Cultura Pop
O que você aprendeu sobre geografia vendo desenho do Pica-Pau

Quem viu os desenhos do Pica-Pau no SBT nos anos 1980 (ou na Record e até na Globo, por onde o personagem passou em décadas mais recentes) viajou para cantos escondidos da Flórida, sonhou em conhecer um parque nacional dos Estados Unidos, voou até uma fazenda na região de Nova York após tomar guarda-chuvadas de uma senhora, descobriu que no inverno os pássaros migram para o Sul dos EUA, viu cidades-fantasma no Arizona, ouviu falar de um lugar chamado Sevilha. Antes de levar seu filho/sua filha para conhecer a versão atual do pássaro nos cinemas – com Pica-Pau, O filme, de Alex Zamm, que estreia nesta quinta (5) – arrume um tempinho para mostrar a ele/ela o quanto você aprendeu de geografia só ficando na frente da TV quando era criança.
“OS AZARES DE UM CORVO” (1962). O Central Park, coração de Nova York, foi cenário de vários grandes shows da história da música pop – Elton John cantou lá em 1980 e Simon & Garfunkel fizeram uma apresentação histórica de reunião por lá em 1981, com renda revertida para melhorias no local. E também foi o lugar em que o Pica-Pau pegou uma pipoca doce de uma velhinha e levou umas vassouradas. O pássaro voa até uma fazenda no interior (em Woodstock?), conhece o corvo Jubileu e, cheio de péssimas intenções, recomenda a ele ir lá pegar uma pipoca da senhora. A frase que você lembra: “Você disse pipoca?”
“VAMOS NANAR, JACARÉ” (1962). “Bem no interior dos Everglades vivem os ferozes jacarés”, avisava o narrador do desenho, que abre mostrando imagens do pântano Okee Dokee – uma zoação com o Okefenokee, uma das maiores regiões pantanosas dos Estados Unidos. A hibernação dos jacarés locais e a migração de pássaros pra lá são premissas pra mais uma aventura do Pica-Pau. Os Everglades, por sua vez, não apenas existem de verdade (são uma região subtropical da Flórida, que tem um parque nacional que está fechado por causa do Furacão Irma), como suas águas abastecem boa parte da região da Grande Miami. A frase que você lembra: “Durma filhinho, do coração” (e “durma filhinho em código”).
“O MESTRE-CUCA” (1961). Mais uma aventura do Pica-Pau com o Zé Jacaré na Flórida, “um estado ensolarado, o jardim dos ricos cansados, dos aposentados e dos apenas cansados. Zé Jacaré está sempre cansado e sempre com fome”, diz a narração. Zé Jacaré acha uma revista em que o Pica-Pau, então um astro do cinema, diz que a comida sulista é a sua favorita. Daí envia uma carta para o pássaro, que vive “lá em Hollywood, Califórnia”. A frase que você lembra: “Estão confundindo um pica-pau com um pombo”.
“PICA-PAU CAMPEÃO DE GOLFE” (1952). No Brasil, você vai pesquisar, pesquisar e não vai conseguir saber quantos campinhos de pelada e de futebol de várzea existem. Nos EUA, os campos públicos de golfe são locais comuns de diversão. Da mesma forma que num campo de pelada, o que mais tem é gente na fila berrando “a de fora é minha”, no campo de golfe tem gente que marca horário, acorda cedo, pega fila, etc. O Pica-Pau acordou com as galinhas para dar suas tacadas, esbarrou num fortão a fim de encrenca e… começa a confusão. A frase que você lembra: “Ei, moço, podemos jogar por aí?” (e a resposta: “Nãããããão”).
“O ÚLTIMO MARTIN” (1960). “Agora reina paz e calma na região montanhosa de Ozark. Não mais se ouvem os tiros entre os Martin e os Coy”, diz a narração. As montanhas Ozark, localizadas entre os estados americanos de Missouri, Arkansas, Oklahoma e Kansas, são até destino turístico de aventura hoje em dia. E serviram de cenário para a história em que o Pica-Pau vai à cabana onde moravam os Coy (transformada em museu), dá um tiro com um velho mosquete da família e acaba atingindo a casa de Jack Martin, único sobrevivente dos Martin e responsável por liquidar o último Coy. Começa a confusão. A frase que você lembra: “Caro Coy, se você não sair fora, você é o maior miserável, pestilento, sarnento, arruaceiro, gato polar (?). Assinado eu, Jack Martin”.
