Crítica
Ouvimos: Lykke Li – “The afterparty”

RESENHA: Lykke Li transforma pista, ressaca e solidão em pop hipnótico e existencial no melancólico e experimental The afterparty.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Neon Gold Records
Lançamento: 8 de maio de 2026
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Na listening party de The afterparty, seu sexto disco, a sueca Lykke Li disse, entre risadas, que este seria seu último lançamento – se ela estava brincando ou não, só ela sabe. Num papo com o New Musical Express, por acaso, Lykke disse que, de qualquer jeito, The afterparty marcava uma nova era em sua vida. Um lance que ela chamou de “era de deus”, já que basicamente, ela estaria desenvolvendo aqueles mesmos questionamentos messiânicos que moveram artistas como Bob Dylan, George Harrison, Madonna e Tim Maia em determinados momentos de suas vidas.
“É quando você começa a questionar o significado das coisas. Quais são as escolhas que vamos fazer? Existe um Deus? Com quem estou falando?”, contou ela. Vai dai que, basicamente, The afterparty soa mais como um disco sobre o pop do que um disco pop. É dançante e hipnótico do começo ao fim, mas em vez de apenas falar de amor, ela prefere falar de festa como existência e até como metáfora para algo que alegra, levanta o astral, mas que deixa uma bruta ressaca quando acaba – fora aquela vontade de que aquela diversão (real ou química) nunca terminasse.
- Ouvimos: Hiqpy – Slow death of a good girl
Não só termina, como às vezes pode começar na ressaca: Not gon cry, na abertura, é uma dance music de ares gospel cuja letra é o retrato da derrota. Imagine uma pessoa miserável de tão deprimida, que acabou de levar um pé na bunda abissal, mas decide se divertir numa boate. Até que a tristeza bate e ela descobre que está mortalmente sozinha na pista – e que caso ela resolva deixar o local, lá fora chove pra burro. É o astral dessa música.
O astral não melhora muito em Happy now nem em Lucky again, que abre com uma sequência quase psicodélica de cordas, e tem o verso “não vai demorar muito até eu estar de cara no chão”. Curiosamente, Famous last words, a primeira balada do disco, tem uma visão bem edificante a respeito de dores e perdas: “sou uma fênix, querida / as chamas não queimam mais / confie em mim, não vai doer”. Vale citar as cordas e a percussão quase cerimonial dessa música, pop feito com todo o zelo.
Tem um lado ultra-experimental em alguns momentos de The afterparty – como na vinheta psicodélica Future fear, que encapsula e dá nome aos pavores gerais. A balada celestial So happy I could die é bastante criativa: sob uma base dream pop e psicodélica, fala de males que vêm pra bem e coisas boas que podem sufocar. Sick of love, uma bossa pop que ganha cara grandiloquente, não é uma canção de ressaca amorosa: tá mais para uma belíssima praga de madrinha, mas com estilhaços de baixa autoestima.
Os 25 (25!) minutos de The afterparty encerram com a auto-explicativa Knife in the heart – pop percussivo e “adulto”, quase uma música de não-reação, em que Lykke já sentiu e viu tanta coisa que está anestesiada – e com a balada tristonha Euphoria. Essa música oferece algum alento para quem já está na pista sofrendo o cão: “amor, eu carregarei sua tristeza em meus ombros / podemos pegar emprestada a euforia / embora não dure”.
The afterparty é… Tem alguma coisa ali que é complicada até de explicar, mas dá pra sentir. Lykke Li decidiu falar de pista e de festa como existência, e mostrar que nem sempre um lugar projetado para a diversão é o lugar mais feliz do mundo. Nem antes, nem durante, nem depois.
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Crítica
Ouvimos: Radio Free Alice – “What’s in between”

RESENHA: Na estreia What’s in between, a banda australiana Radio Free Alice mistura pós-punk e indie rock, com ecos de Pulp e The Cure e letras sobre jovens sem perspectivas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Atlantic
Lançamento: 30 de outubro de 2026
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Se você achou tudo em What’s in between muito parecido com Pulp, não é só impressão sua. Ainda que a voz de Noah Learmonth seja mais aguda e delicada que a de Jarvis Cocker, o universo do Radio Free Alice é o da revolta social, do olhar de baixo para cima, de gente tão perdida no mundo que já esqueceu o caminho de casa. O próprio Noah definiu What’s in between, estreia da banda australiana, como um disco sobre jovens despossuídos, sem um lugar muito claro na sociedade.
Formado em Melbourne em 2020, o Radio Free Alice parece ter descoberto o indie rock dos anos 2000 ao mesmo tempo que mergulhava no pós-punk dos anos 1970 e 1980. Tem algo de Arctic Monkeys e The Strokes, mas também de The Cure, Smiths e Talking Heads. Tudo com baixos melódicos, guitarras econômicas quando necessário e uma elegância que não impede a banda de fazer barulho.
A abertura, Crying with you, já apresenta essa mistura. O baixo conduz a melodia, as guitarras surgem em riffs espaçados, cheios de eco, e a bateria segue uma batida motorik, herdada do krautrock. A letra fala das tentações da vida e da obrigação de parecer interessante enquanto o tempo corre. Undressed mantém o ritmo dançante, quase marcial, com guitarras ruidosas espalhadas pelos dois canais, enquanto Noah canta sobre desejo não correspondido.
Em Rule 31, a banda chega perto do The Cure dos primeiros discos. Os riffs de guitarra e baixo têm algo de maníaco, criando um clima de ataque que combina com uma das letras mais pessoais de Noah: a lembrança de um episódio traumático da infância de seu pai.
A faixa-título talvez seja o momento em que a comparação com o Pulp faça mais sentido. Musicalmente, a canção What’s in between mistura Smiths, U2 e The Cure, com linhas vocais especialmente bonitas. Só que a história é de uma garçonete tão de saco cheio do trabalho que começa a fantasiar o assassinato de um cliente. É o tipo de humor ácido que Jarvis Cocker saberia aproveitar: uma história de horror cotidiano protagonizada por alguém que não aguenta mais engolir desaforos.
Bottleshops leva esse desconforto para a vida adulta. A letra fala de chegar aos 30 anos sem estabilidade financeira, trabalhar sem perspectivas e descobrir que as promessas de sucesso não se cumpriram. O baixo aparece na frente, enquanto as guitarras vão tomando conta da música, num encontro de Smiths, Cure e até Buzzcocks.
O título What’s in between (“o que está no meio”) posssivelmente não veio por acaso. Entre expectativas altas e fracassos cotidianos, existe um desejo de felicidade que quase nunca se realiza, até porque todo mundo parece ocupado demais olhando para o próximo feed. O Radio Free Alice transforma esse desencontro em pós-punk dançante, melodias bonitas e histórias de gente que não sabe muito bem o que fazer da própria vida.
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Crítica
Ouvimos: Last – “Potent desperation”

