Connect with us

Cultura Pop

O Natal do New Order em 1982

Published

on

O Natal do New Order em 1982

Exageramos um pouco no título, admitimos. Na verdade esse “Natal do New Order” tá mais para Natal do Haçienda, clube aberto em 21 de maio de 1982 em Manchester, Inglaterra, e que era de propriedade tanto da gravadora independente Factory quanto do próprio New Order – que até aquele momento era um dos contratados mais promissores do selo.

Em 1982, tanto a Factory quanto o New Order estavam bastante mudados. O grupo de Bernard Sumner (voz, guitarra), Peter Hook (baixo), Gillian Gilbert (teclados) e Stephen Morris (teclados, bateria) havia excursionado pelos EUA em 1981. E, aliás, tinha migrado do pós-punk herdado de sua encarnação anterior, Joy Division, para os sons eletrônicos – por intermédio de singles como Procession, Everything’s gone green (ambos 1981) e Temptation (1982). Ainda não era o New Order superpopular de Blue monday, mas já era um grande adianto.

HAÇIENDA

A ideia do Haçienda, criado pelo então empresário do New Order e co-diretor da Factory, Rob Gretton, era criar um clube noturno dedicado à música e à arte, e que fosse naturalmente acessível a seus frequentadores. Quem quisesse conhecer a casa deveria se tornar sócio dela – com uma mensalidade em torno, inicialmente, de cinco libras.

Advertisement

“Em troca, você ganha entrada gratuita em um New Order e um show do A Certain Ratio”, diz um artigo publicado em 1982 num fanzine chamado City Fun. Bebidas e entradas seriam mais baratas que o comum, o que depois representou um problema sério para uma casa tão ambiciosa (a venda de bebidas é geralmente o sustentáculo de qualquer casa noturna e, na Inglaterra dos anos 1980, a galera preferia mesmo era gastar grana com drogas).

A ideia era que o clube cedesse espaço para peças de teatro na pista de dança, e que rolassem performances bizarras – a banda industrial Einstürzende Neubauten, por exemplo, chegou a perfurar as paredes em volta do palco, durante um show. Em 1986, o Haçienda passou a tocar house music. Quem botava som na casa era Greg Wilson, DJ-celebridade que ficou famoso ao mixar canções ao vivo durante uma ida ao programa The Tube. Na casa, ele mostrava seus talentos nas carrapetas ao lado de Hewan Clarke e do chefe de A&R da Factory, Mike Pickering. Aí a fama veio de vez, porque todo mundo queria conferir as noites de música eletrônica da casa.

NEW ORDER E BE MUSIC

Entra aí um detalhe interessante sobre o New Order em 1982: Rob Gretton, empresário da banda, deu ao quarteto a ideia de criar uma editora chamada Be Music. A empresa cuidaria de licenciamento do catálogo e de recebimento de direitos autorais.

A ideia cresceu e o nome virou quase uma banda dentro de outra, e um nome usado para fortalecer a identidade do grupo. Se um integrante produzisse/remixasse outro artista, ou fizesse qualquer coisa meio solo, o nome a ser usado era… Be Music, não Peter Hook, Bernard Sumner ou qualquer outro integrante da banda. Assim, nenhum membro se destacaria dentro ou fora do grupo. Enquanto foi possível fazer isso, a Be Music rendeu material suficiente para que, anos depois, saíssem até coletâneas.

E olha aí um lançamento de peso do New Order com o nome de Be Music, no Natal de 1982: o compacto-brinde do Haçienda, com a banda fazendo uma versão de nada menos que Ode to joy, o famigerado prelúdio do quarto movimento da Nova Sinfonia de Beethoven. A música saiu num flexidisc da Factory, com Rocking Carol, uma tradicional canção natalina checa no lado B. Os vocais foram todos feitos em vocoder.

Advertisement

Via New Order BR

Tem conteúdo extra desta e de outras matérias do POP FANTASMA em nosso Instagram.

Advertisement

Cultura Pop

Clipes do Fantástico: descubra agora!

