Cultura Pop
Entrevista: Rogério Skylab fala de show novo, cosmos, pandemia e jornalismo

Convidamos você a ler essa entrevista com Rogério Skylab sem rir, e encarando o trabalho dele a sério. Discos como Crítica da faculdade do cu (lançado em 2019 e que faz parte da “trilogia do cu”) e músicas como Matador de passarinho vêm de pensamentos filosóficos, recordações de tempos idos e de observações do dia a dia, e não de uma vontade de apenas fazer piada. O cantor e compositor carioca leva para o Circo Voador (Lapa, Rio) no sábado que vem (dia 3 de setembro, um dia após seu aniversário de 66 anos) o show de seu disco novo, Caos e cosmos 2, quarto movimento de uma nova série com o tema “cosmos”. Em meio a músicas como A gente vai ficar surdo, Terror e O corpo real da Paola, gêneros musicais como jazz, samba e chorinho aparecem nessa fase nova da carreira do artista, cuja faceta mais piadista, gozadora, acabou ficando mais à frente nesse tempo todo.
Isso aconteceu, claro, por causa de canções como Meu pau fica duro, Você é feia, Carrocinha de cachorro quente e Dedo no cu e gritaria, mas também porque, nas entrevistas que deu para programas de TV, ficou difícil tirar o foco desse lado – que, de fato, chama a atenção. Uma ambiguidade que Skylab assume e com a qual procura lidar, como conta nesse papo com o Pop Fantasma, no qual fala de show novo, pandemia, entrevistadores (de Jô Soares e Danilo Gentili ao Monark, do podcast Flow) e até de um certo presidente aí.
(lembrando que na mesma noite no Circo vão rolar o show da banda Blastfemme, na abertura, e a festa Bauhaus)
Como tá sendo pra você esse retorno aos palcos?
Eu fui muito severo em relação a qualquer espécie de liberdade durante a pandemia, sabe, cara? Eu já tenho uma natureza ligada à reclusão, mas a pandemia me levou a uma longa quarentena. E aí eu recebi alguns convites de shows, mas não quis, não. Segui à risca o protocolo. A única vez que me apresentei foi numa live, que foi gravada durante a pandemia violenta mesmo.
Sem vacina, sem nada…
É. Eu fiquei com medo, sabe, cara? Mas como era apenas a banda… A gente gravou lá no estúdio Companhia dos Técnicos (estúdio em Copacabana), tinha um piano lá, fui fazer. Foi a única vez que me lembro de ter saído do protocolo. Não fiz show nenhum, só um recente, uns dois meses atrás no festival Picnik, em Brasília.
E o show vai ser no Circo Voador, onde você está acostumado a lançar discos…
Exato. Eu lancei agora o Caos e cosmos 2. Tenho trabalhando em cima desse projeto do Cosmos, que vai ter cinco discos. Ele vai terminar com o Caos e cosmos 3, que vai ser lançado no próximo ano. Esse projeto Cosmos é um total de cinco volumes. A minha relação com o Circo é muito familiar, pra mim é muito natural que eu faça esse show lá… No show eu vou cantar algumas músicas do último disco, mas pra mim é impossível cantar só isso. Sempre faço um apanhado de todos os discos. Vou passar por toda a minha discografia.

Skylab ao vivo no Circo (foto: Augusto César/Acervo Circo Voador)
Eu queria saber um pouco como começou essa história do “cosmos”, de fazer discos com esse tema. Porque inicialmente o projeto começou com você querendo homenagear o Moacir Santos, o Hermeto Pascoal e o Eumir Deodato regravando músicas deles, mas quando regravou as do Moacir teve problemas com a família dele, e o projeto foi deixado de lado, não foi isso?
É verdade. Você sabe que tocou num assunto que pra mim foi foda? Essa coisa dos direitos autorais, dos herdeiros, é séria. Eu deveria ter tido mais cautela e não tive. Eu gravei (músicas do Moacir para lançar no primeiro disco da série do cosmos), dai ouço a música e penso: “Putz, não vou poder lançar”… (rindo)
E deve ter ficado bem legal.
