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Faixa a faixa: Década Explosiva, “A distância entre as cidades”

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Década Explosiva é originalmente o nome de um grupo “pirata”, formado por músicos de estúdio, que gravou coletâneas de covers de sucessos internacionais nos anos 1970, pela antiga Odeon. É também o nome do projeto musical do artista alagoano Marcos Cajueiro, nascido em Arapiraca, com mais de quine anos de carreira independente, passando por bandas como Capona e My Midi Valentine.

“Cresci ouvindo esses discos, em casas de parentes”, explica ele, que lança agora o EP A distância entre as cidades, um disco marcado pela influência da música easy listening (tons de Beatles e Beach Boys podem ser ouvidos aqui e ali). “Na época que fiz essas canções eu estava num relacionamento a distância, então é uma coisa concreta”, recorda Marcos. “Mas também tem uma obra do artista cearense José Leonilson, um bordado que tem as frases ‘se você sonha com nuvens’ e ‘a distância entre as cidades’, que gosto bastante. E ele junta o nome do álbum com o nome da terceira faixa”.

Marcos, que compôs sozinho todas as músicas do disco, mandou um faixa a faixa para o Pop Fantasma. Ouça lendo (foto: Jamille Queiroz/Divulgação).

1 + 1 = 1. A harmonia e a melodia dessa faixa são os elementos mais antigos no disco. Lembro que a fiz no violão, quando ainda morava com minha mãe, há uns 15 anos. Ela estava muito estressada naquela época e odiava o som insistente de qualquer instrumento perto dela. Por isso, comecei a tocar no violão da forma mais suave e minimalista possível. Afinei em D para conseguir acordes abertos mais graves e então foram acontecendo algumas inversões.

Tentei muito formatar essa composição em alguns de meus projetos anteriores, mas nunca rolou. Quando eu já tinha três faixas definidas para o disco de agora, veio-me a ideia de trazer aquele velho tema como introdução. Experimentei colocar letra na primeira parte do riff de guitarra, mas acabei percebendo que as palavras não eram necessárias ali. Aquilo que queria “dizer” já estava naqueles acordes. Foi quando descartei todo o vocal que havia antes de “rua aberta em mim”.

Resolvi deixar a primeira parte do tema só com a guitarra, por cinco vezes (há algo com os números ímpares em música). Nos encontros com a banda que gravou comigo (Arnon Câmara, bateria; Matheus Miranda, teclados; Reuel Willys, baixo) ainda tentamos acrescentar ambiências na primeira parte (antes da entrada do vocal). Criamos ruídos, colagens aleatórias, sons invertidos de sintetizadores… As ideias eram até legais, mas, após tantas tentativas, senti que a primeira parte deveria conter apenas guitarra e silêncio.

Em O ouvido pensante, Schafer diz que as canções também nos ouvem. É justamente esse minimalismo de 1 + 1 = 1 que cria espaço suficiente de escuta para deixar a música ouvir. E à medida que os acordes vão decaindo em silêncio, os sons ao nosso redor começam a se tornar mais perceptíveis. O vocal entra exatamente quando ocorre uma modulação tonal. Suspeito que aqui haja algo de Tom Jobim no vocal, algo presente nas canções mais introspectivas na linha piano e voz, tipo “canção em modo menor”.

Uma das coisas mais surpreendentes e maravilhosas dessa canção é a percussão que o Gilú Amaral criou para ela. A música já estava “pronta”, em fase de mixagem, quando tocou aleatoriamente no meu streaming Dança do pajé, do Hermeto Pascoal. Naquela hora, soou um estalo: “é isso!”. Talvez faltasse um elemento místico, algo que evocasse uma natureza encantada. Foi quando pedi ao Matheus algumas frases de piano elétrico meio “arpeggiadas”.

Disse ao Thiago (do estúdio Toca do Lobo, onde o disco foi masterizado) que precisava de uma percussão como aquela. Ele disse que tinha gravado no dia anterior com um percussionista muito bom (e ele tava certo). Isso levou a música exatamente (e mais um pouco) para a atmosfera que eu queria. Inclusive, ela ainda apresentava uma parte final só de guitarra que acabei cortando nos últimos momentos da mixagem, já que não me parecia fazer mais sentido qualquer coisa depois do clímax.

Os versos são frases que se referem a uma paisagem emocional que não pode ser nomeada. Alguns desses versos foram coletados, como “rua aberta em mim”, de Walter Benjamin, referindo-se a uma paixão. “Summer, hummingbird” é de um lindo poema de Raymond Carver. O título da canção aparece escrito na parede num cenário do filme Nostalgia, de Tarkovsky.