Published

on

Depois do sucesso inicial como fruto do casamento entre a central de produção e a turma do jornalismo da Globo, o Fantástico começou a valorizar mais o jornalismo. Ainda assim, a música não sumiu do programa.

Bom, “não sumiu”, é apelido: os musicais do Fantástico viraram grandes acontecimentos musicais que todo mundo discutia no dia seguinte. Aliás. se não fosse pela música em questão, pelo menos rolava a resenha do visual dos artistas e do clima camp de alguns vídeos (vários tinham a participação de um indefectível grupo de dançarinos).

Segundo o Almanaque dos anos 70, de Ana Maria Bahiana, o esquema de produção dos vídeos era o mais frugal possível: músicas e artistas aprovados na segunda, roteiros aprovados na terça, produção acertada entre quarta e quinta, gravação entre quinta e sexta, edição no sábado, para tudo ir ao ar domingo. Não eram superproduções, apesar de alguns clipes não economizarem em cenários, participações e detalhes.

Aliás, como se pode imaginar, nem tudo eram flores. Vários vídeos que se tornariam conhecidos (e que representaram algumas das primeiras tentativas de clipe do Brasil) traziam efeitos especiais que fizeram sucesso, mas hoje parecem mais com “defeitos especiais”. Já outros protoclipes tentavam colocar um pouco de surrealismo (pode acreditar!) no lançamento de canções que ficariam bastante populares. Um detalhe que ajudava a explicar o clima “qualquer nota” de alguns desses clipes: não havia um paradão de vídeos da Globo, e a ideia é que esses musicais fossem ao ar uma só vez e acabassem esquecidos.

Advertisement

Com a ajuda de vários amigos e leitores, fizemos uma lista de quinze clipes lançados pelo programa. Maratone e divirta-se.

“GITA” – RAUL SEIXAS (1974). Quase foi o primeiro “musical” nacional em cores lançado pelo Fantástico – a produção esmerada e os efeitos visuais deram uma atrasada na edição e a honra ficou com Chorinho fora de tempo, de Sonia Santos (que infelizmente não está no YouTube). Dirigido por Cyro del Nero, Raul circula entre obras de artistas como Pieter Breughel, Hyeronimus Bosch, Max Ernst, Odilon Redon, Salvador Dali e outros. Quem viu, ficou fã do clipe e do cantor.

“HORA DO ALMOÇO” – BELCHIOR (1974). Para arrancar lágrimas dos fãs recém-conquistados do cantor: dois anos antes de Alucinação, Belchior, com um camiseta de Super Homem, canta um de seus primeiros hits num almoço ao ar livre, armado na Praia do Futuro, em Fortaleza (CE).

Advertisement

“AMÉRICA DO SUL” – NEY MATOGROSSO (1975). O Fantástico, além de outros programas, já vinham lançando vídeos musicais antes disso, mas América do Sul é tido como o primeiro clipe nacional digno desse nome. Ney gravou no Parque da Cidade, em descampados de São Conrado e em praias da Zona Sul. E correu perigo, pendurado por uma corda, num helicóptero que estava com a porta arrancada (!), para que o diretor Nilton Travesso pudesse pegar imagens do oceano.

“AGORA SÓ FALTA VOCÊ” – RITA LEE (1975). Rita sobe aos ares num avião da esquadrilha da fumaça (opa) e canta um de seus maiores hits do início da carreira solo, incluído na trilha da novela Bravo.

“A LUA E EU” – CASSIANO (1975). Um portão de ferro, um tapete, um castiçal, uma harpa (sem cordas), um baú repleto de bugigangas, uma samambaia, uma cadeira de rodas, duas espadas (enterradas na areia), uma tuba e uma antiga máquina de costura. Tudo ao ar livre, sob o sol da Praia da Macumba, no Recreio dos Bandeirantes, Zona Oeste do Rio. Era o cenário surrealista que Cassiano encontrava para dublar seu hit, que aparecia na trilha da novela O grito.

Advertisement

“SERÁ QUE EU VOU VIRAR BOLOR?” – ARNALDO BAPTISTA (1975). Arnaldo canta e toca piano (segundo o próprio cantor, as gravações foram feitas lá pelos lados de Cabo Frio) na carroceria de um caminhão tremelicante que não economiza nas curvas (!). O casaco usado pelo ex-mutante é o mesmo que foi parar numa rifa no ano passado.