Nossa, ficou tão lindo! Porque o pessoal que me acompanha tem toda uma escola ligada ao jazz, o Leandro Braga no piano, o Pedro Aune no contrabaixo acústico e o Rodrigo Scofield na bateria. Eles têm toda uma manha ligada ao jazz, quando gravei duas músicas do Moacir ficou lindo. Depois de gravá-las é que fui entrar em contato com os herdeiros. O filho dele, que mora na Califórnia, não autorizou. Daí a gente não pode fazer nada e o que me resta é ficar ouvindo no meu computador (rindo).
Mas a ideia do cosmos… Eu tinha feito umas trilogias antes. Uma delas, anterior à do cosmos, foi a trilogia do cu. Tem os discos O rei do cu, Nas portas do cu e Crítica da faculdade do cu. Eu sou formado em filosofia, e um dos grandes pensadores para mim, um dos que mais me influenciaram, foi Gilles Deleuze. Tem um livro dele em que ele fala justamente do processo de desterritorialização. As forças saindo da terra e atingindo o cosmos. Foi aí que eu tive a ideia de primeiro fazer a trilogia do cu, como um processo de imanência, que tá na Terra, tá fundado no centro da Terra. E depois a desterritorialização, atingindo o cosmos, as forças cósmicas. Foi essa imagem do Deleuze que me levou a fazer esses dois projetos.
É uma maneira descontraída de falar de temas profundos, não?
Sim, aliás quando você fala em cu… Tem grandes intelectuais que têm debruçado sobre essa questão, inclusive um trans espanhol muito famoso, que fala justamente sobre a questão conceitual do cu. Minha grande dificuldade foi me apresentar em programas como o do Danilo Gentili. E eu vou mesmo, não tenho esse tipo de idealismo de esquerda, apesar de ser ligado à esquerda, de pensar: “Ah, o Danilo Gentili é de direita. Então não vou ao programa dele”. Esse tipo de pensamento eu não tenho, quando lanço um trabalho quero ter espaço de apresentação, até para afirmar minha música.
Mas uma das dificuldades que tenho é: como você vai falar do cu no programa do Danilo Gentili? Porque vai ser levado para a questão da gozação, do machismo, de piadas bobocas… Sei que vou sempre enfrentar essa dificuldade. Mas não poderia deixar de fazer isso, sempre procurei desenvolver todo um discurso filosófico ligado ao cu. E sei que essa ambiguidade também é uma coisa muito importante. Provavelmente no meu público vou ter muitos bolsonaristas, Muitas pessoas que gostam do meu trabalho têm uma perspectiva bolsonarista, de levar meu trabalho pro lado brincalhão, pro lado da piada, pro lado do escárnio, do bizarro, da sacanagem. Mas tem todo um outro lado que eu trabalho na perspectiva da filosofia. Essa ambiguidade eu assumo no meu trabalho.
Você tá falando do Danilo Gentili e eu me lembrei muito de você no Jô Soares. Muitas vezes o público estava rindo, mas você, não. Estava ali falando sério! Como era pra você estar lá?
O Jô Soares foi o grande responsável pelo fato de eu ser conhecido pelo grande público. Eu apresentei grande parte da minha discografia lá. Quando ele estava se despedindo da Globo, apresentando os últimos programas, ele me chamou. Ali, eu percebi que era uma despedida, que ele iria se aposentar e nenhum outro programa daquela emissora iria poder substituí-lo. Ao mesmo tempo eu sabia que muitas pessoas iriam me conhecer apenas por causa do Jô. E a partir daí iriam fazer toda uma imagem do Skylab como um cara divertido, brincalhão, piadista, que o Jô também explorava muito esse lado.
Ao mesmo tempo em que ele foi muito importante para me fazer ficar conhecido do grande público, ele também investiu numa imagem do Skylab como um cara ligado à piada. E muitas pessoas, em vez de conhecerem minha música pela minha discografia, que tá toda presente nas plataformas digitais… Enfim, não tem desculpa por não conhecer!
