Cultura Pop
Cannibal: “Tem gente que diz que gostava mais do Devotos quando era ‘do Ódio”’

Aos 17 anos, quando era um punk da comunidade do Alto José do Pinho, em Recife, Cannibal ganhou uma banda de presente. Sério: ele foi surpreendido por um amigo, organizador de um festival, com a notícia de que a banda dele – que ele nem sabia que tinha – já tinha nome (Devotos do Ódio, trocado depois para só Devotos), já estava com um show agendado no tal festival, e ele que lutasse. “Eu não queria fazer uma banda, eu era do movimento punk e as pessoas ficaram me forçando a fazer uma banda”, brinca o músico, que virou baixista, cantor e compositor. Só que da surpresa inicial veio uma banda de verdade, que já tem mais de 30 anos. O primeiro disco, Agora tá valendo, chega aos 25 anos em 2022.
Misturas musicais sempre foram comuns para Cannibal, Celo (bateria) e Neilton (guitarra) – o grupo já misturava baião e punk desde o primeiro disco. Mas agora o trio dá um passo diferente na carreira, preparando um disco de reggae, com uma inédita, Nossa história, e mais dez releituras do grupo no estilo. Punk reggae sai em breve, e o clipe da música nova já está rolando no YouTube. Cannibal conta que o caráter punk do Devotos continua lá, mas devotado (opa) a outro estilo musical. “É o disco de uma banda punk cantando reggae”, diz. Confira o papo que ele bateu com o POP FANTASMA, no qual ainda recordou a época do primeiro disco.
POP FANTASMA: Você sempre disse que gostava de reggae, mas como apareceu a ideia de fazer um disco dedicado ao estilo?
CANNIBAL: O disco é uma coletânea de músicas do Devotos no estilo. É algo que a gente já tinha pensado em outras ocasiões, em fazer um disco e um show só com elas. Mas aí a gente decidiu desconstruir totalmente as músicas, de modo a que elas ficassem totalmente reggae. A diferença das músicas originais é exatamente essa, porque a maioria tem misturas com hardcore, com punk. E agora viraram reggae.
Só que chamamos uma pessoa para fazer os arranjos, o Pedrinho, que é um cara de dentro do reggae. Já para ter rolado há algum tempo, mas a pandemia deu uma travada na gente. E pior ainda porque quando a gente aprovou o projeto, tinha data para ser finalizado e entregue…
E o que houve?
A data era exatamente na fase em que a pandemia estava muito brava. A gente não tinha entrado em estúdio para ensaiar, para fazer nada. Nos encontramos para em três ensaios fazermos os arranjos de todas as músicas. Mas deu certo. E tem uma coisa muito forte também que é o fato de a gente ter um pé muito forte no reggae. Eu particularmente tenho muito, desde a época do movimento punk por aqui, nos anos 1980. Para nós, misturar e colocar dentro da Devotos o reggae – ou mesmo gravar um disco da Devotos com reggae – é muito natural.
Essa mistura não era muito natural, nos anos 1980, 1990, para quem curtia a banda e gostava de rock. Porque nessa época era muito cada um no seu quadrado. Quem curtia metal, curtia metal. Quem curtia punk, curtia punk. Mas aqui no Alto José do Pinho temos uma cena cultural muito forte, com muita diversidade, de maracatu, de afoxé, de caboclinho, e a gente nunca esteve bitolado. Entramos no movimento punk, gostando, curtindo e montando uma banda. Mas não deixamos de colocar os elementos que a gente curte na nossa arte. Mas o público olha e pergunta: “O que é isso que o Devotos tá fazendo?”.
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Mas ainda tem gente muito radical? O cara que é fã de punk e não aceita as misturas… Isso ainda é comum?
Rapaz, pra você ter uma ideia, tem gente que diz pra gente que gostava de Devotos quando era “do Ódio”!
Sério?
Sério, tem gente que fala isso. Eu respondo sempre que não mudou nada. Imagina se Bin Laden mudasse de nome para Jesus Cristo, se ia mudar o caráter dele… Ou se alguém ia falar: “Ah, agora eu gosto de você, porque seu nome é Jesus Cristo”. Você pode mudar seu nome, qualquer coisa, mas o caráter não consegue mudar. E a gente tem muito caráter.
