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Crítica

Ouvimos: Pina Palau – “You better get used to it”

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Em You better get used to it, a suíça Pina Palau expõe amores fracassados e memórias familiares em folk-rock confessional à la Joni Mitchell e Elliott Smith.

RESENHA: Em You better get used to it, a suíça Pina Palau expõe amores fracassados e memórias familiares em folk-rock confessional à la Joni Mitchell e Elliott Smith.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Mouthwatering Records
Lançamento: 27 de fevereiro de 2026

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Pina Palau é uma cantora e compositora de Zurique que vai na contramão daquela velha música que dizia “não vem falar dos seus problemas que eu não vou ouvir”. You better get used to it, seu terceiro álbum, já abre com os versos “você comprou ingressos para o show esgotado para que pudéssemos ver nossa banda favorita / lá na primeira fila, você e eu não conseguíamos parar de chorar” – na balada folk Something casual, onde ela já pressente o ghosting que está prestes a levar. No country garage rock Outdoor guy, ela flagra o ex-namorado, um sujeito que detestava acampamentos, combinando um passeio “na natureza” com a atual namorada (“se ela sabe montar uma barraca, então fico feliz que um de vocês saiba / não finja que você é um cara aventureiro quando não é”, destroça sem dó).

E vai daí que Pina faz essa exposição toda de sentimentos sendo realmente uma boa letrista e seguindo uma onda de “novo folk-rock alternativo” bem mais sólida do que a de muitos nomes dos EUA e Inglaterra. O som dela faz lembrar aqueles filmes noruegueses e alemães com várias cenas de viagens de trem, passeios pensativos no meio da floresta, laguinhos onde a personagem principal pode tacar umas pedras enquanto pensa na vida, coisas do tipo. O folk You see me e o country velvetiano All I want is her têm muito de Joni Mitchell. E não deve ser por acaso que o disco tem uma balada chamada Bittersweet, em cuja letra ela chora do começo ao fim (aliás, consegue chorar até vendo seu baterista tocar, o que já diz muito a respeito de como as lágrimas já estavam prestes a rolar).

Pina tem boas referências – de Elliott Smith a Courtney Barnett, passando por Waxahatchee, dá para perceber muita coisa legal surgindo no som de You better. A vibe sincera das letras chega a outros assuntos, como a transfobia do jornalismo diário (o alt-country Letter to the editor) e as lembranças da avó aventureira (em Grandma’s clothes, de versos como “não sei se é a história dela, a música ou a arte / mas há uma saudade que me puxa de volta ao lugar onde ela cresceu”). Mas tem também as lembranças doloridas da balada Euphoria e da ruidosa I’m still here – esta, sobre uma pessoa que adora acessar o zap para ouvir um áudio triste do namorado em looping. “Odeio as palavras, mas adoro ouvir você falar / explicando por que não podemos continuar”, diz a letra. Eita.

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Ouvimos: Drivin N Cryin – “Crushing Flowers”

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Ouvimos: Drivin N Cryin – “Crushing Flowers”

RESENHA: Drivin N Cryin sai do peso 80s e chega a Crushing flowers com folk rock equilibrado, ecos de Tom Petty e The Rolling Stones após fase irregular.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 10 de abril de 2026

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O Drivin N Cryin vem de Atlanta, Georgia. E surgiu em 1985 fazendo um som bem próximo do rock sulista, mas com uma onda próxima do metal e do hard rock – o que levou muita gente a enxergar neles nada mais do que uma dessas bandas pesadinhas dos anos 1980. É também uma banda que tem em seu histórico pelo menos uma coisa dura de engolir: a música Fly me courageous, hit de 1991 que acabou adotado pelos soldados norte-americanos durante o início da Guerra do Golfo Pérsico.

Não é uma coisa legal de ter no currículo, mas a verdade é que o Drivin nunca foi lá muito conhecido fora dos Estados Unidos. De 1985 para cá, eles gravaram álbuns por selos como Island e DGC, largaram o som pesado por um rock mais folk, passaram um bom tempo sem lançar discos novos e abraçaram a independência lá pelos anos 1990 – quando, de certa forma, a música deles passou a fazer parte do universo “alternativo” da época.

Crushing flowers, o 11º álbum, não faz lembrar os anos mais pesados do grupo e soa bem equilibrado entre folk e rock. Tanto que o som de Kevin Kinney (voz, guitarra) e seus amigos volta com uma baita carta de Tom Petty (Mirror mirror), Rolling Stones da fase Mick Taylor (Why don’t you go around, Keep the change, a festa rocker de Come on and dance) e até Simon & Garfunkel (Dead end road).