Verdade…
Mas enfim, a pessoa acabou me conhecendo apenas pelas minhas participações, e por ter apresentado apenas uma música, ou outra. É pouco, né, cara? É um lado apenas, a pessoa não conhece a discografia, que é o mais importante.
Quando rolou a história do Monark falando sobre partido nazista, e descobriram aquela entrevista em que você questionou os apresentadores do podcast Flow (o cantor disse que os apresentadores não estavam num botequim e que precisavam ter responsabilidade com o que era falado e transmitido), houve uma série de matérias com título “conheça Rogério Skylab, o cara que questionou o Monark”, “quem é Rogério Skylab?”. Como você viu o fato de aparecer tanta gente querendo te “apresentar” após tanto tempo de carreira?
Mas as pessoas esquecem! Você pega uma geração nova… Ainda mais em se tratando do Flow. Eu estive muito presente no podcast, fui umas quatro vezes lá. A primeira vez em que fui lá, o podcast era desconhecido. Bom, não era bem desconhecido, mas não tinha um público imenso. E o público era eminentemente de garotos despolitizados e que viviam ali no limbo da internet, nos jogos eletrônicos. Quando me chamaram pela primeira vez, sabia que era isso.
À medida que o tempo foi passando, muitos políticos da esquerda começaram a ver ali um filão muito importante, porque você iria entrar em contato com um público imenso. A partir daí as pessoas que frequentavam o Flow passaram a ser de todas as tendências. Eu me lembro de quando o Guilherme Boulos foi no Flow. O Moro foi, o Ciro foi… No primeiro programa que eu fui no Flow, disse que a esquerda não podia dar as costas àquilo. Desde o começo da minha carreira, nunca dei as costas à grande mídia. Televisão, Jô Soares, Danilo Gentili, Flow… Tem um segmento da esquerda que fala: “Você não pode ir a esses lugares, são lugares fascistas”. Sempre achei que meu discurso era pro grande público e sempre que houver oportunidade vou estar presente.
O Flow, por acaso, se definia como um bate papo de botequim… E pelo menos no meu entendimento bate-papo de botequim eram as entrevistas do Pasquim, ou algo parecido. Como você vê isso hoje?
Quando você se remete ao Pasquim… Realmente o Pasquim era gigantesco, cheguei a ler muito. Eu vi agora essa sabatina do Jornal Nacional com o Bolsonaro e isso me fez pensar como que o nosso jornalismo vive uma queda, uma decadência. Você vê aqueles comentaristas do GloboNews e compara com o pessoal do Pasquim. Eu até coloquei recentemente num post: que saudade que eu tenho de um Tarso de Castro, de um Fausto Wolff, de um Luiz Carlos Maciel… Eles eram grandes jornalistas e escritores. O próprio Alberto Dines, que era uma figura maravilhosa… Como o nosso jornalismo decaiu!
A Renata Vasconcellos e o William Bonner ficaram totalmente vazios diante do Bolsonaro, no Jornal Nacional. Agora imagina por exemplo o Tarso de Castro diante do Bolsonaro. Ia massacrar! Mas isso dai eu acho que expressa a decadência do jornalismo. Na verdade uma decadência que se expressa em todos os níveis da sociedade, não só do jornalismo. A gente tinha grandes jornalistas e hoje vive num mar de mediocridade.
Eu ia mesmo perguntar o que você achou da entrevista do Bolsonaro…
Eles se mostraram muito tolerantes com aquelas mentiras, uma atrás da outra. E você não reage! Isso pra mim é terrível. Dois jornalistas que não reagem à altura do papel que eles ocupam diante daquele festival de mentiras, de besteiras. Isso pra mim é doloroso.
Como você, que teve sempre uma discografia organizada e numerada, tá vendo o formato álbum hoje em dia? Você acha que ele ainda é valorizado?