“O FANTASMA DA ÓPERA” (1961). O Pica-Pau chega a uma cidade-fantasma no Arizona chamada Spooksville – o nome aparece numa placa na entrada, com um urubu pousado em cima. Esbarra com um ladrão que se disfarça de fantasma, mas vira o jogo e dá altos sustos no cavalo dele. De curioso, tem o fato de a Netflix já ter exibido uma série sobrenatural chamada Spooksville (nada a ver com o desenho do Pica-Pau) e de o nome original do desenho (The ghost of the horse opera) também já aparecido no título de um episódio de outro desenho exibido pelo SBT nos anos 1980, Benny e Cecil. A frase que você lembra: “Ele quer dar uma de fantasminha” (e “puxa, lá vem ele de novo”, e “ei, xará, você viu um corpo andando por aí?”).
“O BARBEIRO DE SEVILHA” (1944). Direto de uma das primeiríssimas fases do Pica-Pau, o desenho em que ele vira barbeiro e aporrinha um cliente cantando trechos da ópera-bufa O barbeiro de Sevilha, de Gioachino Rossini, no ouvido dele. Muitos lugares misturados: o Pica-Pau recebe primeiro na barbearia um índio norte-americano, e canta para outro cliente o trecho de uma ópera italiana, cuja premiére aconteceu em 1775 em Paris, e cuja letra refere-se a um personagem, o barbeiro Fígaro, que mora em Sevilha, na Espanha. A frase que você lembra: “Vamos! Vamos! Que tal um servicinho?” (e o diálogo: “Mim quer logo um xampu”, “tá bom, cabeça de peru”).
“OS TRABALHADORES DA FLORESTA” (1951). Esse desenho com pouquíssimas falas é um jazz em cima da fábula A cigarra e a formiga. O Pica-Pau mora numa comunidade de animais trabalhadores e não faz nada o dia inteiro. Na hora de se alimentar, rouba comida dos vizinhos e sai voando. Quando o inverno chega, os pássaros migram pro Sul e ele resolve ficar – mas não tem de quem roubar comida e quase morre congelado. Uma curiosidade: o nome original do desenho é The redwood sap, ou A seiva da sequóia – sequóias são aquelas árvores milenares que podem ter a altura de um prédio de 30 andares e são comuns na região da Califórnia. A frase que você lembra: o nome do livro que o Pica-Pau lê na abertura, O trabalho e como escapar dele, de João Faz Nada.
“O ESPIÃO ESPIADO” (1954). Nesse desenho em que o Pica-Pau quase nem abre a boca, um bandidão troca o tônico que o pássaro toma todos os dias – o “redwood sap” (opa!), traduzido por “suco de peroba” – por um com “fórmula 7/8, uma gota 50 mil cavalos”. Enquanto uma narração trolla o Pica-Pau durante todo o tempo, ele descobre que o tal tônico é uma fórmula secreta que foi roubada – e decide devolvê-lo no quartel-general do BFI. Lógico que é uma brincadeira com a sede do FBI, que nos anos 1950, ficava dentro do Ministério da Justiça, na Pensylvania Avenue, em Washington DC. A frase que você lembra: “Tá mais fraco que um gato, é melhor tomar seu tônico!” (e “Será que é o lugar certo?”).
“BRIGA EM MARROCOS” (1954). Outro desenho em que o Pica-Pau fica mudo a maior parte do tempo. O personagem é um soldado da Legião Estrangeira que atua no Marrocos e precisa montar guarda para proteger uma princesa “com sua própria vida” antes que ela seja sequestrada pelo malvado Zeca Urubu (ou Sheik El Rancid). A frase que você lembra: “Eu acho que há gosto pra tudo”.
“EM ROMA, FAÇA COMO OS PICA-PAUS” (1964). O Pica-Pau é o responsável pela destruição de Roma, porque passa o dia inteiro bicando as construções e obeliscos locais – que, ok, não são feitos de madeira, como é público e notório. O imperador Nero passa os dias tocando violino e reclamando do Pica-Pau. Lógico que o pássaro também destroi seu instrumento, e acaba tomando seu lugar. A frase que você lembra: acho que nenhuma, mas a cena final com os rugidos do leão e do próprio Pica-Pau deve ter assustado muitas crianças.
