Crítica
Ouvimos: Bruce Springsteen & E Street Band – “Land of hope & dreams” (EP)

RESENHA: Bruce Springsteen lança EP com críticas a Trump e discursos sobre justiça, fé e pátria, direto do palco da turnê Land of hope & dreams.
Bruce Springsteen sempre fez barulho, sempre se posicionou, e sempre foi um astro do rock assumidamente progressista – o que significa dizer que, mesmo sendo bastante orgulhoso dos Estados Unidos, o cantor de Born in the U.S.A. sempre enxergou que havia algo de muito podre naquela república.
Com a podridão já devidamente sacramentada no governo norte-americano, Bruce, que está em turne pela Europa (com a Land of hope & dreams tour) fez recentemente uma série de manifestos políticos anti-Donald Trump em seu show em Manchester, Inglaterra, dia 14 de maio.
A repercussão das falas de Bruce foi grande: Trump, quando soube de tudo, declarou que personalidades que apoiaram sua rival Kamala Harris deveriam ser investigadas (ele alega, evidentemente sem provas, que o apoio estaria ligado a doações ilegais de campanha). Neil Young, Eddie Vedder e o sindicato norte-americano dos músicos deram declarações anti-Trump logo que souberam do merdalhal todo.
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“Bruce e milhares de músicos acham que você está destruindo os Estados Unidos. Você se preocupa mais com isso do que com crianças morrendo em Gaza. Esse é o seu problema. Pare de pensar no que os artistas estão falando e pense em salvar o país da bagunça que você fez. Você está mais preocupado consigo mesmo do que com a América”, atacou Neil Young.
Foi disso tudo aí que surgiu o mais novo lançamento de Bruce e de sua E Street Band, o EP Land of hope & dreams, que traz quatro canções e dois discursos (aplaudidíssimos) feitos por Bruce no tal show de Manchester que o transformou em alvo preferencial de Trump.
Bruce disse em alto e bom som que seu país “está atualmente nas mãos de uma administração corrupta, incompetente e traidora”. Afirmou também que os Estados Unidos “estão perseguindo pessoas por usarem seu direito à liberdade de expressão e expressarem sua discordância”, e que nos EUA, “os homens mais ricos se comprazem em abandonar as crianças mais pobres do mundo à doença e à morte”. Isso pode ser ouvido no disco.
Na parte estritamente musical, o disco tem uma versão arrebatadora de Land of hope and dreams, música de Bruce de 1999. Bruce recorda a venturosa Long walk home, uma música de 2007 que ele define como “uma oração para meu país”, e também relê Chimes of freedom, música de Bob Dylan imortalizada numa versão de The Byrds.
A pose solene de Bruce na capa do EP, lembrando um pastor protestante, adianta o conteúdo do disco: o cantor escolheu o lado mais gospel de seu repertório e gravou três faixas seculares como se fossem o evangelho segundo Bruce Springsteen. Define também que o alvo do disco provavelmente não são só os antigos fãs, mas a turma mais religiosa (e conservadora, talvez) que ouve seu som. Um tom de olho no olho que convida até os mais resistentes a refletirem sobre fé, justiça e o verdadeiro significado de “pátria”.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Columbia/Sony
Lançamento: 20 de maio de 2025.
Crítica
Ouvimos: Cuir – “Monoface”

RESENHA: Banda de synth-punk francesa, o Cuir volta com o curto álbum Monoface e, entre teclados e climas ágeis, aponta para bandas como Angelic Upstarts e até o lado punk do Anthrax.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 19 de junho de 2026
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O Cuir é um curioso projeto musical francês, feito por um cara chamado Doug Zilla, veterano do hardcore local – e que para sua banda nova, adotou uma espécie de balaclava rosa. O som é synthpunk, quase tão distorcido quanto sintetizado, com letras no estilo que-se-foda. Monoface é um álbum com, digamos, jeito de EP – mais ou menos como o da banda punk brasileira Basttardz, também assunto nosso hoje.
O nome “monoface” é justamente porque todo o repertório, que dura 15 minutos, cabe em apenas um lado de disco. Já o som do novo disco, mesmo com os teclados, aproxima-se às vezes da mescla de metal e hardcore, com Majeur em l’aair, na abertura, lembrando Anti-social, o hit da banda francesa de hard rock Trust que o Anthrax imortalizou. E faixas como Derniète minute e Road trip lembram bandas como Angelic Upstarts, enquanto Rock’n roll, interim, chômage cai dentro do hardcore-synth. Aliás, dá pra perceber uma conexão forte com a oi! music no som deles, embora Doug não concorde com o rótulo.
Os synths surgem como uma curtição a mais, em meio ao peso punk do grupo – que ganha ar de Stranglers + Rancid em Blastover e Brûler les barrières, e dá uma lembrada em Billy Idol em Spleen. Como vocalista, Doug é quase um rapper cantando punk, com vocais quase sempre brigões e falados. Resta saber se vinil e K7 (o disco sai nos dois formatos) de Monoface vão ter música só no lado A. Ou no B.
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Crítica
Ouvimos: Basttardz – “Tramas & traumas”