Sabe que eu tô começando a pensar sobre isso? Eu me formei nos álbuns, tenho todo um histórico de ouvinte de álbuns, sou da época do vinil, na minha casa tem vinil pra caramba. A ideia de álbum pra mim sempre foi muito importante, álbum pra mim é como um livro, um filme. A primeira música do álbum, a última, a primeira dialogando com a segunda, o caminho que vai da primeira até a última. As questões que eu coloco, uma música dialogando com a outra… É uma coisa orgânica.
Quando desapareceu o CD e passou a ser streaming, a ideia do álbum continuou pra mim, não importa a mídia. Continuei produzindo do mesmo jeito. Mas estou começando a pensar a possibilidade, pela primeira vez, de lançar singles num próximo trabalho. Um mês lanço num single, no outro mês lanço o outro, no outro mês lanço o outro… Muda todo o conceito de álbum. Pra mim a ideia de colocar todas as músicas juntas é muito importante. É uma possibilidade nova. Hoje muita gente faz só isso.
E as plataformas não têm muita informação sobre quem toca, quem compõe… Pra você que tem lançado discos com participações isso deve ser um problema, não?
Isso é um outro problema! Pra superar essa questão eu tenho meu site e lá eu dou todo o histórico dos discos, informando todos os participantes, todos os dados técnicos. E também faço o mesmo no YouTube, coloco todos os dados técnicos. Agora, a questão do Spotify, das outras plataformas… Não tenho esse controle. Através do YouTube e do meu site, coloco tudo.
Aliás, o Abismo e Carnaval saiu em 2012, então a mudança que você fez na sua discografia, dos discos numerados para as séries, está completando dez anos. Como você decidiu fazer essa mudança?
Eu sempre penso que esse decálogo, dos discos com meu nome, do Skylab I ao X… É uma série de dez discos, né? Mas vejo que nesse aspecto não tem diferença, sempre trabalhei com a ideia de série. Os discos do Cosmos são cinco volumes. Pra mim a ideia de série é muito importante, nesse sentido eu não diferencio o decálogo dos discos do Carnaval. Tem algo que permanece em comum, que é justamente a ideia de série.
Mas se você mergulhar nesses dez discos, você vai encontrar elementos que vão estar presentes no meu último disco. Isso acontece desde meu primeiro disco, que nem era de série nenhuma e saiu em vinil, o Fora da grei (1992). Se você ouvir aquele repertório, várias músicas daquele disco eu regravei: Casas da Banha, por exemplo. Muito do estilo que já estava se construindo ali, ele vai estar presente em outros discos que gravei.
Como você pensa a divulgação dos seus trabalhos? Neste ano já foram dois discos, o ao vivo tirado da live e o Caos e cosmos 2? Já rolou isso em outros momentos, não? Rola um cuidado para um disco não atropelar o outro?
Essa periodicidade foi constante em toda minha carreira, nos meus quase 30 anos de carreira minha produção foi anual. Esse exemplo da live foi o único em que saíram dois trabalhos num ano, mas a live tá meio à margem da minha discografia. Se você produz dois por ano, nem trabalha direito a divulgação. Eu venho de um tempo em que a imprensa oficial tinha a importância muito grande. O que o Tárik de Souza ou o que o Antônio Carlos Miguel escrevessem, tinha um peso muito grande.
Hoje o que eles escrevem não tem peso nenhum, vamos convir. Pode me dar aí um grande nome da grande imprensa, de notório saber, que não vai ter importância nenhuma. Hoje a indústria é outra. A forma de entrar em contato com a música é uma outra forma completamente diferente. Eu fui de um tempo em que produzia meu disco e… quantas vezes eu não fui na redação do Globo, ou na redação do Jornal do Brasil? Eu fui, eu fazia isso. Lembro de vários jornalistas, o Pedro Só, uma porção deles. O meu primeiro disco, Fora da grei, teve uma repercussão muito boa no Jornal do Brasil, diria até que os dois grande impulsionadores da minha carreira foram o Jô Soares e o Jornal do Brasil.
