Crítica
Ouvimos: Jonathan Richman – “Only frozen sky anyway”

RESENHA: Jonathan Richman lança Only frozen sky anyway, disco visionário e cru, que mistura folk, yacht rock e pop latino em clima de despedida.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Blue Arrow
Lançamento: 4 de julho de 2025.
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O grande público só chegou ao trabalho do músico norte-americano Jonathan Richman por duas vias bem tortas: 1) quando sua banda Modern Lovers passou a ser bastante cultuada e regravada (Jerry Harrison, guitarrista e tecladista dos Talking Heads, foi um modern lover antes da fama, e isso ajudou no culto posterior ao grupo); 2) quando ele apareceu na comédia romântica safada Quem vai ficar com Mary? (Bobby e Peter Farrelly, 1998) como o narrador-com-violão que dava liga à história.
Até hoje você tem que explicar essas duas coisas quando cita o nome de Jonathan, mesmo que ele tenha uma carreira solo bastante prolífica e seja citado por dez entre dez nomes clássicos do rock como referência. No Brasil, Renato Russo posou para uma foto (numa reportagem do Jornal do Brasil, em 1986) segurando a capa de It’s time for Jonathan Richman and The Modern Lovers, disco de 1986 de Jonathan, lançado pela Warner (por um milagre) no Brasil.
- Ouvimos: Bass Drum Of Death – Six
Você talvez tenha que explicar também que Road runner, clássico dos Modern Lovers, esteve em filmes como Escola do rock, foi gravada pelos Sex Pistols e foi bastante chupinhada – o Jesus and Mary Chain deu aquela referenciada básica em Frequency, encerramento do disco Honey’s dead (1992). Seja como for, corta para 2025: Jonathan lança seu décimo oitavo álbum, Only frozen sky anyway, um disco de tom altamente desconcertante, em que ele fala sobre vida, morte, passagens para outras dimensões. E faz isso apostando num furo temporal em que Syd Barrett, vivo e ativo, adere ao yacht rock e ao pop latino. Detalhe: Jerry Harrisson, ex-Modern Lovers e Talking Heads, está com Jonathan nessa. Ele produz o disco ao lado dele e da esposa de Richman, Nicole Montalbano.
Em Only frozen sky anyway, tudo soa como uma gravação feita ao vivo, sem ensaios, mas com altas pretensões. I was just a piece of frozen sky anyway, na abertura, parece uma versão “selva” do Steely Dan, em que o violão de Jonathan chega a lembrar o de Jorge Ben. But we may try weird stuff tem percussão intermitente, violão tocado de ataque, coral gospel e risadas nos vocais. Night fever, dos Bee Gees, ganha releitura brincalhona tocada no violão, em que a letra é criada e recriada espontaneamente, com novas frases.
Richman adere ao blues-gospel em You need me too, ao sambinha de gringo na docemente romântica The dog star e a uma vibe meio cigana, meio David Byrne em Se va pa’volver, música na qual o tema são os amigos que estão partindo. That older girl, que mais parece uma canção de Ben E. King, fala sobre paixões entre damas e garotos novos. Uma grande curiosidade é o ska David & Goliath, a batalha bíblica entre Davi e Golias musicada, relida por um artista que em vários momentos foi visto como alguém pequeno demais para sentar na mesa com os adultos.
No fim, The wavelet, canção-drone delicada com lembranças de John Cale e Velvet Underground, soa como uma inusitada oração, ou como uma despedida – seguida de um tchauzinho final na vinheta I am the sky, canção delicada em que Jonathan proclama: “mãe, eu sou o céu / sou o vasto oceano azul do céu”. Richman, que sempre adorou temas complicados e visões que só ele parecia ter, nem tenta soar “comum” em Only frozen sky anyway, típico disco feito com energia de visionário.
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Crítica
Ouvimos: E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante – “Lembrança” (EP)

RESENHA: Gravado entre São Paulo, Nova York e Berlim, Lembrança transforma o afastamento dos integrantes do E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante em cinco instrumentais entre post-rock, psicodelia e shoegaze.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Balaclava Records
Lançamento: 15 de setembro de 2026
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Não é só a Terra que anda meio distante: Lucas Theodoro (guitarra e sintetizador), Luccas Villela (baixo), Luden Viana (guitarra) e Rafael Jonke (bateria), os quatro integrantes do E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante andaram meio separados nos últimos anos, com Villela vivendo em Berlim desde 2023 e Viana tendo passado o último ano em Nova York.
Lembrança, o novo EP, é fruto desse afastamento, que levou a banda a compor as canções sem o baixo – Luccas precisou incluir o instrumento posteriormente, e as gravações contaram com sessões dos integrantes em seus estúdios particulares, entre SP, NY e Berlim. Lidando com uma “sombra” de instrumento, o grupo acabou criando um conceito sonoro de “lembrança”, que acaba atravessando as cinco faixas instrumentais do disco.
O clima voador, conhecido da banda, já surge na abertura, com a vinheta O passado é mais infinito que o presente – e dá um tempinho com o pé no chão de Aos poucos, aberta com aro de caixa e seguida com riff circular, além de um beat quase latino, numa onda próxima do post-rock. Lá pelas tantas, a guitarra ganha eco e surge uma parte 2 mais pesada, com guitarras distorcidas. Reprise, que dura um minuto, é literalmente uma vinheta – poderia ser até um “estamos apresentando” antes de um intervalo, com violão psicodélico e teclados numa onda meio new age.
Sem margem, em clima de transe instrumental, tem beat leve de maracatu. Já Antes que eu me esqueça, no fim do EP, é o som mais cara progressiva no disco, com uma batida que lembra um corte feito num drum’n bass e um clima bem viajante – até que cai no shoegaze, com guitarras bem emparedadas.
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Crítica
Ouvimos: Julia Jacklin – “The gem”