Lembro que pesquisei a respeito da equação 1 + 1 = 1. Encontrei um texto que, de acordo com a tradução do google, afirmava que a sequência tinha algo relacionado ao monismo, à unidade das coisas, à imagem de uma gota de água que se junta à outra gota de água formando não duas gotas diferentes, mas uma única gota. Essa ideia é retomada em Década explosiva romântica, com o verso “eu sou você”.

ARIZONA SONHO. O riff principal de Arizona sonho me perseguia há um tempo. Tinha tentado desenvolver esse rascunho algumas vezes, mas não encontrava uma forma. Faltava refrão. Foi quando assisti, em 2020, ao filme Arizona dream (1993), do Kusturica. Já gostava muito do realizador e achei especialmente bonito um monólogo do personagem interpretado por Johnny Depp. Fui pesquisar no script do filme e não sei explicar bem como isso ocorreu, mas percebi que as frases encaixavam perfeitamente com a métrica daquele velho riff e que elas poderiam ser os versos da canção. Obrigado, Kusturica, meu parceiro, pelos versos!

Àquela altura, precisava como sempre de um refrão (malditos refrões, estão cada dia mais difíceis de se pescar). Ouvindo um antigo rascunho, meio jam, do riff, percebi que havia tentativas de improviso para uma linha de baixo e que, em determinado momento, surgia a frase melódica de she is the dream that I have as I wake, então ajustei o final da frase pensando no flow do vocal do Mos Def, na canção Creole do Carlie Hunter. Que música!

Nessa época, ainda não havia o projeto Década explosiva. Eu estava super perdido no hiato pós Capona, sem saber se ainda era indie, se queria ser guitarrista de jazz, cantar em inglês ou português etc. Um pouco depois, quando percebi que tinha material para um EP e que queria mesmo cantar em português, pensei em alterar a letra. Mas gostava tanto da minha parceria transtemporal com Kusturica que também não podia abrir mão da letra em inglês.

Ao perceber que ainda havia espaço para dois blocos de versos, resolvi fazê-los em português. Quando já tinha verso, refrão e letra, parti à procura de uma linha de baixo. Precisava de algo como aquela linha de baixo absurda de Tart do Elvis Costello, mas como não manjo dos grooves de baixo, simplesmente não me saia.

Ainda sem banda, mas já começando a produção do que viria a ser o disco com Thiago, joguei pra ele a ideia do baixo. Falei da referência e sugeri que ele desenrolasse. Dias depois, ele me alegrou imensamente com a linha de baixo incrível que hoje tá na música. Thiago, além de ser um grande produtor, engenheiro de mixagem etc., é um músico excelente, grande amigo e adorador de gatos.

Em algum momento do final da mixagem, ainda pensei em tirar essa música do disco, numa tentativa de manter certa unidade estética entre todas as outras faixas, que notoriamente possuem elementos MPB 70/80. Mas me dei conta de que a unidade já tava lá. Essa ideia de unidade me vinha por achar que o Pink Floyd não deveria ter gravado Welcome to the machine e Have a cigar no disco Wish you were here. Pensei que simplesmente seria muito foda um disco composto “apenas” por Shine on you crazy diamond (parts I-IV) + Wish your were here + Shine on you crazy diamond (parts VI-IX) – não que as outras duas canções do álbum não sejam legais, mas elas emanam outra atmosfera.

SE VOCÊ SONHA COM NUVENS. Com exceção da letra, Se você sonha com nuvens é uma música antiga. Numa longínqua noite arapiraquense, soube que um grande ex-amor da época da faculdade estava em outro relacionamento, e que eles iriam ter um filho. Isso me deixou meio atordoado e fiquei ali, ruminando a notícia com o violão em mãos. Assim me vieram os acordes e a melodia, quase que de uma vez. Com o tempo, fui alterando alguns acordes e ela acabou ficando mais complexa nesse sentido.

Interessante pensar que, naquela época, meu conhecimento de harmonia era muito básico. Só sabia os campos harmônicos maiores e menores e suas respectivas escalas. Então, não podia justificar nem nomear os acordes subV7 e as modulações, mas sabia que funcionavam bem. Com a banda que tinha naquele período (Super Amarelo, que tem o disco For your babies, 2015), ainda tentamos tocar essa canção com letra em inglês, mas não me parecia dar certo.

