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Ouvimos: Be Your Own Pet, “Mommy”

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Ouvimos: Be Your Own Pet, "Mommy"
  • O Be Your Own Pet é formado por Jemina Pearl (voz), Nathan Vasquez (baixo), Jonas Stein (guitarra), John Eatherly (bateria). Mommy é o terceiro álbum da banda. E é o primeiro disco após o retorno do grupo, em 2021.
  • A banda, que vem de Nashville, começou em 2004. Gravaram dois álbuns pelo selo Ecstatic Peace!, de Thurston Moore (ex-Sonic Youth), com distribuição da Universal. O sucesso veio, e com ele, as pressões: a banda encerrou atividades em 2008 reclamando da misoginia do mercado, e do esgotamento dos integrantes.
  • O grupo retornou ano passado a pedido de Jack White, para abrir shows da turnê dele, e acabou contratado por seu selo, Third Man Records. O grupo reabriu os trabalhos com sua primeira inédita em 15 anos, Hand grenade.
  • Sobre Hand grenade: “A música começou como uma ameaça às pessoas que me machucaram, de que farei com que sofram como eu sofri. E cresceu como um espelho do meu próprio processo de luto, através da raiva, da negação, da tristeza. No final, recupero o meu poder não através da violência, mas através da auto-aceitação e rejeição dos rótulos que outros possam colocar em mim. Eu me defino, mais ninguém”, diz Jemina.

O som do Be Your Own Pet é simples e bem feito, e bem-vindo: num universo em que até artistas sem substância alguma gabam-se de fazer discos “grandes” e divididos em blocos, o quarteto de Nashville se propõe a fazer garage-punk ruidoso, em 35 minutos, com canções diretas. Soam em alguns momentos como a “new wave da new wave” que o rock precisava desde o primeiro disco do Elastica (Erotomania, Bad moon rising), em outros como som de festas sem hora para acabar (Worship the whip, Goodtime!, Big trouble, Pleasure seeker).

Na real, ouvir é simples, fazer é que deve ser mais complicado: o quarteto poderia fazer discos apenas reciclando e pondo distorções em fórmulas antigas de punk e new wave, mas insere esquemas bacanas em gravação, mixagem, uso de efeitos. Os arranjos têm personalidade e carisma, além de um toque escondido de hard rock em cada faixa. E referências bacanas e corretas.

Tanto que o grupo fica menos interessante quando recicla algumas manias do punk norte-americano dos anos 1990, como os vocais falados e ritmados no estilo cheerleader (justamente o single Hand grenade), e cresce quando põe veneno em sonoridades consagradas. Drive, por exemplo, soa como London calling, do Clash, unida com certo senso melódico herdado do country da terra deles. Rubberist espalha brasa para o lado do punk-funk dos anos 1970, mas com peso. Pleasure seeker tem energia punk metal. Teenage heaven é som de girl group sessentista, inspirado tanto nos vocais das Shangri-Las quanto nos rapazes do Everly Brothers (influências citadas pela própria Jemina em entrevistas).

Em termos de letras, porrada à vista: o Be Your Own Pet voltou disposto a falar de gente que se humilha por oportunidades (Worship the whip), antigos punks que encaram os desafios da vida adulta e veem amigos ficando para trás (Goodtime!, que na real fala também do quanto você se sente fora de tudo quando tem responsabilidades de gente grande), recados certeiros para pessoas abusivas do passado (Hand grenade). Um retorno atualizado e orgulhoso do presente, apesar dos perigos.

Gravadora: Third Man Records
Nota: 8

Foto: Reprodução da capa do álbum

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Ouvimos: Body Shop – “Sex body” (EP)

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Resenha: Body Shop – “Sex body” (EP)

RESENHA: Body Shop mistura disco-punk, pós-punk e new wave sombria em Sex body, EP dançante, irônico e cheio de faixas viciantes.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Future Shock Records
Lançamento: 3 de abril de 2026

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Trio de Chicago liderado pela autoconfiante Kit Dee, o Body Shop faz um som que pode ser definido como disco-punk, mas tem mais do que isso na receita. A banda foca em sons tensos e sombrios, em climas herdados de Sonic Youth, Pixies e The Cars, e no EP Sex body, evocam em vários momentos uma espécie de B-52’s quase gótico.

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Os vocais de Kit são quase falados, na mesma escola de blasézice de Kim Gordon. O caminho entre o pós-punk e o eletrônico surge em faixas como Repulsion e Sex body, em clima sexy, com vocal falado. Ondas lembrando Lou Reed surgem nos vocais de Limits, em que Kit solta a voz ao lado de um dos dois sujeitos da banda.

Muita coisa em Sex body é bem viciante, mas nada como Fallacies, que une baixo à frente, clima sombrio e dançante, e algo que faz lembrar os Yeah Yeah Yeahs. E tem ainda Exit drill, o mais próximo de uma new wave morcegal no disco, entre Pixies e B-52s. No geral, Sex body é um daqueles discos para ouvir dançando e sentido vontade de ironizar cruelmente tudo que aparece – porque o clima dos vocais e das letras é justamente esse aí.