Essa era uma época, hoje é outro momento. Hoje o lançamento do disco para mim não tem mais aquela importância, de você chegar, ir na redação, acabou isso. O lançamemto é “quando o disco será lançado nas plataformas?” . Ele é normalmente lançado á meia-noite, zero hora, e aquele momento é muito importante, o público tá ouvindo pela primeira vez e vai começar a soltar as ideias, as opiniões, que são tão importantes quanto o texto do velho jornalista. É a opinião anárquica das pessoas. Não é mais a crítica engessada da grande imprensa. É uma outra história. Depois eu vou fazer o trabalho de formiguinha, mostrando uma música ou outra, o trabalho das redes sociais.
Foto lá de cima: Divulgação
Cultura Pop
Urgente!: Supergrass, Spielberg e um atalho recusado

Coisas que você descobre por acaso: numa conversa de WhatsApp com o amigo DJ Renato Lima, fiquei sabendo que, nos anos 1990, Steven Spielberg teve uma ideia bem louca. Ele queria reviver o espírito dos Monkees – não com uma nova versão da banda, como uma turma havia tentado sem sucesso nos anos 1980, mas com uma nova série de TV inspirada neles. E os escolhidos para isso? O Supergrass.
O trio britânico, que fez sucesso a reboque do britpop, estava em alta em 1995, quando lançou seu primeiro álbum, I should coco. Hits como Alright grudavam na mente, os vídeos eram cheios de energia, e Gaz Coombes, o vocalista, tinha cara de quem poderia muito bem ser um monkee da sua geração. Spielberg ouviu a banda por intermédio dos filhos, gostou e fez o convite.
Os ingleses foram até a Universal Studios para uma reunião com o diretor – com direito a recepção no rancho dele e papo sobre fase bem antigas da série televisiva Além da imaginação. O papo sobre a série, diz Coombes, foi proposital, porque a banda sacou logo onde aquilo poderia dar. “Talvez eu estivesse tentando antecipar a abordagem cafona que seria sugerida, tipo a banda morando junta como os Monkees”, contou Coombes à Louder, que publicou um texto sobre o assunto.
- Apoie a gente e mantenha nosso trabalho (site, podcast e futuros projetos) funcionando diariamente.
A proposta era tentadora. Mas eles disseram não. “Foi lisonjeiro e muito legal, mas ficou óbvio para nós que não queríamos pegar esse atalho”, explicou o vocalista, afirmando ter pensado que aquilo poderia significar o fim do grupo. “Você pode acabar morrendo em um quarto de hotel ou algo assim, ou então a produção quer apenas um de nós para a próxima temporada. Foi muito engraçado, respeitosamente muito engraçado”.
O tempo passou. E agora, em 2025, I should coco completa 30 anos (mas já?). O Supergrass, que se separou no fim dos anos 2000, voltou para tocar o disco na íntegra e alguns hits em festivais como Glastonbury e Ilha de Wight.
Aqui, o trio no Glastonbury de 2022.
Foro: Keira Vallejo/Wikipedia
Crítica
Ouvimos: Lady Gaga, “Mayhem”

Tudo que é mais difícil de explicar, é mais complicado de entender – mesmo que as intenções sejam as melhores possíveis e haja um verniz cultural-intelectual robusto por trás. Isso vale até para desfiles de escolas de samba, quando a agremiação mais armada de referências bacanas e pesquisas exaustivas não vence, e ninguém entende o que aconteceu.
Carnaval, injustiças e polêmicas à parte, o novo Mayhem foi prometido desde o início como um retorno à fase “grêmio recreativo” de Lady Gaga. E sim, ele entrega o que promete: Gaga revisita sua era inicial, piscando para os fãs das antigas, trazendo clima de sortilégio no refrão do single Abracadabra (que remete ao começo do icônico hit Bad romance), e mergulhando de cabeça em synthpop, house music, boogie, ítalo-disco, pós-disco, rock, punk (por que não?) e outros estilos. Todas essas coisas juntas formam a Lady Gaga de 2025.