Depois tentei levá-la para a Capona, mas nosso querido baterista era muito grunge cheirador de benzina em flanela (metaforicamente falando, é claro), tanto que se negava a tocar uma música tão “fofa”. Quando ele finalmente cedeu, gravamos no disco Atom heart auto (2017) – que eu odeio muito e queria que ninguém ouvisse, diferentemente do Adults are the young who failed (2015), do qual eu gosto muito e queria que todo mundo ouvisse -, com o nome de She’s open seas (nome inspirado naquele título She’s thunderstorms, do Arctic Monkeys).

Contudo, o fantasma dessa canção, mesmo depois de gravada com a Capona, nunca me abandonou. Era como se eu não tivesse lhe dado a forma devida. Segui mexendo nela, alterando acordes, acrescentando cromatismos. Ela começava com E/G# (nossas casas…) e depois seguia para C#7b9. Acabei substituindo esse E/G# por um C#b7#9 (lembro, numa aula de harmonia, um professor ter falado algo como “esse acorde com a nona aumentada não é nem maior nem menor, é ambíguo, tenso.. Há uma música do Toninho Horta que já começa com esse acorde…”).

Aquela foi a primeira vez em que ouvi falar no Toninho e pensei “também quero ter uma música que comece assim”. Depois ainda lembrei do velho caminho darksideano do b7#9 para o b7b9. O último acorde dela era um D7/A, com a melodia finalizando na nota A. Mas, durante as aulas de guitarra jazz, descobri que a galera curtia terminar as músicas numa modulação de acorde com sexta.

Substituí o D7/A por um C6, mantendo a última nota do vocal no A, que é o 6º grau do C – Matheus ainda sobrepõe um acorde diferente (que não lembro qual) no piano e que ficou muito legal. Nessa música, começam os arranjos de metais do disco. Nunca tinha gravado com músicos profissionais, contratados. Fazia bandas com meus melhores amigos, independentemente de suas aptidões musicais.

Lembro que, certa vez, precisava de um guitarrista e meu amigo Rodolfo me disse: “Tem o João Paulo! Agora, assim, ele literalmente não sabe tocar guitarra, mas tem ideias muito boas porque conhece muita coisa foda”.

Minha ideia pro disco, no sentido dos arranjos, era que soasse como algo clássico e velho, no caminho da MPB dos anos 70/80. Então eu tinha essa ideia de arranjo de metais. Além de influências mais diretas como o disco do Verocai (1972), esses arranjos de metais também se remetem a uma vibe easy listening, tipo Burt Bacharach. Esse vocal do refrão tem uma passagem relativamente aguda pra minha voz (F#). Fiz questão de treinar muito pra conseguir alcançar essa nota da maneira mais suave possível. Queria algo com aquele lance melódico suave do Clube da Esquina.

Por fim, o título é de uma obra em bordado do artista Leonilson. Lembro que um amigo comentou sobre essa obra lá por 2007 e aquelas frases – se você sonha com nuvens/ a distância entre as cidades – nunca mais saíram da minha cabeça.

DÉCADA EXPLOSIVA ROMÂNTICA. É curioso pensar que a canção de abertura da maior coletânea de músicas internacionais românticas de todos os tempos (Década explosiva romântica) não é uma canção de amor romântico no sentido conjugal da coisa, mas uma música sobre amizade, a velha ponte sobre as águas “troublulentas”. Preciso ressaltar que Bridge over the troubled water, talvez pelo arranjo e aquele clímax foda do final, seja a melhor canção popular de todos os tempos. Apesar das várias esquinas temáticas ao longo de seus sete minutos de duração, Década Explosiva Romântica é uma canção sobre amizade.

Eu costumava sair de casa para trabalhar com meu computador em algum café de Maceió. Também levava o violão. Ia tocando no caminho de ida, nos intervalos do trabalho e na volta, sempre procurando resolver alguma melodia incompleta. Certa vez, voltando pela avenida Amélia Rosa, acabei recordando uma velha progressão que por algum motivo me soava interessante: | Ab Gm7 | F |. Não sei se essa progressão tem um nome específico, mas o Gm7 funciona como um acorde pivô e a modulação para o F fica quase que naturalmente imperceptível.

Pensei logo que aquela progressão funcionaria muito bem com uma letra em português, pois na época estava perdido na tentativa de compor na minha língua após anos criando quase que exclusivamente letras em inglês. Achei que o caminho seria modular esse F para Fm, daí naturalmente puxei o Bb7/9.