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Ouvimos: Slag – “Losing” (EP)

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Resenha: Slag – “Losing” (EP)

RESENHA: Entre indie sleaze, math rock e emo, o EP Losing, do Slag, equilibra energia dançante, melancolia e guitarras inventivas.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Big Scary Monsters
Lançamento: 6 de março de 2026

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Essa banda de Brighton quase faz o tipo de som que muita gente classificaria como indie sleaze – música dançante, entre punk e dance music, indie e ao mesmo tempo exuberante. Não é só isso que tem no EP Losing, e essa “exuberância” tem limite. Ela surge delimitada pelo vocal machucado à Thom Yorke (feito pela carismática vocalista Amelie Gibson), pelas guitarras dedilhadas que dão certo ar emo, e pelas zoeiras rítmicas típicas do math rock que volta e meia invadem algumas músicas. Mas ganha representação visual na capa cheia de elementos glam do EP.

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Os dedilhados aparecem logo no começo de Face off, música que abre o EP, e abre a temporada de canções funkeadas e balançadas em Losing – com direito a um synth que dá uma cara meio anos 1980 à faixa. A música-título vem logo depois, dando uma descontruída nos ritmos do álbum, enquanto Still here fica entre o pop rock oitentista e algo que pode ser colocado até na gavetinha do emo.

Seguindo pro final, você acha até um som que dá uns traços com uma versão math rock dos Red Hot Chili Peppers (Private gyno), além de um som noturno à moda dos Smashing Pumpkins, que ganha ares de balada metal – essa é Dislocated, a canção mais deprê do disco, e que oferece um lado diferente do som do Slag.

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Ouvimos: Muse – “The Wow! signal”

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Resenha: Muse - “The Wow! signal”

RESENHA: Muse acerta em The Wow! signal, trocando excessos por boas canções e ficção científica pop, em seu melhor disco em anos.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Warner Music
Lançamento: 26 de junho de 2026

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Diz aquele slogan da Copa que “tá liberado acreditar”. Tá liberado até acreditar que finalmente, depois de vários anos, o Muse lançou um disco realmente bom. The Wow! signal, inspirado pelo  misterioso sinal de rádio captado em 1977 no observatório Big Ear, que até hoje entorta cabeças no que diz respeito ao contato com ETs, traz uma boa coleção de canções – e não uma série de enrolações musicais e líricas.

O Muse é uma banda bem estranha, apesar de bem pop. Surgiu na Inglaterra em 1994, mas tá longe de ser a cara dos anos 1990. O som de Matt Bellamy (vocal, guitarra e piano), Christopher Wolstenholme (baixo, voz secundária e teclado) e Dominic Howard (bateria) costuma ser definido como “rock progressivo”, mas tá mais para um pós-grunge esclarecido. Um rock alternativo (no conceito Billboard 200 de rock alternativo) com pinta rococó.

O som deles nada tem a ver com o Coldplay, mas a banda de hits como Viva la vida é um bom par para o Muse. Pelo menos no sentido de que são duas bandas preparadíssimas para eras bem loucas, como a loudness war dos anos 2000, o maximalismo pop-rocker dos anos 2010, as mudanças recentes nos conceitos de “rock de arena”, e vai por aí. E tem um lado Rush, digamos assim, no Muse. São dois trios com nomes curtos, cujas letras volta e meia dão contornos poéticos aos sonhos de qualquer tiozão do zap, ainda que isso não defina tudo a respeito das duas bandas.

Explicando melhor: teve a fase em que Neil Peart, baterista e letrista do Rush, curtia as ideias invidualistas de Ayn Rand, teórica adorada até hoje por um monte de políticos conservadores. Não foi uma fase duradoura e, anos depois, Neil já estava de saco cheio de ser visto como individualista radical e direitista. Matt Bellamy, do Muse, escreveu durante vários anos sobre temas como vigilância estatal, manipulação política, sociedades secretas, controle social – temas, aliás, bem ao gosto daquele seu parente alucinado que acreditava em vacina com chip e kit com cloroquina para prevenir covid.

Bellamy se define como esquerdista, já se disse um “ex-teórico da conspiração” e deve ficar bem irritado de ver gente tentando achar mensagens anti-vax em músicas do grupo – sim, tem gente que acha até hoje que Compliance, do disco Will of the people (2022) é sobre isso. The Wow! signal, por sua vez, vem na calma e na tranquilidade da ficção científica, e é herdeiro mais de Steven Spielberg do que de alguma alucinação de zap.

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Eu disse “na calma e na tranquilidade”? Bom, é quase isso. The Wow! signal se esbalda numa fórmula musical que volta e meia lembra um ABBA + Ultravox + Queen alternativo, como em The dark forest, na qual se destacam cordas, uma guitarra em vibe metálica e um coral cerimonial e sombrio, e em Shimmering scars. Nightshift superstar une dance music, sons eletrônicos, baixo com slaps e um quê de nu metal. Essa onda de extravaganza rocker perpassa quase todo o disco, e invade Cryogen, além de sons entre Queen e U2 como Be with you, além da onda metal-prog de Hexagon e The sickness of you & I.

Já que falamos em Rush, tá lá Ellie Goulding meio que representando o que Aimee Mann representou pro trio de Geddy Lee no hit Time stand still, de 1987 – ela solta a voz na ótima Hush, tema quase indie pop para os padrões do Muse. Já Space debris encerra o disco em vibe de prog espacial e triste. Não custa falar que The Wow! signal, como acontece até em filmes de ficção científica, não fica só na cabecice. Tem um subtexto meio “romântico” em faixas como Hush, que propõe o silenciamento do mundo em troca de um “agora somos só você e eu”. Mas no geral, o novo do Muse traz uma banda veterana se apresentando como banda nova, e isso é o mais bacana.

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