Um tempo atrás me marcaram no Facebook num desses desafios de “melhores discos”. Eu decidi fazer diferente e resolvi escrever, nessa época, sobre discos controversos que, por algum motivo ou outro, eu achava que as pessoas deveriam dar uma segunda chance. Enfim, discos da discórdia (um belo dum trocadalho do carilho, enfim).

Como recentemente aqui no POP FANTASMA eu pus no ar uma série sobre lendas urbanas e umas das diretrizes editoriais (eita!) do site é fazer mais séries sobre assuntos diversos da cultura pop, resolvi transformar os textos numa série com dez álbuns que não são lá grandes campeões de aceitação por parte da crítica, mas que mereciam um pouco mais da sua atenção. O oitavo disco causa pesadelos em vários fãs do seu realizador…

A PILHA ERRADA DE “ZERO TOLERANCE FOR SILENCE”, DE PAT METHENY (1994)

Discos da discórdia 8: Pat Metheny, com "Zero tolerance for silence"

Na época em que saiu Zero tolerance for silence (1994), uma certeza surgiu na cabeça não apenas de jornalistas mas também de fãs do guitarrista americano Pat Metheny. O álbum, gravado em apenas um dia, contendo apenas sons improvisados e barulhentos de guitarra, seria supostamente a maneira mais fácil do músico se livrar de seu contrato com a Geffen, que durava desde os anos 1980.

A história, quando reproduzida em blogs e sites, ganhou contornos ainda mais dramáticos. Diziam que o músico de jazz estaria descontente com os rumos alternativos que a Geffen tomara nos últimos anos, já que a gravadora dava mais atenção a bandas ruidosas como Sonic Youth e Nirvana. Coincidência ou não, no mesmo ano Metheny solta o disco I can see you house from here, um criativo álbum gravado ao lado do guitarrista John Scofield (cada um ocupando um canal da esterofonia). E esse disco foi lançado pela veterana gravadora de jazz Blue Note.

SEGUNDA DIMENSÃO

Mas não foi nada disso, até porque Pat continuaria na Geffen até pelo menos o fim dos anos 1990 e ainda lançaria outros discos por lá. “Esse boato foi iniciado por um jornalista que realmente não estava ouvindo o álbum. Bastaria um rápido telefonema para mim, para descobrir que não era esse o caso”, chegou a afirmar o músico, dizendo que não recorreria a esse tipo de expediente para sair de uma gravadora. Aliás, disse que Zero tolerance é “uma visão 2-D de um mundo no qual geralmente estou funcionando de uma maneira mais 3-D”.

Em outra entrevista, Pat disse mais: o disco era o retrato de um som que rolava na sua cabeça 24 horas por dia. “Chegou ao ponto que, para mim, tudo o que acontece é melódico. Cada conversa, cada experiência de andar na rua, cada experiência de ouvir um avião decolar, latas de lixo caindo de um lance de escada, percebo tudo isso como uma melodia”, afirmou o músico, dizendo também que uma jornalista lhe disse que sua obra “evoca a imagem de uma cena com um rio fluindo por ela” e que Zero tolerance “era como estar imersa no rio”.

QUE BARULHO É ESSE, PAT?

O jazz de Pat é o tipo de som que muita gente põe em casa para dar aquela relaxada depois do trabalho. Afinal, Pat esperava que o fã fizesse isso com seu disco de 1994? “Eu nunca presumo nada. Já fui surpreendido muitas vezes”, afirmou. Zero tolerance, por sinal, tem fãs inusitados, como Thurston Moore, do (adivinhe só) Sonic Youth. E foi recebido por críticos com bolas pretas e (só para combinar com o nome) intolerância total.

Mas vamos lá: se você se interessa por música esquisita, bateu na porta certa. Zero tolerance for silence tem 39 minutos de barulheiras, divididos em cinco faixas (“parte 1”, “2”, “3” e vai por aí). O resultado pode soar desagradável em alguns momentos, mas é sempre um disco desafiador. O mais habitual é compará-lo com Metal machine music, o disco experimental de Lou Reed (1975). Mas as mudanças de rota de Zero tolerance são mais perceptíveis e até mais punks (!!) do que no disco do ex-Velvet.

O disco de Pat não está nas plataformas. Você acha as cinco partes no Spotify. Pega aí e ouça em alto volume.

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