Certo dia, mexendo na progressão que viria a ser o refrão, cheguei na melodia e simultaneamente me veio a frase cantar canções de amor, o que coube perfeitamente. Então tive o insight de me referir à Década Explosiva Romântica. Sou muito fã, desde pequeno, daquelas músicas internacionais super apaixonadas. Tem algo de universal nelas, de catártico, mesmo quando as pessoas não entendem as letras, ainda é possível sentir a força, em qualquer lugar do mundo, inclusive, em Arapiraca, Alagoas.

Então eu costumava fazer umas noites de cantoria com meu querido amigo Tales Maia (ainda tentei o broder, broder… como tales, tales…), da My midi. Ficávamos bebendo, ele tocando piano e eu cantando só as pedras românticas. A gente morava junto nessa época e ele estava numa fase um tanto autodestrutiva, o que me deixava preocupado. Então pensei que a música seria sobre a gente, sobre amizade, depressão e de como poderíamos enfrentar tudo isso cantando em voz alta nossas velhas canções de amor, até o fim.

Em princípio, ela já começava com eu sou você. Lembro que um dia mandei o rascunho a um amigo, que achou a frase muito boa pra ser entregue assim de cara. Foi genial a observação dele. Fiquei sem saber o que fazer, porque é bem mais difícil criar um novo começo do que acrescentar possibilidades ao final. Se eu sou você é uma espécie de conclusão, então eu precisaria primeiramente entender todas as coisas que eu não sou, até restar apenas aquilo que eu sou.

Como numa investigação negativa não dualista, quando você percebe tudo aquilo que você não é, logo encontra a unidade. Então descartei qualquer ideia de introdução. Tinha que começar cantando para que a música não ficasse cansativa. Lembrei de Falso inglês do Toninho Horta e comecei. Mantendo apenas os dois acordes IIm7 – V7, num movimento de tensão sem resolução. Fiz quatro versos e percebi que precisava, sem aliviar a tensão, de um clímax. Consegui compor a linha de baixo groovada no estilo Colin Greenwood. Criei uma vocalização em falsete e fiz um solo de guitarra groovado jazz fusion. Instaurei o mini clímax inicial.

Depois retornei ao bloco de conclusões negativas em tensão IIm7 – V7 até que finalmente cheguei no eu sou você, resolvendo a progressão em C7M. Essa resolução da harmonia com a afirmação da letra talvez seja meu momento preferido de todo o disco. Analisando a harmonia, pensei que poderia ser uma resolução deceptiva modulante, mas depois entendi que a música poderia estar implicitamente em C maior desde o início e que a progressão Fm6 – Bb7/9 poderia funcionar como backdoor progression da tonalidade maior (IVm7 – bVII7 – I). Tais ambiguidades harmônicas são maravilhosas.

Essa é a música mais jazz fusion setentista MPB do disco. Fiquei feliz por ela ter ainda dois solos de guitarra. Tem algo do Jacarandá (1973) do Bonfá. Já havíamos gravado os metais, sem o sax soprano. Foi tudo muito rápido num único dia, sem qualquer conversa prévia com os músicos dos metais. Depois pensei que deveria ter colocado o sax soprano, da forma mais romântica possível ali pelo refrão. Então retornei ao estúdio para gravar algo mais e joguei a ideia de marcar novamente com o Wellington, para ele acrescentar o sax soprano. Por coincidência, ele havia esquecido o carregador do celular no estúdio e voltou para buscá-lo naquela mesma noite. Gravamos o sax soprano e ficou incrível, principalmente quando vem o bloco modal F – Ab – Bb – C e ele solta um improviso que ainda toca meu coração.

No refrão, eu tinha o verso cantar canções de amor, cantar canções de amor, mas sentia que faltava um clímax, uma puxada modulante que pudesse fechar o refrão. Fui pelo caminho que o Herbert usou em Quase um segundo, quando ele faz será que você/ ainda pensa em mim/ será que você / ainda (aqui acontece a quebrada harmônica) pensa em mim / da ra ra ra…. Então saiu o cantar canções que ainda vão nos ouvir, e aqui usei o ensinamento do Schafer.

Lembro com muita alegria da noite em que Reuel e eu harmonizamos as vozes dessa parte (e isso me remete a I’ll remember Frank Lloyd Wright / All of the nights we’d harmonize ‘til dawn). Sou muito fã do Paul Simon e foi um prazer colocar Simon e Garfunkel com sotaque brasileiro na letra. Inclusive, as letras talvez sejam o elemento menos relevante pra mim nas composições, o que eu realmente quero dizer está sempre nos sons, nunca nos seus significados. São os fonemas que me importam. Alma ao mar – soou bem, coube ali e pronto.