“SE VOCÊ PENSA” – MORAES MOREIRA (1976). Acompanhado por três quintos da futura Cor do Som, Moraes (lembrando um cruzamento de Phil Lynott e Lemmy Kilmister) pôs células de hard rock e jazz no clássico de Roberto e Erasmo Carlos, que já havia sido gravado por Gal Costa. O vídeo da canção é pós-psicodélico, cheio de “bolhas” lisérgicas e efeitos malucos. A participação do corpo de baile rende algumas risadas.

Advertisement

“ADMIRÁVEL GADO NOVO” – ZÉ RAMALHO (1979). O principal hit do disco A peleja do diabo contra o dono do céu (1979) em vídeo gravado na Avenida Paulista.

“TEMPOS MODERNOS” – LULU SANTOS (1982). O clipe mais bonito exibido pelo Fantástico, sem dúvida. Filmado em Ouro Preto e Mariana (MG), traz o moderninho Lulu viajando ao passado ao observar a pintura de um zepelim. Detalhe muito louco: mesmo aparecendo em flashback, o dirigível tem merchan de uma empresa de seguros (!).

“VOCÊ NÃO SOUBE ME AMAR” – BLITZ (1982). Pronto: a Globo era definitivamente apresentada à linguagem dos clipes oitentistas. Muita gente já tinha ouvido a canção no rádio, mas ficou sabendo que aquele grupo se chamava “Blitz” quando viu o clipe na TV.

Advertisement

“NAÇÃO” – CLARA NUNES (1982). Os clipes de Clara gravados para o programa já renderam até um DVD. O de Nação foi um dos últimos feitos pela cantora para o Fantástico e ajudava a puxar um disco de sucesso (também chamado Nação) que tinha vendido 600 mil cópias quase do nada, em meio a vários compromissos fora do país. Clara morreria no ano seguinte.

“COMO EU QUERO” – KID ABELHA (1984). Parece uma abertura do Fantástico ou uma cena de novela, mas era a banda carioca no comecinho dos anos 1980. Destaque para a participação especial do computador Apple II, que deve ter encarecido bastante a produção do clipe (reprisado bastante em programas como o Clip clip).

Advertisement

“COWBOY FORA DA LEI” – RAUL SEIXAS (1987). Os vídeos da fase inicial de Raul poderiam ser até mais históricos, mas o de Cowboy (estourada após a inclusão na novela Brega & chique) era o mais engraçado, com direito a um duelo entra o cantor e o ator-lenda do cinema nacional Wilson Grey. Além de cenas que pareciam coisa dos Trapalhões.

“MANEQUIM” – DOMINÓ (1987). O hino de protesto P… da vida foi preterido por essa música na hora de puxar o disco da boy band lançado em 1987. “Manequim foi lançada no Fantástico com um clipe com direção do Paulo Trevisan. Investiram uma fortuna no clipe, fizeram uma cidade cenográfica só para a gente gravar, foi gravado com grua, várias câmeras… Não existia isso em 1987, era como se fosse cinema”, me contou Afonso Nigro aqui.

“ADELAIDE” – INIMIGOS DO REI (1989). Anos antes de virar o chefe do Big Brother Brasil, Boninho dirigiu esse clipe repleto de efeitos especiais para a canção-besteirol do Inimigos.

Advertisement

>>> Saiba como apoiar o POP FANTASMA aqui. O site é independente e financiado pelos leitores, e dá acesso gratuito a todos os textos e podcasts. Você define a quantia, mas sugerimos R$ 10 por mês.

Continue Reading

Cultura Pop

Lembra do Strawberry Switchblade?

Published

on

Lembra do Strawberry Switchblade?

Jill Bryson e Rose McDowall não tinham um histórico muito comum a cantoras de uma dupla new wave felizinha da vida. Ainda assim, as duas integrantes do Strawberry Switchblade, que existiu entre 1981 e 1986 na Escócia (e fez sucesso com Since yesterday, em 1985), fizeram o trajeto comum às estrelas pop da época no Reino Unido. Conseguiram bastante sucesso com alguns singles, apareceram na capa do sucesso editorial Smash hits, excursionaram, fizeram vários programas de TV, etc.