Algo vinha se perdendo ou sendo deixado de lado na carreira de Lady Gaga há algum tempo, e algo que sempre foi essencial nela: a capacidade de usar sua música e sua persona para comentar o próprio pop. David Bowie fazia isso o tempo todo – e ele, que praticamente paira como um santo padroeiro sobre Mayhem, é uma influência evidente em Vanish into you, uma das faixas que melhor representam o disco. Aqui, Gaga entrega dance music com alma roqueira, um baixo irresistível e um batidão que evoca tanto a fase noventista de Bowie quanto o synthpop dos anos 1980.
- Apoie a gente e mantenha nosso trabalho (site, podcast e futuros projetos) funcionando diariamente.
Mais coisas foram sendo deixadas de lado na carreira dela que… Bom, sao coisas quase tão difíceis de explicar quanto as razões que levaram Gaga a criar um álbum considerado “difícil” como Artpop (2013), enquanto simultaneamente mergulhava no jazz com Tony Bennett e preparava-se para abraçar o soft rock no formidável Joanne (2016), um disco autorreferente que talvez tenha deixado os fãs da primeira fase perdidos. Em outro tempo, Madonna parecia autorizada a mudar como quisesse, mas quando Gaga fazia o mesmo, deixava no ar notas de desencontro e confusionismo. O pop mudou, as décadas passaram, o público mudou – e todas as certezas evaporaram.
É nesse cenário que Mayhem equilibra as coisas, entregando um pop dançante, consciente e orgulhoso de sua essência, mas ao mesmo tempo sombrio e marginal. Há momentos de caos organizado, como em Disease e Perfect celebrity – esta última começa soando como Nine Inch Nails, mas, se você mexer daqui e dali, pode até enxergar um nu-metal na estrutura. Killah traz uma eletrônica suja, um refrão meio soul, meio rock que caberia num disco do Aerosmith, enquanto Zombieboy aposta no pós-disco punk, evocando terror e êxtase na pista (por acaso, Gaga chegou a dizer que o disco tem influências de Radiohead, e confirmou o NiN como referência).
Na reta final, o álbum se aventura por outros terrenos: How bad do U want me e Don’t call tonight flertam com o pop dinamarquês dos anos 90 (e são, por sinal, as únicas faixas pouco inspiradas do disco); The beast tem cara de trilha sonora de comercial de cerveja; e Lovedrug mergulha na indefectível tendência soft rock que surge hoje em dia em dez entre dez discos pop. Essa faixa soa como um híbrido entre Fleetwood Mac e Roxette – como se Gaga estivesse pensando também na programação das rádios adultas de 2035.
O desfecho de Mayhem chega como um presente para o ouvinte: Blade of grass é uma balada melancólica de violão e piano, que ecoa tanto a tristeza folk dos anos 70 quanto a melancolia do ABBA, crescendo em inquietação à medida que avança. E então, como quem perde um pouco o tom, o álbum termina com… Die with a smile, a já conhecida balada country-soul gravada em parceria com Bruno Mars, lançada há tempos como single. Dentro do contexto do disco, ela soa mais como um apêndice do que como um encerramento – uma nota de rodapé onde se esperava um ponto final. Nada que chegue a atrapalhar a certeza de que Lady Gaga conseguiu, mais do que retornar ao passado, unir quase todos os seus fãs em Mayhem.
Nota: 8,5
Gravadora: Interscope
Lançamento: 7 de março de 2025.
4 discos
4 discos: Elvis Presley no final

Ainda que o mercado de álbuns estivesse bastante fortalecido desde o fim dos anos 1960, isso não chamava a atenção de Elvis Presley (1935-1977), e muito menos a de seu empresário, o Coronel Tom Parker (1909-1997). O cantor não parecia se interessar muito por LPs, apesar de ter tido grandes vendagens de álbuns desde o começo. Muitas vezes, Elvis apenas gravava o que tinha vontade, e deixava que a RCA, sua gravadora, escolhesse capas, repertório e (o principal) como e de que maneira cada gravação seria aproveitada.
