco que mistura folk, dream pop e soft rock com força e vulnerabilidade.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Matador
Lançamento: 27 de março de 2026

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“A gente faz planos e deus ri deles”, diz um velho ditado que, analisando bem, está por trás de quase tudo que a gente conhece em ficção, novela, biografia, quadrinhos – afinal, o que não falta são “planos infalíveis” que vão pro cacete quando a onda da realidade bate e algo acontece. O ditado surgiu disfarçado até em uma das faixas de No country for old men, o disco que reúne Chuck D (Public Enemy) e John Densmore (Doors).

Ninguém deve deixar de planejar nada por conta de algum movimento indesejado do universo (enfim, o que os religiosos chamam de “deus”), mas as “coisas” que vão rolando enquanto a gente faz planos são verdadeiros testes de paciência, de resistência, e em alguns casos são testes de aceitação. Vai daí que Ricochet, o terceiro disco de Lindsey Jordan (a popular Snail Mail), é basicamente uma seleção de crônicas musicais em que a personagem – a própria Lindsey – tem que lidar com sua capacidade de resistir, mudar, aceitar, desistir e persistir. Tudo ao mesmo tempo.

Alguns chamariam isso de amadurecimento. Faz sentido – e olha que Lindsey só tem 27 anos, mas nessa idade muita gente já tinha feito toda sua obra e já estava partindo para outro projetos, ou estava se sentindo decadente. Ricochet, um disco que une folk, soft rock, dream pop e estilos afins, usa as armaduras de estilos como punk, grunge e power pop para contar historinhas bem sensíveis e pontiagudas.

O sofrimento vivido bate ponto na esperançosa Tractor beam (“estrelinha, seu brilho está se apagando / acho que estávamos condenadas desde o início / lá fora, o mundo continuava girando / milhas além do que podíamos ver”), em Cruise (“quero desperdiçar minha vida inteira / doente de uma raiva que não consigo conter”), no soft rock sujinho Agony freak (“não consigo me lembrar de quem eu era antes / tenho tentado deixá-lo, mas não consigo / então, gire ao meu redor, Monstro da Agonia”).

Musicalmente, Ricochet parte de uma receita de composição tranquila e contemplativa, mas deixa entrar ruídos, sujeiras, distorções e algo meio lo-fi: é o som da bela Dead end, do ágil soft rock Butterfly, do dream pop Hell, da quase beatle Reverie, do folk velvetiano Light on our feet. O site When The Horn Blows viu no novo som de Snail Mail uma referência que parece ser uma chave-mestra do dream pop atual: a banda britânica The Sundays e seu maravilhoso álbum Reading, writing and arithmetic (1990), citado de levíssimo até na capa de Ricochet.

Não tem só dor em Ricochet – aliás talvez nem tenha dor de verdade. Lindsey parece mais alguém que fala da tempestade, sem estar dentro dela, mesmo quando o tema são os abusos de substâncias pelos quais ela passou. A faixa-título soa bastante otimista, ainda que com reservas e com bastante ironia, em versos como “se não houver nada depois / podemos fazer o que quisermos” e “você não pode parar agora / meu pequeno clichê / até você se vender / por toda Los Angeles”. O mesmo rola em Tractor beam, e várias outras, ainda que o clima oscile. Ricochet é um disco bem forte – aliás, cheio de força, mesmo nos momentos mais vulneráveis.

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Ouvimos: Absorbance – “No profit”

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Resenha: Absorbance – “No profit”

RESENHA: Math rock, psicodelia, pós-punk e experimentação se cruzam em No profit, estreia do Absorbance, projeto romano de som inventivo e desafiador.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 7 de maio de 2026

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Vindo de Roma, o Absorbance é criação de um músico que se diz influenciado por King Crimson, Frank Zappa, Tera Melos, Tuxedomoon, Black Midi – e provavelmente por todo tipo de som que serve para transformar música em algo mais desafiador. No profit, primeiro álbum do projeto, foi feito sob a égide de estilos como math rock e psicodelia, mas dá para achar coisas que Brian Eno produziria em faixas como o boogie endiabrado de Salida e Completion (que unem math rock e David Bowie), a vinheta “celestial” e vertiginosa Foregone pensive time, ou o rap eletrônico e sujinho Club de ensueño.

Faixas como Fracturehead!, o reggae do demo Morphing line e o samba sombrio Tractate soam como o Ween, só que produzido e dirigido por Frank Zappa, enquanto Straight line, Powerhouse e Don’t mind vão para o lado mais maldito do pós-punk, com climas “cerebrais”, riffs repetidos e pilha herdada do krautrock. Essa é a faceta mais interessante do Absorbance, e parece vinda diretamente de discos antigos do Public Image Ltd, combinando grandiosidade, maximalismo e ritmos desafiadores.

Tem um lado meio math-progressivo em músicas como a sombria Increase e o instrumental Dividing polynomials – que conseguem lembrar até coisas mais recentes do Wire. O resulltado de tudo isso aí somado ficou bacana e bem diferente do que normalmente tem ganhado titulos como “microtonal” e “math rock”. O final de No profit, com os quase sete minutos de Friends for the greatest hit, são quase um resumo do álbum.

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