Som
Kate Bush e Cocteau Twins fazendo jingle pro Fruitopia

Difícil imaginar que artistas costumeiramente avessos a muito pavoneamento na mídia, como Kate Bush e os Cocteau Twins, iriam topar fazer música para comerciais de TV – e o pior é que isso aconteceu de verdade, e foi na década de 1990. Os ares hippies emanados de um novo produto da Coca-Cola, o suco Fruitopia, acabaram convencendo a cantora de Wuthering heights e o grupo do clássico disco Treasure (1984) a produzirem músicas para os comerciais.
Se você nunca ouviu falar do Fruitopia, pergunte a seu pai ou seu tio, já que esse produto, lançado originalmente nos Estados Unidos em 1994, chegou a sair no Brasil e durou alguns anos à venda por aqui. Era um refrigerante-da-nova-era que misturava frutas e tinha sabores como The Grape Beyond (um trocadilho com a expressão “the great beyond”, ou “o grande além”, e uva), Tangerine Wavelenght (“comprimento de onda de tangerina”), Citrus Conciousness (“consciência cítrica”, um trocadalho do carilho que em português cairia melhor) e Raspberry Psychic Lemonade (“limonada psíquica de framboesa”), e por aí ia. O sabor era… bom, inesquecível é um modo de descrevê-lo. Seja como for, a agência que tinha a conta do produto bateu nas portas certas. Não havia ninguém mais viajante, cabeça e moderninho do que Kate Bush e os Cocteau Twins para fazer os anúncios.
Aqui tem uma playlist com os comerciais da Kate Bush.
E olha o dos Cocteau Twins aí.
Kate usou músicos japoneses e marroquinos para ajudá-la nas trilhas e teve total controle artístico sobre todas as peças. Na biografia Kate Bush: Under the ivy, Grame Thomson diz que a motivação para que ela aceitasse compor as músicas nunca esteve muito clara, porque ela costumava recusar propostas de compor músicas para comerciais – mas possivelmente o conceito do Fruitopia, o tom dos anúncios e (qual o problema?) a grana envolvida chamaram a atenção. Já os Cocteau Twins aparentemente não têm dilemas em relação ao assunto: colocaram MP3 dos dois anúncios até mesmo no site da banda.
E de qualquer jeito, não foi a primeira vez que Kate fez comercial de alguma coisa. Em 1978, desfrutando de enorme popularidade no Japão, ela fez comerciais para a marca de relógio Seiko, exclusivos para o país. E nesses, ela botou o nome e a cara (e emprestou seu hit Them heavy people).

Crítica
Ouvimos: DIIV – “Boiled alive” (ao vivo)

RESENHA: Boiled alive traz o DIIV ao vivo com vinhetas e discurso existencial, ampliando o clima de Frog in the boiling water em ruído, ironia e desilusão.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Fantasy / Concord
Lançamento: 5 de janeiro de 2026
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Audivelmente, a experiência de Boiled alive, disco-filme ao vivo do DIIV, não é tão diferente assim de Frog in the boiling water, disco da banda lançado em 2024 (resenhado pela gente aqui) e do qual saiu esse repertório do álbum ao vivo. A diferença é que cada faixa surge entremeada por uma vinheta que insere o ouvinte em algum clima diferente – seja no som de um fogo sendo acendido (para ferver a água do “sapo” do título), ou anúncios “existenciais” do repertório que está sendo apresentado, ou mesmo numa vinheta que fala do endorsement project do grupo, uma brincadeira séria com a inserção de anúncios políticos em outras mídias.
As gravações que deram origem a Boiled alive foram realizadas no Teragram Ballroom (Los Angeles) entre os dias 24 e 26 de maio de 2025 – o filme pode ser alugado ou comprado aqui. No disco ao vivo, o repertório de Frog aparece na ordem, encerrando com o single Return of youth, lançado em maio de 2025, e que não entrou no álbum. Boiled alive atualiza, com narrações e imagens, uma mensagem de desilusão e colapso, em que um mundo inchado e repleto de parasitas torna-se uma verdadeira máquina de moer sonhos e ideais. Por acaso, o “sapo na água fervendo” do título é uma referência a um trecho do livro História de B, de Daniel Quinn, que fala “do colapso lento, doentio e esmagadoramente banal da sociedade sob o estágio final do capitalismo, as realidades brutais que enfrentamos e achamos normais”.
Zachary Cole Smith, cantor e guitarrista do DIIV, é o sujeito certo para dar voz a esse tipo de inquietação – após se curar do vício em heroína, ele viu seu grupo entrar numa nova fase, artística e comercialmente falando. Hoje, o DIIV é quase um Pink Floyd do barulho, intenso, selvagem, mas meditativo. E achou um propósito existencial e pessoal para produzir ruídos e nuvens sonoras, que dominam faixas como In amber, Little birds, Brown paper bag, a tristonha Raining on your pillow e Fender on the freeway.
Já a travessia pessoal da bela Soul-net é aberta por uma vinheta que apresenta “Soul-net” como uma plataforma dedicada ao conformismo. Na tal plataforma, “você adquirirá o poder cósmico, desbloqueará a intuição e surfará na onda da empatia. O capitalismo não é a causa raiz dos seus problemas pessoais. Na Soul-Net, entendemos que o radicalismo político não é a resposta para os problemas da sociedade. A revolução não resolverá problemas profundamente enraizados”. Protesto com bom humor, para quem entende ironia – e gosta de tristeza barulhenta e melódica.
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Crítica
Ouvimos: Uganga – “Ganeshu”