Nos anos 1970, com Elvis enclausurado em sua mansão e cada vez mais descontrolado (no apetite, nas drogas, na violência etc), o cantor ficou também cada vez mais desinteressado em gravar regularmente. Seus álbuns começavam a se tornar compilações de gravações, quase sempre feitas em etapas diferentes. Não era nem preciso que as sessões passassem pelos mesmos esquemas de produção, embora os álbuns pós-1966 do cantor tivessem todos o mesmo produtor. Era o ex-cantor Felton Jarvis, que chegou a lançar em 1959 um single cujo lado B era um tributo chamado Don’t knock Elvis.
O álbum That’s the way it is (1970), por exemplo, foi feito a partir de oito faixas gravadas do estúdio da RCA em Nashville, mas também entraram quatro faixas gravadas ao vivo em Las Vegas. Por sua vez, o restante dessas sessões de Nashville foi lançado gradativamente em singles e rendeu também o álbum Elvis country, de 1971. Era como se os álbuns do cantor, com raras exceções, já fossem compilações de out takes. E o que não falta é crítico de rock apontando para esse clima “alhos com bugalhos” na parte final da discografia de Elvis.
Pois bem, resolvemos revisitar quatro álbuns dessa última década da carreira de Elvis Presley – que, você talvez saiba, teria completado 90 anos no dia 8 de janeiro. E pode crer: quem deixou esses discos para trás perdeu muita coisa. Mesmo os mais alheios à obra do cantor, que o conhecem apenas pelos grandes hits, podem encontrar surpresas agradáveis. Porque, sim, por trás daquela fachada de decadência, havia música pulsante. Se você nem sequer desconfiasse que a vida de Elvis andava uma zona daquelas, poderia acabar achando que ele já estava rico o suficiente e havia resolvido só gravar o que quisesse, para quem quisesse ouvir, e problema dele.
- Apoie a gente e mantenha nosso trabalho (site, podcast e futuros projetos) funcionando diariamente.
- Este texto foi inspirado por um outro texto, da newsletter do músico Giancalrlo Rufatto
“ELVIS NOW” (1972). O nome desse álbum de Elvis podia indicar que se tratava de um disco ao vivo, de uma coletânea, de um álbum de sobras, de um cata-corno musical – enfim, Elvis now, como título, não quer dizer lá muita coisa. De qualquer jeito, é um dos mais brilhantes lançamentos do cantor em sua última década. Numa época em que Elvis parecia ter entendido mais ou menos para que serviam os álbuns e estava adotando estilos musicais diferentes em cada lançamento (gospel, country, baladas, etc), seu décimo-sexto LP era o que mais se aproximava de um “programa de música” (digamos assim), cabendo vários estilos musicais de maneira equilibrada.
Para manter um hábito do cantor na época, Elvis now não era um disco de “agora”. Havia uma faixa gravada em 1969 (a versão dele para Hey Jude, dos Beatles, feita nas sessões que geraram o disco Elvis in Memphis, daquele ano) e gravações de 1970 e 1971. Ou seja: era basicamente um cozidão de sobras com material ainda sem destinação. De qualquer jeito, lá você ouve, além de Hey Jude, Elvis interpretando canções de Kris Kristofferson (Help me make it through the night), da ativista e cantora Buffy Sainte-Marie (a canção de amor classe-operária Until it’s time for you to go), de Gene McLellan (Put hand in the hand), Gordon Lightfoot (Early mornin’ rain) e até um clássico gospel tradicional que, poucos anos depois, Raul Seixas e Paulo Coelho fariam questão de chupar (I was born ten thousand years ago).
“RAISED ON ROCK/FOR OL’ TIMES SAKE” (1973). Mais uma vez uma capa de Elvis traz uma foto praticamente idêntica dele (Elvis proibia que o fotografassem fora do palco), e o título lembra o de um álbum pirata ou coletânea caça-níqueis. Mas esse disco é tido como o último álbum de estúdio verdadeiramente rocker de Elvis, e tem quem o considere o melhor álbum dessa fase. O repertório veio de sessões no Stax Studios (Memphis, Tennessee), em julho de 1973, além de outras gravações feitas na casa de Presley em Palm Springs, Califórnia, em setembro de 1973.
