Quem acompanhava o Pearl Jam no começo, sabia que o grande diferencial daquele quinteto formado em Seattle era que a coisa estava realmente viva na frente do ouvinte. Eddie Vedder, o vocalista, era um sujeito que cantava canções confessionais e meio autobiográficas de títulos-com-uma-ou-duas-palavras-só (como Alive, Why go e Even flow). O fator “cadê a emoção?” dos shows do grupo era dado pelo hábito de Eddie de escalar qualquer coisa que parecesse perigosa no palco, “surfar” sobre a plateia (literalmente passar sobre o público escorando-se em alguma coisa) e dar stage dives quase suicidas.

O coração do povão também estava garantido. O Pearl Jam aposentou o nariz-erguido da turma alternativa dos anos 1980 e mostrou-se como uma banda de rock “clássico” com guitarras em alto volume (e muita influência do Who e de Neil Young) e altos solos. Um design musical que deixou muita gente de nariz torcido, por sinal. Colegas (como Kurt Cobain) reclamavam que o Pearl Jam não era alternativo o suficiente. Críticos queixavam-se que Eddie, Stone Gossard, Mike McCready (guitarra), Jeff Ament (baixo), Dave Krusen (bateria) não eram grunge de verdade. Por sinal, o grupo já começou com o pé na porta, lançando os primeiros discos pela Epic – e não por um selo independente, antes da brincadeira começar de verdade.

O fã brasileiro que levou Ten (lançado em 27 de agosto de 1991) para casa, só conheceu o disco de verdade se optou pelo vinil. O CD trazia apenas um fragmento da ilustração da capa (as mãos dos integrantes unidas) e não vinha com as letras – que eram rabiscadas à mão e estavam no LP nacional. A cara pública inicial do grupo foi dada com dois clipes gravados ao vivo, que investiam na comunhão da banda com a plateia: Alive, com Eddie Vedder batendo no peito ao cantar o refrão da música, e Even flow, com a plateia vibrando com mais um crowd surfing do cantor – que abria o vídeo ordenando: “Isso aqui não é estúdio de TV, é um concerto de rock. Acenda essas luzes!”.

Jeremy, single cuja letra falava de depressão e suicídio na adolescência, foi mais um vídeo da banda nessa época. E marcou o que o PJ é até hoje: uma banda capaz de eletrizar plateias tocando em temas profundamente existenciais. Ten era só o começo.

Outros discos de 1991 aqui.
Tem conteúdo extra desta e de outras matérias do POP FANTASMA em nosso Instagram.