RESENHA: Em The gem, Julia Jacklin transforma lembranças da educação católica em dúvidas sobre deus, fé e controle, num disco de folk rock, jangle pop e guitarras fantasmagóricas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: 4AD
Lançamento: 25 de setembro de 2026
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Dizem por aí, e faz todo sentido, que da vida das pessoas, o catolicismo não sai – você pode ter ido para o extremo oposto (satanismo? ateísmo?), mas aquela quantidade de dogmas e aquele esquema de educação pela repressão entra no sangue. A australiana Julia Jacklin não é religiosa, nem vem de família católica, mas estudou em colégio católico em Melbourne, participou de corais, e muito de sua vida em meio a experiências religiosas acabou inspirando sua música. The gem, o novo disco, vem bastante desse universo, ou da resolução dele.
Existe um quinhão conhecido do pop e do rock ligado à iluminação – um “lance” religioso, mas que não necessariamente é ligado a nada organizado. De Madonna e Nando Reis, passando por Mutantes, Gilberto Gil e até Oasis (Champagne supernova é isso, não?), muita gente falou de transcendência sem citar deus, Jesus ou qualquer outra entidade. The gem fala de deus como uma eterna dúvida, que passa por temas como: é possível ser feliz de verdade com uma força superior te olhando? Por que alguém precisaria disso? Ainda mais levando em conta que o deus “onipotente e onisciente” não impede as maiores barbaridades de acontecerem?
Angel vision, por exemplo, usa símbolos religiosos para elencar questionamentos como “havia criaturas celestiais desesperadas para cantar para mim / braços frouxos, eu empurrava o teto / como ter certeza de que a fumaça que sai por baixo da porta não é de um incêndio?”. If I had the hand of god questiona: “se eu tivesse a mão de deus / será que o deus cuja mão eu tenho / seria do tipo que saberia a hora de desistir antes que a situação piore tanto?”.
Em alguns momentos, a impressão é a de que alguém MUITO religioso saberia o que responder a cada faixa de The gem – mesmo que fosse uma resposta baseada em algo muito intangível e fora da realidade. God sometimes, uma das letras mais realistas do disco, faria fanáticos religiosos espumar de raiva. Se Criolo perguntou “você vai querer mesmo se comparar com o Senhor?” em Ainda há tempo, Jacklin simplesmente passa por cima do assunto: “tente controlar o clima / mas às vezes você precisa ser um deus / force o momento a chegar / diferente das estações, isso não vai acontecer por si só”.
Musicalmente, The gem tem às vezes uma cara de folk rock + britpop puto e fantasmagórico, como em God sometimes e Brand new, em que ruídos surgem em meio às guitarras distorcidas e ao vocal sensível e controlado de Jacklin. If I had the hand of god é guitar country rock triste, e The hardest thing soa como jangle pop deprê e bonito – Get away from me (I think I’ll love you soon) é jangle de verdade, com um pé no pop sessentista.
Já Angel vision, I wish (com a participação da dupla folk de Melbourne, The Maes) e Real life trazem as belezas acústicas para o álbum – a segunda com uma batidinha indie dance e teclado celestial. You turned on the tap é voz e piano com cara de Lou Reed: som quase cerimonial e vibe contemplativa. Os vocais passam força e tristeza, e certo abandono – e mesmo nos momentos menos doloridos, há muita dor nos questionamentos de The gem.
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Crítica
Ouvimos: Throe – “II” (EP)

RESENHA: Em II, Vina Castro desmonta o metal melancólico do Throe em quatro faixas de drones, distorções e ambient sombrio, com sons que parecem ganhar corpo e virar fumaça.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 14 de setembro de 2026
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O Throe, projeto solo de Vina Castro, guitarrista da Huey e co-criador do site Sounds Like Us, já havia aparecido por aqui com Silver blue, álbum de metal introvertido, melancólico e chuvoso, com faixas longas e uma vocação ambient que aparecia em vários momentos. II, EP disponível apenas no Bandcamp, leva essa característica para outro lugar: sai um pouco a estrutura de “banda”, entram ruídos, drones, distorções e sons que parecem estar sempre prestes a se desfazer.
O release avisa que tudo foi gravado da maneira como foi composto – e dá pra notar que é música preservada no instante em que surgiu, inclusive com suas imperfeições. Às ondas, com nove minutos, abre com teclado e logo recebe uma guitarra sombria, que poderia apontar para o grunge, o pós-punk ou o stoner. Só que a faixa vai abandonando essas referências até virar praticamente uma onda sonora: dedilhados, drones e distorções se acumulam num clima hipnótico.
Agosto brinca justamente com uma das dualidades do EP. O início pode soar bonito e ambient ou anunciar alguma coisa bem menos palatável – e a segunda opção vai ganhando terreno quando entra a guitarra e os timbres assumem uma tensão fantasmagórica. Poro segue nessa direção com um drone tristonho, distorções e um clima que parece feito para arrepiar o ouvinte (será que o nome vem daí?).
Já Feedback abismo encerra o EP com um drone sombrio e repetitivo, quase um harmônio demoníaco – a primeira lembrança que vem à cabeça é The marble index, de Nico. A pressão aumenta, diminui e retorna num movimento circular, até o som começar a desaparecer no fim. Quatro faixas que parecem nascer, ganhar corpo e virar fumaça na frente do ouvinte.
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