Olha as meninas aí no Japão, dando entrevista em inglês mesmo, para um repórter japonês com voz de locutor da madrugada de rádio FM.

Na adolescência, Rose chegou a ter uma banda chamada Poems, na qual tocava bateria em pé, imitando a baterista do Velvet Underground, Maureen Tucker. O grupo novaiorquino era amado pelas duas garotas a ponto de terem gravado uma versão de Sunday morning, do primeiro disco deles.

Advertisement
>>> Veja também no POP FANTASMA: Peraí, Nightclubbing, de Grace Jones, fez 40 anos e não falamos nada?

O visual delas era uma mescla de felicidade new wave (vestidos de bolinhas, apliques nos cabelos) e gotiquices (a maquiagem usada pelas duas). O currículo delas era punk e deprê o suficiente para terem chamado as atenções de Bill Drummond e David Balfe, empresários e produtores que trabalharam com bandas como Echo & The Bunnymen. O primeiro single delas, Trees and flowers (1983), falava de transtorno de ansiedade e agorafobia, entre outros temas nada leves. Em pouco tempo, elas estavam contratadas pela Korova, o selo que lançava os discos do Echo.

“Nossa imagem era colorida, mas nossas mentes estavam sombrias”, lembrou Rose num papo com o The Guardian não faz muito tempo. Outras letras, como Let her go, Who knows what love is e Being cold, não economizam na hora de falar de tristezas, problemas, altos e baixos (estes, em especial).

>>> Veja também no POP FANTASMA: Shakespears Sister: 26 anos de briga resolvidos, clipe novo, entrevista no New Musical Express, etc

Rose conta ao Guardian que desde criança foi interessada em magia, que sua mãe lhe dizia que ela costumava falar em línguas estranhas, e que às vezes ela “tinha pesadelos que continuavam quando eu estava acordada”. Um tempo depois, ela chegou a ser atraída pelo malucão Genesis P. Orridge para que fizesse parte do grupo de magia Thee Temple ov Psychick Youth. Nunca deu muito certo, e ela sempre dava uma desculpa e não se juntava ao grupo. “Posso praticar feitiços, mas não farei parte de um coven ou ‘coisa’ de qualquer outra pessoa. Eu não entro em grupos”, conta.

Advertisement

Rose de vez em quando ainda lança uma coisa ou outra – como o álbum acima, de demos e gravações realizadas nos anos 1980. Jill Bryson, por sua vez, sumiu mesmo (inclusive da convivência da ex-colega). Reapareceu em 2013 como integrante de uma nova banda, The Shapists, que tem na formação sua filha Jessie Frost.

>>> Saiba como apoiar o POP FANTASMA aqui. O site é independente e financiado pelos leitores, e dá acesso gratuito a todos os textos e podcasts. Você define a quantia, mas sugerimos R$ 10 por mês.

Continue Reading

Cultura Pop

Nico Rezende: “Sempre tive essa veia pop, mas com um pé na MPB”

Published

on

Nico Rezende: "Sempre tive essa veia pop, mas com um pé na MPB"

É só começar a introdução de Esquece e vem, maior hit do produtor, arranjador e músico Nico Rezende como cantor, que os anos 1980 retornam: as guitarras apitando, a cama de teclados, o som da bateria eletrônica (“que eu conseguia programar de modo que não parecesse eletrônica”, lembra Nico).

E agora o som dessa época está de volta mesmo: os três álbuns de Nico Rezende pela Warner foram reeditados nas plataformas digitais. Além disso, Nico relançou Esquece e vem em versão acústica (com participação da cantora Ive) e está preparando um disco novo para o fim do ano. Hoje tem sai single novo, Pra que serve uma canção. “Acho que estou na fase talvez mais criativa da vida, estou compondo como nunca compus antes”, diz Nico Rezende ao POP FANTASMA.