Tanto que quando o disco sair, você vai sentir que é Devotos. Você sente a guitarra na frente, a percussão lá atrás, o reggae tá muito na cara. A gente fez a pegada reggae, a coisa roots, mas manteve a característica do Devotos para a galera se ligar. É uma banda de rock, de punk e hardcore tocando reggae, não é uma banda de reggae.
E sobre essa questão do nome, lembro que uma vez você comentou que o primeiro disco já era para ser só “Devotos”, mas acabou saindo com o “do Ódio”, não foi isso?
Isso, já tinha essa ideia. Nove anos de banda naquela época, né, velho? A gente praticamente foi forçado a fazer o Devotos, cara. Eu não queria fazer uma banda, eu era do movimento punk e as pessoas ficaram me forçando a fazer uma banda…
É mesmo? Como foi isso?
O primeiro show da Devotos foi no Terceiro Encontro Anti-Nuclear, um show que rolava todo dia 6 de agosto, que era o dia da bomba de Hiroshima. Todo mundo falava: “Forma sua banda pra tocar! Forma sua banda pra tocar!”. O Lael, um dos cabeças do projeto, tinha uma banda chamada SS20, que foi uma das primeiras bandas punk de lá, junto com o Câmbio Negro. Ele disse: “Olha, forma tua banda, a banda se chama Devotos do Ódio, vocês vão tocar dia 6 de agosto”.
Isso foi em fevereiro. Eu falei: “Tá bom, vou falar com uma galera aí”. Só que eu nunca nem tinha tocado um instrumento na vida! Nem sabia como ia fazer. Só que eu chamei uma galera que também não sabia nada. Pensei: “Vamos aprender juntos!”. O baterista nunca tinha tocado numa bateria na vida. O guitarrista nunca tinha pego numa guitarra, eu nunca peguei num baixo, era tudo no violão. E de repente é “a banda é Devotos do Ódio e meu nome é Cannibal!” (risos).
Mas com 17 anos você quer chocar, né, velho? Primeiro você choca, depois você vai pensar no que vai fazer. Depois você vê no que aquela música pode ajudar. E Devotos surgiu também para isso, para falar dos inconformismos perante o governo, a prefeitura que não dava nada para a comunidade. Não tinha segurança, nem saneamento. Mas para nós era só botar para foder mesmo, como era no movimento punk. Só que quando vimos que a ideia era mudar o quadro social, fazer um mundo melhor para todo o mundo, vimos que o “ódio” não estava tanto assim dentro de nossa mente. E não era tão bem visto. O sentido do nosso nome era outro, mas as pessoas viam como sendo uma coisa ruim.
E como foi escrever a música nova? Ela tem uma letra forte, fala de resistência – que é algo que marca a história de vocês, o reggae, o punk…
Dentro do movimento punk, foi que eu conheci meus ídolos, as pessoas que eu admiro. Nas escolas não se falava de Martin Luther King, Malcolm X, de Antonio Conselheiro. No movimento punk eu comecei a ler sobre isso. A me informar, a me basear e ver como a luta dessas pessoas era parecida com a da gente na comunidade. Era um separatismo que rolava. Na verdade hoje em dia ainda rola, mas a gente tem voz pra brigar. Li essas e várias outras coisas. Você se inspira no seu cotidiano, a Devotos se inspirava muito no dia a dia da comunidade. Você começa a trazer aquilo para a sua arte, quando lê sobre aquilo.
E essa música fala sobre isso porque comecei a me envolver, a me deixar permitir. Eu tenho 50 anos, tive todos os preconceitos: contra gay, contra mulher – no sentido de não valorizar a mulher. Vivi todo o machismo. Você desconstruir isso é estar perto de pessoas que descontroem também e lutam contra isso. Comecei a me envolver mais com essas pessoas. Vi que a luta deles era igual à minha luta. E de repente com todas as tecnologias, as causas, as lutas, começaram a ficar mais próximas. Antes era cada um lutando no seu quadrado, os negros com sua luta, a classe LGBTQIA+ com sua luta, mulheres com sua luta… Com a tecnologia, a minha luta é sua luta, o que me afeta te afeta. Dentro da classe LGBTQIA+ tem negros, gordos que sofrem gordofobia…
E a gente pensa: “Tá todo mundo no mesmo barco, vamos lutar contra isso”. A arte, a música, é um meio muito positivo para você abrir a mente. Trazer isso para a música do Devotos foi fácil, estou envolvido muito e me descontruindo. Conversando com as pessoas que eu converso, que eu troco ideia… Vejo pessoas que sofrem a mesma discriminação que eu porque sou negro, ou pessoas que sofrem porque são gordas, porque são gays. Foi basicamente isso que eu trouxe para essa música. Tô lendo pra caramba, tendo muita indicação, desde que escrevi meu livro em 2018, o Música para o povo que não ouve. Estou dentro desse mundo, de todo mundo lutando pela democracia, algo que a gente nunca teve, mas quem sabe pode ter.