“REFLORESTAMENTO À FORÇA” (1968). Um dos vários desenhos do Pica-Pau que se passam num parque nacional dos Estados Unidos – são 59 áreas de proteção ambientais no país, por sinal. O personagem é o maior inimigo da área, já que destroi todas as árvores. Curiosidades: 1) O filme no original se chamava Peck of trouble, e saiu também um livro do Pica-Pau com o mesmo nome 2) Tem um filme da série Looney Tunes de 1953 com o mesmo título, em que o Frajola tenta comer um pica-pau; 3) O nome do parque em que o Pica-Pau ataca as árvores é Gallstone National Park – literalmente, “Parque Nacional da Pedra na Vesícula”, e é lógico que não existe nenhum parque nos EUA com esse nome. A frase que você lembra: “Ah, eles querem brincar de faroeste, não é?”
https://www.youtube.com/watch?v=1mkhblOPhRU
“VAMOS ÀS CATARATAS” (1956). “O” clássico do Pica-Pau. Originalmente chamado Niagara fools (trocadilho com “Niagara falls” e literalmente “idiotas de Niagara”), o desenho fazia troça de uma triste realidade: uma porrada de gente pôs mesmo em prática a ideia de jerico de descer num barril as cataratas do Niagara, localizadas na fronteira entre os EUA e o Canadá. O primeiro caso conhecido foi o de uma professora chamada Annie Edson Taylor que, sem dinheiro, solitária e acumulando dívidas, decidiu em 1901 descer as águas tencionando vender a história para a imprensa. Annie, que já tinha 63 anos, saiu inacreditavelmente ilesa da aventura (viveu até os 83!) e até ganhou um cascalho, mas nada significativo. Entre suicidas e malucos em potencial, já teve gente tentando descer o Niágara usando barris, jet skis, botes e até uma bola inflável bem grande (este último foi o caso de Kirk Jones, um sujeito que morreu em 19 de abril de 2017, tentando fazer justamente isso). E você lembra de duas palavras: “aeeeeee” e “marche!”.
Cultura Pop
Qual é a do The Coverups, banda de covers de Billie Joe (Green Day) e amigos?

Antes de Bruce Dickinson, cantor do Iron Maiden, aparecer de surpresa no palco em Québec, o The Coverups já dava muitos sinais de vida havia anos. O projeto paralelo de Billie Joe Armstrong continua funcionando exatamente como nasceu: como uma desculpa para tocar músicas que seus integrantes amam, sem a pressão de lançar discos ou sair em turnê.
Criado em 2018, o grupo reúne integrantes e colaboradores do Green Day em apresentações pequenas, normalmente em clubes da Califórnia. A formação original contava com Billie Joe Armstrong (voz e guitarra), Mike Dirnt (baixo e voz), Jason White (guitarra), Bill Schneider (baixo) e Chris Dugan (bateria) – Mike e Jason são os únicos que fazem parte também do Green Day, sendo que Jason atua como músico de turnê. Nos últimos anos, porém, Dirnt deixou de participar dos shows, e o The Coverups passou a atuar como quarteto.
O repertório é uma carta de amor ao rock e ao punk. Clássicos de Ramones, David Bowie, The Clash, Cheap Trick, Joan Jett, Tom Petty, Misfits, Nirvana, Rolling Stones e até Strokes costumam aparecer nas apresentações, que muitas vezes são anunciadas poucas horas antes de acontecer. Diferentemente de outros projetos paralelos de Billie Joe, como Foxboro Hot Tubs e The Longshot, o The Coverups nunca teve a intenção de gravar músicas próprias. A proposta é apenas revisitar clássicos em um ambiente intimista, recriando um pouco da atmosfera dos primeiros dias do Green Day nos clubes da região de Berkeley e Oakland.
Mesmo sem lançar um único álbum de estúdio, a banda conquistou um público fiel justamente por isso: oferece a rara oportunidade de ver Billie Joe tocando as músicas que ajudaram a moldar sua formação musical, longe das grandes produções e da rotina de estádios do Green Day.