Raised on rock tem esses dois títulos porque aproveitou os nomes dos lados A e B de um single de sucesso do cantor – o que dá a impressão também de “single expandido para álbum” e feito às pressas. Uma ouvida distraída revela pérolas como as próprias músicas-título, além de Three corn patches (da dupla Leiber e Stoller), Just a little bit (sucesso do cantor Rosco Gordon) e Find out what’s happenin’ (country gravado em 1968 por Bobby Bare). Muita gente implicou bastante com aquele papo de “criado no rock”, ate porque a canção fala de uma pessoa que foi criada ouvindo hits como Johnny B. Goode, de Chuck Berry, e nada menos que Hound dog, gravada pelo próprio Elvis (!) em 1956. Mas pula essa parte porque a gravação é ótima.
“ELVIS TODAY” (1975). A capa e o título não dizem muita coisa, mas Today é um dos discos mais saidinhos dessa fase final da carreira do cantor. O som une música pop e country, em vez de se concentrar apenas num estilo. E fica claro, pela escolha de repertório, que o álbum foi um esforço grande de Elvis em tentar entender o que estava acontecendo ao seu redor na música.
Havia o rock country de T-R-O-U-B-L-E, um dos últimos hits do cantor no estilo que o havia consagrado. Tinha uma regravação de Fairytale, das Pointer Sisters, indicando que a transição do soul à disco já tinha sido devidamente observada por Elvis e sua turma. E havia algumas regravações bem bacanas de faixas recentes, como I can help, de Blly Swan, e Pieces of my life, de Troy Seals – muito embora, justamente por causa disso, ficasse a impressão de que Today, mais do que resultado de uma gravação em estúdio, era o resultado de uma mexida em várias demos. Ainda assim, era uma mostra de que Elvis ainda se reinventava. Da maneira dele, mas rolava sim.
“FROM ELVIS PRESLEY BOULEVARD, MEMPHIS, TENNESSEE” (1976). O título desse disco lembra o de um álbum póstumo ou coletânea. É apenas o vigésimo-terceiro álbum de Elvis, feito numa época em que o cantor nem sequer queria sair de casa para gravar, e a RCA mandou instalar um estúdio na casa dele. Foi lançado pouco após a excelente coletânea The Sun sessions, e, diz o site oficial do cantor, trouxe músicas “comercializadas como se Elvis estivesse finalmente emitindo um convite aos seus fãs para entrarem pelos portões de Graceland”. Inclusive vendeu mais do que a coletânea, embora tenha custado mais aos cofres da RCA do que Sun sessions.
A capa informa que se trata de um “disco ao vivo”, mas a realidade é bem diferente: não há palmas, e basicamente o material foi feito “ao vivo” dentro da própria mansão de Elvis. O repertório é de uma força impressionante, com destaque para a balada blues Hurt, a romântica Never again e as baladas country Dany boy e Bitter they are, harder they fall, além da grandiosa The last farewell. From Elvis Presley Boulevard não é apenas um disco: é um retrato do Rei em um momento de fragilidade e reclusão, mas ainda capaz de emocionar como poucos.
-
Cultura Pop4 anos ago
Lendas urbanas históricas 8: Setealém
-
Cultura Pop4 anos ago
Lendas urbanas históricas 2: Teletubbies
-
Notícias7 anos ago
Saiba como foi a Feira da Foda, em Portugal
-
Cinema7 anos ago
Will Reeve: o filho de Christopher Reeve é o super-herói de muita gente
-
Videos7 anos ago
Um médico tá ensinando como rejuvenescer dez anos
-
Cultura Pop8 anos ago
Barra pesada: treze fatos sobre Sid Vicious
-
Cultura Pop6 anos ago
Aquela vez em que Wagner Montes sofreu um acidente de triciclo e ganhou homenagem
-
Cultura Pop7 anos ago
Fórum da Ele Ela: afinal aquilo era verdade ou mentira?