Os tempos que a gente está vivendo são bem difíceis… Como você tem visto isso aí?
Eu tô perplexo, né? Não imaginava. A gente sabe que o Brasil é um país racista e que tem um certo fascismo dentro dele, mas não sabia que as pessoas eram tão odiosas. E a gente vê que não é só política, é que as pessoas são más, mesmo.
Voltando um pouco ao passado: como era, no começo do Devotos, a vida musical de vocês com relação a comprar discos e ir a shows? Rolava aquelas coisas que o Chico Science falava, de discos que eram comprados em sociedade, etc?
O começo era muito difícil, tudo moleque de comunidade, não tinha grana pra nada… A gente aproveitava quando alguém comprava algum disco e todo mundo escutava. Quando alguém tinha um disco, o outro pegava emprestado, aquilo circulava, tava na mão de todo mundo. A gente não comprava disco em sociedade mas aquilo socializava. Eu comprava mais disco punk, tinha uma galera do Alto que era mais do pop e todo mundo escutava tudo. Tinha uns outros que eram mais do reggae, aliás os discos do reggae eram difíceis de achar. E a gente lia muito. Além dos fanzines tinha as revistas musicais: desde a mais porrada como a Rock Brigade, até as mais pop como a Showbizz.
Quando era show punk, alternativo, dava pra ir tranquilo. Agora show de bandas do mainstream, banda grande… Ai era muito foda pra gente frequentar. Era muito difícil. Vou te dar um exemplo: tinha aqui o Circo Voador (casa de shows no Recife Antigo, homônima da lona da Lapa), onde tocavam as bandas grandes. Tocava Legião Urbana, Capital Inicial, Paralamas, The Police tocou lá.
A gente sempre estava querendo ir para esses shows. Daí fazia algum bico na comunidade como ajudante de pedreiro, ganhava uma grana e ia pro show. E quando não dava mesmo para ganhar a grana, aí a gente ficava na frente do show e tentava pular o muro. Já vi muito show pulando muro. O rock ainda rolava na rádio também, você ainda escutava coisas de rock na rádio, mesmo que fosse o pop. As coisas punks a gente conseguia nos sebos de Recife. Tinha muita carrocinha de sebo que vendia muitas coisas punks, alternativas.
Nessa época do movimento punk a gente não conhecia o Chico, e mesmo o Fred 04 era do movimento do punk da Zona Sul, de Candeias, Piedade. Não ia muito para o Centro. E mesmo a gente não era de Centro, era de periferia. E apesar de a gente se encontrar no Centro, do point ser no Centro, a maioria dos eventos era nas periferias, porque a maioria das pessoas que frequentavam os points punks eram de lá. A gente tocava no lugar em que alguém morava, no centro social urbano onde aquele cara morava. A gente ia lá e fazia um show ali. E aí saía tocando todas as comunidades, todo o subúrbio.
Daí não encontrávamos muito com Chico, com 04. Fomos encontrar com essa galera já no movimento mangue. Os caras já vinham de antes, o 04 principalmente. Mas eu entrei no punk em 1984, 1985, o mangue foi lá pelo começo dos anos 1990.
O Agora tá valendo, primeiro disco do Devotos, faz 25 anos no ano que vem. Quais são suas lembranças da época do disco, de quando ele foi gravado?
Cara, a minha lembrança é muito nítida. Eu fecho o olho, penso no disco e lembro de tudo que aconteceu naquela época. Era muito foda. Começa com o Abril Pro Rock, o Mauricio Valladares que foi diretor do selo Plug junto com a Aline. O Plug era um selo da BMG… Aconteceu isso na época do movimento mangue: a Sony fez o selo Chaos, a BMG fez o Plug, que era para pegar as bandas alternativas. E estava tendo um boom grande de bandas alternativas, independendo do estilo. E o Mauricio tava lá no Abril Pro Rock, viu a Devotos, gostou pra caralho. Ele conversou com Paulo André (criador do festival), nem foi com a gente.
