Crítica
Ouvimos: Torpedo – “What the fucked do we all do now? – Lights”

RESENHA: Torpedo mistura stoner, metal, punk e noise num álbum conceitual brutal e fantasmagórico, cheio de protesto, ruídos extremos e catarse sonora.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Broken Clover / Charogne Records / Cheap Satanism
Lançamento: 10 de outubro de 2025
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O “lights” ao lado do nome do disco dessa banda suiça, indicando “leveza” ou algo do tipo, só pode ser sacanagem. O Torpedo, trio formado pela cantora e guitarrista Carro Loubère, pelo baixista Jay Liseron e pelo baterista Drew Hammer, chega a meter medo várias vezes durante a audição de What the fucked do we all do now? – Lights, disco que une estilos como stoner, metal, punk, progressivo, noise rock e fantasmagorias musicais dignas de trilhas de filmes de Kenneth Anger.
What the fucked, que só pode ser escutado no Bandcamp ou em formato físico, é um álbum conceitual que traz a “transcrição de um programa de rádio que debate o estado ecológico do nosso planeta”. Faz isso investindo num metal prog sujismundo e aterrorizante de oito minutos e vários segmentos (Some wolves), em vinhetas fantasmagóricas com conversas e ruídos sobrepostos (Some e Where), em punk rock direto e sombrio (Now) e em pancadaria stoner-metal espacial (ONW).
- Ouvimos: Maraudeur – Flaschenträger
Já as letras unem poesia, spoken word, protesto, crueza punk a la Crass, paródia realista (“tudo se transformou em mercadorias: carros conectados, telefones inteligentes, homens brancos de cinquenta e cinco anos / homens brancos em um SUV ouvindo Born to be wild, geolocalizado / seu próprio anúncio, para sua própria vida / ar-condicionado, janelas fechadas” em ONW, que encerra com a declamação “a intensidade dos sentimentos pode destruir esse presságio, até mesmo nossos objetivos / queremos derrubar tudo isso”) e gritos lancinantes de tortura. Uma curiosidade é que, no Bandcamp, o Torpedo define seu som como “heaven metal” (metal do paraíso), seja lá o que for isso – e esse estilo realmente existe na plataforma.
O Torpedo encerra What the fucked do we all do now? da maneira mais abrasiva possível: a faixa Noise, que já havia ganhado uma “introdução” na primeira parte do disco, surge inteira no esplendor dos seus quase 23 minutos. Aqui, o departamento é o dos ruídos sombrios, gritos lembrando possessão demoníaca e tortura sonora em geral. Aquele ódio mortal que pode destruir e derrubar a podridão, e que anda tão em falta nos dias de hoje.
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Crítica
Ouvimos: Starly Kind – “Inferno (xe/xem)”

RESENHA: Starly Kind mistura lo-fi, screamo, pós-punk e psicodelia em Inferno (xe/xem), EP sombrio sobre angústia queer e demônios internos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: CorpoRAT Records
Lançamento: 8 de maio de 2026
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Musicista agênero do Oregon, Estados Unidos, que se radicou em São Paulo, Starly Lou Riggs criou a Starly Kind como veículo para uma música lo-fi e fantasmagórica. Um som que volta e meia ganha ares math rock, ou que se aproxima de um art rock em clima de pesadelo. Inferno (xe/xem) é um EP sobre demônios xamânicos, angústia existencial queer, dores acumuladas durante uma vida inteira – e sobre como é chamar o inferno de casa.
Starly kind, a faixa de abertura, é lo-fizaça, com glitches, clima dreamy e vocais torturados e gritados. Held me with soma a isso um clima mais ambient, em que vibrações screamo unem-se ao experimentalismo da música. Superanatural clutches fica entre a psicodelia e a no wave, com direito a uma guitarra próxima do som do Black Sabbath. Uma curiosidade e uma mudança de rumo vêm com Bloodlust rising, algo entre Beach Boys, Residents e Devo – seguida justamente pela onda reggae + dub + fantasmagoria de And the devil watched me dance in.
- Ouvimos: Delmore – Tão logo cada poste se ilumina
Demon dreams, que encerra o disco, é pós-punk mais do que tudo, e é a música mais bonita do EP – aliás lida com uma noção mais tranquila de “beleza” na melodia, ainda que também invista na vibe sombria das outras faixas. Um disco bem instigante, em todos os momentos.
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Crítica
Ouvimos: Duo Violeta – “Mar pequeno”

RESENHA: Duo Violeta mistura violão, escaleta e folk nordestino em Mar pequeno, disco contemplativo, viajante e cheio de imagens sonoras.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: The Citadel House
Lançamento: 22 de maio de 2026
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Se você for com muita sede ao pote no disco do Duo Violeta e chegar meio desavisado, pode acabar adorando o encontro do violão com a sanfona. Depois vai dar risada quando descobrir que André Sant’Anna e Rafael Campanaro, são na real, e respectivamente, o encontro da escaleta – teclado de sopro popularizadíssimo pelo reggae e pelo dub – com o violão. Mais que isso, as gravações tiveram vários testes de estúdio, que envolveram posicionamentos dos músicos, microfones diferentes e muitas experimentações sonoras.
- Ouvimos: Seera – Sarab (EP)
Mar pequeno tá bem longe de ser um disco experimental, mas passa perto. É um disco brasileiríssimo e quase sempre nordestino, que parece seguir o curso de um rio e contar uma história – já que as músicas parecem encadeadas e evocam imagens que soam do mesmo modo. Será marés, Na rede e O boto, no começo, são folk nordestino – sendo que a última insere clima sombrio e efeitos de tremolo na escaleta. Para a ilha é forró + jazz, mas tem algo de indie rock na sonoridade, até algo de Beatles no meio da melodia. Inverno no mar é balada, blues e folk, com final contemplativo e várias partes diferentes.
Esse clima de viagem sonora, que insere segmentos diferentes em canções curtas, chega no ápice na última faixa do álbum, Emergiu. Até lá, André e Rafael proporcionam surpresas como a melodia de À deriva, que chega a lembrar um soul no final. Ou a recriação da folclórica Peixe vivo, cujas linhas melódicas só se tornam claras lá pelas tantas. Ou o clima folk brasileiro de Náufrago. Um disco muito bonito.
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Crítica
Ouvimos: Soma Please – “Ballet” (EP)

RESENHA: Soma Please mistura synth pop, pós-punk e dream pop em Ballet, um EP que cruza Queen, U2, LCD Soundsystem e até samba indie.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Skud & Smarty
Lançamento: 14 de maio de 2026
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O Soma Please é um duo luso-britânico, formado pelos músicos Nuno Bracourt e Rob Williamson. Não chega a ser um som muito inovador, mas tem detalhes que conquistam de cara, já que Ballet, o EP, soa às vezes como um encontro entre estilos e épocas. Tipo o que rola com I’m a fan, entre o synth pop e uma onda que lembra o Queen, ou Love, um dream pop com peso. Pockets on my sleeves é pós-punk com alma oitentista, e algo de Radiohead e LCD Soundsystem misturado.
- Um tributo português a David Bowie
As duas últimas faixas do EP são as mais diferentonas do disco: Alone é um curioso pop meio samba, meio bossa, com cara indie e solar. What’s the score é mais ruidosa, abre com clima sombrio fake, e depois chega a lembrar um blues rock eletrônico. Ballet é um pequeno apanhado do som deles, e uma demonstração de sonoridades que estão no arquivo deles.
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