RESENHA: Banda maranhense Basttardz une peso, introspecção, punk, funk e até piseiro nas curtíssimas faixas do curto álbum Tramas & traumas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Brisa Rec
Lançamento: 13 de julho de 2026
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Seguindo a onda do álbum pequeno, Tramas & traumas, terceiro disco da banda maranhense Basttardz, é curtinho (oito faixas, 15 minutos) e foca no punk e no hardcore com misturas inusitadas e letras introspectivas. O som une hardcore e estilos como funk e rap (na faixa-título e em favelas), parte para o reggae punk em O inconsciente coletivo e insere até algo de piseiro, forró e reggamuffin em músicas como Vitrine e Do culto ao lucro.
O som do grupo é pensado como um mergulho, tanto no som quanto no universo deles – que inclui temas como influencers que surgem do nada, violência, exclusão, drogas de 2026 (na ótima letra de Tarja preta, que fala de aditivos usados para trabalhar, produzir, estudar, dormir e se deixar manipular) e memórias amargas que ganham espaço como traumas, anos depois. Tem inovação no som e um clima herdado da vulnerabilidade do emo Midwest, embora na prática o Basttardz faça uma música com bem mais foco em peso e beats.
- Ouvimos: Arlomine – Francis Frankenstein
Nas letras de Tramas & traumas, o grupo também une depressão e falta de grana. O desespero diante do capitalismo dá o tom de músicas como Desconstrução, que, inspirada em Construção, de Chico Buarque, encerra o disco olhando para quem já está quase desistindo de tudo.
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Crítica
Ouvimos: Francis Of Delirium – “Run, run pure beauty”

RESENHA: Entre shoegaze, dream pop e soft rock, Francis Of Delirium cria um álbum de melodias etéreas, ruído elegante e atmosfera cinematográfica.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Dalliance Recordings
Lançamento: 29 de maio de 2026
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Jana Bahrich, musicista radicada em Luxemburgo, responde pelo codinome Francis Of Delirium – que basicamente significa sonho, construções melódicas baseadas no mesmo delírio que surge no nome do projeto. Run, run pure beauty, o segundo álbum, tem elementos associáveis ao que normalmente é chamado de “shoegaze” e “dream pop” – no caso desse último, ele serve como um bom rótulo, por causa dos vocais mágicos e do clima quase voador das melodias.
Aliens, a música de abertura, tem o mesmo clima geralmente associável ao shoegaze, com guitarras em nuvem – mas Jana tem o cuidado de associar a seu som um mistério musical dado pelo uso de instrumentos de orquestra, que dá a algumas faixas um ar análogo ao de Ocean rain, o sombrio disco de 1984 do Echo and The Bunnymen.
- Ouvimos: Divers – Odd dog in the capital
O disco prossegue na beleza de Out tonight e da faixa-título – esta, com cordas em vibe meio beatle, lembrando as espirais de I am the walrus. Mas a partir daí surgem lados diferentes do Francis, que investe em aclimatações soft rock, em faixas como Higher, Little black dress e Sucker punch. Tudo combinado com a disposição para o barulho, já que Open up your mouth to love, por exemplo, une tranquilidade sonora, dada pelos violões, a um clima shoegaze leve.
Por causa disso tudo aí, tem momentos em que o som do Francis chega a lembrar uma versão mais indie dos Cranberries – ou o Mazzy Star com ambições mais épicas. Essa impressão dá bastante as caras em Requiem for a dying day. Em outras occsiões, o lado pós-punk do projeto dá uma escalada, como no baixo-à-frente e no clima meio Eurythmics de Damned, ou no noise-pop anos 1990 de It’s a beautiful life. No geral, um som muito bem concebido e montado.
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