Tem uma onda pós-punk clara em músicas como a faixa-título (uma música com boas guitarras e boas surpresas na melodia) e até um clima glam em Jesse Electric, mas não é o principal no som deles. O lado mais clássico do grupo surge também em faixas como Looks like we’re back again tem lembranças de Won’t get fooled again (The Who) e a onda puramente southern de Death of me yet, com guitarras gêmeas lembrando Thin Lizzy.

Pelo menos no disco novo, o Drivin N Cryin vem com cara de banda que faltava pra completar o álbum dos anos 1980. Mesmo tendo momentos bem desinteressantes no passado.

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Ouvimos: The Melodrones – “The Melodrones”

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Estreia dos Melodrones mistura doo wop, girl groups e noise à la The Jesus and Mary Chain, com dream pop, psicodelia e vocais divididos.

RESENHA: Estreia dos Melodrones mistura doo wop, girl groups e noise à la The Jesus and Mary Chain, com dream pop, psicodelia e vocais divididos.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Third Eye Stimuli Records
Lançamento: 4 de abril de 2025

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O disco de estreia dessa banda australiana tá surgindo aqui com mais de um ano de atraso, mas vale a menção. Se bandas como The Jesus and Mary Chain levavam o idioma dos Beach Boys e da surf music para o universo do noise rock, os Melodrones fazem a mesma coisa com o doo wop e o som dos girl groups dos anos 1960 – além do pop melódico no estilo dos Righteous Brothers e dos Everly Brothers.

Na real, esse cruzamento já fazia parte da receita do Jesus – e de bandas seguidoras dos irmãos Reid, como os Raveonettes. No caso dos Melodrones, parece um som feito mais para embevecer do que para chocar pelo contraste, porque até climas esparsos e ruídos são usados como parte da beleza das músicas. O vocalista Rik Saunders e a baixista Melissah Mirage dividem vocais como se dialogassem ou discutissem (um lance que já vai remetendo à Motown) e o som fica entre o dream pop e a psicodelia.

O álbum só vai apresentando as referências de doo wop aos poucos, abrindo com o pós-punk voador de Keep me company, seguindo com o quase shoegaze de Bad news from Berlin (que lembra bastante o comecinho do Blur) e chegando a uma blues ballad com microfonias, Til kingdom come. Eyelash wishes II, balada bonita e celestial cantada por Melissah, lembra Marianne Faithfull.

The Melodrones volta e meia se aproxima do som do Mazzy Star (na mágica Swimming) e em vários momentos faz uma viagem sem volta ao mundo da psicodelia – como na doce I’ll belong to you e na texturizada Real life (Stoned love), repleta de glitches e de um clima lento, que quase insere o / a ouvinte na trip. O baladão-com-guitarras-pesadas No good memories, o soft rock lisérgico e instrumental Caius e a solar To err, cantado por Rik com voz de Lou Reed no começo da carreira, completam o clima variado do álbum.

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Ouvimos: Las Flores Del Underground – “Ella” (EP)

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Ouvimos: Las Flores Del Underground – “Ella” (EP)

RESENHA: Projeto argentino Las Flores Del Underground mistura psicodelia suja e elaborada; EP Ella cruza Syd Barrett, Radiohead e Pink Floyd com pegada retrô e viajante.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Mundos Imaginarios
Lançamento: 15 de dezembro de 2025

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Contratado de um selo psicodélico chamado Mundos Imaginarios, esse projeto musical argentino encara a psicodelia como algo entre a sujeira sonora e a elaboração. Tanto que Ella, EP lançado no fim de 2025, abre com Donde está?, música que, entre synths e guitarras, caminha entre Syd Barrett e Radiohead – com vocal nasal tipo Bob Dylan. Luces primeras tem solo de oboé, slide guitar e algo do Pink Floyd da transição entre a psicodelia e o progressivo.

  • Ouvimos: Lúcio Maia – Lúcio Maia

Quero llegar, terceira faixa, tem beat funkeado e viajante, oscilando entre Charlatans, Stone Roses e T. Rex, com guitarras ótimas. O mesmo clima próximo do pré-britpop surge na vibe indiana de Espejos e na viagem sonora da faixa-título, cuja guitarra faz lembrar bastante as canções mais psicodélicas do Oasis.

O EP ainda tem uma faixa chamada Revolver, em clima de psicodelia sombria como em alguns momentos do Revolver, dos Beatles – mas nessa música o som volta a lembrar o Pink Floyd. O principal do Las Flores Del Underground é fazer uma fusão entre psicodelias: tem dos anos 1960 a sons da neo-psicodelia oitentista misturados aqui.

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