Eu estava aqui no Alto José do Pinho jogando uma pelada, Paulo André chegou e disse que Mauricio estava interessado em gravar com a gente. Eu fiquei feliz pra caralho. Eram nove anos de banda, né, velho? A gente era uns moleques que moravam no subúrbio. E quando chega uma certa idade, os pais nem pensam que você tem que terminar os estudos, é trabalhar. E de repente Devotos com nove anos de banda, não ganhava nada, nem se sustentava, e surge essa oportunidade.
Gravamos o disco no estúdio do Tovinho, aqui em Recife. Tovinho era um cara que tocava numa banda chamada Alcano, muito famosa, uma banda que sempre foi grande. Acho que ele tocou também com Alceu Valença, ele é tecladista. O lance todo é que não tinha nem horário para a gente fazer, para gravar. O estúdio dele sempre foi muito requisitado e o único horário que tinha era de madrugada. Nós passamos praticamente uns vinte dias ou mais gravando de 3 da manhã às 9h da manhã. As lembranças são as mais maravilhosas, as dificuldades com o horário foram fichinha. A vontade que nós tínhamos de gravar era muito grande, não importava como.
Quem produz o disco é Lucio Maia (Nação Zumbi). Ele trouxe um técnico de som do Rio de Janeiro, um cara muito foda, com uma energia muito boa. A gente se divertia muito com ele e ele mais ainda com a gente, porque acho que era a primeira vez que ele estava indo para o Nordeste, pro Recife, e a gente tem praticamente um dialeto. Tudo que a gente falava que ele não entendia, ele escrevia numa caderneta. O cara saiu com um dicionário daqui! Acho que ele escreveu um livro, deve ter ficado rico e tá morando nos Alpes Suíços.
Eram noites muito divertidas na gravação. Tem poucas imagens dessa gravação, mas o que tem dá saudade. O Lucio trouxe o baixo de Dengue, nunca tinha tocado Fender na vida. Neilton já tinha as histórias dele de guitarra. Ele tinha o amplificador dele, mas não havia ainda montado o dele. E era a noite toda. Uma das coisas muito fodas que a gente sentiu no disco é que a energia que a gente pôs no estúdio não estava na master. Quando a gente ouviu a master, perguntou: “Vai masterizar quando? Vai mixar quando?”. E o cara falou: “Não, é isso aí!”. E foi uma surpresa pra gente, porque ficou muito pop! Não estava pesado como era o Devotos.
Foi uma decepção para nós. Musicalmente não: em termos de repertório, para mim, é o melhor disco da Devotos. Tem toda uma história ali, uma história de resistência, de tudo ali. Ele não é só música, é o que me faz gostar dele. Não é pesado como a gente queria e eu ainda gosto de ouvir. Mas a gente ficou decepcionado, a gente tinha a ideia de que ia chegar uma parada pesada. Mas aí passou e a gente começou a pensar nos frutos que iam render o disco.
Quando ele sai, a primeira coisa que acontece é a gente viajar. E aí é o melhor de estar numa gravadora grande: onde a gente chegava, as pessoas cantavam as músicas do Devotos. “A gente nunca veio aqui, como é isso? Os caras cantando, pedindo autógrafo, com o disco na mão!”, a gente pensava. Depois que a gente percebeu que era a assessoria de imprensa trabalhando pra caralho e metendo música nas rádios. A gente fazia muito rádio e TV.
Li certa vez que alguns fãs da antiga fizeram panfletagem contra vocês, reclamando que a banda havia “se vendido” porque foi para uma gravadora. Isso aconteceu mesmo? Como era o diálogo com esses fãs?
O movimento punk, como em todo lugar, era muito fechado para as mídias. Imagina para as gravadoras? A gente já estava em outra vibe, era de falar mal mas fazer. Estava em outra pegada, não era só destruir. A gente estava tocando nos picos punks e em qualquer outro pico que chamassem a gente. E realmente aconteceu mesmo, quando a gente entrou para BMG via mesmo punk fazendo panfletagem. E não era algo que me falaram não, os caras chegavam em mim! Me dizia que eu tinha me vendido, me entregava o panfleto e quando eu olhava, era o nome “Devotos” com um risco no meio. Até da MTV os caras falavam. Eu até brincava: “Mas como é que você sabe que a gente está na MTV? Tu assiste?”. Então tinha isso que era meio baixo astral, mas a gente não ligava, não.