Advertisement

POP FANTASMA: Como tá sendo revisitar o sucesso de Esquece e vem alguns anos depois de lançado?

NICO REZENDE: Foi uma ideia que surgiu, muitas pessoas comentando sobre a música, e eu decidi fazer uma coisa meio luau, com uns violões. Dar uma repaginada na música, trazer para os dias de hoje. Ela tinha uma atmosfera pop anos 1980 e fiz a regravação, que é praticamente uma releitura de violões. E chamei a Ive, uma cantora amiga que mora em Portugal para a gente fazer juntos. A coisa foi acontecendo, foi bem aceito, tá tocando bastante em rádio, o clipe tá indo bem. Tá sendo um bom resgate.

Como essa música foi feita?

Essa música surgiu numa manhã de gravação em 1986. Eu estava no estúdio com o Lulu Santos, numa sessão de gravação para o disco dele. Eu cheguei muito cedo no estúdio e, tocando piano, pintou essa melodia. Lembro que pedi pro assistente de estúdio gravar para eu não esquecer. Gravei a melodia de piano e depois apresentei para o Paulinho Lima, meu parceiro. Na verdade ele nem era meu parceiro ainda, só apresentei a melodia e fomos juntos fazendo a letra.

Advertisement

Nessa época você já estava com ideia de fazer carreira solo? Você já era um arranjador bem requisitado.

Eu já tinha gravado dois compactos cantando, mas não tinha essa coisa… Eu ainda morava em São Paulo, e não tinha essa coisa do mainstream. Queria gravar mas não tinha na cabeça a ideia do popstar. Isso nunca esteve muito latente na minha cabeça. Gostava de compor, de tocar e de estúdio. Eu cresci em estúdio. A coisa foi andando mais quando eu gravei o primeiro álbum, com Esquece e vem.

Eu já tocava com Lulu na época e ele me deu um superespaço nos shows dele. Sempre cantava três músicas, e os shows eram superlotados. Senti que dava pé e comecei a tomar gosto pela coisa. Ainda mais com aquela escola, de estar vendo o Lulu em todos os shows. Eu fazia backing vocal e tocava teclado. Via o Lulu fazendo aquela performance maravilhosa que ele sempre fazia.

Antes disso já tinha visto um outro grande showman que era o Ritchie, sempre no palco performando, cantando. Aquilo tudo foi me acendendo essa chama e esse conhecimento a partir desse contato com eles.

>>> Veja também no POP FANTASMA: Guilherme Arantes: “Meu próximo disco vai ser o meu ‘The Wall’”

Como você começou na música? Antes do Lulu teve o Ritchie, o Kiko Zambianchi… Você fez os arranjos do primeiro disco do Kiko, não?

Advertisement

Isso, fiz o arranjo, a gente produziu juntos na EMI, aqui no Rio. Comecei na música muito cedo, tocava em conjunto de baile. Eu fui muito curioso, tocava um pouco de tudo. Desde os 8 anos de idade já fazia violão clássico. Mas eu era curioso por teclados e tal. Eu fui crooner de baile de Carnaval, tinha um conjunto de Beatles que eu tocava contrabaixo, era o Paul McCartney do grupo, só tocava músicas do Paul.

Isso em São Paulo, certo? Você é paulista?

Sim, paulistano.

Mas você tem o maior sotaque carioca!

Eu já tô há trinta e tantos anos no Rio! Mas eu falo “paulista” perfeito também, se eu forçar eu consigo fazer. Mas a coisa foi andando assim, trabalhei em vários estúdios, fui assistente de estúdio, o cara que plugava os cabos. Isso foi me dando uma noção de estilos, sempre gostei muito de balada. Essa coisa da MPB pop, sempre tive essa veia pop, mas com um pé na MPB, sempre pronunciado, porque cresci ouvindo bossa nova. Adorava bossa nova, jazz, mas cresci ouvindo rock progressivo também.

Advertisement

Então minha formação tem essa mistura de coisas. Minha bagagem musical é essa, são coisas que eu escutava com meu pai, o que ele escutava e o que meus irmãos mais velhos escutavam. Ele não gostava muito de Roberto Carlos e eu adorava, tinha compactos dele, que eu ganhava. Lembro que o carrinho ia passando na rua e ia distribuindo compactos do Roberto Carlos…

Sério? Lá em São Paulo?