RESENHA: Em Potent desperation, a dupla estadunidense Last mistura sludge industrial, metal e ruídos em músicas sobre religião, guerra e exploração econômica.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Transylvanian Records
Lançamento: 9 de outubro de 2026
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O Last, dupla de Salt Lake City formada por Chase Cluff e Ian Moore, faz um sludge industrial que parece ter sido gravado nas profundezas de alguma caverna. Potent desperation, terceiro disco, é o trabalho mais pesado dos dois até agora. E não é só uma questão de guitarras distorcidas, vocais guturais e ruídos: há algo de profundamente perturbador na maneira como as músicas são construídas. O curioso é que, mesmo quando tudo parece prestes a desabar, o Last encontra espaço para alguma beleza.
Coinslot stigmata abre com um som que lembra um vômito, seguido por graves quase vertiginosos, guitarras atmosféricas e vocais gritados, com notas esticadas. O baixo parece ocupar sozinho o canal esquerdo, como se houvesse algum defeito na gravação. No final, uma microfonia que lembra um violino dá lugar a um piano delicado. É música feita para incomodar, mas que consegue hipnotizar.
Munitions mistura a porrada do metal com algo de pós-punk gótico, enquanto Obedient coward usa efeitos que fazem vozes e instrumentos parecerem perdidos numa transmissão defeituosa. Já Spirit crossing começa com guitarras contemplativas, piano e sons de mar, mas vai ficando cada vez mais sinistra. Parece uma travessia espiritual na qual ninguém garante que haverá alguma luz do outro lado.
As letras trocaram o luto pessoal dos discos anteriores por uma raiva mais coletiva. Religião, exploração econômica, guerra e desigualdade entram na mira. Coinslot stigmata fala de igrejas arrancando dinheiro de quem mal tem o que comer. Em Molten gold poured down throats, um blues diabólico cheio de ruídos e lamentos como que de almas penadas, a revolta contra os poderosos chega à fantasia de vingança violenta. Uma música extrema que não depende apenas do volume para assustar. E pode levar fé, um disco muito bonito.
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Crítica
Ouvimos: Gallov – “Tô nem aí”

RESENHA: Em Tô nem aí, Gallov mistura rock psicodélico, reggae, soul e pop retrô em canções sobre mudanças, autoconhecimento e os absurdos da vida moderna.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 2 de outubro de 2026
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Parece rock gaúcho, mas Marco Antonio Gallo de Carvalho, o popular Gallov, nasceu em Marília e se radicou em São Paulo. Sua concepção de som passa por muita coisa que marcou a psicodelia sulista: letras meditativas e meio doidonas, influências sessentistas, clima de música feita por caçador de sons raros. Boa parte do material do álbum Tô nem aí é forjado na positividade e na mudança, seja no clima meio Turtles de Frio no Brasil, seja em versos com “você precisa de um passeio / o movimento é inimigo do medo” (de Bolo de sonho, que lembra o som do Nazz).
Nem tudo são energias positivas em Tô nem aí: tem Futbet, que sacaneia a revoada internáutica dos dias de hoje – muito embora a música pareça um reggae do Gilberto Gil reprocessado. Apanhador de sonhos dá conselhos para a vida (“esboce uma risada / toda vez que uma limonada lhe for negada”) em clima de balada soul anos 1960 / 1970. Bruxa solta é altpop psicodélico e percussivo, com letra falando sobre como muitas vezes perdemos a cabeça por coisas que não dependem da gente. Susto, ufa (que titulo ótimo!) tem tom meio city pop, meio pop adulto anos 1980.
Se volta e meia Gallov flerta com o reggae, Tô nem aí tem ainda O som de um reggae, canção meditativa que prega: “eu não tenho pressa / o processo me interessa” e “eu acho que deveríamos botar uma fé nos doidos / enquanto eles estão ocupados movendo montanhas”. No final, Docimel une fases do pop (anos 1960 e 1980) em torno de uma letra estilo Arnaldo Baptista + Júpiter Maçã: “não preciso de automóvel / minhas ideias me levam para longe”.
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