Dom Salvador mudou o rumo da música brasileira. Mas sua história permanecia obscura. O pianista, que nasceu em Rio Claro (SP) em 1938 (seu nome completo é Salvador da Silva Filho), mora desde a década de 1970 em Nova York, onde toca piano no restaurante River Cafe e alterna seu trabalho com shows e gravações ocasionais. Fez parte da movimentação musical do Beco das Garrafas e da união entre samba e jazz. Foi o músico escolhido para dar cara soul à música de Roberto Carlos, nos anos 1970, por conseguir fazer o que nenhum dos pianistas conseguia fazer- unir beleza, ritmo e sonoridades análogas às dos músicos negros americanos. Seu instrumento pode ser ouvido com destaque no clássico gospel de Roberto, Jesus Cristo.

Salvador marcou época em meados dos anos 1960 com o Rio 65 Trio (com Sergio Barrozo no contrabaixo e Edison Machado, na bateria) e com sua entrada na mesma gravadora de Roberto, a CBS (hoje Sony). Aparecia cerrando os punhos na capa do disco Dom Salvador, de 1969. E cercado de músicos negros em Som, sangue e raça (1971), disco da banda Dom Salvador & Abolição, no qual trabalhava com nomes como Rubão Sabino (baixo), Zé Carlos (guitarra) e Oberdan Magalhães (sax, flauta) e a mulher de Salvador, Mariá (voz).

Não era das melhores épocas para se falar de empoderamento negro e o mercado musical no Brasil passava por várias mudanças, o que apressou a ida de Salvador para Nova York. O músico deixou para trás uma carreira no Brasil, criou seus filhos lá e embarcou em outras aventuras. Gravou um disco solo nunca lançado em 1977, passou a se dividir em vários trabalhos e a cuidar da família. Mais recentemente vinha se dedicando a cuidar da mulher, Mariá, que teve demência no começo da década passada.

A história de Dom Salvador interessou a uma dupla de documentaristas brasileiros que mora em Nova York, Artur Ratton e Lilka Hara, que inicialmente fez um curta-metragem com a história dele, Endless soul. O curta se transformou no filme Dom Salvador & Abolition, que já percorre o circuito de festivais e ganhou o prêmio de melhor filme no festival de documentários In-Edit. Os caminhos escolhidos por Salvador são contados por ele, e por vários outros nomes, com Ed Motta, Allan Thayer (jornalista da Wax Poetics), o DJ Greg Caz, Marcos Valle e Elza Soares. Batemos um papo com os diretores. Leia e corra para ver o filme.

POP FANTASMA: Como vocês conheceram Dom Salvador? Antes houve um curta sobre ele, não?
ARTUR RATTON: A primeira vez que vimos o Salvador foi na loja de discos Tropicalia In Furs, que havia no East Village. Ouvimos lá o disco do Abolição e o disco do Dom Um Romão com ele. E depois o primeiro disco solo dele de 1969. Na época, o jornalista Allan Thayer, que faz uma participação no filme, escreveu um perfil do Dom Salvador na revista Wax Poetics. A gente gostou bastante, tinha várias capas de discos que ele tinha gravado, fotos bem legais. O artigo serviu de base para a gente criar um roteiro para o curta.

Conseguimos o telefone dele com um amigo e fomos conversando até quebrar o gelo. Fomos na casa dele e fizemos a primeira entrevista para o curta, que entrou no In-Edit e no (festival) Mimo. E antes mesmo de terminar já era claro que a gente estava indo além do planejado e começando um projeto de longa. Encontramos no Dom Salvador potencial para isso. Quando dirigimos, vemos se os personagens dos filmes querem colaborar com o filme. Essa parceria vai desde encontrar material de arquivo até começar a criar situações que influenciam na vida do Salvador. Criamos situações legais para gravar em estúdio, como quando colocamos o Salvador andando pela cidade, ou na visita à loja de discos. Aí vinham histórias que não aconteciam quando o entrevistávamos de maneira mais formal. A gente cria um teatro real entre a gente e o personagem.

Como foi se aproximar dele e propor o filme? Como perceberam que o curta não daria conta de mostrar todo o personagem?

ARTUR: Apesar da primeira entrevista  ter sido um pouco formal, era óbvio para a gente que ele era um navio mercante cheio de histórias. E existia também a vontade de mostrar o Salvador tocando piano. Eu queria mostrar os ambientes sonoros em que ele transita, os gêneros, estilos, instrumentos. Isso leva tempo, no caso dele. Ele intercala a carreira dele com o trabalho como pianista no café, e ainda tem a vida em família. E ele mora afastado de Nova York, tem que pegar um trem de Long Island para Manhattan diariamente, ele tem o tempo próprio dele. Ele é prolífico, produz bastante, mesmo em tempos mais caóticos da vida dele, ele estava ocupado. Essa época até virava uma calmaria para a gente, porque editávamos, experimentávamos.