RAISA. Fiz as letras do disco em 2020, quando estava deprimido, sem vontade sequer de sair da cama, morrendo de ansiedade, achando que tinha falhado em tudo na vida. Estava apaixonado, mas na época Raisa e eu morávamos em cidades diferentes. Durante as fases mais duras da pandemia, não podíamos nos encontrar. Então fomos nos desencontrando.

Conheci Raisa em 2012, durante uma turnê da My Midi pelo nordeste. Ficamos juntos uma noite. Ela me desenhou algumas vezes depois disso e eu sempre dizia que queria lhe retribuir com uma canção. Nos reencontramos em 2019. Eu tinha passado os últimos anos me prometendo que nunca mais faria uma canção de amor. Dos nossos últimos encontros, ficou a frase “eu sou doidinho por ti”, que ela dizia adorar no meu sotaque alagoano.

É engraçado pensar que há lugares no nordeste brasileiro onde não se fala ti e di, mas “tchi” e “dji”. Então pensei que precisava fazer uma música com essa frase, o que em princípio me incomodava, pois meus ouvidos indies anglosaxões insistiam em taxar a frase como “brega”. Venci isso com a ajuda do Torquato, que, em defesa de um “pop genuinamente brasileiro”, declarou que deveríamos “assumir completamente tudo o que a vida dos trópicos pode dar, sem preconceitos de ordem estética, sem cogitar de cafonice ou mau gosto, apenas vivendo a tropicalidade e o novo universo que ela encerra”.

Comecei a mexer na frase em GM7, fui pra Gm6, F#m7 e fluiu o II – V – I menor. Quando percebi, tinha uma bossa nova. Apesar de estar decidido a percorrer estéticas “clássicas” brasileiras no disco, não queria uma bossa nova propriamente dita, por causa da quase inevitável estrutura harmônica AABA. Queria o bom e velho “verso – refrão – verso – refrão…”.

Com uma violência de jardineiro de bonsai, tentei atrofiar a canção para que ela atendesse a meu desejo, mas ela se mostrou uma árvore indomável e surgiu o segundo galho A, o fruto B e o terceiro galho A. Tava lá, a bossa nova. Daí me lembrei da estreitíssima linha entre shoegazer e bossa nova: melodias melancólicas sussurradas sobre uma base de ritmo lento e levemente dançante. Ela tinha que começar ruidosa, com camadas de guitarras distorcidas, o tremolo deixando o pitch da guitarra flutuando, durante toda a parte A(1).

Em seguida, na parte A(2), percebi que era a hora da transmutação: as guitarras shoegazers dão espaço para o arranjo bossa nova propriamente dito, entram o piano elétrico e as frases suaves de metais. Essa saída da parte A(1)-ruidosa para a parte A(2)-bossa-nova-elegante também é uma das minhas partes preferidas do disco. Fiquei muito orgulhoso quando meu pai ouviu essa canção e me disse que primeiramente achou que tinha algo errado no começo, até que meu irmão explicou a ele que era intencional.

Passei vários anos evitando compor canções de amor (apesar de ouvi-las cotidianamente). Pensava que era algo como ser ateu e adorar a música do Arvo Pärt, mas quando me vi dizendo a Raisa que queria morar com ela, não era mais uma questão de escrever ou não canções de amor. Eu estava, afinal, escrevendo sobre mim.

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Lançamentos

Radar: Queen, Jacob The Horse, Moon Construction Kit, Laptop, Dead Air Network, The Legal Matters

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Capa do disco Queen II

Acabou 2025! Bom, acabou pra você – no nosso coração ele continua vivo. Mas de qualquer jeito, vai aí o último Radar internacional do ano, destacando até mesmo uma canção natalina do Queen, que adianta um relançamento do grupo – e ainda não foi lançada oficialmente, mas você já ouve aqui. E ainda tem mais. Feliz ano novo!

Texto: Ricardo Schott – Foto (Queen): Capa do discoo Que

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QUEEN, “NOT FOR SALE (POLAR BEAR)”. Queen II, o segundo álbum do grupo britânico, de 1974, vai voltar recauchutado às lojas e plataformas em 2026. O relançamento é adiantado por Not for sale (Polar bear), canção gravada durante as sessões do disco. Trata-se de uma canção feita pelo guitarrista Brian May para o Smile, sua banda pré-Queen – e algumas gravações piratas da canção com o Smile já rolaram por aí. Brian, que lançou a faixa num especial de Natal apresentado por ele na rádio britânica Planet Rock, apresentou a canção falando que “até onde eu sei, ninguém nunca ouviu esta versão”.