RESENHA: No oitavo disco, Ganeshu, o grupo mineiro Uganga cruza groove metal 90s à Slayer/Sepultura com referências aos orixás, natureza e resistência antifascista.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Independente
Lançamento: 9 de maio de 2025
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Vindo de Minas Gerais, o Uganga já tem três décadas de existência e chega agora ao oitavo álbum, Ganeshu. Basicamente um disco que gira em torno de uma noção bem particular de groove metal, em que evocações de Slayer e Sepultura, e do som pesado dos anos 90, convivem com homenagem aos orixás, à natureza e aos antepassados (aliás, o nome do álbum une as divindades Ganesha e Exu numa só).
Não é uma revisão trash e despojada do metal-umbanda: o grupo abre com barulhos de mar e de barcos (na vinheta Igarapés, em que algo parece ranger e a tensão começa) e prosegue em vibe cerimonial, em faixas pesadas como A profecia e o metal-punk-funk Confesso. Faixas como Tem fogo! e Exu não passa pano vão das sombras do Black Sabbath à agilidade punk-metal – a primeira aludindo a vibes que surgem com a mudança dos ventos e ao que se mantém de pé com as ondas (“o natural se equilibra, o fabricado se perde”), a segunda evocando forças para brigar com o lixo moralista e com o fascismo.
Esse equilíbrio entre calmaria e vendaval rola em todo o disco, mas especialmente acontece em Sonho, metal-funk energético que abre com barulho de rede balançando. Pairam também nos cânticos e palhetadas de Ganeshu, na psicodelia de Psicoraio dub e no reggae-rap de Pressentimento, a faixa mais diversificada do álbum – que, em tempos de dúvida, guerras e medo, prega que “palavra necessária não se guarda”.
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Crítica
Ouvimos: So Dead – “A wet dream and a pistol”

RESENHA: So Dead, banda portuguesa, faz pós-punk eletrônico e sombrio no disco A wet dream and a pistol, entre darkwave, synths gélidos e ecos de Joy Division.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Lux Records
Lançamento: 26 de maio de 2025
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Prestes a vir ao Brasil para uma turnê (informações mais abaixo), o So Dead é uma banda portuguesa que, em seu segundo álbum, A wet dream and a pistol, fez pós-punk sombrio e eletrônico – um verdadeiro sonho para fãs de bandas como The Sound, Interpol, Joy Division e até para seguidores de grupos mais recentes, como Dry Cleaning.
Em vários momentos, Samuel Nejati, Sofia Leonor e Miguel Padilha (os três do So Dead) mergulham em sombras darkwave, como na combinação de doçura e pânico de Clutter e no ritmo marcial de Sleep mode. E ecos de Siouxsie and The Banshees, The Cure e Wire dão as caras em faixas como as tensas Creepin e Push, e as estilingadas Roadkill e They live – ambas com baixo distorcido à frente, ecos e saturações. Sem falar nos synths gélidos de The scream, cujo nome é o mesmo da estreia de Siouxsie and The Banshees, de 1978.
O repertório do So Dead ainda cai no peso sombrio em BDSM e numa espécie de punk espacial em I shot JFK, que une tensão dark e teclados que levantam voo.
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