Interessante falar que quando o encontramos ele não estava trabalhando no café. O local estava fechado por causa do furacão Sandy, que acontece em 2012. O dono do restaurante deixou o Salvador dois anos na folha de pagamento sem que ele trabalhasse. O que mostra o quanto a música dele é importante para o local. O local, um dos mais clássicos de Nova York, se monta em torno do clima da música dele. Isso virou uma camada da nossa história

Em quanto tempo o filme ficou pronto e como foi a captação? Deve ter dado trabalho (e consumido grana) ter filmagens em Nova York, Rio, São Paulo…

LILKA HARA: Esse foi um processo que começou com o curta em 2013 e foi nossa primeira aventura produzindo conteído de longa duração. Continua sendo ainda uma descoberta, todo dia. Tem muito material que ficou de fora, no processo de edição, e foi difícil porque a gente fez o filme independente mesmo. Foi um custo emocional e financeiro. Mas tem uma coisa que aprendemos no processo e é talvez a razão pela qual fizemos desse jeito, sem nenhum patrocínio ou financiamento externo. O filme, assim como o Salvador, tem compromisso com o autoral e com nossas próprias necessidades criativas. Isso de certa maneira é libertador, porque a gente pode contar a história do jeito que a vemos acontecer.

ARTUR: Usamos chapéus diferentes, eu sou o diretor de fotografia, a Lilka é montadora. A gente tem uma escola que vem do “do it yourself”, do indie. Sempre trabalhei com música independente. E no período final encontramos colaboradores bem legais. Sou de Curitiba, há muito tempo que eu moro aqui (em Nova York) e fiquei de cara como tem talentos no meio do cinema. Achamos o Edson Borth, que fez uma mixagem bem legal, o Rodrigo Stradiotto, que é um compositor que ajudou a criar a camada de soundtrack, os sons que entram no filme. Tudo foi criado por eles com sintetizadores análogos, sampleando às vezes o próprio Salvador. A correção de cor foi feita por uma empresa chamada Believe. Também tivemos produtor no Rio, uma pessoa de câmera no Rio.

Como foi o contato com a família dele? Como é para eles terem um parente que mora nos Estados Unidos?

LILKA: Essa é uma das questões centrais do filme, que é a condição do emigrante, do brasileiro que vem para os Estados Unidos. No caso do Salvador, é uma história um pouco mais pontuda, porque ele já tinha sucesso profissional no Brasil, já era reconhecido no meio dele. Por que ele iria abandonar tudo para embarcar numa aventura num país novo e começar do zero? E tentar a sorte numa cena competitiva como é a de Nova York? A família dele sempre o protegeu muito, ele foi escolhido desde criança para entrar na escola de música. A família inteira sempre fez esforço conjunto para colocar o Salvador para a frente, pensar além, querer conquistar mais. Isso é a causa do imigrante, da pessoa que se retira para tentar ver o que tem além do outro lado da montanha para explorar, para ver o que tem do outro lado do planeta.

E o Dom Salvador se refere, em diversos momentos, ao racismo que ele sofreu no Brasil…

ARTUR: Uma das coisas que ajudaram no projeto é que tivemos a oportunidade de passar por um questionamento da nossa própria ideia de racismo no Brasil. Fomos amadurecendo nesse tempo. A demora no projeto e a relação que a gente criou com Dom Salvador fizeram a gente aprender algumas coisas, repensar algumas coisas. Nosso desafio foi fazer um filme internacional, para uma plateia global e precisávamos marcar alguns pontos na história política dele. Tivemos a ajuda de  um escritor e acadêmico afro-americano, que nos ajudou a dar uma perspectiva fora do nosso casulo. Pensamos no significado da palavra “abolição” e a falta que fez para o Brasil não ter experimentado uma revolução como houve nos Estados Unidos, e que está acontecendo agora nas redes sociais. Enquanto fomos fazendo isso, o Dom Salvador foi se sentindo à vontade para dividir essas experiências com a gente. Não é natural dele ser aberto e político, já até o definiram como um cara que milita sem militar. Muito disso vai parar no mundo musical dele, na escolha de notas, acordes. Como compositor ele é pura emoção, um tanto romântico e às vezes psicodélico. A composição dele é profunda, é da pesada.