Aliás, verdade: Devotos passou a aparecer muito na MTV. O que isso representou para a banda e para a comunidade na qual vocês moravam?
Ih, a MTV foi como uma mãe de braços abertos para a gente. Qualquer coisa que a gente fosse fazer já pegavam para fazer matéria. A primeira vez que a gente apareceu lá foi quando o Gastão Moreira veio fazer o Abril Pro Rock. Fui entregar o material para ele, que era uma camisa e o clipe de Mais armas? Não! A camisa era pintada por Neilton à mão. Ele é artista plástico e faz todo o material do Devotos. Já teve uma exposição dele de três andares só com coisas do Devotos. É um artista muito foda, e ainda faz amplificador!
Entreguei essa camisa pro Gastão e no dia do Fúria Metal ele mostrou: “Vim do Recife e a galera do Devotos do Ódio me deu esse presente aqui”. Muito, mas muito tempo depois, apareceu o clipe. E depois de um tempo quando a gente gravou o Agora tá valendo, a gente tinha gravado a música Punk rock hardcore, com Claudio Assis. Foi uma lata de filme que sobrou de cinco minutos e ele fez dois clipes, o Vida de ferreiro e o Punk rock hardcore.
E na verdade, a gente foi fazer o clipe de Vida de ferreiro, que é um só. A gente começou a gravar, gravar, e você sabe que quando demora muito a gravação tem a parte de tocar. E a gente sempre foi secão de tocar, uma secura da porra pra tocar. E falei pros dois: “Vamos tocar aquela música que a gente ensaiou ontem, o Punk rock hardcore“. A gente tocou ela duas vezes, quando tocou a terceira, o Claudio Assis: “A música do clipe vai ser essa!”. Acho que foi o primeiro clipe feito antes da música. Ele pronto, a MTV tinha o MTV Awards e tinha a categoria democlipe.
Não ganhamos, mas foi muito do caralho ter concorrido, porque eles ficavam passando os clipes todo dia. As pessoas ficaram com muita curiosidade. Lembro que toda vez que a gente ia na MTV, a Anna Butler botava a gente pra fazer vários programas: João Gordo, Soninha, Gastão, Edgar… E o Rock & Gol, que eu participei de onze deles. Muitos movimentos começaram a aparecer por causa da MTV e todo mundo tinha espaço lá.
Voltando ao disco novo: como foi para a banda reencontrar-se num estúdio em plena pandemia, gravar de máscara, tomar cuidados que não eram necessários antes?
Bicho, foi muito difícil entrar em estúdio com essa pandemia. O Punk reggae já tinha sido aprovado pela Lei Aldir Blanc, com o selo Estelita. Mas tinha a data para ser entregue, e a pandemia ficando maior. Desde que começou a pandemia, a gente nem tinha se visto, quanto mais ensaiado. E a gente sabia que tinha que botar esse projeto para a frente de alguma forma. A gente já sabia as músicas que a gente queria, mas nem tinha descontruído as músicas. E para mim é difícil descontruir uma coisa que é sua. De outra forma, você tem que se influenciar na sua própria arte para desconstruir. Você vai se influenciar no seu reggae e descontruir ele.
Esse era o problema maior. O outro problema era o tempo, a gente não tinha muito tempo. Quando deu uma amenizada e a Vigilância Sanitária começou a abrir algumas coisas, deu um certa esperança. E Mathias (Severien), do estúdio Pólvora, que é nosso técnico de som e produtor, tem um estúdio muito grande, então não tem problema. Já o estúdio que a gente ensaia na casa de Neilton é bem pequenininho. Ia ter um problema grande para a gente ensaiar lá.
Quando fomos para Mathias foi bem mais tranquilo. Fizemos na pressa mas fizemos do modo que a gente curtiu. Quando chegou Pedrinho, fez os arranjos, colocou metais, percussão, teclados e a gente escuta… Puta que pariu, velho, ficou muito foda. E ainda teve o Buguinha que fez a masterização, e é um papa no Recife do dub e do reggae. Grava muito com fita de rolo, é um puta produtor também.