Nos últimos meses, o The Coverups voltou a fazer apresentações esporádicas na Califórnia, mantendo esse espírito despretensioso. Não havia qualquer indicação de mudanças de rumo, nem anúncios de gravações ou turnês. A maior novidade acabou sendo justamente a participação-surpresa de Bruce Dickinson em um show realizado em Québec. Sem aviso prévio, o vocalista do Iron Maiden subiu ao palco para cantar All the young dudes, clássico do Mott the Hoople escrito por David Bowie, num encontro improvável que reuniu dois dos nomes mais conhecidos do rock em um contexto bastante informal.
Houve uma outra novidade recente, que rolou durante o show da banda no Roxy, na Califórnia, dia 21, uma segunda-feira. Antes de tocar Drain you, clássico do Nirvana (do disco Nevermind, de 1991), Armstrong dedicou a música a Jennifer Finch, baixista do L7, que morreu recentemente. Antes, Adrienne Armstrong, esposa do músico, havia doado US$ 5 mil para uma campanha criada para ajudar a custear o tratamento de Finch.
De qualquer jeito, Bruce fi a primeira participação especial de grande repercussão na história recente do The Coverups e, naturalmente, chamou muito mais atenção do que os próprios shows da banda. Ainda assim, tudo indica que o projeto continuará exatamente como sempre foi: um grupo de amigos reunidos para tocar os discos que mudaram suas vidas, sem maiores pretensões além da diversão.
Ah, sim: importante falar que All the young dudes faz parte do repertório solo de Bruce há bastante tempo. Ele a havia regravado em seu primeiro álbum solo, Tattoed millionaire, de 1990. Na época, teve até clipe da faixa.
Foto: Reprodução Internet
Cultura Pop
Qual é a dos dois discos novos de Lana Del Rey?

Lana Del Rey passou tanto tempo adiando e reformulando o próximo álbum que já dava para imaginar que ele nunca chegaria. Primeiro era Lasso. Depois virou The right person will stay. Em seguida apareceu como Stove. Agora a cantora resolveu complicar um pouco mais o roteiro: além de Stove, ela diz que também está preparando um segundo álbum inédito.
A novidade surgiu em uma publicação no Instagram, onde Lana contou que o disco extra nasceu durante o mesmo processo criativo do sucessor de Did you know that there’s a tunnel under Ocean Blvd. Segundo ela, o novo trabalho funciona como uma espécie de “companion album”, desenvolvido quase ao mesmo tempo que Stove.
- Os bastidores do raro Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, que ganha lançamento oficial
A cantora também afirmou que esse segundo disco surgiu das transformações pessoais e criativas que viveu nos últimos quatro anos, funcionando como uma espécie de contraponto ao álbum principal. Se tudo correr como planejado — e essa ressalva é indispensável quando o assunto é cronograma de Lana Del Rey — os dois discos devem ficar prontos em cerca de um mês para seguir para a prensagem em vinil.
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Ela também afirmou que ambos já têm capas prontas e descreveu os projetos como algumas das obras de que mais se orgulha. O álbum principal, Stove, continua reunindo os singles Henry, come on, Bluebird e White feather hawk tail deer hunter, além de outras músicas que ela vem mostrando ao vivo nos últimos meses. Tudo indica que First light, single lançado como single da trilha sonora do jogo 007 First Light, escrito em parceria com David Arnold, é só um projeto à parte e não estará no disco.
Embora Lana ainda não tenha confirmado um título para o álbum companheiro, fãs passaram a chamá-lo de Spyda após identificarem esse nome em uma das artes divulgadas pela cantora nas redes sociais (aliás, no Reddit, tem fãs reclamando que a imprensa tá caindo rapidamente numa suposição deles mesmos, os fãs)
Ainda não há datas de lançamento para nenhum dos dois discos. Mas, considerando o histórico recente da cantora, talvez seja prudente evitar tatuar qualquer título no braço até que eles realmente apareçam nas plataformas de streaming. Afinal, se um álbum já mudou de nome três vezes antes de nascer, nada impede que um quarto nome apareça antes do play.
Cultura Pop
Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.
Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.
Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.
O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.
Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.
Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.
Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.
Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.
A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.
Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.
E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.
Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.
Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.
Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.
Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.
Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.
Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.
Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.
O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.
O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!
Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.
Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).
Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.
A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.
Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.
Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.
Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.
Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.


































