O assunto passa batido por várias biografias de Jimmy Page, guitarrista do Led Zeppelin. Tido como um dos maiores nomes da guitarra desde os anos 1960, Page também se deixou levar pela onda tecnológica propiciada pelo rock progressivo, na década seguinte. Tanto que em 1973 resolveu comprar um brinquedinho recém-lançado no mercado: o sintetizador ARP Odyssey, da ARP Instruments. Gostou tanto da nova aquisição que apareceu até em anúncios do teclado.

Jimmy Page, o mago do sintetizador

Jimmy Page, o mago do sintetizador

Jimmy Page, o mago do sintetizador

Para Page, o ARP Odyssey era a “mais nova viagem musical” e um aparelho “fácil de ser utilizado”, que promovia a “maior variedade de sons em performances ao vivo”. Enfim, nada daqueles sintetizadores monstruosos que requeriam vários módulos novos e pareciam aparelhos de filmes de ficção científica.

TECLADINHO

O ARP Odyssey era um sintetizador analógico que foi colocado no mercado em 1972 e logo virou mania entre novos músicos, não apenas por funcionar bem ao vivo, mas também por caber com folga em estúdios caseiros. O ARP Odyssey também começou a ser usado largamente na produção de jingles e trilhas sonoras. Foi tirado do mercado em 1981, suplantado por vários modelos novos e com sons mais modernos – e em 2015 foi colocado de novo no mercado pela Korg.

David Friend, cofundador da empresa ARP Instruments, lembrou nesse papo aqui que criou o ARP Odyssey com a finalidade de ser um sintetizador simples, que não precisaria de cabos e outras instalações.

“Foi o primeiro sintetizador projetado exclusivamente para o palco. Então, nós realmente o projetamos para o músico. Portanto, era fácil de aprender, era fácil de configurar e você podia fazer muitos sons com ele muito rapidamente, sem ter que fazer muitas alterações nos controles”, disse, lembrando que Jimmy Page foi um dos primeiros usuários, e logo depois o Steely Dan e Herbie Hancock também compraram o teclado.

LUCIFER RISING

O ARP Odyssey de Jimmy foi imediatamente acrescentado ao estúdio caseiro do músico em Plumpton, Sussex. Mas, pelo menos de acordo com as fichas técnicas dos discos do Led Zeppelin, não chegou a ser usado em nenhuma música da banda – até porque os teclados costumavam ficar mesmo na mão do baixista John Paul Jones. Page usou o ARP Odyssey numa obra que demorou vários anos para ser lançada em edição não-pirata: a trilha de Lucifer rising, filme experimental de Kenneth Anger, feito em 1972 e só lançado comercialmente em 1980.

A trilha oficial de Lucifer, na real, foi feita por Bobby Beausoleil, em 1966, quando a produção foi iniciada. Só que em 1967, Anger brigou com Bobby ao descobrir que o músico, que estava morando com ele, escondia enormes quantidades de maconha em sua casa.

O livro Led Zeppelin – Quando os gigantes caminhavam sobre a Terra, de Mick Wall, diz que Beausoleil levou parte do material do filme com ele e o enterrou no Vale da Morte, deserto no Leste da Califórnia, para onde a “família” de malucos liderada por Charles Manson se mudaria. Kenneth, em “retribuição”, teria jogado uma maldição no músico. Dois anos depois, Bobby, que tinha se tornado justamente um integrante da trupe abilolada de Manson, foi preso pelo assassinato do músico Gary Hinman. E Page, um praticante dos rituais do ocultista inglês Aleister Crowley (que serviram de inspiração para o filme) entrou na história em 1972, convidado por Anger para fazer a trilha.

ARP NA TRILHA

O guitarrista não é muito claro a respeito do material que Anger lhe deu para trabalhar. Inicialmente disse que não recebeu nada para criar em cima. Depois disse que teve acesso a 25 minutos do filme, o que o inspirou a criar uma trilha mórbida, em que nenhum instrumento fosse facilmente reconhecível. Filtrou a guitarra pelo ARP e criou um efeito de sintetizador que forneceu o barulho “dos chifres de Jericó”, como afirmou o guitarrista no texto de apresentação do único lançamento oficial do disco, em 2012.

Só que… Jimmy e Kenneth brigaram, pra variar, e o trabalho foi interrompido. A trilha só foi completada no fim dos anos 1970, quando Beausoleil, da prisão, voltou a contactar Anger e sugeriu que ele voltasse ao trabalho. O músico montou uma banda com outros detentos, conseguiu patrocínio da administração do presídio para comprar equipamentos (além de uma merreca fornecida pelo cineasta) e gravou as músicas, que foram usadas no filme e até saíram na “trilha oficial” de Lucifer rising, em 1981, em LP.

Dizem que é melhor que a trilha de Page. Ouve aí.

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