Aliás, essa música do Queen é uma canção de Natal. Daí o músico ter ficado na maior pressa para apresentar a canção, que nem sequer está ainda nas plataformas digitais – May disse também que a música ainda era “um trabalho em andamento”, mas “estou colocando isso de surpresa no meu especial da Planet Rock porque fiquei curioso para saber o que as pessoas acham”. Um detalhe curioso é que a letra não faz referência direta ao Natal. A data surge meio como um subtexto, na história da criança que olha vitrines e depara com um urso polar de brinquedo que “não está à venda”.

JACOB THE HORSE, “666 CHICKS”. Numa homenagem ao filme Faster, pussycat! Kill! Kill!, de Russ Meyer, quatro garotas sanguinárias substituem os integrantes da banda punk de Los Angeles Jacob The Horse no clipe de 666 chicks, seu novo single. Não sem antes sequestrar os músicos, subjugá-los e comer os quatro vivos. O guitarrista e cantor Aviv Rubinstien canta que as mulheres “morrerão assassinando homens que tentam mantê-las acorrentadas” e revela uma história de sua família nos versos “minha avó Hannah costumava jogar coquetéis Molotov em nazistas / e eu pago dez dólares por um café / e escrevo poesia ruim / não há esperança para mim” (a avó dele realmente fazia isso – Aviv é judeu esquerdista e muito do repertório do Jacob The Horse é sobre a escalada do fascismo nos Estados Unidos). O irônico álbum At least it’s almost over, o próximo do grupo, sai em 20 de março.

MOON CONSTRUCTION KIT, “CHEMICALS”. O synthpop da Suíça vai bem, obrigado. O Moon Construction Kit é um projeto criado pelo músico Olivier Cornu, cuja sonoridade baseia-se em synths gélidos, algum peso nas guitarras e psicodelia como clima geral a envolver as músicas. Chemicals, o novo single, transita entre David Bowie e uma espécie de boogie art-rock, com arranjo e melodia contemplativos. “Chemicals é o som de sentir demais. Em algum momento, a única forma de lidar com isso é desligar. Eu queria que a faixa refletisse essa luta entre o caos e a necessidade desesperada de quietude”, conta Olivier.

LAPTOP, “CHRISTMAS CARD FROM A HOOKER IN MINNEAPOLIS”. Jesse Hartman é um sujeito experiente: tocou com Richard Hell, teve uma banda de indie rock chamada Sammy (que nos anos 1990 gravou discos na Geffen), e montou depois o Laptop – uma banda que começou lá pelos anos 2000, e que hoje Jesse divide com seu filho Charlie. O grupo lançou recentemente o single Indie hero, mas despede-se de 2025 com um single natalino: é a versão deles para Christmas card from a hooker in Minneapolis, sucesso de Tom Waits.

“Essa foi a primeira música que me mostrou que dava para misturar tristeza e humor na mesma frase. Ela basicamente me formou. Essa música é a planta-baixa do Laptop, eu sabendo disso ou não”, conta Jesse, que tocava a faixa desde os 13 anos no piano da família, antes de montar qualquer banda.

DEAD AIR NETWORK, “THIS MIGHT HAVE HAPPENED BEFORE”. “O Dead Air Network mistura punk retrô, new wave e influências góticas para criar uma experiência sonora única, que dialoga tanto com fãs nostálgicos quanto com novos ouvintes”, faz questão de esclarecer esse grupo punk de New Jersey, que na faixa This might…, volta esbanjando referências de Hüsker Dü. A música está no EP The fifth of october.

THE LEGAL MATTERS, “EVERYBODY KNOWS”. Muito romantismo e um clima que faz lembrar bandas como Badfinger e Wings – é o som de Everybody knows, música nova dessa banda de power pop do Michigan. Uma música cuja letra fala a respeito de sons que lembram momentos legais do passado e os lugares dos quais você veio – você pode viver para sempre numa lembrança, numa fotografia ou em algo que te lembre coisas boas. Uma canção de Natal, embora nem seja esse o objetivo da banda, já que a data festiva nem é citada.

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Lançamentos

Radar: Ebony, Marina Sena e Psirico, Tenório, Favourite Dealer, SantiYaguo, Zé Manoel

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Foto (Ebony): Emna Cost / Divulgação

Hoje é o último Radar nacional do ano – em 2026 tem mais. O single novo de Ebony, que abre caminho para a versão deluxe do ótimo disco KM2, encabeça a lista, que está variadíssima como sempre. Ouça e passe adiante!