Acreditam que ele se sente um vencedor por ter tido uma carreira nos EUA e por ser uma lenda da música brasileira?

ARTUR: Bom, o filme questiona o mito do vencedor. Ele teve períodos de vacas magras financeiramente, nos EUA. Mas sempre houve riqueza de experiências. E a influência que ele tem em tantos DJs, músicos e produtores. Ele parece um homem satisfeito, que enxerga sua trajetória do alto de um cume. Apesar da humildade que é tão característica dele.

LILKA: A imagem do vencedor é uma extensão do que a gente idealiza nos outros. O Dick Oatts (saxofonista que tocou com Salvador) fala disso no filme, que queria vê-lo com aquele sucesso que geralmente é associado com fama e dinheiro. Ele deseja isso para o Salvador, diz que o Salvador é o heroi dele. O Salvador sabe que é um talento especial desde jovem, que esculpiu a carreira dele do jeito que ele quis. Mas ele vai estar sempre buscando mais. Essa inquietude é que faz com que ele vença todos os dias no fazer. Abordamos a questão do vencedor das ruas, o trabalhador que encontra grandeza no fazer.

Uma das cenas mais emocionantes do filme, na minha opinião, é quando o Zé Carlos, da banda Abolição, toca O rio, uma das mais bonitas músicas do disco Som, sangue e raça, no violão. Como foi para vocês flagrarem esse momento meio “por trás do disco”?

ARTUR: Encontrar os integrantes da Abolição foi fundamental. A gente estava conhecendo as pessoas por trás da foto da capa do disco, que era como conhecemos todo mundo por vários anos. Conhecemos primeiro o Rubão Sabino (baixista), depois o Zé Carlos (guitarra), que são duas personalidades cujas vidas poderiam dar filmes. O Rubão saiu da banda para tocar com Gilberto Gil, Erasmo Carlos, Tim Maia. Concluímos que o disco da Abolição é uma bíblia da música brasileira, uma bíblia do que é possível criar de música no Brasil fazendo a combustão da música nativa com o sons da diáspora africana. É um manual, que tem folclore também. E as emoções foram criadas no laboratório do Salvador, quando ele se juntou com aquele grupo de jovens vindos da periferia. Pensamos em incluir essa bagagem na hora, com o Rubão tocando baixo no Centro do Rio, o Zé Carlos no apê dele. O Serginho não rolou, levou o trombone e não quis tocar.

Como foi encontrar o material de arquivo? Ele tem muito material, certo? Isso está organizado?

LILKA: Não está, a gente vem lidando com o material dele desde o começo do curta. Escanneamos mais de 40 fotos e fizemos entrevistas. A gente estava embasbacado com o material. Ele tem um porão que aparece no filme, com caixas e mais caixas empilhadas, e cada dia que ele vai mexendo lá aparece uma coisa mais extraordinária do que a outra. É tudo bagunçado, pedindo para ser lembrado. Mas não há tempo, a vida vai atropelando. O filme fala sobre isso, sobre tentar organizar a memória, tentar contar uma vida em 90 minutos e o esquecimento, através desses artefatos que estão por trás da construção da história.

Falem um pouco do disco dele de 1977 que nunca foi acabado ou lançado. Vocês chegaram a ouvir essa fita? Incentivaram Dom Salvador a fazer algo com ela?

ARTUR: Não ter incluído mais dessa fita no filme foi uma decisão difícil, mas se tivéssemos resolvido colocar, isso poderia nos por no limbo dos filmes não acabados. É uma história cheia de nuances e a fita é um desses tesouros perdidos em águas muito profundas. E se você for buscar, pode acabar numa escuridão. É um tesouro gravado em 1977, o ano da música disco, do punk, muita energia naquele ano. Ele foi procurado por um produtor de primeira viagem, que fez um disco disco, com orçamento alto, mais de 70 mil dólares. O cara até comprou um Fender Rhodes. A ideia era criar um álbum instrumental de disco music, mas também com funk, música nordestina, com cordas, coral feminino. Talvez fosse uma continuação solo do disco da Abolição. Só que ele e o produtor se desentenderam, o cara queria botar a namorada dele para cantar. Foi cada um pro seu lado, o cara foi com as masters, foi buscar de volta o Fender Rhodes na casa de Dom Salvador. E o Salvador ficou com a fita K7. A gente teria que contratar um detetive e um advogado para achar esse cara. Tem gente querendo lançar a fita do jeito que está. Ele pensa em recriar as faixas do disco, mantendo as composições como estão. Até avisamos a ele que seria a segunda parte do filme. Ele tem paranoia de que a fita possa causar problemas.

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