Acontecia isso, era uma kombi que distribuía os compactos de plástico. Era um patrocínio da Colgate! Era um disquinho colorido, promocional, lançamento da música. E foi assim que eu conheci a obra do Roberto, as primeiras músicas. Sempre gostei muito das baladas, gostava muito do Elton John, do Paul McCartney, do Stevie Wonder. Enfim, foram coisas que me influenciaram bastante. Acho que minha música tem um pouco de tudo isso. Consigo enxergar um pouco de Beatles na minha música, um pouco da harmonização mais Motown… Acho que a gente é produto do meio, a gente é o que a gente ouve.

E depois vieram Ritchie, Lulu. Você veio pro Rio imediatamente? Como foi isso?

Vim para fazer um teste na banda do Ritchie, para fazer a excursão Menina veneno. Éramos eu, Torcuato Mariano, Nilo Romero, todo mundo começando ali, né? Torcuato hoje é diretorzão da Globo, The Voice, guitarrista superconceituado. Eu tinha um tecladinho só, nem tinha nada. As coisas foram acontecendo, com Ritchie eu comprei mais um teclado, mais dois, mais três. E aí a coisa foi andando, comecei a ser chamado para fazer muito arranjo no Rio, Marina Lima me chamou… Gravei com todo mundo que você puder imaginar daquela época.

Advertisement

O Ritchie eu imagino que dava ter sido um susto porque foi aquela chegada brava no mainstream. Os shows dele eram muito lotados, né?

Foi realmente um susto, porque aquilo parecia Beatles. Em todos os lugares nos quais a gente ia – principalmente no Nordeste – os quarteirões das ruas dos hotéis tinham filas que davam voltas, formavam anéis. Era gente que queria pegar autógrafo dele. Nunca vi uma coisa assim. As pessoas passavam desmaiadas na frente do palco, era muita loucura.

O Ritchie comentou uma vez que as meninas desmaiavam de propósito porque achavam que seriam levadas para o camarim…

Era isso mesmo! Fingiam que desmaiavam para serem levadas para um lugar mais tranquilo. Acontecia. Aliás acontecia de tudo, até eu ir dormir e achar fã dentro do armário.

Como apareceu a Warner na sua vida?

Advertisement

Eu já tinha umas músicas estouradas nas vozes de outros artistas, Perigo com Zizi Possi, Transas na voz do Ritchie. Eu comecei a fazer meu primeiro disco e as gravadoras abriram o olho. O Liminha era diretor artístico da Warner, ouviu meu trabalho, gostou. Ele estava fazendo a trilha de uma novela, colocou o Esquece e vem na novela (O Outro, de 1986). Assim apareceu a Warner. Liminha tinha – ainda tem – um estúdio junto com o Gilberto Gil, que é o Nas Nuvens, e gravei dois desses três discos lá. A Warner me contratou e no primeiro disco já fui uma grande revelação. Eu era o que mais vendia na época (rindo).

Você ia muito no Chacrinha, lembro disso.

Ia lá, no Globo de Ouro, Fantástico eu fiz duas vezes. Aconteceu bastante coisa legal.

Advertisement

Você acredita que imprimiu uma marca no trabalho como arranjador e produtor? Tinha uma coisa bem característica do seu som que eram aqueles teclados na introdução… Como em Rolam as pedras, do Kiko Zambianchi…

Sim, esse arranjo é meu. Não sei, acho que tudo aconteceu meio por acaso. Eu tinha um teclado da Roland que todo mundo quando me via tocando nele, queria comprar. Eu fazia tudo com ele, era um teclado que tinha um sequenciador, eu programava tudo muito bem nele. Fui uma das primeiras pessoas a conseguir programar bateria eletrônica direito, que não parecesse eletrônica. Eu tinha essa coisa de estúdio, tirava até linhas de baixo. Tirei a linha de baixo de Casa, do Lulu Santos.