Texto: Ricardo Schott – Foto (Ebony): Emna Cost / Divulgação

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EBONY, “DONA DE CASA”. “Essa foi a primeira música escrita para KM2, e acabou ficando de fora da versão experimental. Ela foi pensada para ser uma forma de interlúdio, mas acabou sendo um dos versos mais potentes que já fiz na vida, e a escolhi para anunciar a versão completa do álbum”, conta Ebony, que lança em breve nas plataformas a versão deluxe de seu ótimo álbum KM2 (resenhado pela gente aqui).

Dona de casa, a tal música que ficou de fora, abre caminho para a nova versão do álbum, e detalha a luta de Ebony para chegar onde chegou – e o “onde chegou”, vale dizer, inclui datas já agendadas para divulgar o KM2 deluxe, levando seu rap feminista e aguerrido adiante. Aliás, confira abaixo as datas da KM2 deluxe, a tour.

 

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MARINA SENA feat PSIRICO, “CARNAVAL”. Em 2025, Marina Sena lançou seu terceiro disco, Coisas naturais – seu melhor lançamento até agora, conforme falamos em nossa resenha. E ela encerra o ano com um lançamento especial de verão, o EP Marinada vol. 1 – projeto multimídia que se estende ao audiovisual, cabendo um videoclipe oficial da versão estendida de Carnaval e cinco lyric videos, todos dirigidos por Marcelo Jarosz e Vito Soares. A tal nova versão de Carnaval ganha a participação de Marcio Vitor (Psirico), e mais foco ainda no batuque e na diversão.

TENÓRIO, “PEGA, MATA E COME”. Jazz também combina com perigo e tensão – a banda Tenório, que une improvisos, solos e experimentalismos, já havia mostrado isso com o single Pedra do rio não sabe que montanha é quente. Com Pega, mata e come, o segundo single, a coisa ganha contornos mais selvagens, soando como um bicho atrás de sua presa. Na formação do Tenório, Filipe Consolini (piano), Henrique Meyer (guitarra), Victor José (baixo) e Felipe Marques (bateria). Em 2026 sai o primeiro álbum.

FAVOURITE DEALER, “WAVES”. Destaque de uma cena de bandas nacionais que revitalizam o shoegaze, esse grupo curitibano já havia lançado dois singles em 2025, Frustrating e Drowning. O ano encerra para eles com Waves, faixa que destaca os vocais tranquilos, o clima quase psicodélico e as guitarras sujas – algo no meio do caminho entre o stoner e sons mais melódicos. E já tem clipe.

SANTIYAGUO, “T.O.C.”. Voltado para o metal + hard rock de terror, SantiYaguo (ou Santiago Miquelino, seu nome verdadeiro) pegou um blues-rock feito por ele com Tiago Teixeira, transformou em metal, e lá veio o single T.O.C.. A música ganhou um clipe bastante criativo, dirigido por Fabiano Soares, em que uma mulher é exorcizada por um padre fã de Black Sabbath (que usa Iron man, autobiografia de Tony Iommi, como Bíblia Sagrada).

ZÉ MANOEL, “CORAL” (CLIPE). Patrimônio Vivo de Pernambuco, o Samba de Véio da Ilha do Massangano surge em Coral, contrapartida audiovisual da faixa-título do novo disco de Zé Manoel – é até bem mais do que um clipe, com uma linguagem de curta-metragem. No vídeo, dirigido por Tiago Di Mauro, Zé Manoel chama a atenção para o corpo como território sagrado, casa da voz e da memória ancestral. “O corpo é o meu primeiro instrumento. Antes de qualquer canto, há o silêncio e o som da pele. O clipe de Coral é um ato de reconciliação com a própria natureza. É um renascimento, uma oferenda às águas e às minhas origens”, afirma. Tudo é bastante sensorial, e a água surge de maneira quase ritualizada ao longo do clipe (e resenhamos o álbum Coral aqui).

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Lançamentos

Radar: Alex Vanderville, The Dreaming Void, I Smell Burning – e mais sons do Groover

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Foto (Alex Vanderville): Divulgação

O Pop Fantasma tá na Groover! Por lá, artistas independentes mandam seus sons pra uma rede de curadores – e a gente faz parte desse time. Fizemos hoje uma relação do que tem chegado de legal até a gente por lá – começando com o som de Alex Vanderville

O que tem chegado até nós? De tudo um pouco, mas, curiosamente (ou nem tanto), uma leva forte de bandas e projetos mergulhados no pós-punk, darkwave, eletrônico, punk, experimental, no wave e afins.