Quando chegou o resultado para nós, a gente curtiu pra caralho. A gente queria chegar o mais próximo possível do reggae roots. Não é que aquilo esteja já roots, porque aí é quando é feito pela galera reggaeira. A gente tem uma admiração, curte muito, mas não é uma banda de reggae. Ele é um ritmo que está muito próximo do punk em termos de apartheid cultural. O reggae é muito foda em vários lugares mas em Recife ele ainda sofre um apartheid. Ele tem um público muito foda aqui, e os produtores daqui que trabalham com ele não são pessoas do reggae. Eles trazem bandas grandes de reggae e praticamente não se coloca bandas do Recife para abrir. E o reggae ainda tem as letras com suas temáticas, que parecem muito com as letras do punk. É uma coisa que está no sangue da gente.
Algum fã já disse a você a música do Devotos mudou a vida dele? Como se deu isso? É algo que acontece muito?
Cara, já chegou sim. Já chegaram várias pessoas para falar que Devotos mudou o pensamento delas. Mas teve um que foi mais contundente, que eu fiquei mais de cara. A maioria das pessoas que falou isso para nós era de comunidade, de subúrbio… Bom, tinha a galera também de classe média. Mas essa pessoa foi foda.
A história foi a seguinte: encontrei uma amiga, que estava indo na casa de uma pessoa, e ela ia comprar uma máquina fotográfica dessa pessoa. Essa pessoa ia viajar. Como era perto de onde a gente estava, disse que eu ia com ela. Quando eu cheguei lá, o cara não ia vender só a máquina. Ele ia vender os vinis, um monte de coisas da casa dele porque ele ia para a Espanha. Eu sou louco por vinil, se tem uma coisa que me fode é vinil. Quando eu quero um vinil, passo o cartão de crédito e depois é que eu vejo que eu sou fodido mesmo, pobre… Mas aí já foi.
E aí comprei uns vinis, passei o zap pra ele mandar o número de uma conta para eu pagar. Depois chegou uma mensagem do cara dizendo: “Você não tem ideia de como fiquei feliz com você vindo na minha casa. Sempre fui muito fã do Devotos e sempre curti os shows. Quando eu era adolescente eu não estava nem aí para nada e a música Eu tenho pressa mudou minha vida”. Esse cara estava indo fazer doutorado em psicologia na Espanha, um cara que morava um bairro fuderoso do Recife, um cara branco, que nunca sofreu problema financeiro ou social dos que a gente sofre – como negros, suburbanos. Foi uma surpresa muito grande de ver onde nossa música estava chegando.
Um cara falou isso para mim uma vez, o Carlos Freitas, que tinha uma loja de discos no Recife. A gente mandava umas caixinhas de demo para a loja dele. Ele deu o toque das letras, falou: “Cannibal, tu que faz as letras? Vocês são uma galera de subúrbio, vê se você começa a fazer umas letras com mais esperança. Só falar mal é foda, tem que falar o lado de como mudar as coisas ruins. Isso vocês já fazem com a Devotos”. Eu fui dormir pensando nisso e fiz Luz da salvação (canta a letra). Comecei a fazer música nesse sentido, falando: “Vamos lá, vai dar certo, vamos conseguir”. E enaltecendo pessoas que fizeram de tudo para o Brasil fosse um país melhor, não só para elas mas para sua cultura, para sua raça. Foi um aprendizado para mim. A gente é um setor de informação também. A música transforma, a arte transforma. Não existe um cotidiano para os artistas, existe um cotidiano para a sociedade.
E isso de “mudou minha vida”, é recíproco. O Carlos quando falou isso mudou minha vida, mudou o jeito que eu tinha de escrever, de pensar. A gente começa a se envolver mais com os problemas dos outros, e vê que o problema é social, que os problemas de hoje se resolvem no coletivo. Você leva isso para sua arte e as pessoas veem que o que você faz não é só música. Eu costumo dizer isso, velho: Devotos não é só música. E nunca foi só música.
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Cultura Pop
Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.
Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.
Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.
O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.
Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.
Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.
Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.
Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.
A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.
Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.
E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.
Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.
Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.
Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.
Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.
Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.
Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.
Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.
O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.
O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!
Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.
Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).
Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.
A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.
Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.
Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.
Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.
Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.