Eu achei uma sonoridade logo no primeiro disco, que era a seguinte: eu gostava muito de baixo fretless (sem traste, como o usado em Everytime you go away, de Paul Young) e umas guitarras bem espaciais, bem cinematográficas. O Torcuato era um cara perfeito para isso, ele tem uma timbragem de guitarra incrível. Eu procurava manter essas pessoas em tudo o que eu fazia. Chamava o Torcuato, o Arthur Maia no baixo, Leo Gandelman no sax – a gente fazia os solos de sax com uma pegada nada jazzística e muito pop, eram melodias, não solos. Aí é o famoso “diga-me com quem andas”.

Advertisement

Isso que tá acontecendo hoje com a música, de ela se tornar mais modal, com poucas variações na harmonia – você começar a caminhar harmonicamente sem mexer em muitas notas – acho que eu já fazia desde aquele tempo. Enxergo minha música assim, dessa coisa que enxerguei, da surpresa que o pop empreende no arranjo. Enxerguei isso naquela época e isso criou uma marca na minha música.

Você falou isso do baixo fretless, das guitarras espaciais, e lembrei direto do arranjo de Transas

Isso, isso, tinha o Torcuato… Uma coisa meio cinema, de criar texturas sonoras, não tentar tocar a música, criar texturas. Imagens sonoras, sabe? Isso fica claro, quando entra o Esquece e vem, e vem a guitarra (imita o som) e as cordas vêm entrando devagarzinho. Aquilo já cria uma atmosfera. Eu me lembro do Liminha escutando isso e falando: “Pô, cara, isso parece cinema”. Falei que a ideia era essa mesmo, criar uma atmosfera cinematográfica para a música. Apostei nesse idioma e criei essa marca, acho que consegui.

E depois da Warner?

Estou no décimo disco. Em 1991 gravei o Tudo ficou para trás, foi numa gravadora chamada Esfinge, que logo quebrou. Até teve música em novela, Além da sedução (de Lua cheia de amor). Em 1995 gravei o Tapete azul, que também teve música em novela, Sempre a mesma história, da novela Quem é você? Em 2002 gravei o Curta a vida, foi um disco que eu gravei pela Som Livre. Tem várias inéditas e umas regravações.

Advertisement

Em 2007 eu fiz aquele que talvez seja meu melhor trabalho, o Paraíso invisível. É um disco que eu me preparei três anos para fazer, totalmente acústico, não tem teclados, todas as partes de camas de teclados são feitas por naipes de sopros. Mas um naipe nada usual. Eu fazia as camas com flugelhorn, flauta em sol e trombone. Em 2012 foi o Piano e voz, releitura de piano e voz das minhas cações mais relevantes. Dei uma pausa e comecei a tocar jazz em outro projeto. Gravei um DVD e CD tocando Chet Baker.

E agora venho lançando singles e no final do ano vou lançar meu décimo disco, que é o Vida que segue. Vai ter a releitura do Esquece e vem, um single que a gente vai fazer agora que é o Pra que serve uma canção. E outras inéditas, tem um feat com a Roberta Campos que tá pronto também. Fiz algumas pausas (rindo), até longas demais pro meu gosto. Mas a vida é isso mesmo. Mas acho que estou na fase talvez mais criativa da vida, estou compondo como nunca compus antes. Eu ligo o rádio e fico tão desanimado que me deu vontade de voltar (rindo). Brincadeira, tem coisas legais, mas a gente ouve umas coisas e “opa”.

E como tem sido o isolamento?

Dedicado ao estúdio: tenho trabalhado, composto, feito lives. Dei um tempinho, mas ano passado fiz 28 lives. Tenho composto bastante, produzido outras pessoas. Meu estúdio é perto da minha casa. Agora mesmo já estou trabalhando numa canção nova. Fiquei revendo HDs antigos também, coisas que estavam meio esquecidas e repaginei. Dei uma limpada no guarda-roupa.

Advertisement
>>> Saiba como apoiar o POP FANTASMA aqui. O site é independente e financiado pelos leitores, e dá acesso gratuito a todos os textos e podcasts. Você define a quantia, mas sugerimos R$ 10 por mês.

Continue Reading
Advertisement

Trending