Texto: Ricardo Schott – Foto (Alex Vanderville): Divulgação

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ALEX VANDERVILLE, “LOBOS”. Vindo do México, Alex faz rock enérgico, influenciado por punk, grunge e sons oitentistas (nomes como Nirvana, Nine Inch Nails, Soundgarden, Jeff Buckley, Stone Temple Pilots, INXS e Duran Duran estão entre suas referências), mas que busca nunca escapar do pop na hora de fazer melodias. O single Lobos tem até um ar gótico no arranjo e até mesmo no clipe – e une punk e synthpop.

THE DREAMING VOID, “DANGEROUS TOYS”. Essa banda britânica tem muito do pós-britpop em seu sóm – mas sem deixar de lado as referências do pós-punk e dos anos 1980. Dangerous toys, um de seus novos singles, tem dois segmentos, e une a tranquilidade de bandas como Starsailor e R.E.M. a um clima gelado que faz às vezes lembrar The Cure e Echo & The Bunnymen. Destaque para a voz de Amy Hart.

I SMELL BURNING, “BLUE PARADE”. Esse misterioso grupo-projeto britânico soa como um David Bowie meio sombrio e metálico, no single Blue parade – uma faixa que eles afirmam ser uma das favoritas dos fãs nos shows. A vibe meio soul da música (que tem andamento lembrando Heroes, de Bowie) com certeza deve dar uma bela animada nas plateias da banda.

DIMA ZOUCHINSKI, “LATER FATE”. Compositor e cantor que diz ter mais de cem canções compostas, Dima é filho de pais russos, mas nasceu na Inglaterra e sempre viveu por lá. Ele diz que seu estilo é “Ian Dury encontra Lemmy nas encruzilhadas do blues”, e tem uma onda assumidamente Billy Bragg em seu som – dá para perceber isso de cara na poderosa Later fate, uma de suas músicas mais recentes.

THE DRONES, “NIGHTINGALE”. Pós-punk zoeiro com vocais de desenho animado, e som que tem o maior jeitão de terror de desenho animado também – na real é uma canção gótica-shoegaze feita em clima de demo, com gravação envelhecida. Uma das faixas do novo álbum do The Drones, que se chama justamente Nightingale.

CRONOS MATTER, “CELEBRITY BOILED”. Esse projeto se define como um encontro entre Nirvana e Soundgarden – uma banda com guitarras pesadas, vocal dramático e clima ligeiramente cinematográfico e aterrorizante. O grupo afirma que a ideia de Celebrity boiled é falar dos descontentamentos e desilusões modernas – a letra fala sobre a verdadeira máquina de moer carne das redes sociais, em que todo mundo fica se comparando, e também sobre relacionamentos abusivos.

PANKOW_77C, “PRECINT 13 DEATH BRIGAD4S”. Esse projeto audiovisual italiano costuma meter bronca mais em vídeos que se assemelham a games – e dessa vez, no single novo, investem no cyberpunk cheio de erros propositais de gravação, peso eletrônico e ligações pouco usuais, já que William Burroughs e Gilles Deleuze são citados como referências misturadas no caldeirão deles. “Filosofia com batida forte. Sem revivalismos. Sem modismos. Esta é uma insurgência sonora construída sobre suor, distorção e memória. Uma trilha sonora para aqueles que se movem para sobreviver”, definem.

SLY SUGAR, “VIDA LOKA”. Esse grupo veio da Ilha da Reunião (departamento pertencente à França), e une reggae, rock, eletrônicos e tudo que você puder imaginar. Vida loka tem uma expressão em português no título, e letra igualmente em português, lembrando o pop nacional dos anos 1990.

EYAL ERLICH, “SENTIMENTAL CAPE”. Com um monte de singles gravados ao vivo – e preparando um álbum – Eyal faz um som voltado para o indie rock, e para canções que exploram “amor, perdas e questões não respondidas”, sempre “em algum lugar entre a atitude punk suave e a vulnerabilidade de cantor-compositor”, conta.

MI6, “THE MIND MACHINE”. Projeto criado por músicos experientes do som eletrônico e da cena gótica, o MI6 é baseado em “new wave, old wave, cold wave, dark wave, com toques de doom, goth, ebm e punk”, cabendo originais e covers no repertório. The mind machine é o primeiro single, um pós-punk gótico com vocais graves feito pelo integrante Dominique Nuydt. Porrada.

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