Cultura Pop
“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

Quem assistiu ao clipe de Adjourn it, single novo de Tom Morello (que tem participações de seu filho Roman Morello, na guitarra, e do cantor do System Of A Down, Serj Tankian, nos vocais) reparou que há várias cenas em preto e branco, com greves, manifestações e gente sendo presa. Dirigido por Isabella Margolis, o clipe intercala cenas do trio em estúdio, com trechos do filme Salt of the Earth, lançado em 1954, e que conta a história real de mineiros mexicano-americanos que lutaram contra a opressão e o racismo.
Salt of the Earth tem muita história: para começar, ele foi dirigido por Herbert Biberman (1900-1971), um cineasta que fazia parte da lista dos “dez de Hollywood” – um grupo de dez roteiristas e cineastas de esquerda, que estava sendo vítima de uma caça às bruxas. Ou melhor, de uma caça a supostos comunistas, realizada no começo da guerra ideológica entre Estados Unidos e União Soviética.
Biberman chegou a ficar encarcerado durante seis meses, e ao sair da prisão, decidiu dirigir um filme ficcional sobre a greve dos mineiros do Condado de Grant, no Novo México. O tal filme acabou ganhando roteiro de Michael Wilson e produção de Paul Jarrico – e ele é justamente Salt of the Earth, uma produção que já inovava por ser totalmente independente, off-Hollywood.
O filme acabou sendo uma das principais aparições na telona da atriz mexicana Rosaura Revueltas – por sinal, durante as filmagens, ela foi presa por uma suposta violação de passaporte e acabou sendo proibida de trabalhar nos Estados Unidos, um baque nunca superado em sua carreira. Ela interpreta Esperanza Quintero, a esposa de um mineiro, que faz parte de um grupo de manifestantes mexicano-americanos – a queixa deles era que a Delaware Zinc, Inc, para a qual trabalhavam, não dava a eles a mesmas condições que dava aos mineiros anglo-saxões.
Pra acompanhar a história é melhor ver o filme (tá no YouTube), mas vale dizer que Esperanza fica grávida, seu marido acaba preso e ela se junta a um grupo de esposas de mineiros, que faz piquete no lugar dos maridos. Um detalhe importante sobre Salt of the Earth é que só cinco atores profissionais estavam no elenco: Biberman e a produção convocaram mineiros de verdade, além de moradores do Condado. Nas cenas que você vê no filme, muita gente viveu aquilo de verdade.
Se você está achando que isso foi uma ideia para dar mais veracidade ao filme, não foi nada disso: os sindicatos de atores e de profissionais de Hollywood simplesmente proibiram seus associados de ter qualquer relação com Salt of the Earth, e a equipe ficou sem ter com quem contar. Houve quem notasse que aquela situação era absurda, já que eram sindicatos prejudicando um filme que fazia basicamente uma apologia ao movimento sindical. Mas isso não ajudou em nada, até porque veículos como Hollywood Reporter e Newsweek já estavam falando barbaridades como “filme de comunistas anti-americanos” e outras babaquices.
Claro que a pós-produção e o lançamento de Salt of the Earth não foram nada tranquilos: a equipe teve dificuldade de achar laboratórios que terminassem o filme e ele foi censurado e incluído na lista anti-comunismo dos EUA (foi o único filme incluído lá, aliás). Pauline Kael, uma dessas críticas de cinema que tiravam o sono dos cineastas, desprezou o filme e ainda escreveu que ele não passava de “uma peça de propaganda comunista tão clara quanto qualquer outra que tivemos em muitos anos”. Com o tempo, o filme foi sendo descoberto, e ganhou lançamentos em formatos como laserdisc e DVD. Uma matéria recente do The Guardian traz uma declaração de Biberman dizendo que ele foi “o primeiro longa-metragem já realizado nos EUA pelos trabalhadores, sobre os trabalhadores e para os trabalhadores”.
“Salt of the Earth foi um poderoso ato de desafio em sua época e, mais de meio século depois, seus temas continuam a ressoar no cenário político atual. Adjourn it canaliza o legado de resistência do filme, reforçando a importância da solidariedade para unir as pessoas contra o medo e a divisão”, escreveu Tom Morello num dos textos de divulgação do clipe. E os dois (clipe e filme) estão aí embaixo.
Cultura Pop
Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).
“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.
Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.
Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.
“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.
“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.
E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.








































