Um tempo atrás me marcaram no Facebook num desses desafios de “melhores discos”. Eu decidi fazer diferente e resolvi escrever, nessa época, sobre discos controversos que, por algum motivo ou outro, eu achava que as pessoas deveriam dar uma segunda chance. Enfim, discos da discórdia (um belo dum trocadalho do carilho, enfim).

Como recentemente aqui no POP FANTASMA eu pus no ar uma série sobre lendas urbanas e umas das diretrizes editoriais (eita!) do site é fazer mais séries sobre assuntos diversos da cultura pop, resolvi transformar os textos numa série com dez álbuns que não são lá grandes campeões de aceitação por parte da crítica, mas que mereciam um pouco mais da sua atenção.

E o terceiro é um disco que você ama mas finge que não gosta, que eu sei 😉

OSWALDO MONTENEGRO, A LENDA (1980)

Discos da discórdia 3: Oswaldo Montenegro (1980)

Até hoje nenhum jornalista ou escritor brasileiro escreveu a biografia de Oswaldo Montenegro, nem se sabe se o próprio curtiria ser biografado. Não pode faltar lá a história de como o cantor se tornou um grande nome da MPB jovem justamente numa época em que o estilo musical não estava entre os mais ouvidos pela juventude. Nos anos 1980, Oswaldo lotava teatros, fazia peças por todo o Brasil, lançava talentos (de Milton Guedes a Cássia Eller), aparecia na TV e provocava filas que dobravam o quarteirão em todo lugar onde se apresentava.

Oswaldo, como muita gente deve imaginar, não era dos nomes mais queridos da crítica musical e contava com o nariz torcido de boa parte dos jornalistas. A antiga revista Domingo, do Jornal do Brasil, por exemplo, costumava botar repórteres para investigar o “fenômeno” Oswaldo Montenegro em reportagens que investigavam seu repertório, seu público, sua origem em festivais, sua relação com hábitos e costumes do mundo hippie (não se lança um disco como Dança dos signos impunemente), etc. O saudoso jornalista Lula Branco Martins cobriu diversas dessas mudanças na carreira do cantor.

Não dá nem para dizer que o terceiro disco de Oswaldo Montenegro é “apenas” um disco controverso – o próprio artista provoca discussões, digamos, bastante acaloradas. E o LP epônimo dele de 1980 foi o primeiro grande sucesso do cantor. Destacou-se por ter músicas como Bandolins, Agonia (acrescentada num repress do disco, assim que Oswaldo a apresentou num festival), Pra longe do Paranoá, etc. Incrivelmente, esse álbum foi produzido por Liminha, um nome que muita gente jamais associaria a Oswaldo Montenegro.

É ISSO AÍ, BICHO

Antes que você resolva desistir de ler o texto, vamos dar um contexto histórico: Oswaldo foi um dos responsáveis por fazer um estranho link entre hippismo e MPB “jovem” no começo dos anos 1980.

Esse link estava bem evidente no começo da década, a partir de personagens de novelas da Globo, de ídolos “jovens” da época e do repertório pop que rolava nas rádios, que era mais um rabicho da MPB da década anterior do que uma renovação. Mas essa ligação foi desaparecendo aos poucos quando o rock brasileiro foi começando a invadir as rádios. Retomou lugar pontualmente, escondido entre um ou outro hit da Legião Urbana (Eduardo e Mônica, por exemplo). Fazia sentido que o disco de Oswaldo Montenegro trouxesse, por exemplo, uma canção como Incompatibilidade, cuja letra narrava os dilemas do jovem que era visto como alienado porque gostava de dançar.

Nem o Brasil estava acostumado com o conceito “jovem” e talvez nem o jovem estivesse tão acostumado assim a acreditar que ocupava algum lugar no espaço, e vale citar que o Brasil tinha deixado passar quase todo o bonde da cultura pop durante os anos 1970. Até mesmo o rock nacional da época, quando começou a botar a cabeça para fora, veio com uma cara mais conservadora – incluindo bandas que faziam o mesmo rock pauleira dos anos 1970. Era um Brasil muito diferente do que hoje, talvez pior. Ou quem sabe melhor, já que o que temos no poder não é muito diferente.

E tá aí o disco. Nas plataformas digitais, ele só aparece numa edição dupla com outro disco do Oswaldo, e não tem Agonia.

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